Apresentação


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O Brasil é conhecido por ser o país do futebol, samba e telenovela. Mas também é o país de Canudos, do movimento proletário de coloração anarquista e comunista dos anos 1920, das greves e lutas estudantis, campesinas e político-culturais dos 1960, e das mobilizações de massa dos anos 1980. Estas reuniram milhões de operários, sem terras, negros, estudantes, índios, profissionais liberais, funcionários públicos e coletivos os mais diversos para exigir diretas-já, a assembleia constituinte e uma agenda social voltada à classe trabalhadora. Essa memória militante é responsável, no seu acidentado relevo histórico, pela integralidade das conquistas de direitos que hoje desfrutamos. Conquistas sempre travadas diante de um bloco de poder extremamente conservador, pronto para reprimir, desqualificar e criminalizar grandes mobilizações sociais. Assim foi na história do país, e continua sendo. O levante em curso no Brasil, hoje, não deixa de ser uma continuação dessa tradição de lutas. Sua repressão, uma continuação do ódio de classe, raça e gênero, que estrutura profundamente a sociedade brasileira.

Escrevemos de dentro de um instante ímpar na história do Brasil. O roteiro não foi muito diferente do que vem acontecendo no mundo, desde as revoluções árabes disparadas no norte da África, no começo de 2011. Lá, eram ditaduras sólidas como rocha, perfeitamente acomodadas no mercado mundial, mas que acabaram ruindo em questão de semanas, devastadas em seus pilares objetivos e subjetivos pelo enxame que saiu às ruas e praças numa atitude de recusa radical. Na Espanha, uma estação mais tarde, o movimento multitudinário do 15 de Maio varreu a esquerda no poder, inventando organizações de novo tipo, na autoconvocação e auto-organização de redes e mídias mais disseminadamente moleculares. Nos Estados Unidos, proliferaram ocupações de praças, grandes comitês e marchas, em dissenso à lógica consensual bipartidária, revirando a dinâmica política naquele país. No Brasil, igualmente, vivíamos até poucas semanas atrás um consenso rochoso, aparentemente intocável, embalado pela numerologia e o discurso acrítico de Brasil potência, PIBão e inclusão social. As forças de situação já antecipavam o triunfo eleitoral no ano que vem, tranquilamente governando “desde cima”, mediante os mais modernos métodos econométricos, publicitários e de gestão empreendedora. Ignorava não só a retórica da luta social, dos movimentos, do poder constituinte; mas também se fechava e desprezava a necessidade de continuamente reconstruir bases políticas e modalidades inovadoras de cooperação social.

Nas últimas semanas, caiu o véu do povo “alienado, indolente e fatalista”, com que as elites brasileiras costumam desqualificar grandes mobilizações sociais. Acusam-nas de espontâneas, exatamente por não compreender o novo tipo de organização e forma de fazer política. Desta vez, contudo, no começo queimaram a língua. Perceberam que não poderiam conter a potência da multidão apenas com a polícia militar, não restando outra alternativa senão tentar controlar os protestos por dentro, com pauta própria, exaustivamente reproduzida na TV, rádios e jornais, na grande imprensa onde as elites continuam bem instaladas. Apesar disso, a mudança no tom já é uma vitória do movimento, que não pode mais ser sumariamente criminalizado e desqualificado no todo, sem imediata resposta das ruas. O fato é que, apesar dos esforços de captura, não somente o poder constituído foi obrigado a conviver com o levante, redesenhando as estratégias, como a classe dominante se viu obrigada a esconder o ódio de classe, passando a usar dos veículos que controla para elogiá-lo (seletivamente).

Depois das apoteoses do 17J e 20J, que no total juntaram milhões de pessoas nas cidades de todos os tamanhos, o movimento parece adentrar numa outra temporalidade. A terra tremeu e a multidão foi ao deserto, mas depois desse alisamento geral ressurgem os pontos de atrito. Aparecem mais claramente os antagonismos além dos 20 centavos. A questão dos transportes coletivos dentro de certo projeto de cidade, abordada por dois artigos — um texto de Clarissa Moreira/Bruno Cava, outro por André Veloso, sobre a viabilidade do passe livre — foi um lugar qualificado onde os corpos resistiram e explodiram dos confinamentos, mas a luta vai muito além. Outras pautas fundamentais se agregam no caldeamento, como, por exemplo, o feminismo (ver artigo de Natália Damázio), ou as demandas da educação (artigo de Marina Bueno).

