INTERVENÇÃO / Daniel Lima


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Intervenção – Daniel Lima

A intervenção é uma estratégia de criação. Um antiprincípio. Uma aparição a tremer o Real, a abalar a noção de normalidade. É uma abertura inesperada da vida.

Para criar passagens para fora do território estável é preciso uma ruptura. Corte, fissura, fratura, rasgo. Ruptura somente possível por um processo de contradição com o que vigora, com o que domina, com o preponderante. Promover o nascimento de uma microcrise. Uma microcrise que faz brotar algo da situação, mas que não pertence àquele terreno. Um nascimento mutante. Um nascimento extra-ordinário. Um nascimento do fantástico provocado na e pela estrutura mais estreita do cotidiano.

A intervenção é uma aparição disparadora do encontro e disparada pelo encontro. É distinta da cena. Nunca sabemos se é completamente real. Existe uma translucidez da aparição. É possível ver através.

É no encontro, fora do tempo cronológico, que se produz este “algo” inesperado. Mas de que encontro falamos aqui? O encontro entre pessoas? A intervenção seria, então, um “dispositivo relacional” que reúne pessoas que normalmente não convivem? Importante perceber que isso pode apenas estar em função de uma reiteração de papéis sociais – e da satisfação de representar estes personagens. Intervenções como dispositivos relacionais tem potência quando promovem a destruição dos papéis pré-estabelecidos pelo roteiro do mundo. Germinar o encontro com um outro em si mesmo. É uma urgência de liberdade.

É através do encontro que podemos nos deixar achar pela intervenção. Desta maneira, a intervenção não está na exterioridade de um projeto, de um dispositivo, mas no encontro que é aberto pelo dispositivo.

Que linhas nascem destes encontros? Como podem ser sustentadas? E afinal, estas linhas expandem ou contraem a vida? Como se movimentar diante dessas questões? Devemos nos deixar guiar por uma intuição. Não se trata de uma idéia esquemática de “identificar elemento com potencial de ruptura”, como pode pregar um esquema racional de intervenção. A intuição, aqui, serve para nos aproximar com algo que não tem nome, que não tem contorno. Ser sensível ao que ainda não conquistou os sentidos.

Como, então, falar disto? Como compartilhar impressões sobre este “algo”? Encontramos dispositivos que mantem o silêncio, mas que podem indicar estas forças. Encontramos maneiras de compartilhar sem reduzir ou esquematizar. Lutamos para manter o indizível. Manter a tensão, em relação a qual devemos evitar, a todo custo, a tentação de resolver. É preciso manter a intervenção como vibração o máximo que possamos aguentar. A intervenção é um ponto de interrogação.



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