Kairós junino (Bruno Cava)

setembro 30th, 2016

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Quantas pessoas têm a chance de experimentar um momento histórico, enquanto ele ocorre? Quantas não passam as vidas inteiras, ansiando por tempos de agitação, sem a chance de vivenciar um dia sequer de uma abertura para o porvir? E ficam melancólicas, inautênticas? Ficam suspirando por outras épocas, de onde seus heróis mortos falam num tom inacessível de aventura e terror, quando quase se pode sentir o calor das assembleias, a espreita das batalhas, amores trágicos e perseguições imoderadas?

Hoje, não temos razão para melancolia. Se existe uma definição de momento histórico, este é um deles. A perplexidade faz parte, porque estamos no meio da fumaça. Caminhamos sobre o terreno da incerteza radical, por onde erram nossos humores, na oscilação entre entusiasmo e decepção absolutos.

O fracasso da velha esquerda em pautar e conduzir os protestos não precisa necessariamente significar que os protestos não sejam de esquerda, como alguns sentenciaram horrorizados. Talvez signifique que a velha esquerda não seja mais esquerda. Não mais. Talvez signifique, aliás, que seja a hora de a velha esquerda reaprender a ser esquerda. E antes o levante qualificar a esquerda, do que esta a qualificá-lo. Ser esquerda, aliás, não é isso? Requalificar os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais, o “terceiro setor” altermundista e todos quantos, a partir do movimento real que põe tudo a mover-se?

Triste mesmo é quem vive um momento histórico e já torce para que passe logo, para que tudo volte ao status quo ante, de volta a suas reuniões obscuras e marchinhas anódinas de 50 ou 100 cupinchas, balançando as mesmas bandeiras. Também sucede aí uma zona de conforto, uma sensação bovina de segurança em não precisar se relacionar com o outro radical — com o outro do mundo que continuou se transformando, apesar de nossas ideologias e convicções de ferro. O esquerdismo nunca foi tão esquerdista. Como pessoas paralisadas de medo diante da cinza vulcânica, prestes a virar estátua fúnebre.

Enquanto isso, a grande imprensa e setores da direita, mais espertos e muito bem organizados neste país, não cessarão de desqualificar o sentido político das manifestações. Trabalham incansavelmente, na imagem e no discurso, todas as suas contradições e ambiguidades, tirando proveito do que puderem. Só reconhecem as pautas que lhes interessam diretamente: o resto será ingenuidade ou crime. Fora dessas pautas, não deixarão de promover o receituário da criminalização da revolta e mobilização popular, no caso extremo com o discurso do terrorismo, em mais uma ditadura comissária, agora sob o cajado supremo da FIFA. Apelarão aos bordões mais batidos, às invocações morais mais mecânicas. Tentarão frear o ímpeto constituinte, sabotar as redes de organização, cooptá-las, desmobilizá-las pela intimidação, a culpa e o cansaço, para que o medo retorne ao “lado certo”. Tudo isso já sabemos, e deveríamos estar vacinados.

Passado o justo entusiasmo, é preciso reorganizar o pensamento. Sem engessar, permitir-se porém uma avaliação mais ou menos lúcida de apoios em que possamos precariamente nos segurar. O fato é que tudo mudou no junho quente. Quem acha que vai passar incólume está enganado: nada será como antes. Ainda que irresolvidos, os próprios problemas mudaram. Até o poder constituído, tão burocrático e amarrado de legalismos, acordou no Brasil de junho, apressando-se em esboçar concessões e oferendas, a fim de amortecer o impulso constituinte. Porque este, mais do que em assembleias ad hoc, já está solto. Subsiste em estado bruto, na confluência de insatisfações muito concretas, de demandas muito concretas, de uma percepção precisa a respeito da posição reservada à maioria da população no novo Brasil. O futuro do Brasil do futuro está mal organizado e distribuído, do ponto de vista dessa maioria que participa e apoia os tumultos. É essa maioria, — deliciosamente monstruosa, nada silenciosa, maioria aliás que ruge, — é ela quem porta em si mesma e por si mesma a força de transformação.

A Copa deste ano vai chegado ao fim, e pode ser que as grandes manifestações de rua tenham atingido um ponto crítico. Nem tanto um ponto de esgotamento, mas de transmissão. Por um lado, o poder constituinte por assim dizer “a quente” exerce o papel de fazer o medo mudar de lado. Passá-lo para o lado de lá, conferindo cá a sensação de que é possível, sim, que nós podemos. Por outro lado, em paralelo aos milhões se manifestando nas ruas, acontece também um trabalho mais “a frio” (digamos, menos fervente), que multiplica encontros, instâncias, fóruns, redes e alianças. Esse espessamento de organização também é poder constituinte, porque confere duração e qualifica a potência acumulada.

As manifestações não são espontâneas. Espontaneidade seria sair do trabalho ou da escola para assistir à TV, tomar um banho, de repente encontrar os amigos. Sair às ruas para expressar-se em meio a uma multidão de gente, qualquer que seja a roupagem simbólica, já não pode ser um ato de espontaneidade irrefletida. Para uma indignação mecanizada bastaria aderir às caretas dos âncoras do telejornal, ou emular uma impostação moral qualquer do editorial do jornalão, sobre qualquer tema que seja. Espontaneamente, ao ter contato com essas pulsões da grande imprensa, somos poupados de nos indignar, como quando assistimos a comédias e a risada de fundo efetivamente ri por nós. A indignação que chega às ruas no meio dos outros, diante de bloqueios policiais, não é risada enlatada. Num evento desses, o corpo desembota, recupera o viço. Aí está, também, um manifesto político, à revelia das bandeiras ou antibandeiras que sejam ostentadas. A subjetividade já está em processo.

Reduzir as expressões das ruas à pura negatividade, como um caos niilista, perde de vista o essencial. É exatamente isso que pretende que acreditemos quem não quer que nada mude, e não por acaso se infiltre nos movimentos para encobrir as suas tendências construtivas, exacerbando a linha caótica de interpretação. A negatividade a que temos assistido só acontece, aliás, porque assentada sobre uma positividade maior. Desejamos essa positividade, daí não aceitarmos o que nos oferecem, numa recusa por vezes tumultuada e assustadora. A dignidade é primeira. Eu me revolto contra o sistema de transportes, porque sei que é possível experimentar a mobilidade urbana de outra maneira, e que seja possível construir politicamente um transporte menos superlotado e lento, menos humilhante, e que seja potencialmente gratuito.

Se me indigna a gestão policial dos territórios dos pobres, é porque conheço outras formas de auto-organização, formas políticas e culturais muito mais cooperativas, alegres e democráticas. Se estou sonhando alto com essas formas, é sonho porque quero generalizá-las, mas o sentimento que existam e me sejam próprias já está aqui. Já as vivencio como reais e sei que muitos o fazem. É um “possível atual”, como diria Deleuze, que preenche o presente de sentido.

Se me ofende o modo como realizam os megaeventos, é porque vejo como estão na base de um projeto de cidade diametralmente oposto à vida na cidade (que esse mesmo projeto explora). Tenta frustrar uma cidade viva onde me vejo mais livre e produtivo: querem me renegar dessa urbanidade abundante.

O trabalho do positivo, para as revoltas, está em entrelaçar os pontos dessa vida mais rica de sentidos e dignidades, num projeto encarnado de cidade, trabalho e cidadania.

Nesse sentido, não são mesmo manifestações voluntaristas. Estão muito bem calcadas num projeto em formulação multitudinária, ainda que seja hoje um projeto caleidoscópico e bastante confuso. Como não seria, se a própria ideia de organização política mudou nos últimos tempos? A realidade está solta, sem gentileza pros esquemas. Não temos as ferramentas para enxergar e tatear isso. Estão sendo criadas, no movimento mesmo, embaralhando as cartas com que nos habituamos a jogar. Criemos!, como solicita o meu amigo Luís Alencar. Mais que petição de humildade, é a percepção impositiva que, num momento assim, tudo tem de ser construído.

O inferno é aqui, mas a Maré vive (Rociclei Silva)

setembro 29th, 2013

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Na quinta feira, 20 de junho, a multidão tomou de assalto a Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, transformando-a em um mar de gente. A violência da polícia militar contra os manifestantes levou aqueles que nunca haviam sofrido ou presenciado sua forma de ação covarde, selvagem e desumana ao pânico. As redes sociais foram tomadas por fotos, relatos e vídeos de pessoas perplexas diante do que presenciaram ou sofreram. Muitos viram um caveirão, ao vivo, pela primeira vez. Mas uma frase me chamou atenção nas redes sociais: “O Bope transformou Lapa, Centro e Catete num inferno”. E eu pensei comigo: não, vocês ainda não viram o inferno, e não sabem do que eles são capazes.

Cinco dias depois, as minhas palavras se concretizaram na favela da Maré. Após uma manifestação pacífica, o Bope invadiu a favela atrás de traficantes que estariam infiltrados entre os manifestantes e que faziam arrastão na Avenida Brasil. A polícia fez da favela da Maré o inferno na terra, tal e qual descrito por Dante Alighieri. O Bope reproduziu, com riqueza de detalhes, a obra do artista italiano. É preciso lembrar que a obra de Dante é uma alegoria através do conceito medieval de Inferno, mas que se encaixa perfeitamente nas ações medievais do Bope com armas contemporâneas. Após 24 horas de operação, a obra estava concluída, tendo como pano de fundo um mar de sangue e corpos estirados. Violações de todos os direitos, inclusive da vida, humilhações, cárceres, assassinatos, violações de todos os tipos exercidas pelo estado.

De acordo com a descrição de Dante, o inferno é destinado aos glutões, hereges e fraudadores. Mas na maré os condenados, sem direito algum à defesa, são pobres, precários, informais, negros, pardos e nordestinos sem nome, identidade e direitos, desprezados pelo estado e outros segmentos da sociedade. Após a barbárie, acho que a visão do inferno do poeta inglês John Milton, cujo poema épico Paraíso Perdido retrata o inferno como “uma grande fornalha”, onde suas chamas oferecem “nenhuma luz, mas sim escuridão visível”, retrata melhor o quadro de genocídio imposto a Maré por homens de preto. Homens que tomados por ódio saem da favela deixando para trás seu rastro sujo de sangue e horror cantado em verso e prosa em suas mórbidas canções. Rastro que deixa marcas no corpo, mas principalmente na alma de todos aqueles que ali vivem. E saber que o lema da corporação (Polícia militar) é “Servir e proteger”. Fica uma pergunta: servir e proteger a quem?

Diante de toda essa barbárie o que fazem? É preciso sair do discurso, fazermos com que nossa indignação ultrapasse as palavras e se transforme em ação. Quantos infernos ainda serão criados? Quantos corpos inocentes ainda cairão? É de nossos bolsos que sai o dinheiro que mantém tal corporação. Até quando esperar ?

Mas a Maré não se cala e muito menos se entrega. Porque é potência. A potência da Maré é a potência e a riqueza dos pobres em insistem no ser, na conservação da vida que se torna desejo potente e não pode mais ser reprimido. O vazio da dor e do sofrimento se transforma em escolha de vida e libertação. Na Maré e em outras favelas a dor não é elemento que conduz ao imobilismo. Ao contrário, ela é a força que incomoda, mas que estimula a luta, a ação, a cooperação e que veste a vida e não a desnuda.

Como uma fênix a Maré renasce todos os dias, a cada por do sol ela reafirma a vida.

A Maré não renasce das cinzas, mas da vida, do desejo de viver e dizer “não!” à morte e superar, na fortaleza de propósitos renovados, a miséria, as lágrimas e o horror. A Maré é o amor que supera a morte a cada instante da vida.

Força Maré, não deixe que a fraqueza e covardia dos fracos tiranos, que fazem da violência sua linguagem, submetam a força daqueles que fazem do amor a razão da vida.

Ser de esquerda é ter a coragem de mergulhar na multidão (Giuseppe Cocco)

setembro 29th, 2013

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Qualquer que seja seu desfecho, o levante da multidão é um terremoto que faz ruir, ao mesmo tempo, os prédios governamentais da esquerda que está no poder e os palácios decadentes das ideologias. Fica a pergunta: a esquerda é reformável? Como militar pela esquerda diante do fato que suas categorias (seja ela “a classe operária” ou a “Nova Classe Média”) e suas formas (as bandeiras, os partidos, os sindicatos, as ONGs patrocinadas) são ultrapassadas?

Depois das agressões às bandeiras de partidos, no último dia 20 de junho, toda a esquerda entrou em uma postura reativa: “se as manifestações não gostam de nossas bandeiras, elas são de direita ou são massa manipulada pela direita”.

A extrema esquerda se junta aos oportunistas encastelados nos governos. Aqueles que tinham esquecido as bandeiras e as usavam apenas para limpar as mãos sujas nas coalizões espúrias, passaram a fazer do uso delas uma questão de “honra”.

Já os que faziam oposição pela esquerda não conseguem ver que o problema das bandeiras é exatamente o… problema das bandeiras: a luta não é por ideais (as tais bandeiras). A  mobilização deve ser, agora, multitudinária, sua polifonia, espontânea e auto-organizada, bem como a ausência de linha, organicidade e liderança; estas, são as maiores bandeiras que um militante pode carregar! Insistir em impor a “Luta das Bandeiras” a um movimento que tem a luta como bandeira foi um erro político até aquele recente 20 de junho. Hoje, pode ser  uma grave irresponsabilidade: deixar esse espaço aberto justamente àquela direta, que avança usando apenas o verde e o amarelo.

A questão é inventar uma nova antropofagia política, um novo “pau-Brasil”, como Oswald de Andrade soube fazer nos anos 1920. A poeira dos escombros e a fumaça dos gases lacrimogênio ainda não baixou, mas já dá para ver um novo horizonte. Apesar dos perigos, este é o horizonte do possível. E ser de esquerda é sobretudo ter coragem, política e até ontológica, de mergulhar no possível.

Belo Horizonte e os ônibus sem catraca (André Veloso)

setembro 29th, 2013

A discrepância entre o custo do sistema e o quanto, como e quando se cobra por ele evidenciam que as decisões devem estar no campo político, não técnico. É uma questão de escolha: se nossa sociedade decidir que sim, o transporte é um direito e deve estar disponível a todos, sem distinção ou tarifa, então ela achará meios para tal. – Movimento Passe Livre, São Paulo. Folha de São Paulo – 12 de Junho de 2013.

Nos estudos de economia mineira, costuma-se utilizar a tese de que o “empresariado mineiro seria mais atrasado e mais débil do que o empresariado nacional” para se justificar o fato do famoso “atraso econômico de Minas em relação a São Paulo”.


Nada mais longe da verdade.


Os levantes que vemos agora em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre são uma reação imediata aos aumentos de passagem que ocorreram nos últimos dias (ou semanas) nessas cidades. É claro, não são levantes contra centavos, são pelo direito à mobilidade, ao ir e vir. E questionam profundamente a atual concepção de transporte (coletivo, público e privado), principalmente quem, como e quando esse transporte é financiado.
Mas, todos concordam, os levantes foram iniciados pelo aumento da passagem. Pelo fato de – de um dia para o outro – termos que pagar mais 20 centavos por um transporte truculento, superlotado, congestionado, que nos leva para um lugar que não queremos para fazer um trabalho no qual, em geral, não nos sentimos realizados.
Pois bem, novamente: nada mais longe da verdade afirmar que a elite mineira é inepta. A tradicional família mineira se traduz em uma elite extremamente astuta e perniciosa, agindo da forma mais silenciosa possível, como um mineiro comendo pelas beiradas.


Segundo o contrato de concessão dos serviços de transportes público em BH, licitado em 2008, a passagem de ônibus é reajustada de acordo com uma equação paramétrica que leva em conta os custos do transporte e os reajusta de acordo com a inflação registrada pelo IBGE e pela FGV (a equação está no fim deste texto, para quem quiser ver). Com um detalhe: pelo contrato, esse reajuste é publicado no dia 28 de dezembro e EFETUADO, TODOS OS ANOS, NO DIA 29 DE DEZEMBRO.


É quase desnecessário dizer que nesta época do ano a grande maioria da população belo-horizontina se encontra fora da cidade: além de ser fim de ano, grande parte de nós tem origem no interior do estado (em 1960, 70% das pessoas que moravam em BH não haviam nascido aqui).


A equação paramétrica e a data em que é feito o reajuste são dois elementos que fazem parte da construção do mesmo discurso feito pelas autoridades públicas e empresários para a população. Busca-se passar a impressão de que o reajuste faz parte do sistema, que ele é uma necessidade técnica para que o sistema permaneça funcionando, e que se ele não for cumprido o sistema pode entrar em colapso, os empresários não investirão mais, e a cidade parará.


Em outras palavras: o véu técnico encobre o caráter necessariamente político da tarifa.


Neste último sábado (08 de junho), o presidente da BHTRANS, Ramon Victor César, em fala realizada no X Congresso da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo da Grande BH, deu a entender que a tarifa pode ser reajustada para cima, ainda neste ano. Além do reajuste anual, há uma revisão a cada 4 anos da tarifa, para averiguar se os reajustes foram “justos”. A grande multinacional Ernst & Young foi contratada para realizar essa revisão e, segundo esta, um dos fatores de desequilíbrio da atual tarifa é que os salários dos trabalhadores das empresas tiveram um reajuste maior do que o índice que mede o preço da mão de obra na dita equação. Ou seja, os empresários perderam parte de seu “diminuto” lucro, que, é claro, deve ser ressarcido à custa do usuário.
Lúcio Gregori, idealizador do projeto Tarifa Zero durante o governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo (1989-1993), costuma afirmar que a tarifa do transporte público funciona como um fetiche, como algo que encobre a verdadeira natureza do transporte público. O empresariado a vê como a única forma de remuneração de seu serviço, o Governo a vê como um instrumento de barganha política e a população costuma associá-la à qualidade do serviço, não conseguindo enxergar outra possibilidade que não seja a de pagar pelo ônibus no momento da sua utilização.


Apesar disso, o absurdo do sistema tarifário é evidente. Diferentemente de outros serviços públicos como saúde, educação e segurança pública, que são financiados por toda a população de maneira indireta, o transporte público é completamente financiado por quem se utiliza dele e no momento da utilização. A analogia é simples: imagine uma catraca na entrada de uma sala de aula, cobrando pelo custo de manutenção da sala e pelo salário do professor. Só quem pudesse pagar poderia ter aula. Ou ainda, uma catraca na entrada da ambulância e/ou dos leitos hospitalares. Por fim, imagine uma caixinha para o policial, toda vez que você chegasse em casa sem ter sido assaltado.


Essa lógica perversa faz com que os mais pobres, que são aqueles que não podem comprar uma moto ou um carro, financiem a mobilidade urbana dos mais ricos. E isso se torna um círculo vicioso. Quem puder escapar do transporte público, o fará rapidamente. Com mais motos e carros nas ruas, mais congestionadas ficam nossas vias e mais lento, ineficiente e custoso será o ônibus, que, portanto, irá aumentar sua tarifa para poder se financiar, levando mais pessoas a optarem pelo transporte individual.


Assim, como tem pautado o Movimento Passe Livre, devemos ir além da luta pela revogação de aumentos ou redução da tarifa: devemos questionar a tarifa em si. A primeira coisa a ser revista deve ser o contrato entre as empresas de ônibus e a prefeitura de BH, no caso municipal, e entre as empresas de ônibus e o estado, no caso da Região Metropolitana. Esse contrato garante o monopólio da exploraçãodos serviços para essas empresas, que se constituem como verdadeiras máfias. O de Belo Horizonte foi feito em 2008 e dura até 2028, para 4 consórcios. O da Região Metropolitana é ainda pior: são 7 consórcios com exploração garantida de 2008 a 2038!


