Um dia para se lembrar (Vladimir Santafé)


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As multidões tomaram as ruas. Descontrole, excesso, multiplicidade. Os devires minoritários conectaram-se às redes de informação e autoprodução social e econômica, tomando as ruas, sempre nas ruas, no asfalto pisado das gentes que se pintam de todas as cores e ideias, onde todos os possíveis se encontram e se confrontam. Uma produção desmedida de subjetividades, e totalmente encarnadas no concreto, no dia a dia das vozes que resistem à exploração e expropriação capitalistas, reinventado a própria vida. Não há espaço para dialéticas, dos contrastes, nascem “monstros” cheios de sangue e vontade em suas bocas, querem devorar a cidade que lhes foi tomada, saqueada, pilhada pelos novos senhores do Império made in Brazil. Há, como pano de fundo, uma teia de complexidades que deixariam um matemático atônito, as infinitas conexões de Leibniz nos remeteriam de “novo ao mar”, onde novas conexões seriam refeitas e desfeitas. Seria preciso uma escrita-fluxo, uma escrita nômade para reconhecer e identificar o que foi ou o que está a se fazer, em processo ininterrupto e neste exato momento, a manifestação que reuniu quase 1 milhão de pessoas, bandeiras, palavras de ordem, cartazes, gritos, centelhas e cigarras (os que misturam o trabalho ao canto); da zona sul à favela, das periferias ao centro, em movimento centrífugo, num certo lugar cujo nome tornou-se sagrado, no melhor sentido do sagrado, na mais pura imanência do sagrado – um encontro da terra com seus amantes, fluxo orgástico de singularidades. Um dia para se lembrar.

“Eu vi um monstro, um monstro com mil braços, mil pés e mil olhos, e ele era horrível e belo ao mesmo tempo.”

O MPL, Movimento pelo Passe Livre, em vias de reconstrução no Rio de Janeiro após um período de fragmentação das lutas e rebaixamento das suas pautas, tomou as ruas da cidade de assalto, espalhando-se por todo os seus cantos e poros. Sua luta contra o aumento das passagens envolveu toda a gente que anda e vive sobre ela, isto é, camelôs, funcionários públicos, moradores de rua, comerciários, advogados, professores, etc. O cognitariado urbano uniu-se à potência dos pobres. A vertigem que os secundaristas criaram mobilizou os corações e mentes que andavam adormecidos.

Desse grande despertar surgiram demandas reprimidas e incontidas que se espalharam pelas ruas como um enxame: “Não queremos Copa, mas Saúde e Educação”, “Pelo Fim da Corrupção”, “Contra a Cura Gay”, “Ideias são à prova de bala (de borracha)”, “Contra o Racismo”, “Onde está o Bonde de Santa Teresa?”, “Contra as Remoções”, “A Cidade nos Pertence”, vozes que juntaram-se à massa multitudinária que ocupou de uma só vez os espaços incompletos da cidade e ecoaram suas reivindicações país e mundo afora, nos reensinando a falar. Dentre uma das pichações nos muros da Av. Rio Branco lia-se: “Um país mudo é um país que não muda.” Misto de arrepio e encantamento, eu estava diante de um momento histórico. Todos os momentos são históricos, mas alguns falam mais alto. As revoluções, como escreveu Kant, são fruto do entusiasmo.

O “monstro”, no entanto, tem mil pés e mil braços, para o meu espanto e comicidade, também vi renascer a bandeira do Império brasileiro com seus brasões de Orléans e Bragança estampados num fundo verde e amarelo. Num tempo em que a escravidão era uma norma e os brancos uma raça superior – um tempo que deve ser esquecido, mas reavivado pela memória – para nunca mais retornar -, pelo movimento negro que também estava presente, ativando a luta contra o racismo capilar dos poderes que nos cercam e formam o gosto e os valores da maioria, das salas de aula aos cultos evangélicos que demonizam a cultura negra, mas também contra o racismo instituído pelo Estado através da violência policial, o assassinato em massa da juventude negra que reside nas periferias, e a negação de seus direitos, uma outra forma de assassinato que o biopoder sabe utilizar muito bem, quando trata da saúde e da doença das populações, isto é, daqueles que merecem recebê-la e daqueles que não a merecem. Um pouco mais tarde, nos muros da Av. Presidente Vargas, o antagonismo se materializava na frase “pelo fim dos impérios!”

