Tecnoxamanismo Digitofágico – Pós LabsurLab: que venga el Sur!





Autoria Múltipla feita com base em remixes de textos de Tati Wells, Ricardo Brazileiro e Bruno Tarin, de algum lugar dentro da selva.

“A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. (…) A alegria é a prova dos nove.” Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, maio de 1928.

No Brasil vivemos sob a égide do trágico/honrado Bispo Sardinha, que ao ser comido pelos índios Caetés conjura a teoria da Antropofagia nos anos 20, transformada na nossa década em Digitofagia, ao tomar o lugar dos conceitos sobre as capturas das forças de poder. Compramos computadores em 12x sem juros, provemos net.gatos, somos difusores de conteúdo cultural nas ruas e ocupamos redes sociais com nosso português abrasileirado, nossos exóticos ufanismos. Fruto de uma heterogeneidade cultural singular, capaz de se apropriar das mais diversas e variadas formas, subvertendo normas, saberes e códigos de conduta através da incorporação do outro no eu, utilizamos da malandragem e muitas vezes da sacanagem (poética) como formas de se auto-determinar e agir politicamente, através do que vem “além mar”.

Filhos de uma colonização muito bem implementada à base do estupro, miscigenação e genocídio, acostumados aos desfalques e aos desmandos, presenciamos nos dias de hoje um pequeno levante sendo construído, nadando contra a passividade de anos de repressão e total desagregação social imposta pelos estados transnacionais disciplinares, o que nos faz hoje voltarmos a tomar as ruas. Contudo, ainda escutamos o clássico “Rouba mas faz”: resquício do poder soberano ainda presente (o Brasil foi o único Império moderno na América latina, o último país a abolir a escravidão e uma das ditaduras mais violentas na América do Sul), como as repressões exageradas à manifestações pacífica são ou os inúmeros desalojos para abrigar estádios e museus para mega-eventos – que pouco ou nada se conectam ao fluxo econômico e social das populações urbanas, etc -. Nas ruas de São Paulo do ano de 2011 ouvem-se os mesmos gritos de protesto de 30 anos atrás: “Ditadura não, abaixo a repressão!”

Aos poucos percebemos que não somos mais um país do futuro (idéia a que há tanto tempo nos apegamos), mas que o futuro tornou-se um grande brasil [1]: precário, recombinante, em crise sistêmica. Nesse cenário a Digitofagia torna-se então uma forma de pensarmos a questão do acesso, da apropriação tecnológica. Uma alternativa para pensarmos uma política que ao invés de propor somente o controle tecnológico ou a tomada do poder – ou ainda as incorporações mercadológicas da política e da tecnologia -, propõe a auto-determinação política dos indivíduos e comunidades, uma política da potência, do amor e da criação. A visão digitofágica privilegia a relação, o que nas palavras de Viveiros de Castro poderíamos dizer: a troca de troca de pontos de vista, ou seja, cria novas subjetividades e admite novos sujeitos possíveis. Nesse contexto global e especificamente brasileiro, nos parece particularmente interessante pensarmos o sujeito e as comunidades digitofágicas que emergem de uma série de encontros e relações de pessoas interessadas em pensar e propor ações políticas de acordo com as mudanças que vêm ocorrendo globalmente.

Labsurlab, encontro latino-americano de laboratórios de mídia que foi realizado em Medellín de 4 a 12 de abril de 2011. Uma tentativa de acercar os vizinhos. Nascido de uma pequena insurgência de um encontro de laboratórios majoritariamente europeu (LabtoLab), o LabSurLab possibilitou o reconhecimento de redes de cooperação globais e a contextualização de cenários semelhantes entre práticas de países como Chile, Brasil, Argentina e Colômbia.

O LabsurLab assim se coloca como um espaço para redes de iniciativas independentes, oficiais, marginais e institucionais que abrange: hacklabs, hackerspaces, medialabs e todo tipo de laboratórios e coletivos biopolíticos operando dos e para os territórios do Sul [da América] [2], buscando desde a experimentação e criação conseguir seus próprios espaços de ação e representação, um encontro que visou colocar um sobre o outro para acionar assim os vetores e possíveis estratégias culturais da sociedade em rede. Um espaço de compartilhamento de experiências, de troca de troca de pontos de vista.

