OLIMPI(C)LEAKS


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Olimpi(c)leaks1

O Olimpi(c)leaks foi criado a partir da indignação diante da histórica série de violações e injustiças que ocorrem na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de não ser nenhum fenômeno novo, às remoções de favelas para a especulação imobiliária, turismo, guerra às drogas2, controle de territórios e portos, somando-se agora a necessidade de re-ordenamento urbano em vista dos megaeventos, usando justificativas como a abertura de novas avenidas para automóveis, áreas sob risco de terrorismo, entre outras peripécias imaginárias ancoradas sob a ideia de controle social. No intuito de abrigar entretenimento e turismo para ricos, expropria-se mais uma vez aquelxs já desfavorecidos.

Propomos com este projeto, sobretudo, transparência e dignidade. Transparência em revelar os discursos oficiosos que brotam nas ações jurídicas, onde habitações ocupadas há décadas viram áreas de risco na tentativa de justificar as práticas de reurbanização em curso. Dignidade em expor cartas escritas à mão pelos próprios moradores, fotos de remoções, demolições, resgatando a voz daquelxs que historicamente encontra-se nas bordas das narrativas ditas oficiais.

Por isso mesmo, proporcionar um vazamento midiático de viés tático, no sentido de tornar evidente o bloqueio da mídia carioca e nacional sobre o tema, ao passo que torne-se pública a face nada iluminada da fanfarra coberta por patriotismo, visibilidade internacional e muitos novos tipos de espelhos e plumas a serem trocados por bens cujo valor não encontra medida.

Sobre as remoções em curso

Na inexistência de um diálogo entre estado e moradorxs, as pessoas não têm acesso aos planos criados para os lugares que habitam. Leiloam-se territórios como se houvesse da parte do governo ou das instituições internacionais uma propriedade legítima sobre comunidades criadas coletivamente, fazendo-nos constatar a falta de um estado de direitos. Como se fossem desprovidos de passado, tendo que adentrar o futuro imaginário das classes dirigentes, o jogo do gringo, a roda financeira global, o novo iate do político. Com tratores e emboscadas na calada da noite, casas geminadas são removidas das favelas, de forma desumana, colocando em risco iminente centenas de outras moradias; comércios e áreas de lazer comunitárias são totalmente destruídas, sem indenização; entulhos abandonados e amontoados caracterizam um estado de guerra; móveis sendo transportados em caminhões de lixo exprimem a dimensão de valor dada às vidas de inúmeras famílias, negadas de seu direito natural a manutenção de raízes, histórias, vivências.

Se tratando de territórios em disputa a questão se repete igualmente em muitas outras cidades do Brasil a receber megaeventos, assim como ocorrido noutros países que já passaram por isso, como a África do Sul ou a Grécia. Atravessa a questão da propriedade imaterial com a prisão de milhares de camelôs, trabalhadores informais, o direito a moradia (mesmo em lugares já titulados). Os sem-dinheiro, além de sofrer todos estes transtornos, não conseguem desfrutar sequer de um jogo pelo qual sua casa foi trocada3. Novos centros urbanos são criados à custo de novas periferias e mais pobreza.

Como são decididas as prioridades urbanísticas da cidade? Para quê e quem se configura a cidade do Rio de Janeiro? Os milhões gastos com estádios e subsídios, finalização de obras de fundações privadas (como museus, parques, vilas olímpicas), terrenos comprados por mais de 20 milhões, mais outros tantos investidos em tratores para destruição – retirada de entulhos, reassentamentos… E se apenas parte desse dinheiro fosse revertidos para a melhoria de uma comunidade e não em prol de uma ocupação temporária para um evento global?

Sobre os documentos

Os documentos disponibilizados são todos de acesso público, no entanto, não tão acessíveis quanto poderiam. São mediados por sistemas jurídicos, omissão midiática, e nossa falta de engajamento cultural, histórico e social.

Olimpi(c)leaks é, portanto, um resgate de tudo isso: territórios, mídia, direitos. A transparência como sul (em contraponto ao norte) comum dessas áreas hoje tão isoladas. Isso se reflete no projeto de algumas formas – o acesso público à informações produzidas pelo estado e pelos próprios moradorxs, estímulo à produção de matérias sobre o tema, reflexões sobre o espaço em que vivemos, criação de novas narrativas acerca deste processo, debate sobre a questão da moradia digna e os efeitos das megapolíticas na vida das pessoas.