É neste tempo, em que o entusiasmo ofuscante e a perplexidade inicial se descortinam, que nos propomos a decalcar as primeiras impressões e análises, numa coletânea de artigos e poemas. Reunidos em nossa edição de número 17 – Especial redes e ruas, os conteúdos exprimem o pensamento de quem está, de corpo e alma, implicado na ruptura do presente. Somos autores envolvidos até o pescoço em diferentes níveis da organização e atuação dos protestos, e dedicados a produzir conhecimento nas lutas, das lutas, para elas. É tarefa da copesquisa, uma intervenção intelectual cooperativa, diretamente conectada aos elementos de autonomia, autovalorização e auto-organização das lutas e movimentos.

A direita tenta sequestrar a energia explosiva, usando-a contra a “classe política” e a genérica corrupção de agentes públicos, como se o problema estivesse no estado (o que é somente uma meia verdade). Sua linha política consiste, basicamente, em forjar uma grade moral de dicotomias, de maneira a separar o manifestante bom (comportado, pacífico, de bem, que lê jornal) daquele perigoso (descontrolado, violento, marginal, sem visão política); ao mesmo tempo em que procura canalizar o descontentamento contra os governos à esquerda, especialmente Dilma e o PT. Pragmática, não perde tempo discutindo se o movimento é de esquerda ou direita. Percebeu a sua força, tem medo, e está agindo diariamente com todos os meios disponíveis.

Quem pretende contrapor-se às armadilhas e capturas da direita, antes de tudo, pode começar rejeitando a moralização com que aquela analisa os protestos, abrindo-se assim à indocilidade e potência dos corpos políticos. Sobre o assunto, o artigo de Murilo Corrêa explora a pungência corporal, desabrochada pelo poder das ruas, e Vladimir Santafé, em Um dia para se lembrar, se assombra positivamente diante da monstruosidade da potência da multidão. A negatividade, tão acentuada pelas imagens de uma mídia que estetiza e capitaliza a violência, afinal, está assentada sobre uma positividade maior, sobre bases materiais e afetivas de produção colaborativa, liberdade produtiva e amor pela alteridade e diferença. Nesse sentido, nesta edição, o poema de Alexandre Magno, a análise envolvente de Alexandre Mendes e as notas bastante didáticas de Bruno Tarin.

A esquerda no poder, a seu passo, se desespera ao não vislumbrar solução para o colapso iminente da governabilidade. Os governos e o PT não conseguem responder ao levante. Hesitam, assustam-se, tomam medidas desajeitadas e insuficientes. E repetem o mesmo erro, ao continuar em seus gabinetes, torcendo para que a onda passe e eles sobrevivam. Ora, chegou a conta por anos de distanciamento das bases, causado estruturalmente por uma forma de governo operada desde o alto, uma gestão economicista e tecnocrática. Foram anos maceteados por técnicas de governo que colhem o voto e a aprovação a montante, como resultado macroeconômico, como uma resposta “objetiva” a indicadores econômicos. Governa-se pensando nas pessoas como estatísticas, meras variáveis dentro de modelos matemáticos de marketing. Desse modo, as redes de governança não conseguem alcançar muito além dos grupos de interesses imediatos, dos parceiros financeiros e empresariais, das fontes de capital ou, no máximo, dos atravessadores do “terceiro setor”, igrejas e ONG. Mas não chegam a justante, não conseguem mapear um campo social de que se alienaram. A capilaridade se perdeu. Em decorrência, o fracasso do diagnóstico e a sensação de impotência de ação levam governistas e petistas a se refugiar na hipótese golpista, atribuindo causas conspiratórias às mobilizações, ou mesmo acusando-as absurdamente de ser inerentemente reacionárias.

Curiosamente, enquanto a direita mergulha no imaginário da insatisfação, para tentar colonizar os protestos segundo suas pautas, dando-lhe uma coloração anti-Dilma e anti-PT, a esquerda institucional se recolhe, e às vezes acaba reforçando o mesmo argumento da direita, em nome da ordem. Nisso, podem acabar participando mesmo do golpe, que não é institucional, mas uma manobra política por dentro do sistema político vigente para que tudo continue como está, permitindo-se apenas mudanças cosméticas.

