HOMEM CONTEMPORÂNEO / Davy Alexandrisky


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HOMEM CONTEMPORÂNEO – Davy Alexandrisky

Ao receber um e-mail da Barbara com o convite para escrever um artigo para a edição da Global sobre “ferramentas de lutas” hoje, de imediato me veio uma resposta à cabeça: o homem contemporâneo!

Obviamente que estou consciente dos riscos de defender esta afirmação em um pequeno artigo de Revista, com um público leitor tão exigente, como o da Global, sem nenhuma matriz teórica de sustentação.

Mas, afinal, no convite estava embutida uma ousada decisão da Editora da Revista de conhecer e publicar a opinião de um militante – não acadêmico – de muitas lutas também lutadas pela Global.

Uma opinião. Ou se preferirem: um artigo opinativo.

Um texto sem maiores conseqüências além de concordâncias ou discordâncias.

Até mesmo porque, para ser mais epistemológico, antes de tentar dissertar sobre as “ferramentas” seria preciso avaliar com muita cautela o(s) verdadeiro(s) sentido(s) da expressão “lutas”, que tem sido tratada com a profundidade de um prato de sobremesa.

Mas como a reposta fluiu com a velocidade do disparo de um flash de máquina fotográfica e de pronto não me ocorre nenhuma ferramenta que, hoje, se destaque em relação às de ontem, quero correr este risco de conversar com você, leitor da Global, sobre o que chamei de homem contemporâneo, “ferramenta de lutas hoje”.

Nem sou tão velho assim. Não seriam meus 63 anos cronológicos que haveriam de me autorizar a comparar o homem de hoje com o homem do passado.

Acontece que desde os dois anos de idade fui criado por uma mãe viúva, que se atribuiu o compromisso de ser mãe e pai do casal de filhos que lhe restou de um casamento de pouco mais de três anos. Uma mãe que foi criada por um judeu turco sefaradin, que impôs aos seus seis filhos uma rígida e retrógrada educação européia judaica do século XIX (com base no século XVIII).

Atropelada pelo infortúnio da viuvez precoce, minha mãe teve muito poucas oportunidades para ajustar esta educação para o século XX.

Portanto, de idade tenho 63 anos, mas de formação, mais de dois séculos.

De qualquer maneira, não foram poucas as mudanças que testemunhei nesses 63 anos. Mudanças materiais e humanas.

Nas materiais incluo, de forma esquemática, como recurso didático pedagógico, desde as tecnológicas até as climáticas, passando pelas econômicas e ideológicas.

Nas humanas, desde as fisiológicas até as comportamentais, passando pelas psicossociais, ainda de forma esquemática.

Mudanças, materiais e humanas, cuja compreensão poderia sugerir que sou um gênio, com grande conhecimento nas áreas da antropologia, sociologia, psicologia, medicina, geografia, astronomia, entre outras.

Não sou.

No máximo, caso sejam realmente necessários esses conhecimentos para que eu possa discorrer aqui sobre o que chamo de homem contemporâneo e como ele se transformou em uma “ferramenta de lutas”, atribuam a isto, por favor, a uma irresponsabilidade protegida pelo Estatuto do Idoso ou, meramente, uma lustrosa cara de pau.

Quando adolescente, fazia parte do meu uniforme escolar uma peça de roupa inimaginável nos dias de hoje: gravata. Como um advogado, um executivo ou político em plenário, saía todos os dias, de casa para o colégio, devidamente engravatado.

Os meninos e as meninas. Alguns uniformes das meninas eram com gravata borboleta. Mas com gravata.

Aliás, antes que algum(a) militante das causas relacionadas a gênero se insurja contra o uso da palavra “homem” para designar a espécie humana, peço, com mil desculpas e reiterando minha total solidariedade às causas feministas, que atribua isso a um estilo de escrita mais preguiçoso. Uma despretensiosa licença literária.

