Maquinar a irrupção (Simone Parrela Tostes)


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A eclosão das manifestações por todo o país tem conformado uma espécie de zona turva onde os radares parecem desorientados pela heterogeneidade de sinais. Co-habitam nestas manifestações tanto a irreverência que escancara com bom humor as disputas micropolíticas, como o orgulho cívico tardo-integralista de bandeiras verde-amarelas, passando pelas bravatas de plantão. Em plena Praça 7, centro de Belo Horizonte, foi possível flagrar até um indivíduo segurando um cartaz onde se lia “a elite foi pra rua”, prontamente respondido por um refrão crescente de “o povo na rua,elite a culpa é sua”. Recado dado, a elite recolheu o cartaz, riu um sorriso amarelo e continuou por ali mesmo, isolada pela atmosfera agitada em função de sua autoproclamada posição social.

Mas têm mais questões em jogo. Impossível não experimentar a excitação de ser atravessado pela potência deste acontecimento político, condição de um agenciamento-outro a ser maquinado e do qual quase nada se sabe de antemão. Exceto talvez a acolhida sempre mal-intencionada dos grandes meios de comunicação: vampirismo em ato das máquinas enunciadoras, com seus intérpretes de plantão e o desserviço de sempre, enquadrando e fixando uma moldura geral para o que pode ser dito e visto. A reboque dos interesses de cada conjuntura, geralmente operam para preservar a ordem instituída, e mesmo quando não é o caso, não deixam de canalizar e sobrecodificar os sentidos,fazendo-os sempre passar por um quadro pré-programado de referências. No telejornal da TV paga, a comentarista política revela que “a bolha da cordialidade comprada com os programas sociais estourou”. Gozo da maledicência.

No dia 22 de junho aqui em Belo Horizonte, após um início tranquilo de manifestação no centro da cidade seguindo para o Mineirão onde acontecia um jogo da Copa das Confederações, a situação mudou completamente. À noite, estes lugares transformaram-se em verdadeiras praças de guerra, com os ruídos das bombas de efeito moral e gás lacrimogênio lançados por helicópteros sendo ouvidos a quilômetros de distância. Os jornais locais noticiaram no dia seguinte que Os enfrentamentos começaram quando um grupo isolado desrespeitou os limites estabelecidos pela polícia nas proximidades do Mineirão. Demonizar sempre a desobediência à norma, eis o mantra seguido à risca, presente também na condenação incondicional ao vandalismo. O filtro do encadeamento causal dos acontecimentos opera sempre um julgamento e uma sentença, fazendo circular apenas os sentidos que interessam.

Fora do quadro do que pode ser visto e dito, existem questões que romperiam o falso naturalismo destas evidências. Como não considerar a ação cotidianamente violenta da polícia e do Estado em todos os níveis, dentro e fora das manifestações, todo o funcionamento, as alianças, as parcerias, os procedimentos obscuros, os modos de operação, o tratamento truculento reservado aos pobres, a produção das normas e leis, a gestão das ilegalidades, os grandes eventos esportivos e seus custos econômicos e sociais, as pressões, os interesses envolvidos, os apadrinhamentos, as negociações? Até mesmo os indícios da presença de quadros infiltrados da polícia incitando os distúrbios, relatados nas redes sociais mas sem maior destaque das grandes redes. Acrescente-se que sequer foi mencionada não só a presença acintosa da Força Nacional de Segurança Pública dentro do campus da UFMG, como sua participação ativa na repressão aos manifestantes.

A tarefa? Fugir das armadilhas de captura dos sentidos e ações e colocar-se à altura dos acontecimentos, ocupando um espaço-tempo outro e enfrentando as suas urgências. A primeira delas, vislumbrar não tanto o que este é de maneira determinada (tarefa jamais possível) ou qual será seu futuro, mas as possibilidades, no aqui-agora, de realizar as forças que pedem passagem. Aqui porque o possível de um agenciamento-outro não pertence a nenhum não-lugar utópico, e agora porque não virá no futuro. Não existe como promessa desencarnada, embora não esteja dado de antemão: tem que ser maquinado, produzido. A disputa pelos sentidos e ações não passa então por uma disputa de deciframento, interpretação ou designação submetidas à ação voluntariosa de um sujeito cônscio e senhor de suas motivações. Mais vale maquinar, produzir, compor com a irrupção que nos atravessa. Maquinação portanto involuntária; não porque seja contrária à vontade, mas porque não deriva automaticamente dela. Pensamos não porque nos conscientizamos de fatos, mas porque algo nos força a fazê-lo, porque fomos atingidos por uma força fulminante: porque a vida nos atravessou.

Ver o que está em jogo requer então a capacidade de rachar as evidências produzindo um outro tipo de vidência: a de apreender o intolerável e vislumbrar outras possibilidades. Referindo-se aos eventos de 1968 (impossível não confabular devires revolucionários diante do assombro da irrupção que experimentamos), Gilles Deleuze enfatiza que surgiram menos de uma tomada de consciência do que de uma mutação das sensibilidades: abertura de um novo campo de possíveis a partir de agenciamentos implicados no encontro com algo que irrompe e força o trabalho de criação. Por qual outro caminho haveria de ser apreendido o intolerável que cabe em “apenas R$0,20”, mas para o qual não há medida? Ou o intolerável da mediação do Estado em todas as dimensões da vida?

Quando encontramos brutalmente o que tínhamos cotidianamente diante dos olhos, agenciamentos caducam e outros devem ser criados. Mas produzir o que não está dado, ou seja, criar um possível, não equivale a realizar uma possibilidade. Qual seria a dimensão da reivindicação de direitos nas circunstâncias singulares do acontecimento político que experimentamos hoje,e que pede a criação do novo? Criar direitos/exercer direitos, criar possíveis/realizar possíveis: há correspondência? O salto para a existência encarnado no exercício de um direito (à cidade,por exemplo) bastaria para criar o agenciamento-outro capaz de abrigar as forças que pedem passagem na irrupção que nos atravessa? Maquinar por onde passa a sustentação destas forças é tarefa urgente: produzir o que não está dado, teorizar, problematizar, pensar, são canais de uma criação tanto mais inadiável quanto é perturbador o encontro que nos desloca e que nos põe frente ao intolerável.

O gigante acordou, bradam alguns cartazes. Melhor esconjurar o pesadelo, maquinando um sussurro mais potente: o desejo não é sonho e não dorme. Produz.



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