A possibilidade concreta do ônibus sem catraca em Belo Horizonte


É óbvio que o transporte público custa dinheiro. Para se possibilitar a revogação da tarifa nos ônibus de BH, simultaneamente a um aumento e melhoria de sua frota, propõem-se quatro fontes básicas de recursos, que constituiriam um fundo municipal de mobilidade urbana.


A primeira já está aí, são recursos que a PBH já possui, mas são mal direcionados.


O orçamento de 2013 da Prefeitura de Belo Horizonte prevê um gasto de cerca de 230 milhões de reais para o programa Corta-Caminho (VIURBS) da BHTRANS. Esse programa, de maneira geral, prevê uma série de intervenções viárias na cidade para desconstruir a lógica centro-radial de trânsito. Ou seja, desconstruir a necessidade de ter de passar pelo centro para chegar a qualquer lugar da cidade. Apesar de ser necessário, a prioridade dada ao programa é absurda, visto que este atende principalmente aos interesses dos automóveis privados. É por demais óbvio que a ampliação da malha viária, abertura de novas ruas e construção de viadutos não resolveu, não está resolvendo e não irá resolver o problema de mobilidade de BH ou de qualquer outra metrópole. A frota de carros belo-horizontina cresce 7% ao ano, e é simplesmente impossível comportar esse crescimento com uma ampliação da malha viária que chegue perto desse ritmo, sob pena de transformar a cidade em uma grande e única massa de asfalto.


Para se ter uma ideia das prioridades da PBH, o meio-passe estudantil recebeu apenas 4 milhões de reais no orçamento 2013, menos de 2% dos recursos destinados ao VIURBS. Ou seja, trata-se de uma questão de prioridades e controle do orçamento público, o que é claramente político.


A segunda fonte de recursos também já está aí. São os recursos em vale-transporte pagos pelas empresas a seus funcionários.


Com a instituição bilhetagem eletrônica (cartão BHBUS), esses recursos passaram a ser transferidos antecipadamente para as empresas de ônibus. Além disso, diferentemente dos antigos vales-transporte de papel da década de 1990, é quase impossível para o trabalhador utilizar o cartão BHBUS como “moeda”, vendendo sua passagem ou trocando por outros serviços. Assim, o que se propõe é simples: em vez de pagar às empresas de ônibus, na forma do cartão, o dinheiro da passagem de seus funcionários, as empresas com sede em BH pagariam esse valor ao fundo municipal de mobilidade urbana. Nenhum custo a mais para ninguém.


A terceira fonte de recursos provém diretamente da revisão do contrato de concessão das empresas de ônibus. Apesar de nós, sociedade civil, não termos acesso à planilha de custos das empresas, salta aos olhos que estas auferem lucros altos, mais altos que a média do capital em outros setores e com a vantagem de terem um monopólio. Sem entrar na discussão da municipalização ou não do transporte (que, é claro, é um debate que precisa ser feito), a mera mudança da forma de contratação do serviço (estabelecendo, por exemplo, valores anuais a serem pagos às empresas) já tornaria o serviço bem mais eficiente e barato.


Por fim, a quarta fonte de recursos provém de um IPTU progressivo, que estabeleceria uma equidade de fato no financiamento do transporte. Paga quem se beneficia do transporte público, e não quem utiliza. E, assim, paga mais quem pode pagar mais, paga menos quem só pode pagar menos, e não paga nada quem não pode pagar. Nesse sentido, bancos e o grande comércio e indústria poderiam entrar com a maior parte dos recursos.


A verdadeira mudança da Tarifa Zero


O que mudaria em Belo Horizonte se o ônibus fosse sem catraca, se fosse completamente gratuito?
A resposta: simplesmente tudo. Toda a lógica de se estar e transitar na cidade mudaria. Grande parte da população, que simplesmente não se conhece (e não conhece a cidade), se encontraria, teria acesso aos equipamentos culturais, ao centro da cidade, a outros e diversos rincões da cidade. Se locomover não seria considerado um suplício e não estaria ligado exclusivamente à lógica do trabalho.


Ter acesso a todos os locais da cidade, de maneira gratuita, mudaria a forma como nos apropriamos do espaço urbano, o modo como enxergamos e participamos de sua construção. Significaria, em última instância, uma nova dimensão de liberdade em nossa sociedade.


O acesso do povo à cidade tem se mostrado, muito mais do que o lucro, o verdadeiro medo de nossas elites governantes. E é essa a maior conquista que o Movimento Passe Livre nos deu: demonstrou que é possível e urgente sonhar e mudar esta cidade.

A multidão das ruas grita por educação. Mas o que esperamos da educação? (Marina Bueno)

setembro 29th, 2013

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Acompanhando os desdobramentos das manifestações no Rio, nas ruas, nas redes sociais, na mídia, em simples conversas com pessoas próximas, fui tomada por sentimentos conflitantes, que expressam bem, a meu ver, o clima geral que tomou conta do país nas últimas semanas. Entre convergências, dissidências e dúvidas que este momento vem produzindo, algo tem me incomodado mais: os discursos em torno da educação. Tomada pelos gritos e cartazes das ruas, a educação se fez presente mesmo quando a pauta aparecia como uma colcha de retalhos de desejos e vontades difusas.

Citando Emma Goldman, um cartaz presente nos protestos virou uma foto amplamente divulgada nas redes sociais: “o elemento mais violento da sociedade é a ignorância”. Junto a ela, discursos que afirmam que o não investimento em educação é algo proposital, uma vez que se pretende manter o povo (leia-se, o pobre) nessa tal ignorância. Isso faz com que políticos corruptos cheguem ao poder (e o país é o que é por estas escolhas mal feitas). Afirmando a necessidade de “mais educação”, tal análise atribui ao ensino escolar a possibilidade de superação dessa ignorância, de forma a criar condições para que todos aprendam a escolher seus governantes.

É necessário lembrar, no entanto, que os frutos que colhemos hoje foram brilhantemente semeados por pelo menos dois séculos de governantes letrados, diplomados, que passaram por instituições de excelência e que historicamente foram apoiados e escolhidos por outras cabeças pensantes como eles. Então convenhamos que não é possível atribuir ao pobre, ao cara sem estudo, a responsabilidade pela situação social atual do país (e nem mesmo aos governantes que não fazem parte dessa elite intelectualizada).

De fato, bom seria que a escola pudesse ser capaz de livrar todos os sujeitos de certa ignorância que se faz presente nas mais sutis formas de violência – a ignorância social, humana e politica – reproduzida quase que naturalmente por discursos baseados naquilo que nem se sabe bem como funciona. Discursos que se apoiam numa concepção que carrega um tom fundamentalmente moralista das relações – seja honesto, não fure fila, dê o lugar para um idoso no ônibus e assim você mudará o país – desconsiderando e por vezes apoiando essa estrutura social que produz individualismos, desigualdades e naturalizações de todas as ordens. Discursos vazios que exigem um determinando “ser” humano, sem a consideração de que alguns “humanos” vivem sem condições mínimas de humanidade.

Se a escola pudesse atender a esta expectativa, todos precisaríamos voltar a ela! Dentro e fora dos contornos da educação, a construção de outros padrões de relações é um processo do qual todos fazemos parte. E não falo de “cada um que faça a sua parte” numa concepção que reforça essa análise moral já tão difundida e naturalizada socialmente. Falo da construção de uma concepção humanizada, que refuta a ideia da naturalização da questão social, como se ela fosse inevitável, fruto do esforço maior de uns e menor de outros.

Ainda na era industrial Marx nos mostrou através de seus estudos que o trabalho nunca é recompensado na medida de seus esforços. O capitalismo financeiro mais tarde nos revelou que “quem mais ganha” nem sempre o faz trabalhando. No capitalismo industrial ou no capitalismo financeiro, sempre se tratou da expropriação pelos poucos da riqueza produzida pelos esforços de muitos. E as condições degradantes de vida da maior parte da população desse país também ensina – àqueles que conseguem minimamente perceber a realidade para além dos discursos cristalizados pelos preconceitos de todos os dias – que se o pobre não se esforçasse sequer estaria aqui pra contar história! O direito à vida na prática é uma luta diária por sobrevivência.

Aqui surge outra questão apontada pelo discurso pró-educação: a desqualificação de outras politicas que compõem o sistema de proteção social brasileiro, sobretudo a assistência social, tomada sempre enquanto um mero assistencialismo – apesar da transferência de renda ser uma das garantias da politica nacional de assistência social, que foi uma conquista histórica, fruto de um processo intenso de luta. Inversões de todas as ordens são postas a circular a respeito dessa política, sobretudo no que diz respeito ao bolsa família: fala-se de um valor que não é real (próximo ou até superior do que o salário mínimo); da produção de um imobilismo para o trabalho com afirmações que apoiam até mesmo as formas de trabalho escravo; da necessidade de uma porta de saída antes mesmo de se pensar nas possibilidades de entrada.

Quero abrir um parêntese para dizer que não se trata aqui de fazer uma oposição à ampliação dos investimentos na área da educação. Ao contrário, como profissional e militante da área acredito que investir na educação é um passo importante para uma mudança que se faz necessária. No entanto, é preciso que duas questões sejam consideradas.

A primeira delas é a necessidade de reconhecermos a indivisibilidade e interdependência dos direitos fundamentais como elementos constitutivos de um sistema de proteção e promoção social. O desrespeito a um deles aponta para violação de seu conjunto. Neste sentido, não cabe atribuirmos uma maior ou menor importância às diferentes áreas da política pública, uma vez que cabe à ela garantir condições dignas de vida à população, através de um conjunto de medidas relacionadas. Esta concepção está na base do entendimento de que a política de saúde, para dar um exemplo, não pode ser pensada de forma isolada, uma vez que é direta e indiretamente influenciada por outras condições que a ela se relacionam: trabalho, saneamento, habitação, etc.

A segunda questão que também se vincula a anterior, é que o reforço desse discurso messiânico que atribui à educação uma função salvacionista, além de se equivocar ao desqualificar a necessidade de outros mecanismos para além do ensino formal, não problematiza seus elementos mais estruturais: currículo conteudista; disciplinas que pouco se comunicam entre si; priorização de uma “inteligência prática” em detrimento do pensamento crítico; politica fechada em si, com pouca trajetória no campo da intersetorialidade; frágeis ou quase inexistentes mecanismos de participação direta; rotinas pautadas numa hierarquia autoritária e homogeneização de comportamentos.

A escola que temos (e não falo apenas da pública), é espelho da sociedade que temos: não possibilita a construção de novos padrões de relações sociais, materiais e politicas, ao contrário, reforça o estado presente das coisas. Em outros termos, investimentos financeiros na educação são mais do que necessários, mas sozinhos serão incapazes de promover a mudança que as mais de 100.000 pessoas que se manifestavam nas ruas do Rio imprimiram em seus gritos e bandeiras – seja em relação a escola ou ao que se espera dela!

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A direita também disputa ruas e redes (Valter Pomar)

setembro 29th, 2013

esquerda

Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.


Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.


A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas” o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.


Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.


Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.
Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.
Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.


As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.


Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que os autoproclamados “movimentos sociais”, assim como os partidos “populares”, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.


Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.
Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?


Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou “fascistas”. Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.
As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.


A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento “estranho” da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.


A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.
As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.
Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.


Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.


Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.
O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acredita-se que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.


Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa elietoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar.


A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com o nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.


O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações são da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui o uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.


Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, cria-se condições melhores para que possamos disputá-lo.
Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.


Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.
É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.
Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.


Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.


A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.


Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.


O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos conservadores que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidrelétricas etc.


Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.
Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos paramilitares da direita.


É preciso diferenciar as manifestações de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social.
Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.
Quanto a batalha da comunicação, novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contra-atacar a direitas nas redes sociais; é preciso enfrentar o que dizem os monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já.


Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da
esquerda.


Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.
Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte: “o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita”.


Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

Tudo como nunca! (Luís Carlos Alencar)

setembro 29th, 2013

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No Rio, 22 de Junho. O que se passa depois de dois dias do Levante Popular da Presidente Vargas? Alguns dias depois da rebelião popular da ALERJ? O silêncio que antecede novas expressões retumbantes de política! Dá para sentir no ar o cheiro excitante do inominável: a ambiência é a da possibilidade total!


As mobilizações são como um território condensado: tempo e espaço se intensificam nos arredores do trajeto. Tudo está eclodindo e se reinventando em menos de uma semana. Décadas de processos sociais estão sendo vivenciados em dias: conflitos contra as forças de repressão do estado, aprendizados durante a revolta, resistência que se organiza e se refaz, sobreposição de análises de conjuntura, riscos de vida e desejos destrutivos edificantes, embates com a extrema-direita, partidos ou não partidos, organização ou espontaneísmo, aliados ou inimigos, estratégias, princípios ou método, puxar manifestações só da esquerda ou disputar corações e mentes, fechar em poucas pautas ou potencializar a hidra, identidade ou fluxo, avançar ou recuar?


Na territorialização dos conflitos, passaram a estar presentes (e intensificadas) todas as assimetrias sociais e muitos dos seus personagens – a massa (a cheirosa e a fedida), o racismo e o antirracismo, o fascismo (do estado e da direita organizada) e o antifascismo (das esquerdas que se articulam). Como não haver conflitos? Espera-se fazer movimentação de massa com 2 milhões de pessoas de esquerdas? Se nem entre nós podemos considerar que historicamente houve paz… A nós anarquistas: não era por isso que esperávamos? A cotidianização da política? A possibilidade real de disputarmos ideias, experiências, agires políticos?


Quem disser que está fora disso, não se espante, simplesmente é a assunção da incapacidade de agir nos novos cenários. O programa de revolução foi à bancarrota. Algumas estruturas de organização tem mesmo que sucumbir, para se reinventarem, tem que fazer a autocrítica e possibilitar maior participação de seus membros, mudar radicalmente a sua dinâmica e a de seus processos deliberativos. Não é só a democracia burguesa, nem o estado que está em xeque: as nossas organizações também estão! Em última instância: nós mesmos não podemos ser os mesmos.


O território das mobilizações está se ampliando: para além das ruas, pelas redes virtuais (não mais como chamados, mas como disputa de sentidos, embates pelos significados de todos os processos), pelas reuniões, plenárias, assembleias populares…


Precisamos de mais. E para ampliar ainda mais esse território,
precisamos investir na criatividade, nossa principal arma. O momento é propício para invenções – do mundo, das pessoas e da ação! Temos que manter o fluxo se espalhando pela cidade, pelo país, para se tornar afluente do mundo.


O que determinará a força da correnteza é estarmos todos em curso. Manter a criação (que também opera pela destruição) para além de passeatas. Estas já em si deixaram de ser a modorrenta marcha dos mesmos, com os mesmos, para os mesmos e se afirmam como a ação direta e o protesto social como proposta democrática de participação.
Temos que avançar! É um terreno novo, que ninguém sabe ainda como manejar, portanto espaço de liberdade em disputa. Temos que explorar justamente isso: a disputa pela liberdade de existirem espaços livres.
Vamos criar novos eventos, mas também constituir novas possibilidades de manifestações mais perenes: assembleias no interior das manifestações, assembleias populares de bairros
como manifestação em si, teatros e perfomances de terrorismo poético, festividades de combate, ocupas virais, façamos o inusitado como enfrentamento e proposição.


CRIEMOS! (pero sin perder la revuelta)

O anjo exterminador: o princípio do fim ou um novo começo (Cunca Bocaiúva)

setembro 29th, 2013

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A banalidade do mal parece estar tentando tragar a emergência do novo na chave dos fenômenos extremos no Brasil. No século XX tivemos a era dos extremos plena de incertezas, no século XXI temos a era das incertezas plena de extremos. O final do filme o Anjo Exterminador sugeria um impasse tendendo ao apocalíptico, um final que não acaba. De todo modo no decifra ou devoro-te em curso o Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro estão soltos, no Brasil de Euclydes e Glauber sempre se trava uma guerra do fim do mundo e Pindorama entra em transe.


As conjunturas ultrapassam e atropelam os sujeitos, quando novas e velhas forças se movem e questionam práticas, instituições e governos, mesmo sem saber para onde ir e o que propor. Quando se convocam os “Estados Gerais”, quando se sucedem e se entrelaçam as muitas reações e movimentações, quando se formam muitas as zonas de sombra e opacidade. Repentinamente as figuras por trás do palco emergem na cena. Os resíduos e os excessos dos modos de produção e das relações sociais abrem espaços sem que deixem de aparecer vários vazios, clarões e muita fumaça. Em horas como essas o fantasma autoritário e a imagem apocalíptica se mostram, quando cai a falsa imagem que recobria o deserto do real.


Na véspera dos eventos e jornadas de junho o ovo da serpente estava se abrindo com as forças retrógradas em temas de direitos humanos, sexuais e reprodutivos. A violência no campo e na disputa sócio-espacial retornava junto com o desejo de criminalização dos jovens. Mas o movimento juvenil contra os aumentos de tarifas impediu o nascimento prematuro da velha criatura. Uma pergunta se dá em meio a um quadro de sinais contraditórios: será que a geração XXI começa a escapar da razão cínica do mundo privatizado e segregado, ou estamos diante de um salto quântico na tentativa de liquidar a reemergência da política (apesar das potencialidades das chamadas redes sociais) pela via de novos movimentos de direita? A explosão da imagem (terror e medo) existe como uma combinação entre fenômenos de psicologia de grupo/massas e uma sedução pela barbárie parece superar o acontecimento. As câmeras ficam esperando os momentos de incêndio, todos esperam o momento em que a “plebe ruge” e as forças da polícia avançam com seus novos aparatos e instrumentos de contenção não letal. Os bando de rostos cobertos se chocam contra seres com armaduras da nova era medieval. Mas todos sabem que a violência e os resíduos mórbidos explodiram porque já estavam ali (com a banalização da violência e sua fabricação como indústria que se articula com a cultura do medo e a ideologia da segurança)? O evento e suas imagens assustam se relidos pelos incêndios e depredações, numa linha de entendimento que reinterpreta e transforma a desordem em inverso simétrico da ordem. Ouço muitas perguntas sobre a hipótese que o fascismo social reforce o apoio para a exceção, entendida como um antídoto para a falência dos poderes e para a desordem.


Muitos perguntam onde está a coordenação das lutas, onde estão as lideranças, sem tentar se aproximar das novas dinâmicas horizontais? Se m perguntar qual a razão de se ouvir tão poucas vezes as vozes dos movimentos que aspiram por políticas de acesso aos direitos como o MPL? Será que quando militantes de partidos são atacados por trogloditas neonazistas, quando as bandeiras políticas e ideológicas são vistas como problemas, não estamos vendo se preparar um cenário para uma ruptura institucional? Na distância que se colocam as lentes e na forma técnica de ler as imagens pela proximidade que distorce, os governantes desaparecem encolhidos e recolhidos em seus palácios e refúgios. Mesmo quando cedem na redução das tarifas as redes não são ouvidas.