Enfim, voltando ao assunto, o que poderia ser uma mera citação anedótica saudosista, para dar graça à redação, encerra um significado simbólico de como se davam as relações de poder entre os que eram donos do conhecimento, do saber, e os que tinham que se subordinar a esses proprietários das verdades absolutas.

Professores e pais podiam repreender e até humilhar o homem daquele tempo, não tão distante assim, bem diferente do homem de hoje, que estou chamando de homem contemporâneo, com um simples olhar de reprovação, facilmente compreendido por qualquer um de nós, daquele tempo.

Contestar uma ideia “dessas autoridades” era uma transgressão passível de severos castigos como punição.

Atenção! Não estou falando da Idade Média, não. Esses episódios são do início da segunda metade do século XX

Por certo não trago essas informações para comparar com a Escola dos dias atuais, dias do tal homem contemporâneo, em que alunos agridem fisicamente aos professores(as), aos olhos de uma sociedade tão complacente quanto inerte, diante de um quadro de exceção que dia a dia se transforma em regra.

Mesmo porque, não identifico este traço de violência nesse homem contemporâneo que é “ferramenta de luta”, hoje. Cito a questão da violência nas Escolas apenas para acentuar mudanças comportamentais significativas.

Embalados por este texto, alguém poderá se lembrar de 1968. Do maio de 68 na França. E da “violência” episódica registrada na ocasião.

Aceitando com resignação e modéstia às críticas de que possivelmente serei alvo, em relação ao que estou rotulando de homem contemporâneo, “ferramenta de lutas” hoje, aquele homem (mulher – humano)de 68 era o “homem deslumbrado”.

Que se descobrira novo e dissociado do homem da primeira metade do século XX. O homem da Guerra Fria, mas, também, das delícias da revolução sexual, detonada pela Pílula Anticoncepcional.

Um homem que era usuário de “ferramentas de lutas”, não a “ferramenta de lutas”.

A Pílula e a revolução sexual, a Guerra Fria e o seu fim, o Viagra, a longevidade patrocinada pela medicina, os rearranjos geopolíticos e outros fatores relevantes vão forjar o homem que vai se encontrar com a revolução tecnológica na área da telecomunicação instantâneas, do início do século XXI.

Ainda que nem todos vocês, leitores(ras) deste artigo, tenham tido contato físico com uma máquina de escrever, conhecem perfeitamente aquele revolucionário equipamento em que a gente digitava e o texto já saía impresso.

Mas dificilmente você acreditará que, não faz muito tempo, ter um telefone em casa ou no trabalho era um luxo. E o simples fato de você ter acesso a uma linha telefônica não te garantia plena capacidade de comunicação uma vez que o seu pretenso interlocutor poderia não ter o mesmo privilégio.

Pode até lhe parecer uma ironia, mas juro que é verdade, que muitas pessoas tinham cartões de visita com o número telefônico seguido pela expressão “por favor”, entre parênteses, que significava que o telefone em questão era de um vizinho ou parente, que anotava o recado para lhe passar depois.

O lapso de tempo entre um acontecimento e o seu conhecimento pelo conjunto da sociedade, é inimaginável para os padrões atuais.

O que eu defendo neste artigo, como potente “ferramenta de lutas”, hoje, é justamente este homem que passou por todas as mudanças, que subverteram a lógica das relações interpessoais, sociais e familiares, o que eu chamei esquematicamente de mudanças humanas, e se encontrou, neste início de século XXI, com o que estou considerando mudanças materiais, que se consolidam ou chegam ao ápice com a revolução tecnológica, que nos dá uma extraordinária capacidade de telecomunicação instantânea.

Deste fantástico encontro do humano transformado por processos múltiplos com a revolucionária tecnologia da informação, nasce o que chamo de homem contemporâneo, com exuberante capacidade de desenvolver massa crítica sobre qualquer tema: a grande “ferramenta de lutas” hoje!



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