Para nós, brasileiros ali presentes, reunidos sob uma mesa chamada O Complexo Panorama Brasileiro, foi uma chance de retomar reflexões que há muito tempo iniciamos e que se desdobraram em inúmeras práticas, projetos independentes, ações coletivas, políticas públicas visionárias, encontros nômades hipermultidisciplinários (em fluxos como choques elétricos, casas coletivas, rádios livres, cotidianos sensíveis, gênero e tecnologia, dispositivos alucinógenos e ações diretas). Ali iniciamos assim uma releitura das e nas nossas táticas, pensando as articulações com a latino América que tem tanta gente bacana e que acabamos desconsiderando por costumes históricos. Esta cremos ser uma potência ainda a ser explorada e um dos possíveis desdobramentos que um festival feito LabSurLab pode produzir.

Para a mesa achamos que apenas um contexto cronológico já iria mostrar toda a complexidade das nossas atividades no Brasil. E começamos esse exercício de voltar para a época entre 90 e começo de 2000, simbolizando as convergências dos movimentos Indymedia / FSM / FISL / Metáfora / Laboratórios de Midia Tática. Um mapa que parece ter caído como um satélite nas nossas cabeças. Fazer uma pequena análise deste mapa, nos faz pensar em como nossos experimentos e pesquisas com tecnologias livres, nomadismo e comunidades, foi influenciado por aquela história e também em como nosso movimento atualmente pode ser analisado pelo mesmo traço de 2003-2006. Mas, ao final, o que foi apresentado na mesa foi um panorama 2007-2011 – Seguimos a preparação da apresentação com as convergências de ações de ativismo-tecnológico-midiático e, por fim, fizemos uma breve análise de como nossos laboratórios (festivais, movimentos, pessoas, coletivos) são autônomos, temporários, precários e com relações institucionais conturbadas, como é o caso atual da mudança de foco do Ministério da Cultura para uma política pró-industria cultural, pró-elite-cultural e anti-cultura-livre. Paralelo a esse trabalho, participamos também da mesa sobre Labs em Redes, expondo nossas feridas da cooptação governamental sobre nossas atividades e como isso nos desestabilizou e fez com que pessoas saíssem para outros nós da rede para sobreviver em meio ao caos que é viver de arte, filosofia, ativismo e tecnologia livre e não aplicadas ao mercado no Brasil. Ao mesmo tempo, esse acesso ao governo fez com que surgissem diversos laboratórios de mídia pelos Pontos de Cultura no Brasil, fato de grande importância, fortalecendo ainda mais nosso nomadismo e independência de estruturas físicas complexas.

Nas palavras de Brazileiro: “Ter ido até a Colômbia, me fez ter uma nova visão das nossas estratégias de sobrevivência no Brasil, como somos rápidos, como somos criativos e como somos fechados para outros lugares, não olhamos para nossos vizinhos da América Latina que vivem na mesma rede e compartilham de problemas parecidos, sentem vontade de interagir mais com as redes daqui mas não enxergam essa abertura.”

Assim propomos algumas reflexões sobre pontos de convergência e dissenso entre práticas dessas redes, uma proposta de superposição de conceitos. Buscamos, através do relato de algumas coisas que rolaram em Medellín e da visualização de alguns processos em curso, criar um panorama como forma de possibilitar novas ações de convergência. Basicamente, como dar continuidade à efervescência que transbordou em Medellín.

Algumas coisas que rolaram no evento

O movimento dos Hacktivistas falando sobre suas estratégias de ativismo na Europa. Eles falaram sobre a Hackademy, que é “uma academia hacktivistas autogestionada que promove cursos para libertação do computador dos softwares proprietários, com orientações para uso e difusão de ferramentas livres úteis para autodefesa digital, ativismo e comunicação libertária para produção de cultura livre”. Não muito diferente do que fazemos no Brasil com os Pontos de Cultura, organizações, festivais, pessoas, artistas.

Outra estratégia dos hacktivistas foi em cima de algumas políticas anti-pirataria e anti-cultura-livre do Ministério da Cultura da Espanha, com estratégias como Descarga Pública P2p, desmembramento político através do ativista Isaac Hacksimov, avatar-hacker que enviava fax/correios/emails para o Ministério colocando em contradição todas as políticas pró-indústria espanhola. Em outro momento, os hacktivistas falaram do sistema oiga.me, que é um projeto de envio sistemático de emails para políticos e diplomatas.