Os porta-vozes da polícia se transformam no discurso que sopra na mídia elogiando a despolitização dos jovens e manifestantes, mas nas ruas morde esperando um tempo para que seja comprovada a provocação tantas vezes repetida pelos mais diversos tipos de atores que explodem depois de um tempo em que nenhum desdobramento ou demanda parece ter se materializado. O processo não é diferente de quando as torcidas vão aos estádios e para as ruas, não é diferente das explosões derivadas de intervenções e desocupações forçadas. O quadro de segregação sócio-espacial esta contaminado lósos invisíveis e intocáveis que povoam a nossa cena urbana, com a comprovada ausência de políticas para milhares que estão no limbo social e sob o efeito da enorme possibilidade com a experiência da violência e do arbítrio jurídico e carcerário. Nesses dias se disse que o número de jovens que desistiram de procurar
emprego é próximo dos 16%, mas bastam 1% dos jovens para ocupar os vazios, para uma pequena explosão de barbárie (face ao quadro de um país como a França).


O quadro explosivo gera uma fantasia, um tipo de gozo imediato que promove a reprodução da ação de explosão com seu efeito imagético, que permite a repetição do discurso contra a os radicais e baderneiros. Por isso, temos um quadro de temor cuja amplificação indica o reforço da cultura do medo e do terror que se manifesta em todo o processo histórico de massas.


O que se pode prever de maneira quase certeira é que a manifestação pacífica tende a virar conflito violento se for acompanhada de esvaziamento ideológico e provocação política contra a ideia de formar um novo sentido para a ideia que até agora correspondia ao partido político formal. A negação do caráter posicionado e da existência de coletivos significativos confunde o bom valor da horizontalidade e da autonomia com a fragmentação e a anomia. Numa dinâmica de repetição que levará os atores ao grande medo ou a uma fadiga por falta de horizonte, que exige consultas, assembleias e processos de construção de plataformas. A velocidade e o ritmo da imagem-evento instantânea acaba colocando no ar o nosso fascínio primitivo pelo fogo, que se volta contra as edificações e a arquitetura que se supõe representar o poder, mesmo que ele se exerça em outro lugar na esfera do capital e do Império.


Muitos perguntam se vamos ter grupos extremistas e grupos criminosos se movendo e dando as cartas nas ruas, ou esta tendência é uma linha menor de força do que normalmente já vemos nas grandes cidades, onde quase diariamente vemos arrastões, incêndios de ônibus, etc. Qual será o cenário das cidades? Vamos ter a polícia violenta e a experiência de controle e exceção experimentando novas armas ou uma política cidadã? O Congresso vai abrir as portas, os prefeitos e governadores vão reconhecer o movimento ou vão tentar explorar a fragilidade e o isolamento de Dilma? A Presidenta já acenou de maneira pálida com o reconhecimento do movimento, mas será que ela não precisa de novos interlocutores?


Hoje falo metaforicamente sobre a imagem do Anjo Exterminador, posto que a ficção nos ensina muito sobre a realidade amplificada pelo medo. A questão do potencial simbólico se coloca na disputa entre o acontecimento e sua imagem. Será que podemos voltar aos fundamentos constituintes e defender o artigo 6 da Constituição como programa mínimo que nasce das ruas para colocar a questão do controle social, dos gastos e das políticas públicas? Ou será que vamos para uma reforma elitista da política que busque aprofundar a democracia autoritária, tutelada e restrita fazendo como no passado o casamento da luta contra a corrupção com a concentração de renda e o poder golpista através do regime de exceção? Será que vamos marchar incertos em um processo prolongado de crise que acentuará a bifurcação entre autoritarismo e democracia e, terá uma conclusão que pode ir do retrocesso até uma democracia ampliada? Será que um novo processo constituinte poderá resolver e atualizar os desafios de uma efetiva democratização pós-neoliberal?


A crise do neoliberalismo que destruiu as políticas e direitos de bem-estar social não tem encontrado uma esquerda capaz de formular uma agenda alternativa para o século XXI. A direita não possui um programa que possa responder além do discurso da antipolítica e da criminalização dos outros, com seus modelos carcerários e seus campos de contenção de imigrantes. Mas os muros não podem conter a contradição entre globalização de mercadorias e barreiras para as pessoas, entre turismo e migrações, entre comércio e guerra.


O ciclo da autonomia relativa da política e da centro-esquerda começa a se fechar na América Latina, não basta insistir em governar melhor a economia nacional e ampliar o mercado de massas. A força alienadora e voraz do capital financeiro globalizado cria a dívida impagável e especula com a moeda e a terra. Na esfera simbólica, na segurança subjetiva e no desejo das pessoas a imaginação humana precisa do reconhecimento. A dimensão estética ainda prevalece sobre a dinâmica ética. Os sentidos e os valores para ordenar a dimensão simbólica se colocam como tema urgente para um cenário de fenômenos extremos que exigem um esforço de coordenação. Precisamos considerar a necessidade de auto-organização das forças sociais autônomas sem desconsiderar uma posição de mediação, negociação e escuta capaz de fazer um desenho de novos possíveis, de novas alianças com base na fonte de poder constituinte que se reabre com a demanda por direitos econômicos, sociais e culturais.
Não fossem limitações pessoais e subjetivas momentâneas eu iria para a rua. A “a maior arquibancada do Brasil” pode encontrar força no texto da Constituição. Que melhor momento poderia haver para bradar com ela na mão em defesa do artigo 6? Que melhor momento para a imediata ativação de alguns dos conselhos e o esforço de implementação das decisões das conferências políticas públicas? Para o Rio poderia ser dada uma prioridade para um novo mix de transporte no âmbito urbano-metropolitano; para a implementação de políticas de direitos da juventude que podem ser sob formas flexíveis de “serviço civil voluntário”; para a retomada da política de pontos culturais e de Casas Brasil; para a articulação e implementação das prioridades combinadas do PAC de favelas com o Morar Carioca.


O avanço da democracia nas cidades brasileiras depende da escuta da voz, da participação e do controle dos seus habitantes. Já ficou clara a exigência de redefinição e modificação de prioridades nos programas de governo das cidades, de modo a poder evitar a mega exploração. O importante é barrar a direção dada ao processo de especulação usando as políticas urbanas e os projetos em curso para os grandes eventos. Mesmo a China teve que rever uma parte significativa de suas políticas para atender a uma parte das demandas do protesto social e, frente a uma crítica moral sobre os rumos dos gastos com grandes obras. Uma meta geral para a pluralidade de atores sociais é garantir mais acordos e melhores políticas, de modo a que se possa fazer um pacto de acesso e redefinição do direito à cidade.


Escrevo essa nota diante de processos extremos para dialogar com os poucos que possa alcançar no ciberespaço. Immanuel Wallerstein deu indicações uteis para os momentos da crise do sistema mundo: 1)Que o processo é longo (o “outono”); 2) Que o quadro se bifurca entre a via capitalista de Davos e a via anticapitalista de Porto Alegre; 3) Que devemos apostar no avanço na demanda por direitos; 4) Que segundo a teoria do caos o fato da brutal incerteza quanto aos resultados só pode ser contrabalançado pela certeza de que faz diferença o que fizermos e como agiremos. Nossa ação interfere nos desdobramentos e resultados.


O grande evento para o mundo é a democracia que avança no Brasil. Como diria Milton Santos, precisamos de um novo pacto cívico-político cujas bases estão esboçadas na Constituição. O manto autoritário e oligárquico precisa ser afastado em nome da justiça social e ambiental. Sendo que, o povo organizado constrói a democracia. Sei que esse otimismo e desejo parece estranho, face ao quadro fragmentado, crítico, caótico e híbrido da disputa e das escaramuças em nossas cidades.


A bandeira nacional só tem significação quando os caminhos que ela indica tem sua fonte no povo se afirma pela letra da Constituição de 1988. Esperando que não tenhamos de nos desgastar com o gozo de forma estética que apela para um maniqueísmo imagético, sem deixar de sugerir uma agenda cujas bases éticas sustentam a República Democrática. Para o que cabe fortalecer o Estado social e um programa de economia mista de novo tipo. Cabe ampliar a forma de governar, onde a democracia representativa e a democracia direta possam interagir com novas esferas em rede cibernética com projeção no espaço, construindo o direito à cidade.

Enxame do Comum (Alexandre do Nascimento)

setembro 29th, 2013

ENXAME

Eis que surge um monstro emergente,
um movimento que cresce potente,
intolerante aos governantes que disputam
o dinheiro das empresas de rapina,
indignados contra filhos da puta
de terno, de toga e de farda,
contra a armada estupidez truculenta
que odeia negro, pobre
e quem não paga propina.
É levante dos que não mais aguentam
a esnobe podridão,
a suja negociação,
o racismo da remoção,
o choque de segregação,
a negação de direitos
e tantos outros desrespeitos,
como o aval pra matar pretos
concedido ao policial.
É o levante contra a política
a serviço do Capital.
Chegou a hora da crítica
ser desobedientes com cede,
ser fome de democracia,
fazer-se antropofagia,
constituir-se em redes.
É o Comum pelo fim dessa farsa,
Multidão num enxame de massas,
ocupando mídias, ruas e praças
num grito de arrebentar paredes.

COMUM

E o Comum, o que é?
É um conceito em aberto,
É algo ainda incerto,
monstro em constituição,
confluência de Axés.
Mas o amor é seu ponto de partida,
e seu preceito a multiplicidade,
pretinhosidades em produção de direitos
e de expressões de humanidade e vida.
No Comum as diferenças
não são indiferentes,
o que importa no Comum é gentes
e o ser pleno é a crença,
o Comum é relação.
E relação em outra estética,
é quilombismo como ética,
é expressão de um outro mundo,
não é representação,
é democraciocupação.
No Comum somos Ubuntu.

O retorno do poder constituinte (Ricardo Gomes)

setembro 29th, 2013

pancho villa revolucion mexico

A gestão neoliberal contemporânea articula duas formas majoritárias de poder. Por um lado, a gestão da sociedade feita pelas polícias, que se desdobra na transformação constante das pessoas em policiais. Todos policiando todos, numa misto de paranoia violenta e paternalismo emburrecedor. De outro lado, a gestão cool, limpinha, racional. Esta, aparentemente está acima da outra, mas uma implica e deseja a outra. Há entre elas uma troca e sustentação necessárias, que marcam todos os corpos. Às vezes uma das duas, por erro de avaliação ou por uma estratégia elaborada, tenta tomar a frente da outra.


Foi o que aconteceu ontem, principalmente em São Paulo, onde a vertente policial excedeu sua própria legitimidade em ser a violência excessiva dita “necessária”. Esta legitimidade não vem do povo, não emana do desejo da sociedade, e sim dos poderes constituídos, uma legitimidade desde o começo pura violência. Fez isso quando violentou membros notórios dos poderes constituídos: a imprensa. Mas não nos enganemos, mesmo que a imprensa conservadora fique inicialmente contra a PM, isto será passageiro, será um pequeno ajuste para que a violência funcional da PM possa ser mais uma vez apontada para o alvo de sempre, a população e seus desejos insurgentes.


A manifestação de ontem é fruto de um movimento relativamente longo. Outras já haviam sido feitas pelo mesmo movimento, inclusive uma no início do ano, quando conseguiu barrar o aumento da passagem. Nesta, porém, ficou claro que não se trata de uma manifestação com uma demanda única, não é “só” o aumento do preço da passagem. Rapidamente ela tomou a forma de uma revolta popular pela retomada da cidade, negando a gestão do tipo “cidade-empresa” e afirmando outra forma de viver coletivamente.
Nesse sentido, dentro dos movimentos, não pode prevalecer a obscuridade fetichista e falsa de certa horizontalidade imposta. Há quem diga ser horizontal e ficar criando regra do que pode ou não pode. Certas coisas ou são decididas pela multidão ou ninguém decide e seguimos o ritmo da forma mais proveitosa. Por exemplo, na caso das bandeiras de partido. Se nenhum partido tentar tiranizar os protestos não há pq negar o uso de bandeiras por quem está colaborando.


A violência constituinte exercida pela população é uma das bases da política, anterior a toda e qualquer formalização; é ela quem permite avanços e/ou retrocessos. Quando os poderes constituídos perdem isso de vista, ela, a violência, sempre latente nas democracias neoliberais, aparece, tanto como lembrança do processo político constituinte, quanto como forma atual e concreta para renovar este processo, fazer ele funcionar mais uma vez. Às vezes não há outra forma, quando a participação popular é vetada alguma faísca deve ser criada, algum caminho que possibilite mais uma vez a que cidade seja das pessoas.


Por fim, deve-se levar em consideração que possivelmente as manifestações sejam frutos da história recente, das articulações progressistas, de certos avanços que atravessaram o estado em um passado próximo, e das respostas e retrocessos em relação aos avanços — numa espécie de amadurecimento político, onde estas manifestações estão inseridas, contra as novas formas de exploração da vida, e, claro, segundo o desejo de querer mais, de responder criativamente às novas formas de exploração, com outros direitos, atrás de outras muitas conquistas.

Movimentações na Ilha-continental (Alexandre Magno Jardim Pimenta)

setembro 29th, 2013

Não temos amado acima de todas as coisas
Temos tido medo uns dos outros todos os dias
E todos os dias chamamos isso de nossa Vitória.
Amar eh um ato-livre e todo ato-livre é criador – Ousas!
Não permita que com o medo te levem a odiar as revoltas e alegrias
Não creia no vendido e dado em cada esquina desta vida Inglória.
Tanta gente pelas ruas, não é possível que não ouças,
O dia-a-dia esta insuportável, o que mais tu esperarias?
Sim, tantos apaixonados querendo para si a historia.
Muitos cantam o hino nacional, tu se enojas e caçoas?
Muitos querem organizar o carnaval e suas orgias
Outros querem aproveitar e capturar a escoria:
Outros ainda querem racionalizar o caos em que balouças
Ó ilha-continental, terra estuprada por capitanias,
Terra de pessoas indomáveis e livres em toda sua nudez e Glória.
Seja la o que for e com quem for que tu entoas
Contra isso ou aquilo, contra todas as explorações e vilanias,
Saibas que algo em comum nos une e recria:
É o amor, fruto humilde e precioso da árvore da liberdade,
E não se esqueçam que a terra quer que seja feita a sua vontade
E que seus frutos sejam distribuídos para todos

Algumas notas sobre conflito, produção de diferença, multidão e democracia nas recentes manifestações; e a atuação da mídia da corporativa e da esquerda nesse espaço e tempo (Bruno Tarin)

setembro 29th, 2013

rjapaerea

Engana-se terrivelmente quem pensa que para o exercício da democracia é necessário exilar, anular e extirpar o conflito e a produção de diferença. Engana-se ainda mais quem só vê conflito na hora que manifestantes entram em confronto com a polícia, ou quando lançam sua indignação e revolta contra símbolos do poder, e dessa maneira se diferenciam da normalidade e diferenciam a própria normatividade. O conflito e a diferença são as moradas do exercício da democracia, sem o conflito e a diferença – e o exercício da liberdade que sempre os acompanha – não há democracia, pois estaríamos todos condenamos a vivermos presos ao já constituído, à imobilidade e à totalização unificante. O conflito e a diferença são as linhas que constroem os espaços onde emergem as possibilidades de criação de novas maneiras de viver, de constituir novos rumos para a democracia. O conflito conjugado com a produção de diferença pode ser entendido como a força que alavanca as possibilidades de fugir e ir sempre além da tentação de tornar democracia sinônimo de poder de coerção e de capital.

A separação feita entre manifestantes e vândalos, levada a ferro e fogo, ou melhor, a gás e borracha, pelo poder executivo retroalimentada pela mídia corporativa durante as recentes manifestações, faz parte do violento jogo de tentativa de anulação do conflito e produção de diferença no exercício da democracia. Da mesma forma é a exigência – feita por essa mesma dobradinha mídia corporativa/poder executivo – de que a multidão presente nas ruas reivindique e produza pautas claras, unificadas e que possam ser facilmente apropriadas e negociadas nos clássicos espaços da política partidária. A tentativa de anulação do conflito e da diferença passa, dessa maneira, tentando produzir duas grandes separações: uma é a produção do sentimento de que existe um movimento legítimo que busca a “Paz”, enquanto uma minoria de baderneiros violentos se aproveitam para saquear lojas, atacar a polícia e depredar prédios públicos e históricos. A outra separação é que existe uma minoria “consciente” e uma grande maioria de pessoas que participaram das manifestações sem saber direito porque estavam ali, sendo assim essa “massa disforme” ameaça tornar-se uma arma para o avanço dos golpistas reacionários. No primeiro caso a solução encontrada, tanto pela mídia corporativa quanto pelo poder executivo, é clara e explícita: imposição de autoridade e uso de força repressiva sobre as “maças pobres” para conter o golpe dado sobre a normalidade, a lei e a ordem. No segundo caso, a solução não é tão visível mas nem por isso menos palpável: organização dos manifestantes em pautas totalizantes e unificadas, ou seja, transformar a multidão que tomou as ruas em um monólito, enquadrando-a de maneira que possa dar-lhe uma forma que se encaixe no espaço, já pré-determinado, da política representativa e da produção de consensos – o que alguns insistem em chamar de democracia. A partir dessas duas grandes separações que a mídia corporativa opera o seu jogo clássico: julgando o bom e o mau e formando opinião, ou em outras palavras conscientizando e organizando a massa. Separações que da minha perspectiva, diga-se de passagem, são o verdadeiro golpismo. Contudo, essas separações não são somente produzidas pela mídia corporativa, elas também são utilizadas por uma esquerda acomodada em ocupar o poder sem a participação ampla e irrestrita da população, uma esquerda que vêm se distanciando das lutas e da vida fora dos espaços tradicionais e institucionais de poder, uma esquerda que parece ter esquecido – mas que está sendo lembrada – que suas planificações e pacificações não compõem e transformam nada sem a presença dos corpos que ocupam cotidianamente ruas e estradas de terra ao invés de gabinetes e salões.

A esquerda, diante do tempo e espaço atual, necessita reconhecer e lidar com o fato que a multidão que emergiu durante as recentes manifestações é dotada de um princípio auto-formativo, ou seja, a multidão ao criar está ao mesmo passo se criando. Em movimentos de alta velocidade e numa espiral virtuosa a multidão, composta pela diferença, através do conflito transforma e se transforma autoorganizado-se. No estrato do sentimento de autonomia de instituições já constituídas está ocupando progressivamente as ruas do Brasil, delineando em movimento os caminhos de novas instituições e de uma nova democracia. Analisar e avaliar as recentes manifestações a partir de pautas específicas e categorias não é mais materialmente possível e mesmo desejável, afinal o que se viu nas últimas semanas foi a luta por melhores condições de vida em seus mais múltiplos aspectos e, principalmente, por diferentes modos de vida que se materializam na desconstrução de certos tipos de relações de poder codificadas, para a afirmação de outras relações mais horizontais e democráticas, relações estas que tem sua finalidade e método o desejo de transformação e participação do governo. Trata-se, portanto, para essa esquerda que vimos nos últimos tempos assumir uma posição arrogante e autoritária, urgentemente, rever suas posições e acelerar a guinada rumo uma radicalização democrática e uma democratização radical. Com efeito, trata-se de afirmar e embarcar no caráter conflituoso e constituinte da multidão e das diferentes – até mesmo contraditórias – incontáveis e incomensuráveis lutas que marcam as vidas de todos aqueles que recusam viver sobre o domínio da violência institucionalizada – criminalização da pobreza e da liberdade – e das segmentações produzidas pelas desigualdades econômicas, políticas e sociais.