Os braços do “monstro” são tentaculares, um cartaz defendia o neoliberalismo, “Menos Estado, mais Mercado”, outro sustentava as palavras de ordem da grande mídia como uma verdade suprema, bem ao gosto dos pastores, um fim em si mesmo, apocalíptico, defendendo com os olhos “esbugalhados de ódio” os discursos consensuais que a mídia produz para conservar o poder dos 1% que expropriam e exploram o trabalho comum da multidão. A bandeira do nacionalismo sem partido ganhou força entre os manifestantes, assim como o discurso antipartidário, estimulado pela grande mídia e pelos partidos da direita, dos programas políticos lançados após a cobertura das manifestações pelo país, como o do PPS (Partido Popular Socialista), aliado aos liberais conservadores do DEM (Democratas) e aos neoliberais do PSDB (Partido Social Democrata Brasileiro), dos comentários mais reacionários de Arnaldo Jabor, que inicialmente gritou que “os jovens que se manifestam não valiam 20 centavos”, ao oportunismo desavergonhado dos apresentadores dos telejornais, cuja pauta no momento se dirigia, principalmente, ao enfraquecimento do PT (Partido dos Trabalhadores) no poder, mas também à incitação da violência aos militantes dos partidos de esquerda presentes nas manifestações, como a matéria onde militantes do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) são cercados e ameaçados pela massa em frenesi fascista, ou na imagem, diversas vezes repetida pelos noticiários, de dois manifestantes ensandecidos rasgando a bandeira da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Sobre essa questão, o próprio MPL de São Paulo lançou uma nota que condenava a ação dos grupos paramilitares da extrema direita e de alguns poucos manifestantes empolgados ou idiotizados pelas palavras vomitadas pelos meios de comunicação, dizendo-se apartidário, mas não antipartidário, admitindo, inclusive, a construção conjunta das pautas do movimento com os partidos de esquerda que o compõe. E esta nota reflete a posição do movimento nas principais cidades do país.

As manifestações que vimos dominar as ruas e o cenário político do país, forçando a presidenta Dilma a convocar uma reunião extraordinária com os prefeitos das principais cidades do país e os governadores da federação, para discutir um plano emergencial de mobilidade urbana e maiores investimentos nas principais demandas dos manifestantes, saúde e educação, além da força motriz do movimento, a melhoria e o desenvolvimento dos transportes e o fim do aumento abusivo das tarifas, antecipando e pressionando sua própria base governista, inicialmente avessa, a aprovar 100% dos recursos do petróleo para a educação, tal como a reforma política ou o financiamento público das campanhas eleitorais, que impede os lobbies empresariais, mas não ultrapassa a hierarquização partidária que se consolidou até então, não teve uma direção, mas várias. Além, é claro, do recuo do aumento das tarifas em quase todas as cidades do país. Realidade que há pouco tempo atrás, devido ao apoio maciço da grande mídia, de todos os setores do governo e praticamente todos os poderes do Estado (com algumas raras exceções e parcas, mas possantes, vozes no legislativo e no judiciário), da imensa votação que os mandatários tiveram nas urnas e do apoio incondicional do próprio governo federal, seria inimaginável se não fosse pela força multitudinária das ruas. Esta é e foi uma manifestação formada pelas redes, inspirada pelo recente movimento de ocupação das ruas na Turquia, movimento muito próximo da luta que travamos contra a elitização das cidades pela proximidade dos megaeventos, e que não se resume a um ou dois meses, mas a anos de luta contras as remoções, da resistência das ocupações urbanas ao capital imobiliário e ao racismo estatal dos planos governamentais, à mais recente luta dos moradores do Horto na defesa de sua moradia e dignidade.

Além de uma “remota”, mas consistente, influência da Primavera Árabe, paradigma da resistência popular ao autoritarismo dos governos, sejam eles ditaduras ou democracias representativas reféns das grandes corporações. Com a diferença que, dessa vez, e talvez em toda a história da democracia mundial, pessoas não organizadas, em sua grande maioria, desceram às ruas aos milhares e em várias partes do continental Brasil e defenderam suas causas sem medir as consequências dos seus efeitos, espalharam suas reivindicações nas teias das redes sociais e das cidades, estabelecendo uma conexão entre elas, como se o virtual tivesse a necessidade premente de se atualizar, de ganhar as ruas e ser ouvido.

Os olhos do “monstro” estão nas ruas, mil olhos que enxergam além, que ultrapassam o conformismo das massas e conquistam seus espaços com alegria e liberdade, potencializando seus corpos e mentes na multidão. Mas também se encontram na repressão aos movimentos, dos olhos que atravessam o Facebook e perseguem os militantes e ativistas, cerceando seus direitos e voz, aos olhos da polícia, que perseguiu dezenas de manifestantes cidade afora, com balas de borracha e gás lacrimogênio, do Centro da cidade até Laranjeiras, segundo os relatos que recebi de companheir@s, muitas vezes prendendo-os sem provas ou simplesmente os ameaçando.