Aconteceram também inúmeras oficinas, como a Trabalho em Comunidades, Video Cartografia , Mal de Arquivo e Open Solar circuits, mesas redondas, mesas de trabalho, apresentação de projetos, performances, apresentação de hacklabs e ações hacktivistas globais – como as encenadas contra as leis de propriedade intelectual lleras, acta, sinde. Resumindo, foram realizadas atividades de artes vivas, políticas públicas, noise, bioarte com microscópios, impressoras 3D, protoboards, interfaces, circuitos solares, transmissões etc.

Processos em curso e possíveis ações futuras

Acreditamos que, para que as redes brasileiras possam convergir mais com los hermanos, é necessário criar mais metodologias de reflexão, análise de projetos, escritos coletivos, prescindindo até dos projetos em si para buscar novas formas que poderiam nos ajudar a entender melhor as linhas de fuga que temos. Sabemos que no Brasil criamos projetos em qualquer circunstância (.gov, independente, anti.projetos), algo positivo porém perigoso, se pouco refletimos sobre as ações, muitas vezes sendo realizadas através da política do “Vamô-que-Vamô”, que podem ser – e muitas vezes são – cooptadas pelos poderes constituídos. Por isso propomos realizar um mapa de alguns processos em curso (principalmente no Rio de Janeiro e na rede do LabsurLab) e de possíveis ações futuras.

Para o LabsurLab foi criada uma lista de discussão pós festival que, creio, formalizará o estreitamento de ideias entre os participantes. Atualmente, poucas pessoas participam do IRC #labsurlab no Freenode e o n-1 é um sistema muito complexo que precisa ser pensado com carinho e de forma mais colaborativa. Depois do encontro, foi aberto Anillo Sur dedicado a projetos desde el Sur[3]. No Brasil temos uma experiência acumulada de projetos de servidores livres que só têm a colaborar (com pontos positivos e negativos) com esta rede em formação.
Uma possibilidade que vem sendo vislumbrada é pensar num calendário comum de ações que integrasse as redes brasileiras e colombianas, podendo ser estendidas à outros países da América latina, ideia que tem sido levada adiante por Pata de Perro. No Rio, está sendo matutada a ideia de um pré (ou pós) labsurlab carioca (assim como no Chile), em conversa com uma ação regional que trata da Geopolítica de Acesso Amazônica – Hacklab [Belém][4]. Também atualmente no Rio está sendo organizada uma rede que visa realizar tanto projetos relacionados a ativismo para movimentos sociais em ferramentas livres, redes sociais alternativas e rádio, como ação direta, grupos de pesquisa como o GAS (grupo de atualização e subjetivação), Yupana, MSST e espaços físicos de experimentação como o IP – onde aconteceu em Junho o Sudamérica Experimental [5]. No Brasil temos um mapeio nacional importante de inciativas relacionadas à permacultura e ao conceito de metareciclagem, muitas vezes fundindo-se. Pensar nestes dois eixos conceituais pode parecer contraditório, máquinas e orgânico, mas ao contemplar a permacultura como um resgate de técnicas energéticas ancestrais e a metareciclagem como a apropriação tecnológica das ferramentas contemporâneas para re-mitificá-las, temos aí conceitos convergentes que vão se construindo: mídia tática, descolonização, tecnoxamanismo, novas relações do ser humano e a máquina que visam a colaboração entre corpos que já não são separados por sujeitos e objetos.

Assim, diante desse panorama, podemos afirmar que nossa vontade não é realizar mais festivais, residências etc, estamos buscando afetividade, buscando uma reflexão sobre o outro, sobre nós. Nos parece que é preciso buscar a reflexão do outro para assim experimentarmo-nos outros, pois “eu” e “outro” são posições instáveis e intercambiadas, sentimos a necessidade de passarmos para uma ontologia prática, heterogênea e diferencial na qual o conhecer não seria mais representar o desconhecido, mas interagir com ele. Por ora chamamos isso de Tecnoxamanismo Digitofágico.

Como colocar isso em movimento? Que venga el sur del sur!

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Notas:
[1] http://efeefe.no-ip.org
[2] O conceito de Sul ainda está formulando suas próprias perguntas, mas estende-se basicamente a todo o precariado, não sendo uma localização puramente geográfica.
[3] http://anillosur.cc
[4] http://hacklab.art.br
[5] http://www.sudamericaexperimental.com



  • Paulobrazileiro

    Muito bom o texto
    precisamos realmente fazer uma reflexão
    de todo este mistério urbano e social…………..
    Professor Paulo Brazileiro.




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