No tempo e espaço – atravessados pelo levante da qual somos todos parte e testemunho mesmo os que não foram às manifestações – emergem as possibilidades para todos e não só para os partidos, políticos e militantes de esquerda – que estão em um grau ou outro no governo e no Estado – fugirmos e irmos além da neutralização do conflito e da diferença. Passar do estrato da neutralização desses elementos para um estrato de sua afirmação como primordiais para o exercício pleno da democracia. Irmos além da atuação da mídia corporativa e de uma parte da esquerda que não mostram, debatem e atuam sobre as verdadeiras violências as quais somos, cotidianamente, expostos e que sentimos diretamente sobre nossos corpos. Violências que sem o conflito e a diferença como bases de uma nova composição de governo e de radicalização democrática e democratização radical não poderão ser transformadas. A violência de sermos submetidos a viver de salários ou de projetos que nos precarizam, ou seja, a violência da exploração; que são ditadas de forma verticalizada políticas econômicas desenvolvimentistas; que partidos políticos – a política representativa – não tem, a algum tempo, nenhuma ancoragem com a população a não ser eleitoral; que tentam transformar nossos destinos e vidas em negócios extremamente lucrativos para políticos e empreiteiras; que a polícia é extremamente violenta e passeia com os bicos dos fuzis para fora das janelas de seus carros produzindo um estado de medo generalizado; que são feitas chacinas no campo e nas favelas induzidas pela mídia corporativa através do sentimento de ódio aos pobres, negros e indígenas; que a especulação imobiliária está nos expulsando de nossas casas; que os novos regimes trabalhistas e o sistema financeiro estão nos afogando em dívidas; que o sistema de transporte público é uma verdadeira máfia que junta Estado e mercado etc.

Apesar da tentação de entrarmos no jogo da mídia corporativa e de parte da esquerda de encontrarmos, dentre os manifestantes, culpados para que se possa ser possível separar o joio do trigo, encontrando vândalos ou golpistas de direita, faz-se necessário antes termos em mente a positividade da multiplicidade que produziu a multidão que tomou as ruas recentemente; e que não necessitamos de instituições hierarquizadas para organizar nossas manifestações e menos ainda da mídia corporativa para nos dizer quem somos ou deveríamos ser e fazer. Falando, especificamente, sobre as manifestações da qual participei, posso afirmar que os confrontos ocorridos no Rio de Janeiro durante as manifestações de 17 e 20 de junho não foram atos isolados de vândalos, para ver isso basta atentarmos para o fato que os principais alvos dos manifestantes foram prédios públicos, bancos e a própria polícia. Não é por acaso que foram estes os alvos, afinal estes são os maiores símbolos e atores da opressão e da violência a qual somos submetidos todos os dias, símbolos máximos da dupla mafiosa Estado/mercado – base da revolta generalizada expressa por todos os manifestantes de diferentes formas. Cantar o hino e pintar a cara de verde e amarelo também não me parecem ser uma demonstração da ascensão do fascismo revigorado por uma massa disforme tropicalizada, e sim uma forma de se manifestar daqueles que não estão acostumados ou não desejam as práticas militantes da esquerda, mas nem por isso são despolitizados ou incapazes de se manifestar criticamente, e levado a última instância de governar a si mesmo. Estas são expressão da multidão assim como as cirandas, a entrega de flores aos policiais, as bandeiras e cartazes, a carnavalização, os carros de som com palavras de ordem, as bandeiras etc. Expressão da potência da diferença conflituosa que marca a multidão que ocupa todos os espaços e tempos que convivemos em comum.

As manifestações não começaram e não se encerram em junho de 2013 – apesar desses dias terem entrado para a história do Brasil e com certeza terem marcado nossos corpos – novas manifestações virão, novos desafios e impasses aparecerão, e a força da multidão se mostrará, em grande parte, em não aderir as grandes separações do discurso conservador. Os corpos tropicais mestiçados encontraram a maneira de penetrar o governo, agora é avançar buscando na produção de diferença e conflito os caminhos para a autodeterminação de nossas vidas e os novos rumos em movimento da democracia.

Do bolsa família ao levante da multidão (Giuseppe Cocco e Antonio Negri)

setembro 28th, 2013

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Em um artigo publicado em 2005, dissemos que as críticas de direita e de esquerda ao Programa Bolsa Família (PBF) convergiam porque usavam categorias ultrapassadas. Os dois lados diziam que era assistencialista e criava dependência. Só a geração de emprego proporcionaria “emancipação” e essa dependeria da política econômica. Nós afirmamos que as duas críticas eram erradas por pensarem o trabalho como emprego. No capitalismo contemporâneo, o trabalho não envolve mais apenas isso. O próprio chão de fábrica depende da circulação. A produção implica a mobilização da vida como um todo, uma mobilização que não é paga. Massificado, apesar de sua concepção originalmente neoliberal (condicionada e focada), o PBF se tornou o embrião de uma renda básica, um primeiro reconhecimento das dimensões produtivas da vida.

Nosso artigo foi bem recebido. Mas, na realidade, ninguém entendeu suas implicações sociológicas e políticas. Minguém estava nem aí. Depois do susto de 2005, veio o grande consenso, amplificado pelas análises erradas da crise global de 2007/8 como se fosse um desvio das finanças e não o modo de funcionar do novo capitalismo. Veio a luz um bicho bizarro de duas cabeças. Uma delas é a “nova classe média”: as conquistas em termos de mobilidade social foram inscritas no regimes discursivo da economia política dos valores de um “Brasil Rico (porque) Sem Pobreza”. A outra é o Brasil Maior com base na ilusão neodesenvolvimentista: subsídios para as montadoras, megaeventos, megaobras e Minha Casa Minha Vida (ao serviço da especulação imobiliária). Lula/Dilma seriam a reencarnação de Vargas e Eike Batista do Capital Nacional. O corpo desse bicho esquisito é uma coalizão partidária ao mesmo tempo ampla e autoindulgente com os sucessos eleitorais e a festa de investimentos suntuosos. Os índios lutam por suas reservas, os pobres por suas favelas, os informais por seus direitos a cidade, os sem terra para a reforma passaram a ser vistos como estorvos para esse belo projeto de nação, que enfim encontrou sua política de estado.

De repente, a terra tremeu! Quando o trabalho implica a mobilização da vida, há uma mudança radical de sua composição social: estatisticamente, ela pode aparecer como conjunto homogêneo de consumidores (para o marketing eleitoral, das empresas ou da pacificação), mas no plano material, não há nenhuma classe média. É a composição de um novo tipo de trabalho, que acontece dentro e fora do emprego, nas redes sociais e de transportes e tem nas universidades, escolas, museus, serviços e até nas reservas indígenas suas novas fábricas. O espaço desse trabalho são as redes (virtuais e de transportes) que desenham o espaço metropolitano, aquele que o Brasil Maior e seu sistema de transportes destrói. Para a esquerda como um todo, esses trabalhadores não podem e não sabem lutar, porque não existem como classe operária. Para quem apenas usa os óculos de seu marqueteiro, se trata apenas de um fluxo eleitoral.

O levante desses dias nos mostra que, quando as singularidades cooperam entre si, se mantendo tais, a multidão se constitui como um outro tipo de classe: que só existe na luta, não mais pela fusão em um corpo homogêneo, mas pela amplificação de suas diferenças. A potência da multidão é selvagem: está em não ter linha, liderança ou organicidade que não seja interna à sua luta. O bRASIL menor é muito mais potente do que o Brasil Maior.

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Indóceis e inúteis: o que podem os corpos? (Murilo Corrêa)

setembro 28th, 2013

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Primeiro foi Porto Alegre; depois, Natal, São Paulo, Goiânia e o Rio de Janeiro… Uma multidão de corpos indóceis e inúteis impede as vias públicas, para o tráfego eternamente estagnado das seis da tarde das grandes capitais e, paradoxalmente – dirão alguns –, em nome da liberdade de circular insujeitos pela cidade. Quem teria lhes dado esse direito – por tanto tempo exclusivo dos automóveis?


Os corpos jovens, liberados e frenéticos que nos últimos dias ocuparam as praças e as principais avenidas de grandes cidades em um movimento meta-regional interromperam os fluxos do capital que as sucessivas isenções
de IPI tornaram possível. É a potência e a virtù desses corpos indóceis e inúteis, insubmissos e nada comportados, que constitui o princípio de desarticulação das estratégias de poder que se dissimulam sob a questão da tarifa do transporte público nas grandes metrópoles. Eis o que torna urgente tentar lançar luzes sobre os protestos que se espalham pelo Brasil, para muito além das frases efectistas e midiáticas, das gritas reativas de um Arnaldo Jabor – ou de qualquer outro ex-comunista arrependido que hoje ocupa os postos discursivos por meio dos quais a grande mídia, a serviço do Estado e, sobretudo, dos interesses corporativos, tenta incessantemente controlar as margens de crítica social.


As vidraças quebradas – alvo aparentemente preferido desses corpos anarquistas – forma, ao lado das máscaras de “V, de Vingança” e do lixo incendiado, o conjunto das grandes marcas simbólicas – ou melhor, demasiadamente inconscientes e reais – das passagens revoltas dos corpos pelas cidades. Eis alguns dos signos que permitem produzir uma genealogia dos acontecimentos de superfície que visa a romper com os quadros de inteligibilidade dados, e enxergar um pouco além do que, no movimento pelo passe livre e pela tarifa zero, parece ser meramente acidental. Trata-se de desentocar a própria potência política vital de que a coragem crua desses corpos se tornou depositária.


As vidraças estilhaçadas – nem sempre pelos manifestantes – nada mais são do que o acontecimento de superfície de um atentado contra o princípio de uma sociedade disciplinar e de controle em que os corpos são constantemente vigiados e controlados nas margens virtuais de seus gestos; basta um esboço ou um descuido para que o poder que transforma cada corpo em um sujeito, ou em um indivíduo, torne-se sutilmente eficaz e maquinal. Assim, a disciplina vai moldando cotidiana e continuamente, em um nível infralegal e infrajudiciário, os corpos dóceis e úteis. À luz das patologias da normalidade que o poder implanta no coração das subjetividades que produz, tudo o que ameaça a tranquila normalidade do retorno para casa após um dia extenuante de trabalho só poderia significar um atentado à liberdade dos “cidadãos de bem” – esses efeitos do poder – que se comprazem em se comprimir uns contra os outros nos infinitos engarrafamentos das metrópoles ou no interior dos coletivos abarrotados; porém, esta não passa da perspectivação do fenômeno pela sensibilidade estrábica dos doentes de normalidade, os sujeitos constituídos pelas finas malhas de poder dos panoptismos que jamais deixaram de integrar as estratégias das sociedades disciplinares ou de controle. Como as vidraças estilhaçadas, deixadas para trás pelos corpos revoltos, não seriam, também, o signo do contrapoder que circula em corpos que se desejam anônimos, impessoais e inindividualizáveis?


Não se trata de fazer um elogio da violência; porém, tampouco se trata de sacralizá-la nas ilegalidades cometidas pelas Polícias e pelos Estados pseudodemocráticos – como o Brasil revela ser. O poder circula pelos corpos das multidões. Assim como ele explode contra elas, nas ações criminosas legalizadas em aparência pelas formas jurídicas do Estado e do capital-dinheiro, ele explode a partir delas também. É nesse sentido, que Negri pudera afirmar que um protesto pode ser não-violento, mas jamais será pacífico – é com o poder que circula nos corpos que os contrapoderes, até então assujeitados, produzem sua rebelião profunda e mística.


Esses corpos indóceis usam máscaras. “Estratégia de terroristas e bandidos que não querem ser reconhecidos e identificados” – logo dispararam alguns. No entanto, o gesto de dissimular o rosto no espaço público não consiste em outra coisa senão na mais radical afirmação de democracia – especialmente quando um Estado que se pretende democrático reprime tão sistematicamente qualquer manifestação pública que não deixa outra alternativa a seus cidadãos senão a de dissimular o rosto para ganhar
as ruas e ver o enxame amorfo que pouco a pouco receberá o nome impronunciável, impessoal e politicamente monstruoso de multidão. Dissimular o rosto: a única forma de pela qual essa multidão pode reapropriar-se do espaço público quando toda forma de dissidência parece ter se tornado virtualmente impossível. Tecida apenas de singularidades impessoais e precárias, é a própria multidão, constituída pela revolta profunda dos corpos que relança suas potências, que ocupa as ruas, negando as identidades que o poder não cessou de tentar fixar sobre seus corpos agora libertos.


Eis as táticas simbólicas, afetivas e, a um só tempo, inconscientes mobilizadas a fim de liberar os corpos do jugo normalizante dos poderes de uma sociedade de controle que ainda conserva muitos dos aparatos de poder das disciplinas. Romper seu princípio de transparência (as vidraças, os rostos, as identidades), destruir seu princípio de registro e controle contínuo (depredar câmeras de segurança ou a iluminação pública), apor seus signos e palavras de ordem que denunciam que, no limite, a partição entre o lícito e o ilícito, das formas jurídicas do Estado esconde, sob sua pele verminal, a repartição maquinal em que o poder seleciona ativamente certas ilegalidades para receberem a forma legalizadora e a despesa do direito de Soberania. Eis a macro-operação de poder capitalística que cobre com o véu da legalidade o infinito mapa de ilegalidades que essa comunidade de eus profundos coloca em questão: da máfia dos transportes públicos, à das montadoras de automóveis; da máfia dos empresários do petróleo às atitudes censoras que constituem a práxis da mídia; das violações de direitos civis que o Estado a Polícia cometem sistematicamente às ilegalidades do direito de exceção que já vige no país, mesmo antes da realização dos “grandes eventos”.


Quando os corpos destroem o princípio de controle sutil a que se encontravam submetidos – as disciplinas infinitesimais que produzem o sujeito e sua belle âme, que os colam a uma singularidade orgânica como efeito da insidiosa inscrição desses poderes nos corpos, e que classificam o bom e o ruim, repartem o normal e o anormal –, tudo o que resta aos poderes constituídos é fazer valer as estratégias de prerrogativas de um direito de Soberania. Isto é, só resta ao Estado – e as afirmações cínicas de Haddad, direto de Paris (corpo ausente do soberano), não poderiam prová-lo melhor – aplicar à massa informe, rebelde e perigosa na qual os indivíduos dóceis subitamente se converteram as prerrogativas de violência, fiadoras de primeiro tempo das disciplinas fustigadas pelos contrapoderes que corpos indóceis e inúteis descobriram sob a superfície artificial e verminal de seus eus sociais. Assim, o Estado pode transformar-se em máquina de abolição – como não raro se transforma – e fazer da justiciabilidade dos “vândalos, anormais e insubmissos” um desnecessário e, sob todos os aspectos, injustificável e criminoso espetáculo de crueldade.


Sob o eu social – superfície construída por mil e uma microssujeições (como viajar em ônibus lotados, pagar mais do que um serviço público vale, dar-se conta dos lucros astronômicos dos empresários do setor de transportes, conhecer as grandes ilegalidades convalidadas pelo direito que tornam essas malhas de poder cada vez mais tesas e “naturais”…) – não cessam de se acumular e renovar nossas potências rebeldes, os contrapoderes de corpos indisciplinados, indóceis e, do ponto de vista dos poderes que se organizam para sujeitá-los, inúteis.


Na medida em que, contra o Estado, produz-se a revolta profunda de todos os corpos, esses corpos transformam sua fenomenologia da revolta em uma ontologia da liberdade. Descobrem que a única consistência da liberdade é a práxis da rebelião e, ao mesmo tempo, que a única forma de fazer uma rebelião que seja também uma festa de destruição de todos os valores contestados é tomando parte nessa experiência de liberdade. Sob a práxis está a descoberta revolucionária de todos os corpos indisciplinados: jamais fomos sujeitos! O poder que circula pelos nossos corpos – seus fluxos domados e axiomatizados pelo capital, pelo Estado, pelos aparatos micrológicos e microfascistas das sociedades de controle – é desejo esquizo, potência revolucionária. Rebelando-se contra as disciplinas, todos os corpos poderão, um dia, descobrir-se profundamente anarquistas, questionando a repartição do lícito e do ilícito a partir das ações borderlines como a de quebrar vidraças, usar máscaras, incendiar lixo ou pichar palavras de ordem – travar discursivamente, também, esse combate pelo sentido e pelos signos.


O lixo incendiado é o signo último desse combate: de um lado, a recusa das dejeções que o sistema de exploração capitalista amontoa e produz sem cessar; de outro, o princípio incendiário e contaminador que comunica a indisciplina e a insubmissão como princípio de abertura e questionamento radical de um corpo a outro; já não podermos falar em comunicação do aberto entre almas, porque a alma foi queimada com o fogo. Ela também é, de alguma forma, um dejeto incendiado que o poder fabricou.


Eis o que todo corpo insubmisso, indócil e inútil que ocupa – e ainda ocupará por muito tempo – os espaços públicos coloca em jogo: um devir indomável de nossas formas de viver e de pensar para o mercado. Uma forma de reabrir o que parecia fechado, de combater o fechamento e as estases que o poder produz nos corpos sujeitados. Impedindo o trânsito violentamente com a mesma intensa doçura de quem escreve em um cartaz: “Desculpe o transtorno. Estamos lutando por seus direitos.”, é o devir de todo um modelo de exercício de poder que esses corpos jovens, indóceis e inúteis tentam precipitar no aberto. O devir é o novo, o interessante, o vital que jamais cessa de estar em jogo – mesmo quando os corpos cedem ao poder. O devir é o princípio vital, virtual e inorgânico que essas indomáveis existências políticas mobilizam. Eis o próprio tempo a colocar em xeque e a afetar irremediavelmente a totalidade das formas de vida que o poder produziu, e produz, como seus dejetos cotidianos: sujeitos, resto ao lado. Viva a rebelião profunda de todos os corpos: saímos às ruas e só encontramos máquinas desejantes, potências selvagens, tesão político. Precipitar as formas de vida no devir: o que podem esses corpos rebeldes não é pouco – sob nenhum aspecto.

Imagem: Alexandre Rodchenko

A multidão brasileira e os limites do lulismo (Silvio Pedrosa)

setembro 28th, 2013

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As jornadas de junho: uma hipótese

As últimas duas semanas sacudiram o Brasil: ruas, praças e avenidas – o espaço público, por excelência – foram tomadas por multidões que, em ondas crescentes, se pluralizaram de tal forma a não mais possuir uma pauta definida ou mesmo identificável. Se durante a primeira semana, o Movimento Passe Livre conseguiu manter uma pauta clara e objetiva (a revogação dos aumentos das passagens dos serviços de transporte público em São Paulo em primeiro plano; e, como pano de fundo, a proposição do passe livre como deslocamento da agenda política relativa ao tema à esquerda), na segunda semana, a descabida e absurda repressão policial que a PM paulista, sobretudo, realizou, levou multidões cada vez maiores a tomar centros urbanos por todo o Brasil.

À emergência dessas massas, houve dois momentos de reação das esquerdas (tanto as partidárias, quanto as não-partidárias): primeiramente, como alguém que vê um sonho se realizar, o deslumbramento e o entusiasmo ativo em relação às centenas de milhares de pessoas que invadiam as ruas — finalmente chegara o ‘grande dia’, quando a esquerda poderia surfar na onda progressista da multidão e impor sua própria agenda política ao país, à revelia da correlação sócio-institucional de forças. Num segundo momento, entretanto, o rosto daquela multidão se desfigurou, as cores de suas bandeiras, antes vermelhas, ganharam tonalidades verdes e amarelas e grassou a rejeição pelos partidos — mormente os de esquerda, únicos à vista e ao alcance dos manifestantes –, as pautas antes claras e inequivocamente ‘de esquerda’ metamorfoseando-se em um mosaico de desejos e vontades (nem sempre ao gosto daqueles que sempre estiveram na rua, mesmo quando o ‘gigante’ sequer sabia que dormia).