Mesmo que a internet não seja um espaço plenamente ocupado pela maioria destas comunidades, façamo-las ocupar imaterialmente através desses vazamentos, os leaks, aqui entendidos como transbordamentos de comunidades em resistência, como que engajadas na produção de sua própria cartografia, desenhos afetivos próprios, territórios já ocupados fisicamente de forma autônoma. Já o sombreamento dos nomes de seus autorxs, incluso das pessoas que trabalharam sob os documentos, foi a garantia de anonimato que encontramos para resguardar os envolvidos o mínimo possível.

Utilizamos neste projeto exclusivamente plataformas e programas livres (gnu/linux), pois apoiamos a autonomia dos dados. O sistema wiki utilizado é o wikkawiki que permite a adição de arquivos de forma rápida e descentralizada. Estudamos ainda a opção de subir arquivos relacionados ao tema moradia e territórios em época de megaeventos de forma segura, anônima, em sistemas que não guardem logs ou ips.

Incentivamos a difusão das informações publicadas e o uso de redes sociais livres.

Sobre os documentos publicados até agora

Até o momento, o site reune documentos das comunidades Restinga,Vila Harmonia, Vila Recreio e Vila Autódromo. Todas foram ou são vítimas da ameaça de remoção em virtude de obras urbanísticas destinadas aos megaeventos. De forma geral, são comunidades da zonas oeste, oriundas de ocupações muito antigas, que surgiram antes do desenvolvimento da região.

As três primeiras comunidades se situavam ao longo e às margens da Avenida das Américas, onde havia residências e comércios, e mesmo unidades mistas (casa e comércio). Devido, porém, à implantação da via expressa TRANSOESTE, obras foram realizadas na extensão do logradouro público, alargando-o ao ponto de atingir Restinga, Vila Harmonia e Vila Recreio. Por tal motivo, a Prefeitura desencadeou a remoção de dezenas de moradores e a demolição dos comércios locais do final de 2010 ao início de 2011. Os moradores que não aceitaram o reassentamento, em razão da longa distância entre a comunidade e o conjunto habitacional proposto, sendo despejados sem nenhuma indenização prévia.

Já a comunidade Vila Autódromo luta pela sua permanência há 20 anos. Foi formada por pescadores que moravam em torno da lagoa. Depois, com a construção do Autódromo, juntaram-se os trabalhadores das obras promovidas na região e pessoas que migravam de outras comunidades, e fazendo-na ganhar maior densidade.

Desde o início da década de 90 ocorreram várias tentativas para removê-la, inclusive pelo motivo de dano estético. A região vem sofrendo crescente valorização, alvo de intensa especulação imobiliária. Entretanto, ao longo dos anos, demonstrando-se vitoriosos, os moradores de Vila Autódromo obtiveram a concessão real de uso e o direito de permanecer no local.

No contexto atual da região, o poder público intenta mais uma vez remover a comunidade, agora em troca do reassentamento em um condomínio de apartamentos de 40 m². Muitos moradores rejeitam a proposta: primeiro porque muitas vezes suas casas possuem áreas superiores a oferecida; segundo, porque defendem o valor histórico da comunidade por eles construída durante todo esse tempo.

Nos documentos disponibilizados no site, é possível compreender o modo como foi conduzido tal processo, bem como a posição da Prefeitura, de pessoas da comunidade e da Defensoria Pública. Chamam atenção os relatos dos moradores, que expressam a violência nas ações promovidas pelo poder público. Atualmente, muitos se encontram entre dívidas e até mesmo com sintomas de depressão.

Etc & Etc

Fruto de indignações e da necessidade de ação imediata – já que os tratores seguem a toda pela Zona Portuária, Centro e Zona Oeste – a ideia de disponibilizar estes documentos é propor sua visibilidade, contrapondo as narrativas oficiais às cartografias afetivas que tecem estes espaços há tanto tempo quanto seus moradores resistem ao desaparecimento de suas histórias de vida.

1 Coletivo anônimo, autônomo e permanentemente reagrupável cujo trabalho pode ser acessado em olimpicleaks.midiatatica.info

2 Desde a Colômbia, protótipo de experimento intervencionista na reconfiguração do Cartel de drogas que atua em toda américa latina, tendo como principal protagonista o aparato militar do Estado, as UPPS e a guerra às drogas nada mais são do que o primeiro passo dentro das favelas já abrindo caminho para as justificativas, práticas e redes de influências que viriam ativar logisticamente as remoções. O tráfico continua normalmente, com novos comandos. O combate ao tráfico de drogas, o argumento inicialmente usado pelos apoiadores midiáticos e governamentais quando decidiram reocupar as favelas do rio de janeiro, mote dos espetáculos em tempo real na TV são substituídos pela total ausência de pautas sobre as remoções e a desconexão entre os eventos citados: pacificações e olimpíadas.

3 Minha Casa, minha vida é o nome do programa de moradia estatal ofertado aos moradores reassentados.



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