A multidão das ruas grita por educação. Mas o que esperamos da educação? (Marina Bueno)


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Acompanhando os desdobramentos das manifestações no Rio, nas ruas, nas redes sociais, na mídia, em simples conversas com pessoas próximas, fui tomada por sentimentos conflitantes, que expressam bem, a meu ver, o clima geral que tomou conta do país nas últimas semanas. Entre convergências, dissidências e dúvidas que este momento vem produzindo, algo tem me incomodado mais: os discursos em torno da educação. Tomada pelos gritos e cartazes das ruas, a educação se fez presente mesmo quando a pauta aparecia como uma colcha de retalhos de desejos e vontades difusas.

Citando Emma Goldman, um cartaz presente nos protestos virou uma foto amplamente divulgada nas redes sociais: “o elemento mais violento da sociedade é a ignorância”. Junto a ela, discursos que afirmam que o não investimento em educação é algo proposital, uma vez que se pretende manter o povo (leia-se, o pobre) nessa tal ignorância. Isso faz com que políticos corruptos cheguem ao poder (e o país é o que é por estas escolhas mal feitas). Afirmando a necessidade de “mais educação”, tal análise atribui ao ensino escolar a possibilidade de superação dessa ignorância, de forma a criar condições para que todos aprendam a escolher seus governantes.

É necessário lembrar, no entanto, que os frutos que colhemos hoje foram brilhantemente semeados por pelo menos dois séculos de governantes letrados, diplomados, que passaram por instituições de excelência e que historicamente foram apoiados e escolhidos por outras cabeças pensantes como eles. Então convenhamos que não é possível atribuir ao pobre, ao cara sem estudo, a responsabilidade pela situação social atual do país (e nem mesmo aos governantes que não fazem parte dessa elite intelectualizada).

De fato, bom seria que a escola pudesse ser capaz de livrar todos os sujeitos de certa ignorância que se faz presente nas mais sutis formas de violência – a ignorância social, humana e politica – reproduzida quase que naturalmente por discursos baseados naquilo que nem se sabe bem como funciona. Discursos que se apoiam numa concepção que carrega um tom fundamentalmente moralista das relações – seja honesto, não fure fila, dê o lugar para um idoso no ônibus e assim você mudará o país – desconsiderando e por vezes apoiando essa estrutura social que produz individualismos, desigualdades e naturalizações de todas as ordens. Discursos vazios que exigem um determinando “ser” humano, sem a consideração de que alguns “humanos” vivem sem condições mínimas de humanidade.

Se a escola pudesse atender a esta expectativa, todos precisaríamos voltar a ela! Dentro e fora dos contornos da educação, a construção de outros padrões de relações é um processo do qual todos fazemos parte. E não falo de “cada um que faça a sua parte” numa concepção que reforça essa análise moral já tão difundida e naturalizada socialmente. Falo da construção de uma concepção humanizada, que refuta a ideia da naturalização da questão social, como se ela fosse inevitável, fruto do esforço maior de uns e menor de outros.

Ainda na era industrial Marx nos mostrou através de seus estudos que o trabalho nunca é recompensado na medida de seus esforços. O capitalismo financeiro mais tarde nos revelou que “quem mais ganha” nem sempre o faz trabalhando. No capitalismo industrial ou no capitalismo financeiro, sempre se tratou da expropriação pelos poucos da riqueza produzida pelos esforços de muitos. E as condições degradantes de vida da maior parte da população desse país também ensina – àqueles que conseguem minimamente perceber a realidade para além dos discursos cristalizados pelos preconceitos de todos os dias – que se o pobre não se esforçasse sequer estaria aqui pra contar história! O direito à vida na prática é uma luta diária por sobrevivência.

Aqui surge outra questão apontada pelo discurso pró-educação: a desqualificação de outras politicas que compõem o sistema de proteção social brasileiro, sobretudo a assistência social, tomada sempre enquanto um mero assistencialismo – apesar da transferência de renda ser uma das garantias da politica nacional de assistência social, que foi uma conquista histórica, fruto de um processo intenso de luta. Inversões de todas as ordens são postas a circular a respeito dessa política, sobretudo no que diz respeito ao bolsa família: fala-se de um valor que não é real (próximo ou até superior do que o salário mínimo); da produção de um imobilismo para o trabalho com afirmações que apoiam até mesmo as formas de trabalho escravo; da necessidade de uma porta de saída antes mesmo de se pensar nas possibilidades de entrada.

Quero abrir um parêntese para dizer que não se trata aqui de fazer uma oposição à ampliação dos investimentos na área da educação. Ao contrário, como profissional e militante da área acredito que investir na educação é um passo importante para uma mudança que se faz necessária. No entanto, é preciso que duas questões sejam consideradas.

A primeira delas é a necessidade de reconhecermos a indivisibilidade e interdependência dos direitos fundamentais como elementos constitutivos de um sistema de proteção e promoção social. O desrespeito a um deles aponta para violação de seu conjunto. Neste sentido, não cabe atribuirmos uma maior ou menor importância às diferentes áreas da política pública, uma vez que cabe à ela garantir condições dignas de vida à população, através de um conjunto de medidas relacionadas. Esta concepção está na base do entendimento de que a política de saúde, para dar um exemplo, não pode ser pensada de forma isolada, uma vez que é direta e indiretamente influenciada por outras condições que a ela se relacionam: trabalho, saneamento, habitação, etc.

A segunda questão que também se vincula a anterior, é que o reforço desse discurso messiânico que atribui à educação uma função salvacionista, além de se equivocar ao desqualificar a necessidade de outros mecanismos para além do ensino formal, não problematiza seus elementos mais estruturais: currículo conteudista; disciplinas que pouco se comunicam entre si; priorização de uma “inteligência prática” em detrimento do pensamento crítico; politica fechada em si, com pouca trajetória no campo da intersetorialidade; frágeis ou quase inexistentes mecanismos de participação direta; rotinas pautadas numa hierarquia autoritária e homogeneização de comportamentos.

A escola que temos (e não falo apenas da pública), é espelho da sociedade que temos: não possibilita a construção de novos padrões de relações sociais, materiais e politicas, ao contrário, reforça o estado presente das coisas. Em outros termos, investimentos financeiros na educação são mais do que necessários, mas sozinhos serão incapazes de promover a mudança que as mais de 100.000 pessoas que se manifestavam nas ruas do Rio imprimiram em seus gritos e bandeiras – seja em relação a escola ou ao que se espera dela!



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