O sentimento era (e ainda é) de perplexidade diante de uma emergência simplesmente miraculosa, sem qualquer previsão por perto de nenhum dos atores até então engajados na luta política. Diante de tal hesitação, este blog arriscará uma hipótese sobre as duas últimas semanas no Brasil, semanas que aceleraram nosso tempo histórico, entre o pânico e a esperança: a multidão que saiu às ruas não está insatisfeita com a situação do país dos últimos 10 anos (como é o diagnóstico-desejo da oposição partidária e midiática). Está insatisfeita com o país tout court, ou seja, em todos os seus quase dois séculos de existência. O que os manifestantes que vão às ruas desejam é, a um só tempo, mais e menos lulismo.

O que é o lulismo?

Por lulismo se convencionou designar, nos últimos anos, o conjunto dos fenômenos que conjugados caracterizam a economia política promovida pelo Partido dos Trabalhadores ao longo da década em que esteve à frente do governo federal. Segundo seu maior teórico, André Singer, o lulismo seria uma pactuação conservadora — destinada a minar a resistência do eleitorado mais pobre, menos inclinada a apoiar programas de transformação social de cariz mais radical e acelerado — cujo objetivo seria promover um reformismo fraco, gradual, na sociedade brasileira.

Tal economia política caracterizou-se pela manutenção do enquadramento neoliberal da política econômica levada a cabo por FHC (juros altos, superávits primários sucessivos e câmbio flutuante) e, ao mesmo tempo, pela promoção de inflexões à esquerda: política de valorização real do salário mínimo, instituição de programas de transferência de renda (cujo caso mais bem sucedido é o Bolsa Família), uma política cultural gerida a partir de perspectivas inovadoras, a democratização via cotas raciais e sociais, bem como por programas de bolsas de estudos, do acesso ao ensino superior, oferta de crédito para setores mais pobres da população através de mecanismos como o crédito consignado, entre outras.

Os resultados eleitorais, sociais e econômicos são bem conhecidos. Em 2010, Lula foi capaz de eleger uma sucessora desconhecida do eleitorado brasileiro — sua então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. E os indicadores do país em termos de criação de empregos formais (19,5 milhões somados os governos Lula e Dilma), redução da pobreza extrema e mesmo da desigualdade de renda fizeram a década do PT no poder ser denominada pelo IPEA como a década inclusiva, a desigualdade, segundo o índice de Gini, recuando para o mais baixo patamar histórico desde as primeiras estatísticas disponíveis (da década de 1960).

Dilma e os limites da governabilidade lulista

Os resultados apresentados acima, entretanto, não vieram a um preço politicamente baixo: a pactuação conservadora exigiu — além do próprio rebaixamento do programa histórico do PT, bem menos moderado — inúmeras concessões e o termo ‘governabilidade’ virou lugar comum no discurso de petistas dos mais diversos matizes. Era necessário que demandas e bandeiras históricas da esquerda brasileira fossem engavetadas temporariamente ou mesmo negligenciadas abertamente para que o pacto de classes não fosse ameaçado.

Enquanto o governo Lula conseguiu arbitrar soluções criativas para os impasses da coalizão bastante heterogênea de governo (em cujas fileiras se podem encontrar da FIESP ao MST e de organizações feministas e LGBTTs a líderes evangélicos conservadores) — a despeito de realizar avanços sempre dentro de limites bastante estritos –, em parte graças ao período de bonança econômica, em parte por uma gestão política mais eficiente, o governo Dilma (cuja base parlamentar é ainda maior) se mostrou incapaz de inventar novas possibilidades para a luta política nos limites da institucionalidade — sua ‘coalizão baleia’, nas palavras de Wanderley Guilherme dos Santos, só foi capaz de ‘parir sardinhas’. Limitando-se a gerir um limiar mínimo de diferenciação ante a oposição neoliberal, no governo Dilma se assistiu a retrocessos como a cessão da presidência da CDHM da Câmara dos Deputados a um pastor evangélico racista e homofóbico, a ampliação das alianças à direita (como a nomeação de Afif Domingos para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa — cargo que ele divide com o de vice-governador de São Paulo em chapa com… Geraldo Alckmin, do PSDB!) — e o convite para nomear para a Secretaria de Educação Básica do MEC uma ex-ministra de FHC, notória neoliberal, entre outras coisas (para um texto mais detalhado sobre o desastre da governabilidade durante o mandato de Dilma conferir outro texto do blog). Tudo isso sem que se assistisse a inflexões à esquerda — salvo por medidas burocráticas importantes, sem maior apelo (mesmo a redução dos juros a patamares históricos se revelou insustentável nos últimos meses)– , que permitissem equilibrar e apaziguar o interior da coalizão.

Num arco mais longo, o fisiologismo da política brasileira, muito bem instalado no chamado ‘presidencialismo de coalizão’, permaneceu intacto, o quê somado aos frequentes casos de corrupção — devidamente amplificados pela mídia oligopólica — desgastou ainda mais o sistema representativo. Os acordos de gabinetes pareciam não mais se importar com a opinião pública (a eleição para a presidência do Senado, mesmo com a pressão contra Renan Calheiros, seguiu o seu curso placidamente). Até que a multidão se levantou, demandando mais.

A composição social e os desejos da multidão

A multidão brasileira que emergiu nas ruas nas duas últimas semanas em ondas tão diversas quanto arrebatadoras pode ser ilustrada como uma boneca russa, em cujo interior encontramos novas bonecas menores. À primeira onda da multidão, cuja pauta era mais definida e, supostamente, mais progressista, seguiu-se uma onda que se incorporou àquela, com pauta mais difusa e plural e, para alguns setores da esquerda (até o presente momento) assustadoramente udenista e nacionalista, sendo capitaneada nas redes e nas ruas por militantes e organizações de direita e até fascistas. Mas quem, de fato, integra essa multidão?

Alguns sinais nos ajudam a localizá-la social e produtivamente. Tomados os estopins das revoltas em diversas partes — o reajuste dos preços das passagens de transportes urbanos — e as formas e mecanismos de mobilização — a internet — fica sinalizada a participação, sobretudo, da juventude urbana. Da mesma forma, os gritos por melhores serviços públicos de saúde e educação denotam uma juventude receosa ‘de não poder manter o padrão de vida da família e (…) de não ver realizada sua esperada ascensão social’, segundo Marcelo Ridenti, para quem se trataria de ‘uma massa de jovens escolarizados, com expectativas elevadas e incertezas quanto ao futuro, sem encontrar pleno reconhecimento no mercado de trabalho nem tampouco na política.’ Da mesma forma, a juventude também foi caracterizada, por Giuseppe Cocco, como integrante da ‘nova composição do trabalho metropolitano’, substituto de fato e de direito do engodo da ‘nova classe média’. Trabalhando ’diretamente nas redes de circulação e serviços da metrópole’, esses jovens sentem na pele a vida precarizada (alguns integram mesmo a geração ‘nem-nem’) das grandes cidades brasileiras. Algumas pistas para compreender o que a multidão desejaria ver concretizado num futuro próximo…

Em algumas notas sobre o assunto, nossa suposição era de que se tratava de uma multidão auto-organizada a partir das redes sociais, majoritariamente a-partidária e, mesmo, anti-partidária, cujo desencanto com a forma partido, acabou por responsabilizá-la pelo emperramento das instituições representativas brasileiras. Mais ainda, intuímos que o levante brasileiro expressaria a crise da representação política que grassa por todo o mundo e que já havia se apresentado em outras mobilizações, como na Espanha do 15-M e na recente revolta turca. Recapitulando o crescente emperramento das instituições políticas sob os limites da governabilidade lulista, não fica difícil entender o total descolamento existente entre os cidadãos e os partidos. Mas, além disso, é preciso notar que as formas e mecanismos de exercício dos direitos políticos remontam ao século retrasado. E convivendo com formas de comunicação em tempo real… o descompasso não poderia ser mais notável.

Acuada em um sistema representativo pouquíssimo oxigenado, a juventude brasileira — supostamente despolitizada até então — foi à ruas pelo direito à política e, mais ainda, pelo direito à outra política, menos amarrada nos conchavos interpartidários e elitistas, mais participativa. Da mesma forma, em situação precária diante da vaga neoliberal que exacerba o individualismo e lhes nega um futuro esperançoso, os jovens, bem como outros grupos (incluindo-se aí, por exemplo, os movimentos sociais por moradia), se articularam nas redes e foram às ruas pelo direito ao futuro fora do esquadro da mercantilização da vida.

Mais e menos lulismo’: à guisa de conclusão

A juventude precarizada que, majoritariamente, foi às ruas deseja mais e menos lulismo. Mais lulismo, pois ela é resultante do pujante processo de mobilidade social desencadeado no Brasil dos últimos dez anos, a primeira geração de milhões de famílias que chegam pela primeira vez ao ensino superior, a primeira geração incluída na chave do consumo de massas — porta de entrada para a cidadania efetiva –, ou seja, essa juventude conhece, em parte, os benefícios produzidos pelo governo de centro-esquerda que mantém a hegemonia eleitoral no país.

E também menos lulismo, porque, conhecendo a despolitização da última década — com pouquíssimos enfrentamentos políticos abertos — e o descolamento dos partidos em relação às massas, não enxerga horizonte de avanços com o passo cada vez mais lento do reformismo fraco, tônica do PT, principalmente, nos últimos três anos.

A surpreendente irrupção da multidão de jovens precarizados nas ruas, aliás, não poderia vir em melhor hora para o próprio Partido dos Trabalhadores que, cada vez mais enredado nos jogos de aliança e repartição do Estado brasileiro, já havia esgotado praticamente toda sua potência política transformadora, enquanto acumula retrocessos em diversas matérias consideradas bandeiras não-negligenciáveis da esquerda, como os direitos indígenas, LGBTTs, das mulheres, etc.. A transformação proporcionada pelo pacto lulista foi significativa, mas os meios empregados corroeram paulatinamente a capacidade de inovação, de produção do inesperado em política. O inesperado veio então ao encontro do Partido dos Trabalhadores, pedindo passagem.

Os filhos do lulismo sabem melhor que os pais (do lulismo) que só mais direitos, como a garantia do acesso a direitos constitucionais como saúde e educação e produção de direitos associados à mobilidade urbana, parte integrante do direito à cidade e associada às políticas culturais — disseminadas por Gil e Juca nos dois governos Lula –, bem como o incremento de formas participativas de política e a eliminação de graves distorções do sistema político e eleitoral brasileiro pode fazer o lulismo superar a si mesmo, oxigenando a política do partido e da esquerda do país.

À beira do colapso, o lulismo se vê na iminência de ter de se articular à potência política das ruas, onde os jovens gritam por mais e melhores direitos, como forma de constituição de uma nova agenda progressista para a próxima década: a década dos direitos. Que os pactos de governabilidade cedam o lugar, desloquem-se ao fundo da cena, e deixem o protagonismo para os pactos por saúde, educação, transporte, uma outra política, em suma, direitos… ao futuro. Para o lulismo e, para eles, seus filhos.

Somos vândalos e vândalas pela democracia (Alexandre do Nascimento)

setembro 28th, 2013

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No dia 17 de junho último, quando da ocupação do prédio do Congresso Nacional, em Brasília, pela manifestação ocorrida naquela cidade, Renan Calheiros disse em nota que “O Congresso Nacional reconhece a legitimidade de manifestações democráticas como as havidas hoje, desde que as instituições sejam preservadas”.

Ora, o que está nítido nas manifestações que acontecem no país é que as atuais instituições políticas, de governo, de “justiça” e de “segurança”, assim como os partidos políticos (na verdade, a forma partido), estão esgotadas, não representam, não são confiáveis, estão corrompidas e, portanto, devem ser, no mínimo, radicalmente transformadas (algumas, do meu ponto de vista, devem ser destruídas mesmo). Ao meu ver, está nítido nesse levante da sociedade contra os poderes constituídos, que a democracia representativa é a corrupção da democracia.

Além disso, dentro os diversos aspetos que podem ser destacados nesse levante, me chama atenção, ao contrário dos que dizem se tratar de um movimento de classe média, está a crescente participação das periferias e suas expressões, que são as maiores vítimas do racismo, da violência, da discriminação, do descaso das nossas instituições e suas políticas. Cabe aqui lembrar o que outrora foi dito a jornalistas, em 23/10/2007, pelo secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que um “tiro em Copacabana é uma coisa, um tiro na Coréia é outra” (Coréia é nome de uma favela situada no bairro de Senador Camará, periferia da cidade do Rio de Janeiro), ou o que foi dito no telejornal RJ TV, 1a Edição em 18/06/2013, pelo ex-policial militar (ex?) e consultor de segurança púbica da Rede Globo, Rodrigo Pimentel, segundo o qual “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas, não é uma arma para se utilizar em área urbana” (gripo meu).

Nessa mesma linha, estão também algumas ações e políticas em execução no Rio de Janeiro, sobretudo aquelas que para os “megaeventos esportivos” de 2014 e 2016, o PAC, as remoções, as ações criminosas da polícia militar nas suas incursões em favelas, as UPPs, a Resolução No. 013 da Secretaria Estadual de Segurança Pública (que dá a polícia a prerrogativa de proibir “eventos” em suas áreas de policiamento – Leia-se bailes funk, para os quais a polícia coloca em prática a tal resolução, principalmente nas chamadas “comunidades pacificadas”), o choque de ordem, as internações compulsórias, a privatização da saúde, o descaso com a educação (onde a recusa de cumprir até mesmo o piso salarial nacional de professores é uma das atitudes governamentais que denotam este descaso), as obras que pretendem a segregação da cidade (o sistema de transporte é parte fundamental disso) e todo tipo de racismos, discriminações e violências praticadas pelo Estado e seus aparelhos de governamentalidades, contra “negros, pobres, favelados” (MC Mano Teko, in Apologia), com aval das instituições legislativas e judiciárias, da grande mídia, do empresariado e da classe média moralista, onde boa parte se diz de esquerda.

A maior violência é a do poder constituído e de seus aparatos de guerra (mídia golpista, polícia, etc) que estão criminalizando os movimentos e rotulando de vandalismo as diversas ações e reações das pessoas que resolvem enfrentar fisicamente a polícia ou danificar “patrimônios” ou “símbolos”. Há o que podemos chamar de excessos e atitudes que preocupam no interior das manifestações. Estamos presenciando um levante e não dias de festa. Toda manifestação, mesmo que “pacífica” expressa descontentamento e, por isso é violenta, mesmo que não se expresse em confrontos físicos, destruições e pessoas feridas. Estamos num levante, numa rebelião. Somos vândalos e vândalas pela democracia, pela reinvenção das instituições e criação de instituições comuns.

Não sabemos como, mas temos instituições novas a criar e para isso, é preciso colocar em discussão (assembleias populares podem ser ótimas para isso) os pontos de vistas das múltiplas singularidades que se expressam no levante que estamos presenciando, participando e experimentando, neste momento, no Brasil. As instituições que precisamos destruir talvez nós já saibamos quais são, mas as que precisamos inventar vão se constituir nas lutas.

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente” (Oswaldo Andrade, in Manifesto Antropófago). Contra o racismo verde e amarelo, o fascismo dos grupos no poder constituído e a corrupção da democracia que é a representação, só a potência do vandalismo.

Maquinar a irrupção (Simone Parrela Tostes)

setembro 28th, 2013

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A eclosão das manifestações por todo o país tem conformado uma espécie de zona turva onde os radares parecem desorientados pela heterogeneidade de sinais. Co-habitam nestas manifestações tanto a irreverência que escancara com bom humor as disputas micropolíticas, como o orgulho cívico tardo-integralista de bandeiras verde-amarelas, passando pelas bravatas de plantão. Em plena Praça 7, centro de Belo Horizonte, foi possível flagrar até um indivíduo segurando um cartaz onde se lia “a elite foi pra rua”, prontamente respondido por um refrão crescente de “o povo na rua,elite a culpa é sua”. Recado dado, a elite recolheu o cartaz, riu um sorriso amarelo e continuou por ali mesmo, isolada pela atmosfera agitada em função de sua autoproclamada posição social.

Mas têm mais questões em jogo. Impossível não experimentar a excitação de ser atravessado pela potência deste acontecimento político, condição de um agenciamento-outro a ser maquinado e do qual quase nada se sabe de antemão. Exceto talvez a acolhida sempre mal-intencionada dos grandes meios de comunicação: vampirismo em ato das máquinas enunciadoras, com seus intérpretes de plantão e o desserviço de sempre, enquadrando e fixando uma moldura geral para o que pode ser dito e visto. A reboque dos interesses de cada conjuntura, geralmente operam para preservar a ordem instituída, e mesmo quando não é o caso, não deixam de canalizar e sobrecodificar os sentidos,fazendo-os sempre passar por um quadro pré-programado de referências. No telejornal da TV paga, a comentarista política revela que “a bolha da cordialidade comprada com os programas sociais estourou”. Gozo da maledicência.

No dia 22 de junho aqui em Belo Horizonte, após um início tranquilo de manifestação no centro da cidade seguindo para o Mineirão onde acontecia um jogo da Copa das Confederações, a situação mudou completamente. À noite, estes lugares transformaram-se em verdadeiras praças de guerra, com os ruídos das bombas de efeito moral e gás lacrimogênio lançados por helicópteros sendo ouvidos a quilômetros de distância. Os jornais locais noticiaram no dia seguinte que Os enfrentamentos começaram quando um grupo isolado desrespeitou os limites estabelecidos pela polícia nas proximidades do Mineirão. Demonizar sempre a desobediência à norma, eis o mantra seguido à risca, presente também na condenação incondicional ao vandalismo. O filtro do encadeamento causal dos acontecimentos opera sempre um julgamento e uma sentença, fazendo circular apenas os sentidos que interessam.

Fora do quadro do que pode ser visto e dito, existem questões que romperiam o falso naturalismo destas evidências. Como não considerar a ação cotidianamente violenta da polícia e do Estado em todos os níveis, dentro e fora das manifestações, todo o funcionamento, as alianças, as parcerias, os procedimentos obscuros, os modos de operação, o tratamento truculento reservado aos pobres, a produção das normas e leis, a gestão das ilegalidades, os grandes eventos esportivos e seus custos econômicos e sociais, as pressões, os interesses envolvidos, os apadrinhamentos, as negociações? Até mesmo os indícios da presença de quadros infiltrados da polícia incitando os distúrbios, relatados nas redes sociais mas sem maior destaque das grandes redes. Acrescente-se que sequer foi mencionada não só a presença acintosa da Força Nacional de Segurança Pública dentro do campus da UFMG, como sua participação ativa na repressão aos manifestantes.

A tarefa? Fugir das armadilhas de captura dos sentidos e ações e colocar-se à altura dos acontecimentos, ocupando um espaço-tempo outro e enfrentando as suas urgências. A primeira delas, vislumbrar não tanto o que este é de maneira determinada (tarefa jamais possível) ou qual será seu futuro, mas as possibilidades, no aqui-agora, de realizar as forças que pedem passagem. Aqui porque o possível de um agenciamento-outro não pertence a nenhum não-lugar utópico, e agora porque não virá no futuro. Não existe como promessa desencarnada, embora não esteja dado de antemão: tem que ser maquinado, produzido. A disputa pelos sentidos e ações não passa então por uma disputa de deciframento, interpretação ou designação submetidas à ação voluntariosa de um sujeito cônscio e senhor de suas motivações. Mais vale maquinar, produzir, compor com a irrupção que nos atravessa. Maquinação portanto involuntária; não porque seja contrária à vontade, mas porque não deriva automaticamente dela. Pensamos não porque nos conscientizamos de fatos, mas porque algo nos força a fazê-lo, porque fomos atingidos por uma força fulminante: porque a vida nos atravessou.

