INVESTIGAÇÃO-AÇÃO / Daniel Lima


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Investigação-AçãoDaniel Lima

O conceito de investigação-ação foi criado pelo coletivo Política do Impossível para nomear o que fazemos: pesquisa como intervenção e intervenção como pesquisa.

O caminho da investigação-ação pede a invenção dos passos, reinvenção constante das práticas, dos instrumentos e do roteiro de pesquisa. É necessário livrar-se do método (protocolo normalizado, procedimento técnico) para colocar-se à espreita do que pode ser criado. Estar atento às pequenas alterações nos procedimentos conhecidos. Ao tentar reproduzir uma prática, criamos adaptações, desvios, mutações, são estas diferenças que buscamos. Algo sempre se altera. Destas percepções, podemos refazer a língua com a qual perguntamos ao mundo. Para isso, a cada passo da investigação-ação, precisamos sentir as forças que foram dinamizadas. Constitui-se uma trama de dispositivos disponíveis que se atraem entre si. Gravidades que produzem junções inesperadas, construindo uma espécie de quebra-cabeças disforme. Buscamos dispositivos que possam animar estas forças.

A investigação-ação é extradisciplinar, ou seja, só propõe sentido quando vira-se para fora de si mesma. Funciona somente se pensada como processo transversal que opera nas bordas das categorias disciplinares, contrabandeando os elementos de um campo a outro. As fendas no terreno podem servir de esconderijo. As irregularidades no território podem abrigar a fuga das noções categorizantes. É, afinal, a recusa aos processos de paralisia e alienação que contaminam a movimentação afetiva-pensante.

Mente versus Corpo; Forma versus Conteúdo; Observador versus Observado; Objetivo versus Subjetivo; Imaginação versus Real; Coletivo versus Individual. Todas maneiras de dividir a superfície. A investigação-ação tem que se colocar num plano anterior a esta obsessão, um plano subterrâneo a estas dualidades. É necessário convocar uma força anterior à separação na superfície da sensibilidade e da razão.

Neste sentido, a gênese da investigação-ação deve ser observada a partir da percepção do que está se formando no nascimento destas diferentes partes. É uma intuição que assenta um caminho, não a análise detalhada de cada linha. É importante uma atenção ao desenvolvimento de uma arquitetura orgânica. Esta estranha unidade, formada a partir da ressonância entre partes díspares. Como agentes somos impelidos à construir pequenas pontes, atalhos entre as peças irregulares. Não um preenchimento mas, antes, uma costura.

Investigação-ação propõe um imaginário real. Uma política do impossível. Uma maneira de (re)conhecer a nossa maneira de conhecer. Assim, nosso território da pesquisa vai sendo cavado em diferentes pontos. Uma prospecção em diferentes áreas com diferentes máquinas. Em alguns cava-se pouco e logo na superfície jorram incontáveis forças represadas. Muitos buracos levam a uma árida geologia. Nós arquitetamos complexos labirintos. Nos apertamos em túneis estreitos para, às vezes, abrir passagens para novos mundos.

Está por se inventar uma escola que poderá pensar-se a partir da investigação-ação. Uma escola entre um curso livre de arte e uma think tank. Uma escola enredada pelos seus infinitos educadores nômades. Uma escola-intervenção. Uma intervenção-escola.



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