A crise de representação ou o coronelismo não está morto

Um companheiro da militância que esteve presente às duas últimas manifestações organizadas pelo MPL me disse que se tivéssemos um partido com um projeto revolucionário, de derrubada do poder burguês ou hegemonicamente burguês, neste momento, faríamos uma revolução no país. Na primeira manifestação, dezenas de manifestantes, talvez uma ou duas centenas, forçaram a ocupação da ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) durante 3 horas seguidas, enfrentando a polícia militar com pedras, coquetéis molotov, pedaços de pau, formando barricadas com o que tinham às mãos.

Na segunda manifestação, na qual estive presente, os manifestantes tiveram a mesma disposição de enfrentamento, mas agora contra a Prefeitura. Eles se mantiveram firmes, enfrentando um contingente policial ainda maior e mais agressivo, usaram banheiros químicos como barricadas, arremessaram grades e pedras contra a polícia, uma força quase suicidária, mas extremamente ativa e disposta a tudo, liberando seu ódio represado por anos de violência estatal, concentração do poder e exploração econômica. Não é à toa que os centros do poder mais ativos na sociedade foram alvos de sua raiva: a ALERJ, a Prefeitura, os bancos, a grande mídia (tanto os repórteres e cameramen das grandes emissoras como um carro do SBT foi queimado durante a manifestação). A mídia vende a ideia de que esses manifestantes mais exaltados são uma minoria, o que não deixa de ser verdade, e que a maioria se manifesta pacificamente. Mas mesmo entre os “pacíficos” há uma violência implícita ou explícita contra os centro do poder e suas figuras mais representativas. Talvez a diferença entre uns e outros é que os segundos tenham mais a perder, pois na maioria dos casos, os manifestantes mais agressivos que participam dessas ações são jovens secundaristas em sua maioria pobres, constantemente humilhados e subjugados pelos poderes ou esquecidos pelos grandes planos econômicos, seja o policial, o patrão, o pai patriarca que o agride, o diretor da escola. O poder tem várias faces e muitas delas convergem para a resistência, algumas vezes as resistências se excedem e ultrapassam as forças que as movem. Não que isso justifique todas as violências praticadas, a violência, na maioria dos casos, deve ser sublimada e desdobrada em outras formas de luta, mais criativas e solidárias, assim como é certo que muitos desses atos violentos são injustificáveis. No entanto, “muitos falam da força do rio que arrasta a tudo em seu caminho, mas poucos se lembram das margens que o oprimem.”

O companheiro, talvez, em sua análise, não tenha levado em consideração que a forma-partido e suas estruturas hierárquicas moldadas pelas disciplinas da fábrica fordista e taylorista estão em crise e perderam a capacidade de representar, ou enfraqueceram enormemente a sua capacidade de representar. Não só os meios que nos modulam são outros, mas ondulantes como a serpente e menos subterrâneos que a toupeira, como a produção de subjetividades e as relações de poder que as constituem e são por elas descodificadas ou transformadas se propagam como redes, de forma horizontal e flexível. O poder tornou-se mais flexível, mas não menos eficiente, e a resistência mais autônoma e independente do poder. Pensar a forma-partido hoje como um grande condutor das massas é algo historicamente inviável, assim como pensar a tomada de poder por um partido. Ou a revolução é internacional ou ela está fadada ao fracasso. Ou temos uma pluralidade de partidos e movimentos ou uma grande organização ou movimento que expresse a multiplicidade das singularidades que compõem as lutas da atualidade – uma multidão.

O coronelismo está morto e enterrado historicamente, ele se limita à Primeira República (1889 – 1930), mas outras formas de concentração de poder e distribuição dos privilégios se desenvolveram no Estado brasileiro. Como escreveu José Murilo de Carvalho, o mandonismo e o clientelismo perduram e constituem a dinâmica das relações de poder no Brasil. Os partidos majoritários no país, incluindo os partidos da esquerda, não romperam com essas relações em definitivo, mesmo quando a sua dinâmica interna se propunha a outras relações, mais flexíveis e plurais, movimentos que geralmente eram bloqueados pela lógica eleitoral e a conservação ou obtenção da governabilidade. Um tipo de racionalidade que em momentos de conflito, para manter a ordem, só consegue pensar como a repressão. Os partidos que nos “representam” não avançaram no sentido de criar mecanismos de democracia direta e inserção dos movimentos sociais, das organizações dos trabalhadores e dos indivíduos na dinâmica e nas decisões econômicas e políticas da sociedade. E para que isso acontecesse, foi preciso um movimento com a força de atração e mobilização que presenciamos, um movimento mais forte que os poderes que o bloqueiam, mesmo com todas as contradições que o caracterizam. E é preciso avançar mais, pensar, como na frase de Brecht que muitos manifestantes usavam, que “nada deve parecer impossível de mudar”, para superar as injustiças do capitalismo e enterrar de vez a herança dos coronéis.



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