Ver o que está em jogo requer então a capacidade de rachar as evidências produzindo um outro tipo de vidência: a de apreender o intolerável e vislumbrar outras possibilidades. Referindo-se aos eventos de 1968 (impossível não confabular devires revolucionários diante do assombro da irrupção que experimentamos), Gilles Deleuze enfatiza que surgiram menos de uma tomada de consciência do que de uma mutação das sensibilidades: abertura de um novo campo de possíveis a partir de agenciamentos implicados no encontro com algo que irrompe e força o trabalho de criação. Por qual outro caminho haveria de ser apreendido o intolerável que cabe em “apenas R$0,20”, mas para o qual não há medida? Ou o intolerável da mediação do Estado em todas as dimensões da vida?

Quando encontramos brutalmente o que tínhamos cotidianamente diante dos olhos, agenciamentos caducam e outros devem ser criados. Mas produzir o que não está dado, ou seja, criar um possível, não equivale a realizar uma possibilidade. Qual seria a dimensão da reivindicação de direitos nas circunstâncias singulares do acontecimento político que experimentamos hoje,e que pede a criação do novo? Criar direitos/exercer direitos, criar possíveis/realizar possíveis: há correspondência? O salto para a existência encarnado no exercício de um direito (à cidade,por exemplo) bastaria para criar o agenciamento-outro capaz de abrigar as forças que pedem passagem na irrupção que nos atravessa? Maquinar por onde passa a sustentação destas forças é tarefa urgente: produzir o que não está dado, teorizar, problematizar, pensar, são canais de uma criação tanto mais inadiável quanto é perturbador o encontro que nos desloca e que nos põe frente ao intolerável.

O gigante acordou, bradam alguns cartazes. Melhor esconjurar o pesadelo, maquinando um sussurro mais potente: o desejo não é sonho e não dorme. Produz.

A atualidade de uma democracia do comum (Alexandre Mendes)

setembro 28th, 2013

Por Alexandre Mendes

1) Introdução

Escrever no momento em que tudo parece confuso e o campo de possibilidades de ação se mostra, no mínimo, turvo é um desafio. A tentação é ficar apenas observando, deixar os dias passarem, aguardar novas movimentações, a espera de um instante de clareza e calmaria no complexo campo de forças que se estabeleceu há duas semanas. Com certeza, seriam menores os erros e mais ágil o pensamento. A prudência manda ficar quieto e observar. Nas propostas de mobilização e atividades na rua, por um tempo, ganhou terreno o mesmo raciocínio. Seria tempo de deixar o mar revolto e amorfo passar, para depois voltar a remar na direção de um local certo e preciso.

Devemos correr o risco de atuar no sentido contrário, escrevendo, tomando decisões e propondo novas ações, a partir, exatamente, do coração dessa mistura caótica?

Creio que sim. E o retorno dos encontros para organizar novas ações caminha na mesma direção. O tempo está mais acelerado que nunca e não convém abandonar a nossa capacidade de conduzi-lo de forma virtuosa. Abandonemos o rigor disciplinar da “boa conduta e análise revolucionária” de lado em prol de uma abertura à experimentação e à tentativa de esboçar pequenos, instáveis, precários, mas permanentes mapas de luta e reflexão. Nada nos impede de, amanhã, amassarmos o papel e jogá-lo no lixo, de revertermos a frustração de uma ação mal-sucedida, por uma nova proposta de ação. Seríamos imprudentes? Ora, não seria a prudência, desde os gregos, o melhor antídoto para combater o medo e covardia ao possibilitar a realização de condutas em meio à surpresa, ao risco ou ao contingente?

A questão, então, não seria “agir ou não agir”, mas como agir no interior do atual campo de disputas e acontecimentos. Este parece ser o tom das discussões que tomam novamente as assambleias, plenárias, encontros informais e eventos políticos. Nosso esforço está direcionado para esse mesmo desafio. Não pretendemos pontificar nenhuma derradeira “solução” ou esboçar uma “manual” de conduta. Nossa tarefa é apenas lançar alguns pontos de reflexão, linhas de um mapa, que, espero, colabore com as recentes mobilizações.

2) A situação está melhor que antes. Saímos do consenso unívoco e silencioso para o dissenso generalizado e polifônico.

No momento em que ventos pessimistas se aproximam, é preciso declarar que, apesar de todos os riscos, a proliferação veloz das revoltas urbanas que tomaram o País nos coloca em uma situação melhor do que a anterior. O consenso que havia se formado a partir da dinâmica dos megaeventos, do neodesenvolvimentismo economicista, do projeto único de governo definido “de cima para baixo”, implodiu. O Brasil Maior se estilhaçou em inúmeros fragmentos lançados para todas as direções. No campo político, ele era formado por uma costura de alianças que paulatinamente foi cerrando todos os canais democráticos de dissenso e forçando as múltiplas visões e realidades a se reduzirem ao “Um”. Não por acaso, o Rio de Janeiro era o laboratório privilegiado desse fenômeno. O poder político, econômico e simbólico tentou nos fazer acreditar que éramos “Um Rio”, mas a cidade implodiu-explodiu recusando de forma selvagem a operação de redução. O somatório de forças, que foi apresentado como solução para a crise da ex-capital, se converteu rapidamente em um “rolo compressor” que atropelava tudo e todos.

Por mais que, na fumaça dos escombros, o “Um” esteja tentando se reafirmar a partir do avesso – a unidade do “povo” – a multiplicidade recuperou a sua capacidade de se afirmar politicamente e de se constituir como horizonte do possível. Nossa tarefa é evitar que ela seja novamente esmagada por um trágico encontro entre o Brasil Maior (em crise) e o “gigante que acordou”. Urge proliferarmos instâncias que multipliquem continuamente as diferentes formas de vida e de expressão. Afirmar uma paleta de mil cores que recusa uma só bandeira, garantirmos o direito ao dissenso contra todas as tentativas de reconstruir, em bases ainda piores, o consenso que o atual ciclo de lutas desmanchou. Ao que tudo indica, e ao contrário das previsões mais pessimistas, esse caminho tem se mostrado mais aderente às mobilizações que as ameaças fascistas realizadas nos protestos anteriores (agora reduzidas aos patéticos manifestantes que ocuparam uma Av. Rio Branco vazia).

Os riscos são novos, mas as oportunidades também. Saber aproveitá-las é um dos desafios mais complicados e instigantes do atual fazer-movimento. E deve começar agora.

3) O ciclo de lutas coloca em evidência a centralidade do direito à cidade. Estamos vivendo a primeira greve geral metropolitana.

Que a insurgência generalizada tenha se iniciado a partir de uma luta pelo direito à mobilidade não é mera coincidência. Se antes a cidade era o “suporte” para unidades de produção que determinavam diferentes usos do território segundo uma lógica disciplinar-fabril, comercial ou administrativa, nas ultimas décadas o urbano tem se constituído como o próprio terreno da produção e daquilo que é produzido. Uma produção social, difusa e permanente que não pode mais ser separada da chamada esfera da “reprodução”, aquela que corresponde à própria vida. Produção do urbano e da vida urbana não só coincidem como se alimentam mutuamente. As lutas que tradicionalmente foram (e ainda são) realizadas sob o signo das “condições de trabalho”, no urbano significam batalhas a serem travadas no campo dos serviços urbanos e sociais. A ampla aceitação da população ao movimento de redução das passagens e de melhoras no transporte público (inclusive “com baderna”, assustando o populismo televisivo) não traduz nada mais que a constituição de um terreno comum de luta, que é a “fábrica difusa” da própria cidade e seus serviços.

Está declarada a greve geral do trabalho metropolitano! As metrópoles pararam e mesmo aqueles que habitualmente são colocados pela mídia como “vítima dos transtornos” apoiavam enfaticamente a luta que se tornou incontrolável. O que já aprendemos dessa revolta é que, assim como os operários de diversas “categorias”, os habitantes das metrópoles podem se unir e se articular produzindo uma ação conjunta de efeitos impressionantes. Com as redes sociais (porque não a chamamos de o novo âmbito sindical, sem excluir aquele tradicional) isso pode ser feito em coordenação simultânea com centenas de cidades, no Brasil e no mundo. Foi o que nós fizemos e ainda soa inacreditável.

Não esquecer que as novas lutas em torno da dignidade da vida urbana incluem o próprio direito de produzir o urbano, na clássica e antecipada visão de Henri Lefebvre. Possuímos instituições que democraticamente permitem essa produção? Sem dúvida esse desafio está colocado, mas uma questão já é determinada: a greve metropolitana funcionou como um verdadeiro processo “destituinte” de formas de governança das metrópoles que monopolizam a prerrogativa de produção do urbano. A conquista dos vinte centavos representou uma vitória imensurável porque arrancou das mãos do governo e das empresas o poder de determinar, a partir de contratos suspeitos e gastos sigilosos, o preço da tarifa. A demora e a recusa dos governos em anunciar a medida, mesmo daqueles que deveriam ser progressistas, comprovou que o movimento adentrou na área do vespeiro. Uma fenda se abriu nas estruturas antes impenetráveis do público-privado.

O desenrolar do processo de luta acusou outro movimento “destituinte”, agora referente à urbanização VIP estimulada pela dinâmica dos grandes eventos, mas também pela especulação imobiliária com suas arquiteturas falsamente exuberantes (que escondem na verdade uma terrível miséria). A aceleração do processo de expropriação dos bens comuns, a imposição de uma estética e de formas de vida elaboradas pelo marketing previsível das empresas, o cercamento e a mutilação de espaços de alegria, de convívio e de encontro dos habitantes da cidade, a segmentação baseada na propriedade e na renda dos locais de entretenimento despertaram paulatinamente uma recusa radical do modelo. O “padrão-FIFA”, com suas zonas exclusivas e mordomias seletivas, ostentadas ao lado de serviços sociais degradados (saúde e educação), está sendo severamente questionado a ponto de se falar que “não vai ter Copa”. E a rua, que, na propaganda, deveria ser a maior arquibancada do Brasil, justamente para abrigar todos aqueles que se tornaram subitamente “sem-estádio”, se transformou no local dos novos enfrentamentos por outra forma de produzir o urbano.

Não se sabe, agora, se as grandes mobilizações de rua, com centenas de milhares de pessoas continuarão paralisando as cidades e mentalidades. Fato é que estamos vivendo uma desterritorialização do movimento, com pequenos protestos estourando em vários lugares ao mesmo tempo. As periferias e favelas, cuja participação muitos duvidavam, foi para a rua e escancarou a desigualdade do tratamento policial entre classe média branca e população negra e favelada. É ao mesmo tempo fabuloso e estarrecedor acompanhar a mobilização das favelas. Uma juventude corajosa e virtuosa vai para a rua mas as balas não são de borracha. Possivelmente, no Rio, esses protestos servirão para desnudar a violência policial extrema, de uma polícia que estava vendendo ao mundo a ideia de “humanização”, “pacificação” e aproximação comunitária. Seja em locais “pacificados” ou não, a total incompatibilidade da polícia militar com a democracia resta evidente. A continuidade dos movimentos nos colocará, por certo, uma chance única de desativar essa máquina de matar. Não podemos perder essa oportunidade.

4) A greve geral tem classe. Sua nova composição não está domesticada pela noção de “Classe C”

Diversos analistas tem, nos últimos anos, comentado a emergência veloz e significativa de uma “nova classe média”, representada pela camada da população que conquistou renda e novos espaços sociais no contexto do Governo Lula. Rapidamente, economistas, empresas e governos começaram a desenhar novos moldes para ajustar os novos consumidores em estratégias de venda e estímulo ao “empreendedorismo”. A periferia, e seus mediadores, adquirem uma nova centralidade, denominada por Marcelo Neri de “o lado brilhante dos pobres”. Como a metáfora indica, imaginou-se que a nova “Serra Pelada” poderia ser escavada pacificamente rendendo bons frutos a todos que tivessem lido o livro Mistérios do Capital (De Soto, H) e o colocado na cabeceira. Mas não só o capital, também a “classe” tem os seus mistérios.

Um deles é que a classe, longe de ser definida por traços sociológicos, é engendrada continuamente pelas lutas. A atual greve metropolitana, assim, funciona como um dispositivo que, ao mesmo tempo, é resultado dessa nova composição de classe e funciona produzindo essa classe. Essa produção é aquela correlata à própria produção do urbano e suas múltiplas centralidades. Não é por acaso que no início das mobilizações encontrávamos a expressão mais potente dos novos personagens que entraram em cena: os jovens que conquistaram novos espaços sociais (entre eles a universidade), novas condições de desejar e lutar, e que também atravessam e compõem diversas formas de organização política. O terreno de disputa deles é a cidade, seus usos e suas possibilidades. Uma fina e quase invisível articulação, com o tempo, foi sendo tecida até que a redução da tarifa se colocasse como ponto de encontro das muitas e variadas dimensões dessa nova composição. Os jovens gritavam palavras de ordem, os senhores de idade, os pais e as mães, aplaudiam. A “classe C” que era pra ser domesticada pelo consumo, pela polícia de pacificação e pela “formalização” autoritária, entrou num processo rápido, intenso e insurgente de “fazer-multidão”.

A greve metropolitana, então, pode nos servir para uma ampla revisão e reflexão sobre as políticas destinadas à domesticação da classe que se institui no processo de luta. Nos processos de “integração” sonhados pelos ideólogos da Prefeitura do Rio, por exemplo, imaginou-se que a “nova classe média” iria adentrar no setor de serviços de maneira pacífica e ordeira, mesmo com sua prestação péssima e suas tarifas altíssimas. Pensou-se que os jovens (e antigos comerciantes) desejariam ser novos empreendedores da cidade-empresa. Que os moradores de favela deveriam ser removidos para “empreendimentos” do Minha Casa, Minha Vida, para ter uma moradia digna. Que, para trabalhar, os ambulantes precisavam ser regularizados e disciplinados a partir de pontuações estúpidas e determinações servis. Que os jovens que produzem cultura, novas mídias, tecnologias e linguagens, deveriam ser controlados pelos recentes museus da Fundação Roberto Marinho e pelas baboseiras da “cidade criativa”. Mas eles não querem nada disso! Querem produzir o urbano a partir de formas de sociabilidade autônomas, horizontais e democráticas. E, para isso, é preciso conquistar mais direitos, serviços urbanos, espaços, liberdades e se apropriar de muito mais riqueza do que a promessa de crescimento gradual oferece.

Muito mais que uma sociológica “nova classe média” o que estamos vendo é a constituição da classe como produção de subjetividade: uma construção política que resiste a todas as estatísticas. A intensidade dessa produção explica como pode haver um extraordinário levante insurrecional num ambiente que era visto como consensual politicamente e estável economicamente. Os “determinantes objetivos” se demonstram inócuos exatamente porque não perceberam a dimensão ontológica, radical e produtiva da nova subjetividade.

Os tecnocratas neoliberais, cada vez mais bajulados pelos governos do PT, não só não compreendem esse fenômeno, como insistem em políticas que, se não são inúteis e ineficazes, são verdadeiramente antidemocráticas. Uma economista carioca, que ocupa lugar de destaque, chegou a imaginar que a combinação entre o mercado financeiro e o terceiro setor pudesse apresentar projetos “sustentáveis” para a favela! Mas estão todos quietos e assustados agora. E é preciso aproveitar a onda de protestos para acertar as contas e substituir os “teóricos da domesticação” por novos quadros que compreendam em sua dimensão virtuosa e selvagem o trabalho e o desejo da multidão.

O que parece claro é que neoliberais e neodesenvolvimentistas foram desafiados por uma dupla recusa: a do Brasil Maior que gradualmente transformaria a classe que luta em “classe média” através de um programa de estímulo ao crescimento e pleno emprego e com a homologação do crédito e do consumo; a da cidade-empresa que a integraria a partir da dinâmica dos serviços (ineficientes e caros), do “empreendedorismo” cultural, terciário e “criativo”. Os megaeventos deveriam pavimentar essa ponte e conectar os nós das metrópoles-empresas na grande rede do Brasil Grande. Mas tudo isso está ruindo… E o que aparece agora em contornos reais é tão somente a crueza da violência da polícia e dos governos.

5) Evitar as identidades, fazer ranger a forma-partido

Quem percorreu as reuniões do campo progressista, que ocorreram no ultimo final de semana (dia 22.06), percebeu que, em alguns militantes, havia uma vontade subliminar ou expressa, talvez justificada pelo medo e pela incerteza, de que tudo voltasse ao que era antes. “Pelo menos não tínhamos o risco do fascismo e nossas bandeiras não eram atacadas”. Algumas propostas eram bastante reativas, como a formação de uma “frente” para defender as cores, tradições, bandeiras e protocolos do movimento de esquerda. Se o fascismo aparece como situação tão problemática como minoritária (espero!), aquilo que, de fato, chama a atenção é a base social ampla que apoiou e veiculou as críticas aos mecanismos internos e externos dos partidos políticos. A extrema-direita tentou surfar nessa onda, mas o fato é que, ainda quando os protestos eram pequenos, muitos militantes apresentavam a preocupação em se manter a autonomia do movimento e evitar uma prejudicial cooptação. E depois de terem sofrido uma injusta e repugnante violência (nos atos maiores), que foi apoiada por uma intensa e sonora vaia, os partidos políticos ou ficaram reativos-identitários ou nunca mais serão os mesmos.

A segunda opção parece ser a mais promissora, no sentido de alavancar novos agenciamentos coletivos que possam atravessar virtuosamente a chamada “crise da representação”, multiplicando âmbitos inovadores de organização e produção luta. O desafio parece ser, ao mesmo tempo, evitar o desgastado vanguardismo, que irrita tantas pessoas, e a cooptação oportunista dos fluxos de mobilização jovem, como bem registrou Giuseppe Cocco no artigo “Não existe amor no Brasil Maior” (Le Monde Brasil), que antecedeu, em dias, o poderoso levante democrático que estamos vivendo. Nem o partido-fábrica, com seus gerentes, cadernos de ordem e disciplina, nem o partido-financas, com a cooptação móvel e flexível dos fluxos produzidos autonomamente pela luta. Será possível reinventar os partidos de esquerda na direção de uma espécie de teia rizomática, que permitiria a livre e potente expressão de vários pontos ou nós articulados e insurgentes? Eis uma questão que está, a meu ver, colocadas pelo atual ciclo de lutas.

6) Manter o poder constituinte da mobilização: produzir o comum

Da mesma forma que, em quinze dias, saímos do consenso silencioso para o dissenso generalizado, também realizamos uma profunda mudança na pauta política “oficial”. Em um governo tecnocrata e frio, que nunca ou pouquíssimo escutava os movimentos, e que só entoava os termos “modernização”, “enfrentamento dos gargalos”, “exportação”, “crescimento do PIB”, “grandes empreendimentos” etc., conseguimos introduzir uma nova gramática e o retorno da palavra “política”, anunciada como objeto de reforma. A centralidade dos direitos sociais e a relação entre movimentos/mobilizações sociais e governo voltaram para agenda da Presidência, embora tudo ainda seja uma incógnita.

