MARCHAS E ANTIMARCHAS / Talita Tibola


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MARCHAS E ANTIMARCHAS – Talita Tibola

Sabe alegre leve de doer? Ele me disse, ao sair do cinema: “um filme necessário”. E eu continuo: É isso, A febre do rato (Cláudio Assis, 2012), e seus personagens fumando maconha como qualquer um de nós, e seus personagens, coragem de amor reto como seria bom que aprendêssemos. Amor em branco e preto. Pra se viver. (Já isso) Coragem de poucos.

Sábia, alegre, leve, não é sem peso que a poesia atravessa a cidade, com as verdades de um poeta, a franqueza dos corpos imperfeitos, e o sexo que os sustenta.

Sabe, alegre e forte porque presente de corpos, presente de poros quando os corpos desnudos em praça, os corpos, não estão se desnudando em coro, mas estão juntos. E eles andam, gritam, incomodam, fazem barulho, mas não fazem massa compacta. Há poetas loucos que gritam na praça. Mas não há heróis. Na Recife de sete de setembro do filme, há um grupo que anda a despeito das comemorações da marcha, um grupo anarquista que se posta na rua ao lado, de modo que quase nem conseguimos ver as viaturas oficiais. Ali a marcha é uma grande presença ausente, assim como a nova cidade de Recife, a Recife higienizada com seus condomínios, que avança sobre o manguetown.

Corrente “lateralista” (a expressão é do artista Paz Berti), eles não estão contra, mas à deriva das grandes ideologias e bandeiras, e como outros elementos do filme – sexo, gestos, coisas do mundo – simplesmente estão!, existem, não trazem uma pauta pela qual lutar que não seja o próprio flanar e o exaltar da poesia, os versos escancarados na rua. “As pessoas ficam falando em futuro, em mudança, mas não estão nem aí pras coisas que realmente estão no mundo, perderam a capacidade de espernear pras coisas que estão no mundo” (Zizo, em A febre do rato).

Existem marchas e antimarchas. Fluxos e contrafluxos, correntes e contracorrentes, transbordamentos, turbilhões. “Como alguma coisa pode, rara, surgir do ruído? Ou de uma desordem radical, e não já ordenada.” (SERRES, 2003, p. 52). Uma antimarcha não é feita apenas para negar, mas está baseada na afirmação de uma alternativa. Essa alternativa se justifica como recusa, ao se colocar como desvio do poder constituído. Por que o poder também precisa de suas marchas, de seus escoamentos forçados, precisa confirmar a sua validade mediante representações. Exemplo máximo disso é a marcha do dia sete de setembro, disciplinada para reafirmar o Estado. Mas não só. Marchas também eleitorais e partidárias, marchas religiosas, marchas convocadas pelos próprios governos para defender os interesses majoritários disfarçados de “interesse geral”. Marchas com bandeiras, verticalização, trios elétricos e uniformes, em suma, marchas dentro da lógica representativa, pré-formatadas, verdadeiras “missas brancas” que não incomodam ninguém. Ou, como a marcha do “exército anticotas”, ocorrida na cidade de Santa Maria (RS) que, com essa pauta insólita requer a conservação da desigualdade, trazendo de comissão de frente uma faixa com a frase “somos todos iguais”! Um bom exemplo de vanguarda do atraso.

Uma antimarcha pode se contrapor diretamente a uma marcha oficial. No sete de setembro de 2012, o Bloco Livre Reciclato, o Bloco Pula Roleta e o Museu de Colagens Urbanas realizaram a “marcha antimarcha” que, além de contestar a data oficial, aproveitaram o período das eleições para reforçar a campanha do não-voto. Se as marchas oficiais representam interesses ou grupos de interesses, a antimarcha é de outra natureza. Nesse sentido, não é pelo fato de adotar o nome “marcha”que ela deixa de perturbar a ordem, a marcha das vadias e a marcha da maconha são bons exemplos disso. A antimarcha “parece a liberdade porque é justamente a turbulência que recusa o escoamento forçado” (Ibid, p. 132).

Ofegantes, alegres e ásperos, os corpos estancam o cortejo, há gritos e há silêncio. A paisagem, um pouco diferente, já não mais Recife, Rio de Janeiro, Av. Rio Branco: A revolução já começou silenciosa e barulhenta. Vamos lutar pela natureza e pelos povos deste planeta. Rio + 20 não nos representa. Economia verde é capitalismo pintado. Somos os 99%. Queremos democracia real já. Foram as palavras de ordem da Ocupa dos Povos, acampada nas imediações do Aterro do Flamengo, tumultuando a Marcha dos Povos, um dos principais eventos da Cúpula dos Povos, “evento organizado pela sociedade civil global paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), a Rio+20” (site oficial da Cúpula). Com uma barraca suspensa, cartazes e a indignação expressa na nudez de alguns dos corpos, a antimarcha da Ocupa firmou uma alternativa de forma e conteúdo. Éramos seis e depois éramos muitos, um festim de revolta e afeto. O que se deu ali foi uma desordem que não se sabia muito bem a direção exata, tanto um enfrentamento como uma composição com outros elementos, no sentido da radicalização de pautas que eram discutidas e atravessavam a Cúpula. A recusa de um sistema que se reproduz inclusive sob a forma de sua crítica, quando filtrada pela lógica representativa. A economia verde, a consciência global, a mudança genérica de mentalidade: slogans em falsete com que a ordem dominante se apresenta mais palatável e sustentável, a mais recente novidade na marcha do progresso da civilização. Uma indignação que não cabia na Cúpula dos Povos virou a Ocupa, por onde passaram e misturaram-se Ocupas do Brasil e do mundo todo, assim como moradores de rua, artistas de rua, ativistas, estudantes e vários outros grupos e pessoas. 20 mil ou 80 mil eram as estimativas dos noticiários do número de pessoas na avenida nesse dia. Independente dos números precisos, era o que se poderia chamar de “muita gente”. Quantas marchas cabem em muita gente? Quantos caminhos cabem em uma marcha? Quantas cúpulas em muitos povos? Quantos povos sem bandeira, povos sem estado, povos do futuro ausente, quantas raças rudes de rua, alucinadas, imoderadas, grávidas do mundo, quantos poetas e quantas crianças?

Sabe alegre e forte porque presente de corpos, presente de poros quando os corpos desnudos em praça, os corpos, não estão se desnudando em coro, mas estão juntos. E eles andam, gritam, incomodam, fazem barulho, mas não fazem massa compacta. Há poetas loucos que gritam na praça. Mas não há heróis.

A antimarcha é sempre algum tipo de tumulto. Tumultua a direção dominante, a lógica representativa em movimento, que a disciplina tenta ordenar e garantir. Afirma outro viver, outras peles, outros fluxos amorosos, na generosidade e revolta de quem luta. Libertos de pautas que caem do céu, impostas de cima, elas encarnam pautas na superfície dos corpos, na nudez da cidade viva.

Referências:

SERRES, Michel. O nascimento da física no texto de Lucrécio. Correntes e turbulências. Trad. Péricles Trevisan. – São Paulo: Editora UNESP ; São Carlos, SP : EdUFSCAR, 2003.

A febre do rato (Claudio Assis, 2012, Brasil, 35mm, 90min.).



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