MARCHA DAS VADIAS / Adriana de Azevedo





MARCHA DAS VADIAS – Adriana de Azevedo

O policial canadense Michael Sanguinetti, em janeiro de 2011, proferiu a frase que mudaria o cenário do ativismo feminista contemporâneo em uma esfera global. Após casos repetidos de abuso sexual na Universidade de Toronto, em seu país, Sanguinetti aconselhou às mulheres que “evitassem se vestir como vadias (slut, em inglês), para não serem vítimas” de abuso sexual. Cerca de três mil pessoas foram às ruas de Toronto protestar contra a frase do policial. Esse ato foi chamado de Slut Walk, uma passeata feminista contra o tipo de discurso misógino que culpa a mulher como sendo a provocadora dos estupros.

Desde então, a Marcha das Vadias, como é chamada no Brasil, se proliferou e já ocorreu em diversas partes do mundo, como em Amsterdã, Buenos Aires, Los Angeles, Chicago, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, João Pessoa, Salvador, dentre outras. No Brasil resultou em uma rede feminista bem articulada através da internet e, em 2012, a Marcha aconteceu concomitantemente em diversas regiões do país.

Ao contrário do movimento feminista da metade do século XX, o feminismo que ressurge com força no século XXI através do movimento Slut Walk, faz com que outros feminismos ganhem visibilidade, mais em sintonia com o chamado “pós-feminismo” – uma perspectiva crítica ao feminismo tradicional.

A começar pela ressignificação da palavra “vadia”. O movimento feminista do novo século é das “vadias”, e não o da feminilidade em oposição à masculinidade (a figura do homem e do “masculino” como inimigos). A afirmação do termo “vadia” se assemelha ao movimento homossexual, ao positivar o termo gay, propondo um modo de vida indiferente à norma. “Gay” era o termo utilizado pejorativamente para, nos Estados Unidos, se referir às “viúvas alegres” na década de 1950. As viúvas alegres eram as mulheres que gozavam a vida após perderem seus maridos e se virem livre da vida matrimonial compulsória.

As vadias são mais do que putas em seu sentido estrito – mulheres que vendem seus corpos. É uma parcela da população que goza do seu corpo a seu bem entender. O termo “vadia” não se limita à conotação sexual, é a proposição de um modo de vida criativo, que se quer livre das amarras do patriarcalismo e do machismo – que engessam os corpos tanto das chamadas bio-mulheres como dos bio-homens. Os corpos querem gozar, mas com quem aceitarem gozar. A voz das vadias grita que a culpa dos estupros não é das mulheres que mostram seus corpos, mas dos estupradores e da sociedade que ensina aos homens que devem abusar de mulheres que não se encaixam nos moldes da vida doméstica e coberta que o corpo feminino deve obedecer.

Em muitos corpos, nas divulgações das fotos das passeatas, estava escrita a frase “Meu corpo, minhas regras”, que, a meu ver, se tornou o slogan desse novo tipo de feminismo que está surgindo. O que faz com que algumas proposições do, ainda tímido no Brasil, movimento queer, recluso nas universidades, ganhe às ruas, como alternativa às Paradas LGBT, de-sintonizadas com as propostas teóricas daquele primeiro grupo.

O termo queer, assim como o termo gay e o termo vadia, também passou por uma ressignificação política. Antes utilizado como xingamento aos homossexuais nos Estados Unidos, foi apropriado pelos próprios homossexuais como forma de pastiche à própria injúria e mais tarde passou a dar nome a uma produção teórica que propõe a dissolução da chamada “heteronormatividade”. Monique Wittig, feminista francesa famosa por trazer à discussão a questão homossexual, diz que a heterossexualidade não é só uma questão de sexo, mas é um regime político que, em conjunto com o patriarcalismo, rege o funcionamento dos corpos na sociedade. A chamada Teoria Queer propõe o combate a essa norma e um modo de vida que esteja mais vinculado à convivência da pluralidade, da multiplicidade dos corpos.

A proximidade da Marcha das Vadias com as discussões sobre corpos minoritários e periféricos – que se fortalece de forma singular desde a virada do século XX para o XXI – é estreita. Acredito que ela vá se tornar mais evidente com os diálogos que as passeatas e os sites da Marcha estão proporcionando – e com a abertura política característica das próprias Marchas, que são orgânicas e acolhem protestos relativos à dominação dos corpos, sem ortodoxias ideológicas (pelo menos não inicialmente).

Vivemos um momento de otimismo, de primavera política do antinormativo. Estamos saindo de um período regido pelo pensamento apolíneo, racional, lógico, com vistas a um momento dionisíaco, onde o corpo quer ser criativo e gozar a seu bem-querer – e não em vista do prazer machista e do sistema patriarcal. Não sabemos se de fato esse dia chegará. Só nos resta e sair às ruas, fazendo evidente a potência de todos os corpos que sofrem violência e afirmando que as mulheres decidiram deixar de serem vítimas – sem precisar cobrir seus corpos para isso.



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