A reforma política anunciada pela via da “constituinte exclusiva”, agora apenas por plebiscito, está longe de ensaiar qualquer solução para o impasse, mas também não deve ser descartada como abertura para novas reflexões e ações. O problema jurídico era esperado e o constitucionalismo revela o seu principal e cômico limite: a incapacidade de lidar com as transformações sociais e o poder constituinte das ruas, sempre relegados (e pessimamente estudados) ao momento pré-constitucional e institucional. Daí o vai-e-vem das opiniões jurídicas e os limites da “técnica” constitucional moderna. Se é fácil afirmar que o constitucionalismo é o trunfo contra as maiorias para que os direitos fundamentais não sejam violados, muito mais difícil é conceber uma constituição aberta às mobilizações radicalmente democráticas e que não se apresente como uma “pedra” no nosso caminho. Essa é outra tarefa colocadas pelas lutas, e que deve tirar os juristas do seu conforto repetitivo e solene.

A questão central, por outro lado, não parece ser promover um arejamento institucional de viés democrático (embora isso seja recomendável e importante) que simplesmente responda à mobilização. Algo pensado como uma espécie de remédio para curar a nossa vontade de ir para a rua. Qualquer resposta colocada nesses termos pressupõe um desejo de fechar o processo, concluir as insurreições. Mas, pelo contrário, o tormentoso, empolgante e necessário desafio parece ser pensar a própria democracia como uma abertura permanente à mobilização e aos processos instituintes. Não operar respostas reativas mas promover espaços políticos permanentes que possam manter a relação entre mobilização e governo como um processo de textura aberta. Nesse sentido, a melhor “solução” que o governo poderá ter diante dos protestos, é tomá-los como uma verdadeira arte de governar: forçar o aprendizado, deixá-los penetrar, deixar-se afetar constantemente, permitir o atravessamento, criar uma pedagogia da insurgência que possa aquecer a máquina que governa, friamente, os assuntos públicos.

Sabe-se que os nossos mais valiosos militantes, intelectuais e políticos se dedicaram, desde os anos 1980, a pensar, em geral, uma democracia participativa e descentralizada, de bases locais ou não, que privilegiasse o acompanhamento da população interessada e afetada nas 9políticas implementadas pelo Poder Público. E assim foram imaginados alguns importantes capítulos da 9Constituição Federal e legislações que tratam da saúde (SUS), da cidade (Política Urbana, art. 182, e o Estatuto da Cidade), da cultura (a recente “PEC da cultura”) e da educação (LDB e FUNDEB). Essa partitura de âmbitos institucionais expressam, sem dúvida, o resultado das mobilizações que ajudaram a democratizar o Brasil e lutaram contra o estado centralizado e burocrático da ditadura militar.

No entanto, os mesmos sujeitos citados acima são, hoje, aqueles que mais criticam e identificam uma crise ou um impasse na efetividade e na eficácia desses instrumentos de democracia participativa. De que forma as recentes mobilizações podem nos ajudar a romper essa crise? É possível pensarmos em uma democracia baseada, não apenas na participação, mas, principalmente, na mobilização? Uma democracia que animasse ou transformasse as “instâncias participativas” em verdadeiras “mobilizações instituintes” de caráter permanente?

Seria, sem dúvida, presunçoso querer dar uma resposta a essa questão. Se é certo que a proliferação de “instâncias sem o instituinte”, ou seja, de âmbitos que se tornaram falsamente democráticos, faz parte das inúmeras razões das lutas atuais, a possibilidade de se manter uma transformação constituinte, que não se confunde com a reforma, só poderá ser dada pelo próprio movimento.

Dentre as inúmeras arapucas montadas para esvaziá-lo, existe aquela da dicotomia entre público e privado. Se a crise do Estado Social leva consigo, progressivamente, a existência dos serviços estatais, que eram movidos por grandes blocos de representação política e por fortes investimentos e instrumentos fiscais, o rearranjo neoliberal que, no Brasil, a partir, principalmente, de 1995, colocou na agenda o chamado “Estado regulador”, baseado na expansão das concessões e permissões ao setor privado, jogou as políticas públicas num buraco negro de negociações fechadas, escusas e antidemocráticas. A regulação pública autônoma, a prometida eficiência e regularidade dos serviços, a modicidade das tarifas e a segurança do usuário não só se converteram em “mitos”, como começaram a gerar um sentimento justificado de revolta e indignação da população.

Daí que a dupla-crise exige não só a aposta na participação, mas, a imaginação de serviços que, para além dos estatais ou privados, sejam serviços comuns. É a hora de rompermos as subordinações que os usos e os bens comuns possuem com relação ao Estado e ao Mercado e afirmar a nossa capacidade de gerir os serviços a partir de formas compartilhadas e radicalmente democráticas que caminham, passo a passo, com a produção social e comum do urbano. O que o movimento pela Tarifa Zero demonstra de interessante é que os custos para se viabilizar a cobrança pública ou privada das tarifas são altíssimos e acabam por bloquear a produção do comum urbano pela imobilidade.

Não seria essa a discussão que se dá em diversos campos que colocam a “expropriação do comum” como um dos problemas centrais do capitalismo contemporâneo? O saque realizado nas redes da cibercultura, na produção de saberes, nas terras e florestas, nos recursos ambientais, na própria linguagem, nas formas contemporâneas de trabalho e nos nossos modos de vida. O “padrão-FIFA” são seria uma autêntica máquina de expropriação das paixões, do esporte, da cultura e dos comuns urbanos. Que tenhamos vivido um poderoso levante, um dos maiores do mundo, contra essas formas de apropriação é de fato incrível.

Como realizar políticas do comum? Sabemos que para efetivar de forma justa a tarifa zero precisaríamos supor que todo o orçamento público e todo o faturamento privado, ou seja, todo a riqueza produzida de forma comum, possa se abrir para um amplo debate de opções, escolhas e decisões compartilhadas. “Queremos as planilhas e queremos decidir agora sobre elas”. Vejam que todas as “instancias” de decisão e todo o resultado da produção devem se abrir no mesmo movimento. O que se denomina “caixa preta” dos transportes é exatamente o ponto nevrálgico da relação público-privado que alimenta a expropriação da produção urbana. Poderíamos imaginar uma implosão de todas as caixas-pretas que estão plantadas e que funcionam como saqueadoras da produção do comum urbano (na saúde, na educação, nas obras públicas, na construção civil, nos empreendimentos imobiliários, nos serviços, nas empresas terceirizadas, das relações de trabalho, no lazer, no turismo etc.)? Poderíamos pensar sua substituição por “caixas do comum”, pelas quais a multidão retoma a capacidade de decidir sobre as políticas públicas e retoma a riqueza produzida em comum.

Decerto, não estamos falando de um “grau zero” da política. O comum já está dado e já existe na produção de uma gama infinita de organizações urbanas, movimentos sociais, arranjos comunitários, informais, redes metropolitanas, âmbitos de discussão, proposição e reflexão, institucionalidades abertas, fóruns públicos e expressão singulares dos habitantes da metrópole. O comum não é só o resultado da produção do urbano, mas também sua própria produção.

Adotar a pedagogia insurgente e a força das mobilizações como arte de governar é abrir a esfera de decisão para esse repertório-sem-fim de atividades e iniciativas difusas e entrelaçadas. Os projetos alternativos da Vila Autódromo, do Horto, da Providência, a contra-agenda que as favelas colocam às UPPs, as discussões sobre a linha 04 do metrô e o modelo de transportes, as formas democráticas existentes de prevenção do risco nas encostas, a ocupação cultural e criativa do espaço público, os usos e os sentidos que os habitantes cotidianamente conferem à cidade, o trabalho dos ambulantes e precários, as alternativas pedagógicas na educação, a produção de novas redes de cuidado e de controle democrático na saúde, os fóruns que buscam uma abertura no monárquico sistema de justiça, as redes de comunicação autônomas e de mídia livre, são algumas expressões coletivas e singulares dessa produção que busca incessantemente novas instituições democráticas.

Nesse sentido, a mobilização que estamos vendo nos últimos quinze dias pode ser vista como um mobilização do comum. Os reclamos por uma pauta única não fazem mais sentido aqui. E também perderam o sentido aquelas pautas específicas que pressupõem que a vida urbana seja separada em gavetas distintas e incomunicáveis. O que temos de especial é uma multiplicidade de pautas, de exigências e de possibilidades que afirmam a dimensão comum do urbano, aquela que não se reduz nem aos fragmentos das políticas setoriais, nem à unidade das políticas prioritárias. “Queremos tudo e agora”, afirmam os jovens que estão violentamente pacíficos nas ruas e que foram aplaudidos pela população.

Conectar esse desejo de transformação a novas instituições do comum, encontrar uma democracia das mobilizações que inove radicalmente as estruturas políticas existentes, são desafios riquíssimos que, a meu ver, o movimento tem pela frente. E não estamos falando de uma utopia distante pela qual devemos sonhar e direcionar candidamente o olhar. Trata-se simplesmente de produzir novos âmbitos políticos adequados às formas de vida que já estamos vivendo. Por isso, a alternativa não está nem além, nem aquém, da atualidade. Romper os constrangimentos, irromper o que nós já somos e produzir a atualidade do real, eis uma agenda vibrante para os próximos dias.

O monstro vive nos ônibus (Clarissa Moreira e Bruno Cava)

setembro 27th, 2013

AA

«As coisas nunca se passam lá onde se acredita,
nem pelos caminhos que se acredita.»
Gilles Deleuze

« Eu vou sair, eu vou trampar
Só não sei como eu vou chegar
Se eu vou de ônibus ,vou no sufoco
Pegar carona é coisa de louco
Eu vou de skate até a estação da luz
Daí em diante o expresso me conduz
Dentro do trem , da super lotação
Por cima do trem é alta tensão”.
Surfista de Trem (Mente Explícita)

Não foram tanto as expropriações, demolições, desocupações movidas pelas obras preparativas para os grandes eventos, nem os gastos injustificados de recursos públicos ou a estranha montagem de operações imobiliárias, nem a demolição do patrimônio das cidades, nem mesmo a histórica precariedade na saúde, educação ou a expulsão e assassinato dos índios que levou a todos para a rua… A causa comum – a gota d’água – foi mais um aumento da tarifa dos ônibus. Apenas vinte centavos deflagraram a maior revolta da geração, atiçando mais de 1,5 milhão de pessoas às ruas, em pleno período da Copa das Confederações.

O processo de «construção» das cidades brasileiras baseado no modelo centro-periferia, em um ponto crucial, recai sobre os ônibus como um dos meios principais de circulação na cidade, com todo o sistema de transporte e sua insuficiência histórica como violência final. É nos ônibus, afinal, que uma das maiores e mais universais violências de classe é exercida, na metrópole brasileira. Superlotado, ao mesmo tempo lento e perigoso, é nele que os pobres enfrentam um dia de trabalho. Esmagado por todos os lados pela carne alheia, disputando espaços comprimidíssimos em tempos de viagem cada vez mais dilatados.

Não por acaso, os ônibus também são os depositários de uma resistência difusa, mas nem por isso menos concreta. Nem por isso menos tensa, em antagonismo e raiva. Quantos casos não ouvimos de brigas entre passageiros e motoristas ou cobradores, que, num caso extremo, chegou a derrubar um ônibus do viaduto? Quantos casos de depredações isoladas? Ou incêndios de veículos? Nosso cinema não deixou de enxergar aí uma cifra do conflito urbano, de retratos criminológicos, como Ônibus 174, até dramas eróticos, como A dama do lotação. Nosso noticiário é rico em crônicas desse gênero, em atos de violência miúda, brigas, delinquências, pequenos tumultos – tudo isso que a imprensa se apressa em classificar como vandalismo, esvaziando o fato de conteúdo político para dar-lhe um aspecto unicamente criminal. A resistência se diz de muitos modos.

Se o mercado é um moinho satânico, como gostava de chamar Polanyi, é no transporte coletivo, o momento da circulação daquele, que o trabalhador é feito paçoca. Milhões de horas jamais remuneradas, pelo contrário, taxadas a preços sucessivamente maiores, sempre gastando a paciência, o bom humor e o elã de quem passa pelo moedor. A pessoa só quer chegar em casa logo e tomar um banho, livrando-se de mais um dia. Não tem tempo para vida cultural, que dirá política. Daí que, ao tensionar no momento da circulação, ameaça o próprio mercado, pondo em curto-circuito o fluxo de vida-trabalho. A luta pelo ônibus – ou melhor, pela mobilidade vital – concita uma luta maior, pelo direito à cidade. O transporte é o lugar onde massivamente e difusamente um projeto de cidade ao qual se é fiel por mais de um século, se choca diretamente com os corpos.

Vê-se como tem um mundo de indignações e desolações nos 20 centavos, esses que foram o estopim dos levantes de junho do Brasil. O rastilho de pólvora já estava no ar, faltando apenas a faísca. E ela veio, quando o Movimento Passe Livre – herdeiro imediato da Revolta do Busu (2003) e da Catraca (2005), e distante da do Vintém (1880) – convocou a população para as ruas, e foi imediatamente atacado pela brutalidade policial. O movimento multiplicou a olhos vivos e espraiou-se por todo o Brasil, das cidades grandes às médias e dos centros aos bairros mais distantes. A gente explodiu dos ônibus, integrando as tensões, rebeldias, delinquências e pequenas sabotagens em um grande ato coletivo de recusa. A « consciência de classe » não veio dalgum partido ou movimento social, não veio da « esquerda tradicional », mas emergiu desde baixo, formulou-se corporalmente da própria monstruosidade que habita os ônibus, seu dispêndio cotidiano de carne moída e tempo morto. O monstro é feio, suado, imprevisível, mas ruge. Ele é perigoso e constituinte e ameaça o Olimpo da cidade.

A grande imprensa, a serviço das elites, não tardou em forjar dicotomias para separar o bom manifestante do ruim, enquanto tenta sequestrar a pauta – o direito à cidade, à dignidade urbana, ao tempo –, transformando-a em vagas reclamações contra a « classe política ». Usa as táticas de sempre : criminalização dos movimentos, redução do conteúdo político ao crime, conversão da revolta a vandalismo e nonsense. O terror policial, tão comum no território das favelas, generalizou-se. Querem que passe logo, que tudo volte ao normal. Como se os dias incríveis que estamos vivendo fossem apenas um furor neurótico.

Neuróticos ficaram eles, enquanto proliferam passeatas, encontros, fóruns, discussões, novos espaços e tempos para a produção cultural e política. Uma mobilização à altura do que foi o começo da década de 1980, só que noutros termos. Não mais em termos representativos : a dita «consciência de classe » saiu dos partidos e sindicatos. Prescinde de conscientização, já está. Dos ônibus às ruas, e destas a organizações de novo tipo, inaugurando um ciclo de lutas de grandes proporções, com consequências impactantes.

Parem de punir o meu corpo (Natália Damazio)

setembro 27th, 2013

Por Natália Damazio

Dentro dos atuais movimentos pelo direito à cidade, uma disputa por participação política ativa e libertação da dominação dos corpos é travada nas ruas. Nestas lutas emancipatórias, incluídas em contextos políticos institucionais que remetem a retrocessos, a questão do Estatuto do Nascituro (PL 478/2007) torna-se uma discussão chave. O Projeto de Lei ignora a mulher, a invisibiliza, e elas tomam as ruas.

Apontando um descompasso entre os desejos singulares e as propostas vindas do poder estatal, o Estatuto do Nascituro expõe a luta entre uma tentativa de dominação absoluta do Estado sobre os corpos e uma necessidade incontrolável, visceral de emancipação. Dentro deste contexto, a mulher reivindica a liberdade para ser o que ela deseja ser, afastando a dominação imposta pelo patriarcalismo.

O Estatuto do Nascituro tem como seu principal eixo, dar uma relevância maior a uma expectativa de direitos (do nascituro) em detrimento do próprio direito da mulher, transparecendo a violência que tenta forjar o corpo desta em oco, reduzindo-a em um útero. A disputa se dá pelo termo vida e seu significado, que no projeto reproduz apenas os conceitos patriarcais de mulher como exclusivamente mãe, sem direito a ser vista como sujeito de fato, e o produto da concepção (feto) como bem supremo a ser preservado.

Para início, cabe ressaltar alguns pontos fundamentais que nos apresentam a questão do aborto, principalmente se analisado sobre o enfoque do Estatuto, como fruto de uma política que visa a “coisificação” feminina, tentando moldá-la em objeto de mero controle: o aborto permanece sendo tratado como uma questão penal; é criminalizador da própria feminilidade, ao considerar que a decisão da mulher sobre o seu corpo deve ser ou não autorizada pelo poder estatal; violenta a mulher ao propor como solução à proibição de aborto em caso de estupro, a pensão alimentícia do próprio estuprador (o que relega a mulher à a reviver o trauma) ou a “bolsa estupro”.

Esta colocação da mulher em posição de corpo que apenas serve para reprodução, sem desejos e vontades, é fundada em uma moral religiosa que permeia o imaginário social (e ainda mais fortemente os aparelhos do Estado), somada às influências punitivas de controle e disciplina, tão presentes no sistema penal. É uma soma de valores liberais instituídos sob o dispositivo biopolítico de controle de corpos e coisificação de grupos (cujas singularidades são ignoradas) e um sistema patriarcal de desconsideração da potência feminina. A característica presente de punitividade dentro do Estatuto remete ao seu primeiro projeto, prévio à reforma que suprimiu as alterações do Código Penal, na qual o aborto deveria ser tratado como crime hediondo. A própria justificação do projeto aponta para países que compõem sistemas inquisitoriais e altamente punitivos de grupos minoritários e oprimidos, como, por exemplo, os Estados Unidos.

Este viés de tentativa de criminalização, punição e violência contra a mulher se dá, justamente, pela normalização do conceito desta como ser desempoderado, cuja singularidade deve ser submetida não apenas à vontade do homem, como a relegada ao reconhecimento desta apenas como mãe, e não sujeito.

Porém, no espaço de disputa emancipatória que vinha se tornando embrionária há alguns anos, culminando nos recentes protestos, coloca-se em foco a luta pela liberdade com seu próprio corpo (luta pela qual as mulheres já ocupam as ruas por anos), de se definir como acredita ser melhor e não rotulada por conceitos inerentes à ideia da “boa moral”.

O Ato contra o Estatuto do Nascituro tomou as ruas de Copacabana (e várias outras no Brasil, simultaneamente) no dia 15 de junho, composto por mulheres de todas as formas, jeitos e crenças em luta por sua emancipação. As pautas corriam variadas e a multidão, com toda a sua complexidade, travava uma luta comum em busca de sua liberdade de escolher, sem ser punida por possuir o seu próprio corpo, corpo animado por desejos e vontades que transcendem os padrões pré-constituídos ou expectativas impostas. Todas liberando a potência de se aceitarem como são e defendendo o direito de poderem ser aquilo que desejam ser.

Com frases como “Meu corpo, meu direito” e “Eu decido sobre o meu corpo”, o ato se insere neste novo feminismo presente na Marcha das Vadias, que defendem o prazer e o poder sobre o corpo na própria mulher – feminismo que inclui, mas não se define pelo feminismo tradicional, que cria uma oposição homem e mulher- visando o afastamento das concepções patriarcais de dominação absoluta dos corpos. Nas ruas, as mulheres resistem.