Paradoxalmente, parte das capacidades e forças (políticas, culturais, comunicativas etc) do atual levante foram incentivadas e cresceram exatamente com um conjunto de políticas dos governos Lula-Dilma. É como se dois lulismos entrassem em choque: o “lulismo de estado”, simbolizado pela figura implacavelmente gestora de Dilma, e um lulismo selvagem, em parte trazido na ambivalência fundamental que a figura de Lula conseguiu manter. Dois artigos exploram as conexões entre o lulismo, na sua dupla face, e o levante: texto de Silvio Pedrosa e texto de Giuseppe Cocco e Antonio Negri.

O resultado disso, provavelmente, é a aceleração da crise do governo. Perdendo sustentação, a tendência é cair também a confiança dos grandes capitais que hegemonizam o mercado mundial e até agora veem no Brasil uma grande jazida de vida e trabalho a explorar-se. O bombardeio de demandas sociais pode drenar recursos antes comprometidos nas margens de lucro, principalmente em rendimentos de capital até agora indexados por pressões externas. A pressão de dentro é mais forte, e vai solapar os circuitos de supervalorização desses investimentos maciços, arrancado-lhes valor. Noutras palavras, as tensões nas ruas estão deixando o dinheiro mais barato. A luta rouba rentabilidade do futuro capitalizado, irritando os mercados. No fundo, a população está se reapropriando do próprio futuro, sua potência de existir como quiser, um futuro antes inteiramente comprometido pela “correlação de força”, e assim medido como custos de capital. Efeito do levante é, assim, libertar à força o tempo morto coagulado numa forma de governo desde cima. Por isso, enquanto não houver uma reorganização e recomposição do próprio poder constituído, não vale um vintém se esforçar por “salvar” o governo Dilma da falência que ele mesmo está acelerando, por incapacidade política. Uma falência precisamente política, e não moral, como tentam nos convencer os grandes meios. Militante do próprio PT, Valter Pomar, no seu A direita também disputa ruas e redes alerta às forças de esquerda de sua responsabilidade.

A título de proposta, uma tendência positiva consiste na crescente participação de grupos e coletivos baseados nas lutas da favela. A potência dos pobres qualifica o movimento, recusando em bloco a agenda da direita, o governismo e o esquerdismo. Se as balas contra manifestantes no asfalto machucam e até cegam, as balas nas favelas continuam sendo de fuzil, e matam mesmo se atingirem somente as pernas. No 24J, uma manifestação no complexo de favelas da Maré culminou com a morte de um policial militar, ao que se seguiu a usual vendetta indiscriminada pelos agentes do estado, levando ao saldo de dez mortos (pobres e negros) na favela Nova Holanda, numa noite de terror. Nada de novo ao sol, para quem vive em territórios sob ocupação militar e massacre simbólico pela imprensa. Sobre esse momento drástico, o texto de Rociclei Silva, O inferno é aqui, mas a Maré vive. No dia seguinte, para o horror das elites, milhares de manifestantes favelados da Rocinha e do Vidigal desceram o morro para protestar diante da casa do governador Sérgio Cabral, no bairro nobre do Leblon. Várias redes e coletivos de favelas adensam suas redes de organização e comunicação, expondo a premência de um conflito urbano violentíssimo que não começou agora.

O verdadeiro desafio consiste em continuar organizando, mobilizando e espessando o atual movimento da multidão. Das ruas a organizações de novo tipo, numa longa cauda de singularidades. A segunda via ao falso dilema entre dilmismo e antidilmismo, entre direita e “esquerda”, está para ser construída, na práxis mesma. Ao redor disto, estes artigos se propõem a pensar e contribuir. Nem tanto interpretar, tentar prever o futuro, mas criar, ajudar a criar os novos problemas e as novas soluções, que já são o nosso futuro presente.

É a interpelação lançada por Luís Alencar, no seu artigo: criemos! Outros artigos chegam à mesma conclusão, como a bela peça por Simone Tostes, citando Deleuze: “abertura de um novo campo de possíveis a partir de agenciamentos implicados no encontro com algo que irrompe e força o trabalho de criação.” Ou como desenvolve Alexandre do Nascimento, em seu artigo, “As instituições que precisamos destruir talvez nós já saibamos quais são, mas as que precisamos inventar vão se constituir nas lutas.”

O trabalho da multidão ocorre de dentro do levante, na sua esteira, por dentro dos paradoxos e ambivalências. Ancora-se na expressão constituinte de todo um acúmulo de lutas e subjetividades que já vêm de anos, décadas, mas que não para por aí e nem vai parar.



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