QUILOMBISMO / Laura Olivieri


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Quilombismo – Laura Olivieri

O Horto Florestal do Rio de Janeiro é uma comunidade tradicional que possui uma história de mais de duzentos anos e que gerou uma população detentora de certa cultura criadora de valores, símbolos e crenças. Uma população tradicional que é conhecedora de suas raízes e tradições e transformou esse conhecimento e toda a sua sabedoria ancestral num projeto social de memória, o Museu do Horto.
Acompanhamos a implementação desse projeto organizacional e fizemos a nossa tese de doutorado em serviço social (PUC-Rio) sobre o processo de criação e ação social deste museu comunitário de territorialidade –o Museu do Horto- e da associação de moradores à qual está associado, a Amahor.
Conhecemos a fundo os moradores do Horto e sua territorialidade porque convivemos há dez anos, estreitamos vínculos durante a nossa pesquisa de doutorado, e algumas famílias seguem contribuindo para o desenvolvimento do Museu do Horto e se relacionando conosco.
Tratam-se de estruturas de parentesco bastante antigos que se misturam com a natureza e os aspectos simbólicos da cultura dessa territorialidade conhecida, desde 1875, como Horto Florestal do Rio de Janeiro. A população que reside nesse local está ali há tantos anos que a memória social local está sempre referenciada ao “tempo dos escravos”. Sua cultura remonta às senzalas e aos quilombos e trilhas quilombolas das matas da Gávea (freguesia em 1800).
Lugar de memória da cidade, o Horto já sediou a Casa grande e a Senzala do Engenho Del Rey, fundado por Mem de Sá em 1575. Ficava no Morro das Margaridas, coração da localidade, às margens do Rio dos Macacos, importante recurso hídrico desde então.
Em 1645 o engenho foi vendido para Diogo Amorim que unificou essas com terras mais a sudeste, na Gávea, fundando o Engenho Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, onde hoje é o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Casa Grande e Capela de mesmo nome).
Um século depois sediou o Solar da Imperatriz, construção que já remetia ao padrão arquitetônico do ciclo imperial do café, com casarões neoclássicos e senzalas nos porões.
Em paralelo, na atual rua Faro, JB situava-se o Engenho Nossa Senhora da Cabeça, à margem do Rio Cabeça, recurso hídrico importante naquela época para a cidade, assim como ainda hoje o é, desaguando na Lagoa Rodrigo de Freitas (antiga Sacopenapã).
Os sopés todos do Maciço da Tijuca eram povoados, nas faces norte e sul. Historicamente São Conrado, Gávea, Horto, Lagoa, Botafogo, Laranjeiras, Tijuca, Vila Isabel, Grajaú, Jacarepaguá, Alto da Boa Vista, Canoas… eram povoados e trocavam serviços e relações. No topo, o Sumaré, de onde vêm muitos dos rios que descem o maciço até os bairros da cidade, daseguando em lagoas e mares.
No Horto do século XIX o morro das Margaridas abrigou o Mocambo da Margarida, rota de fuga de quilombolas em transito entre Sacopã, Camélias do Leblon e os da Floresta da Tijuca, que eram vários. O Museu sankofa da Rocinha estuda a possibilidade de se ter formado um quilombismo na roça onde se ergueu a comunidade de mesmo nome: Rocinha. E por aí seguia-se até a Vila Canoas, e outras localidades às margens dos morros do Rio de Janeiro.
O que é certo hoje na historiografia sobre escravidão e quilombismo é que onde havia escravos havia resistência e portanto aquilombamento, reunião de quilombolas, aqueles que resistiam ao sistema escravistas. Heróis afro-brasileiros durante muito tempo alijados dessa honra pela história oficial.

Laura Olivieri
Museu do Horto



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