Um dia para se lembrar (Vladimir Santafé)

janeiro 26th, 2013

tanksbig

As multidões tomaram as ruas. Descontrole, excesso, multiplicidade. Os devires minoritários conectaram-se às redes de informação e autoprodução social e econômica, tomando as ruas, sempre nas ruas, no asfalto pisado das gentes que se pintam de todas as cores e ideias, onde todos os possíveis se encontram e se confrontam. Uma produção desmedida de subjetividades, e totalmente encarnadas no concreto, no dia a dia das vozes que resistem à exploração e expropriação capitalistas, reinventado a própria vida. Não há espaço para dialéticas, dos contrastes, nascem “monstros” cheios de sangue e vontade em suas bocas, querem devorar a cidade que lhes foi tomada, saqueada, pilhada pelos novos senhores do Império made in Brazil. Há, como pano de fundo, uma teia de complexidades que deixariam um matemático atônito, as infinitas conexões de Leibniz nos remeteriam de “novo ao mar”, onde novas conexões seriam refeitas e desfeitas. Seria preciso uma escrita-fluxo, uma escrita nômade para reconhecer e identificar o que foi ou o que está a se fazer, em processo ininterrupto e neste exato momento, a manifestação que reuniu quase 1 milhão de pessoas, bandeiras, palavras de ordem, cartazes, gritos, centelhas e cigarras (os que misturam o trabalho ao canto); da zona sul à favela, das periferias ao centro, em movimento centrífugo, num certo lugar cujo nome tornou-se sagrado, no melhor sentido do sagrado, na mais pura imanência do sagrado – um encontro da terra com seus amantes, fluxo orgástico de singularidades. Um dia para se lembrar.

“Eu vi um monstro, um monstro com mil braços, mil pés e mil olhos, e ele era horrível e belo ao mesmo tempo.”

O MPL, Movimento pelo Passe Livre, em vias de reconstrução no Rio de Janeiro após um período de fragmentação das lutas e rebaixamento das suas pautas, tomou as ruas da cidade de assalto, espalhando-se por todo os seus cantos e poros. Sua luta contra o aumento das passagens envolveu toda a gente que anda e vive sobre ela, isto é, camelôs, funcionários públicos, moradores de rua, comerciários, advogados, professores, etc. O cognitariado urbano uniu-se à potência dos pobres. A vertigem que os secundaristas criaram mobilizou os corações e mentes que andavam adormecidos.

Desse grande despertar surgiram demandas reprimidas e incontidas que se espalharam pelas ruas como um enxame: “Não queremos Copa, mas Saúde e Educação”, “Pelo Fim da Corrupção”, “Contra a Cura Gay”, “Ideias são à prova de bala (de borracha)”, “Contra o Racismo”, “Onde está o Bonde de Santa Teresa?”, “Contra as Remoções”, “A Cidade nos Pertence”, vozes que juntaram-se à massa multitudinária que ocupou de uma só vez os espaços incompletos da cidade e ecoaram suas reivindicações país e mundo afora, nos reensinando a falar. Dentre uma das pichações nos muros da Av. Rio Branco lia-se: “Um país mudo é um país que não muda.” Misto de arrepio e encantamento, eu estava diante de um momento histórico. Todos os momentos são históricos, mas alguns falam mais alto. As revoluções, como escreveu Kant, são fruto do entusiasmo.

O “monstro”, no entanto, tem mil pés e mil braços, para o meu espanto e comicidade, também vi renascer a bandeira do Império brasileiro com seus brasões de Orléans e Bragança estampados num fundo verde e amarelo. Num tempo em que a escravidão era uma norma e os brancos uma raça superior – um tempo que deve ser esquecido, mas reavivado pela memória – para nunca mais retornar -, pelo movimento negro que também estava presente, ativando a luta contra o racismo capilar dos poderes que nos cercam e formam o gosto e os valores da maioria, das salas de aula aos cultos evangélicos que demonizam a cultura negra, mas também contra o racismo instituído pelo Estado através da violência policial, o assassinato em massa da juventude negra que reside nas periferias, e a negação de seus direitos, uma outra forma de assassinato que o biopoder sabe utilizar muito bem, quando trata da saúde e da doença das populações, isto é, daqueles que merecem recebê-la e daqueles que não a merecem. Um pouco mais tarde, nos muros da Av. Presidente Vargas, o antagonismo se materializava na frase “pelo fim dos impérios!”

Os braços do “monstro” são tentaculares, um cartaz defendia o neoliberalismo, “Menos Estado, mais Mercado”, outro sustentava as palavras de ordem da grande mídia como uma verdade suprema, bem ao gosto dos pastores, um fim em si mesmo, apocalíptico, defendendo com os olhos “esbugalhados de ódio” os discursos consensuais que a mídia produz para conservar o poder dos 1% que expropriam e exploram o trabalho comum da multidão. A bandeira do nacionalismo sem partido ganhou força entre os manifestantes, assim como o discurso antipartidário, estimulado pela grande mídia e pelos partidos da direita, dos programas políticos lançados após a cobertura das manifestações pelo país, como o do PPS (Partido Popular Socialista), aliado aos liberais conservadores do DEM (Democratas) e aos neoliberais do PSDB (Partido Social Democrata Brasileiro), dos comentários mais reacionários de Arnaldo Jabor, que inicialmente gritou que “os jovens que se manifestam não valiam 20 centavos”, ao oportunismo desavergonhado dos apresentadores dos telejornais, cuja pauta no momento se dirigia, principalmente, ao enfraquecimento do PT (Partido dos Trabalhadores) no poder, mas também à incitação da violência aos militantes dos partidos de esquerda presentes nas manifestações, como a matéria onde militantes do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) são cercados e ameaçados pela massa em frenesi fascista, ou na imagem, diversas vezes repetida pelos noticiários, de dois manifestantes ensandecidos rasgando a bandeira da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Sobre essa questão, o próprio MPL de São Paulo lançou uma nota que condenava a ação dos grupos paramilitares da extrema direita e de alguns poucos manifestantes empolgados ou idiotizados pelas palavras vomitadas pelos meios de comunicação, dizendo-se apartidário, mas não antipartidário, admitindo, inclusive, a construção conjunta das pautas do movimento com os partidos de esquerda que o compõe. E esta nota reflete a posição do movimento nas principais cidades do país.

As manifestações que vimos dominar as ruas e o cenário político do país, forçando a presidenta Dilma a convocar uma reunião extraordinária com os prefeitos das principais cidades do país e os governadores da federação, para discutir um plano emergencial de mobilidade urbana e maiores investimentos nas principais demandas dos manifestantes, saúde e educação, além da força motriz do movimento, a melhoria e o desenvolvimento dos transportes e o fim do aumento abusivo das tarifas, antecipando e pressionando sua própria base governista, inicialmente avessa, a aprovar 100% dos recursos do petróleo para a educação, tal como a reforma política ou o financiamento público das campanhas eleitorais, que impede os lobbies empresariais, mas não ultrapassa a hierarquização partidária que se consolidou até então, não teve uma direção, mas várias. Além, é claro, do recuo do aumento das tarifas em quase todas as cidades do país. Realidade que há pouco tempo atrás, devido ao apoio maciço da grande mídia, de todos os setores do governo e praticamente todos os poderes do Estado (com algumas raras exceções e parcas, mas possantes, vozes no legislativo e no judiciário), da imensa votação que os mandatários tiveram nas urnas e do apoio incondicional do próprio governo federal, seria inimaginável se não fosse pela força multitudinária das ruas. Esta é e foi uma manifestação formada pelas redes, inspirada pelo recente movimento de ocupação das ruas na Turquia, movimento muito próximo da luta que travamos contra a elitização das cidades pela proximidade dos megaeventos, e que não se resume a um ou dois meses, mas a anos de luta contras as remoções, da resistência das ocupações urbanas ao capital imobiliário e ao racismo estatal dos planos governamentais, à mais recente luta dos moradores do Horto na defesa de sua moradia e dignidade.

Além de uma “remota”, mas consistente, influência da Primavera Árabe, paradigma da resistência popular ao autoritarismo dos governos, sejam eles ditaduras ou democracias representativas reféns das grandes corporações. Com a diferença que, dessa vez, e talvez em toda a história da democracia mundial, pessoas não organizadas, em sua grande maioria, desceram às ruas aos milhares e em várias partes do continental Brasil e defenderam suas causas sem medir as consequências dos seus efeitos, espalharam suas reivindicações nas teias das redes sociais e das cidades, estabelecendo uma conexão entre elas, como se o virtual tivesse a necessidade premente de se atualizar, de ganhar as ruas e ser ouvido.

Os olhos do “monstro” estão nas ruas, mil olhos que enxergam além, que ultrapassam o conformismo das massas e conquistam seus espaços com alegria e liberdade, potencializando seus corpos e mentes na multidão. Mas também se encontram na repressão aos movimentos, dos olhos que atravessam o Facebook e perseguem os militantes e ativistas, cerceando seus direitos e voz, aos olhos da polícia, que perseguiu dezenas de manifestantes cidade afora, com balas de borracha e gás lacrimogênio, do Centro da cidade até Laranjeiras, segundo os relatos que recebi de companheir@s, muitas vezes prendendo-os sem provas ou simplesmente os ameaçando.

A crise de representação ou o coronelismo não está morto

Um companheiro da militância que esteve presente às duas últimas manifestações organizadas pelo MPL me disse que se tivéssemos um partido com um projeto revolucionário, de derrubada do poder burguês ou hegemonicamente burguês, neste momento, faríamos uma revolução no país. Na primeira manifestação, dezenas de manifestantes, talvez uma ou duas centenas, forçaram a ocupação da ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) durante 3 horas seguidas, enfrentando a polícia militar com pedras, coquetéis molotov, pedaços de pau, formando barricadas com o que tinham às mãos.

Na segunda manifestação, na qual estive presente, os manifestantes tiveram a mesma disposição de enfrentamento, mas agora contra a Prefeitura. Eles se mantiveram firmes, enfrentando um contingente policial ainda maior e mais agressivo, usaram banheiros químicos como barricadas, arremessaram grades e pedras contra a polícia, uma força quase suicidária, mas extremamente ativa e disposta a tudo, liberando seu ódio represado por anos de violência estatal, concentração do poder e exploração econômica. Não é à toa que os centros do poder mais ativos na sociedade foram alvos de sua raiva: a ALERJ, a Prefeitura, os bancos, a grande mídia (tanto os repórteres e cameramen das grandes emissoras como um carro do SBT foi queimado durante a manifestação). A mídia vende a ideia de que esses manifestantes mais exaltados são uma minoria, o que não deixa de ser verdade, e que a maioria se manifesta pacificamente. Mas mesmo entre os “pacíficos” há uma violência implícita ou explícita contra os centro do poder e suas figuras mais representativas. Talvez a diferença entre uns e outros é que os segundos tenham mais a perder, pois na maioria dos casos, os manifestantes mais agressivos que participam dessas ações são jovens secundaristas em sua maioria pobres, constantemente humilhados e subjugados pelos poderes ou esquecidos pelos grandes planos econômicos, seja o policial, o patrão, o pai patriarca que o agride, o diretor da escola. O poder tem várias faces e muitas delas convergem para a resistência, algumas vezes as resistências se excedem e ultrapassam as forças que as movem. Não que isso justifique todas as violências praticadas, a violência, na maioria dos casos, deve ser sublimada e desdobrada em outras formas de luta, mais criativas e solidárias, assim como é certo que muitos desses atos violentos são injustificáveis. No entanto, “muitos falam da força do rio que arrasta a tudo em seu caminho, mas poucos se lembram das margens que o oprimem.”

O companheiro, talvez, em sua análise, não tenha levado em consideração que a forma-partido e suas estruturas hierárquicas moldadas pelas disciplinas da fábrica fordista e taylorista estão em crise e perderam a capacidade de representar, ou enfraqueceram enormemente a sua capacidade de representar. Não só os meios que nos modulam são outros, mas ondulantes como a serpente e menos subterrâneos que a toupeira, como a produção de subjetividades e as relações de poder que as constituem e são por elas descodificadas ou transformadas se propagam como redes, de forma horizontal e flexível. O poder tornou-se mais flexível, mas não menos eficiente, e a resistência mais autônoma e independente do poder. Pensar a forma-partido hoje como um grande condutor das massas é algo historicamente inviável, assim como pensar a tomada de poder por um partido. Ou a revolução é internacional ou ela está fadada ao fracasso. Ou temos uma pluralidade de partidos e movimentos ou uma grande organização ou movimento que expresse a multiplicidade das singularidades que compõem as lutas da atualidade – uma multidão.

O coronelismo está morto e enterrado historicamente, ele se limita à Primeira República (1889 – 1930), mas outras formas de concentração de poder e distribuição dos privilégios se desenvolveram no Estado brasileiro. Como escreveu José Murilo de Carvalho, o mandonismo e o clientelismo perduram e constituem a dinâmica das relações de poder no Brasil. Os partidos majoritários no país, incluindo os partidos da esquerda, não romperam com essas relações em definitivo, mesmo quando a sua dinâmica interna se propunha a outras relações, mais flexíveis e plurais, movimentos que geralmente eram bloqueados pela lógica eleitoral e a conservação ou obtenção da governabilidade. Um tipo de racionalidade que em momentos de conflito, para manter a ordem, só consegue pensar como a repressão. Os partidos que nos “representam” não avançaram no sentido de criar mecanismos de democracia direta e inserção dos movimentos sociais, das organizações dos trabalhadores e dos indivíduos na dinâmica e nas decisões econômicas e políticas da sociedade. E para que isso acontecesse, foi preciso um movimento com a força de atração e mobilização que presenciamos, um movimento mais forte que os poderes que o bloqueiam, mesmo com todas as contradições que o caracterizam. E é preciso avançar mais, pensar, como na frase de Brecht que muitos manifestantes usavam, que “nada deve parecer impossível de mudar”, para superar as injustiças do capitalismo e enterrar de vez a herança dos coronéis.

The Way to Rapidly Compose Custom Essays

maio 24th, 2022

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março 12th, 2022

When students start to compose their first study papers, they frequently make the mistake of employing a writer to come to their own location and perform the job. This can be an expensive error as this Read the rest of this entry »

How to Write My Essay

março 1st, 2022

Have you ever wondered how to write my essay? It is not that hard as long as you follow the proper steps. You are able to find the hang of it right away. With a bit of practice, anyone can write an outstanding Read the rest of this entry »

Why Purchase Research Papers Online?

fevereiro 22nd, 2022

With every passing instant, buy research papers as much as any of cash is going to keep you enjoying your life to the fullest. From experiencing the thrill of this diversified to bottom of the barrel tips Read the rest of this entry »

Why it pays to hire a high-quality researcher paper writer

fevereiro 10th, 2022

Custom research paper needs extensive brainstorming to discover the precise information needed to meet the goals of the paper. So, you have to be very cautious when you order a custom research paper from the Read the rest of this entry »

How to Buy Essay Online

fevereiro 2nd, 2022

You can now buy essay online and save money whilst still having some extra cash left over to the pub night! Many top-rated authors are well-versed in their chosen field, meaning they’re perfectly comfortable writing about subjects that you may not ordinarily have in mind.

A wonderful alternative is to purchase informative article Read the rest of this entry »

janeiro 27th, 2022

How to choose a good research paper writing service

If you are looking to be a star in your academic pursuits the first step is to place an order for a custom research paper written by an academic writer. There are experts on the internet to provide professional assistance in any field. Engaging writers can help you save time while he works on your research paper. There’s no reason to worry about anything once the project is completed. It will also be easy to look over the completed work.

Research papers are considered one of the most difficult tasks. Research papers require that you follow a number of guidelines and guidelines when researching a subject. If you are not sure of the correct format and structure to follow, you might end up committing errors. This is why it is highly recommended to employ an academic research paper writing service.

Most people are aware that term papers are used exclusively for academic purposes. However, there are times when students use term papers to help achieve good grades. When writing term papers you should adhere to certain guidelines and ensure that the content is short. A custom research paper service will make sure that keywords, main ideas and other details are included in term papers.

Academic writers hired for hire are skilled at writing research papers, term papers and essay. They are knowledgeable about different topics and use different styles while presenting the information. Moreover, they know how to structure the paper in such a way that the desired result is attained. Some people explain their research with essays or a dissertation, while others employ both. Academic writers are adept at providing an academic and structured conclusion.

Before you choose an academic writer, here are some things to consider. Before you hire an expert researcher, ensure that you review their work experience and document them. It is best to hire an experienced writer because your term paper or essay could be longer than you anticipated if the writer is unexperienced. Look over their samples and proofread https://www.paperwritings.com/dissertation/ the work. It’s not enough to go through the essay. It is also necessary to be sure to read it with care and ask questions. After you’ve read the entire document, will you be able to determine if they’re able to write the term essay or paper in a specific manner and format.

Many websites offer written reviews of all research paper writing services. This will help you decide which services are good quality and which ones have poor backgrounds. You can find out more about each paper by reading the reviews about every single paper available.

Academic researchers for hire are highly qualified writers who have a master’s degree or Ph. D.in English literature. Professional writers can proofread your papers and help you determine the formatting. They are also able to detect plagiarism in research papers. However, the writers they hire who have no experience in researching on any particular topic, may sometimes not be able to spot the clues leading to plagiarism.

If you are pressed for time, it is better to employ someone who has completed research papers. Professional writers who are hired have a good command over the language and can easily express their ideas in terms that everyone will understand. To ensure that the essay is correctly formatted, a custom research writer must be familiar with the exact format of the essay. The writer for hire must meet deadlines to finish your essay.

Make sure to inform the academic writer you are hiring about the deadline when you get in touch with them. It is recommended to notify the writer in advance when they are unable to meet the deadline. To be able to pass any competition or exam, an essay must adhere to certain formatting guidelines. Many writing firms for research papers offer sample questions and answers to help you prepare for these tests and competitions.

The majority of writers for hire in the field of academics provide research papers that are custom written. Some charge a one-time fee for the research papers. Some offer custom research papers for a fixed price. It is recommended to hire someone to assist you if struggle to write your essays. You can also use a custom research paper writing service even though it’s more expensive. Instead of investing your money into publishing the research papers yourself, you can rely on the writer service to do the job for you.

However, there is a downside hiring a writer for your custom research paper. Many writers who specialize in custom research papers are also proficient in the field of plagiarism detection. You should choose an academic writer to avoid getting in trouble. Hire writers who are not only proficient in writing, but also specialize in the detection of plagiarism.

Lack of Exercise and Depression

novembro 2nd, 2021

There is a immediate connection between lack of training and a depressive disorder. Exercise has been proven to drastically lessen both the symptoms and the associated with depression. Sadly, the the latest surge of prescription medications intended for depression contain led many to believe that exercise only affects the “depression https://bestexerciseguide.com/2019/06/06/an-exercise-and-fitness-routine-for-those-blah-days symptom” and overlooks the true culprit — the lack of workout.

Besides the noticeable physical ramifications, lack of training can also lead to emotional implications. Low self-pride which leads to increased depression can be a bashing and destructive experience; is actually no wonder that exercise is normally a major adding factor. A sedentary lifestyle can also increase a person’s likelihood of gaining a greater risk of osteoporosis and producing cardiovascular disease. Really not difficult to see that your benefits of work out far outweigh any potential drawbacks.

If you are currently struggling by depression or perhaps plan on becoming depressed, you should think of exercising more. Studies have indicated that exercising for just quarter-hour a day has a profound effect on a person’s disposition. If you are interested in engaging in a 15 minute work out, you should start with going to your community gym. You may also want to purchase a fitness treadmill machine or other home fitness products and use it to your exercise routine. For the healthy, suit life, it’s important to get started now with a few 12-15 minute workout routines on a daily basis.