Somos vândalos e vândalas pela democracia (Alexandre do Nascimento)


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No dia 17 de junho último, quando da ocupação do prédio do Congresso Nacional, em Brasília, pela manifestação ocorrida naquela cidade, Renan Calheiros disse em nota que “O Congresso Nacional reconhece a legitimidade de manifestações democráticas como as havidas hoje, desde que as instituições sejam preservadas”.

Ora, o que está nítido nas manifestações que acontecem no país é que as atuais instituições políticas, de governo, de “justiça” e de “segurança”, assim como os partidos políticos (na verdade, a forma partido), estão esgotadas, não representam, não são confiáveis, estão corrompidas e, portanto, devem ser, no mínimo, radicalmente transformadas (algumas, do meu ponto de vista, devem ser destruídas mesmo). Ao meu ver, está nítido nesse levante da sociedade contra os poderes constituídos, que a democracia representativa é a corrupção da democracia.

Além disso, dentro os diversos aspetos que podem ser destacados nesse levante, me chama atenção, ao contrário dos que dizem se tratar de um movimento de classe média, está a crescente participação das periferias e suas expressões, que são as maiores vítimas do racismo, da violência, da discriminação, do descaso das nossas instituições e suas políticas. Cabe aqui lembrar o que outrora foi dito a jornalistas, em 23/10/2007, pelo secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que um “tiro em Copacabana é uma coisa, um tiro na Coréia é outra” (Coréia é nome de uma favela situada no bairro de Senador Camará, periferia da cidade do Rio de Janeiro), ou o que foi dito no telejornal RJ TV, 1a Edição em 18/06/2013, pelo ex-policial militar (ex?) e consultor de segurança púbica da Rede Globo, Rodrigo Pimentel, segundo o qual “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas, não é uma arma para se utilizar em área urbana” (gripo meu).

Nessa mesma linha, estão também algumas ações e políticas em execução no Rio de Janeiro, sobretudo aquelas que para os “megaeventos esportivos” de 2014 e 2016, o PAC, as remoções, as ações criminosas da polícia militar nas suas incursões em favelas, as UPPs, a Resolução No. 013 da Secretaria Estadual de Segurança Pública (que dá a polícia a prerrogativa de proibir “eventos” em suas áreas de policiamento – Leia-se bailes funk, para os quais a polícia coloca em prática a tal resolução, principalmente nas chamadas “comunidades pacificadas”), o choque de ordem, as internações compulsórias, a privatização da saúde, o descaso com a educação (onde a recusa de cumprir até mesmo o piso salarial nacional de professores é uma das atitudes governamentais que denotam este descaso), as obras que pretendem a segregação da cidade (o sistema de transporte é parte fundamental disso) e todo tipo de racismos, discriminações e violências praticadas pelo Estado e seus aparelhos de governamentalidades, contra “negros, pobres, favelados” (MC Mano Teko, in Apologia), com aval das instituições legislativas e judiciárias, da grande mídia, do empresariado e da classe média moralista, onde boa parte se diz de esquerda.

A maior violência é a do poder constituído e de seus aparatos de guerra (mídia golpista, polícia, etc) que estão criminalizando os movimentos e rotulando de vandalismo as diversas ações e reações das pessoas que resolvem enfrentar fisicamente a polícia ou danificar “patrimônios” ou “símbolos”. Há o que podemos chamar de excessos e atitudes que preocupam no interior das manifestações. Estamos presenciando um levante e não dias de festa. Toda manifestação, mesmo que “pacífica” expressa descontentamento e, por isso é violenta, mesmo que não se expresse em confrontos físicos, destruições e pessoas feridas. Estamos num levante, numa rebelião. Somos vândalos e vândalas pela democracia, pela reinvenção das instituições e criação de instituições comuns.

Não sabemos como, mas temos instituições novas a criar e para isso, é preciso colocar em discussão (assembleias populares podem ser ótimas para isso) os pontos de vistas das múltiplas singularidades que se expressam no levante que estamos presenciando, participando e experimentando, neste momento, no Brasil. As instituições que precisamos destruir talvez nós já saibamos quais são, mas as que precisamos inventar vão se constituir nas lutas.

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente” (Oswaldo Andrade, in Manifesto Antropófago). Contra o racismo verde e amarelo, o fascismo dos grupos no poder constituído e a corrupção da democracia que é a representação, só a potência do vandalismo.



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