HIP HOP / Rociclei da Silva


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A RESISTIENCIA DE UM MONSTRO CHAMADO HIP HOP

Rociclei da Silva 1

O monstro adormecido despertou do sono e seu brado ecoa para além das bordas da periferia tomando de assalto o centro e invadindo universidades e mídias. Um brado carregado de dor, sofrimento, injustiça e abandono. O monstro está de pé, mais que isso, está em movimento, agindo e criando, e assim resiste e se insurge em um exercício pela liberdade e reivindica o que lhe é de direito. O monstro concebido em ruas, becos e vielas se nutriu de arte e conhecimento, recebeu o nome de hip hop, cresceu e se tornou cultura. Como todo diamante, veio da lama, foi lapidado e hoje é a voz, a forma de vida e a expressão de milhares de jovens que fazem dele um caminho para transformação de seus mundos.

Originário dos guetos nova-iorquinos aportou em terras brasileiras no início da década de 1980 sendo acolhido pelas periferias e favelas onde encontrou o solo fértil para se desenvolver, reproduzir e se multiplicar. Adotado de corpo e alma por jovens na sua grande maioria negros e pobres incorporou características locais, desenvolveu uma linguagem própria e passou por uma releitura ao abrir diálogo e interagir com outros grupos ligados à contra cultura. A arte que constitui a cultura (rap, DJ, break e grafite) é o instrumento que esse monstro utiliza para não só atrair, mas também para dar voz aos jovens e fazer emergir suas potências criativas resgatando sua autoestima, alegria os conduzindo à ação. É na arte do canto falado ritmado e poético do rap (Rhythm and Poetry), nas habilidosas manobras dos DJs, nos traços multicoloridos do grafite e nos movimentos envolventes do break que os jovens se encontram, se libertam, se reconhecem e fazem o exercício da prática política e de formação cidadã.

É justamente na arte onde está seu poder de transformação, articulação e produção. É na arte e pela arte que a cultura resiste. Mas não é uma arte qualquer, é a arte forjada das ruas, que fala a linguagem dos esquecidos. A linguagem que fala o que eles sentem e vivem e por isso se identificam, compreendem e se apropriam. A arte é a linguagem, é a voz e a forma de manifestação que faz o monstro movimentar-se e sentir as correntes que o prende. Eis o nascimento da resistência.

Mas o monstro hip hop resiste através do ato criativo, da produção e da inovação em ações coletivas ou grupais. Seus integrantes estão sempre agregando outros elementos artísticos e culturais a seus quatros elementos em busca do novo. Na busca pelo novo transbordam, desterritorializam produzindo novas lutas, novas linguagem, novas formas de vida a cada instante e em novos lugares, onde antes nada se via. E é assim que escapam das tentativas de captura, das cristalizações e normalizações. É por isso que é monstro, porque atua na invenção que é monstruosa porque é excessiva.

Produzindo, criando e inovando, assim caminha o monstro. A cultura é uma máquina geradora de artistas, gerando a todo instante DJs, grafiteiros, dançarinos (B-Boys e B-Girl), escritores, produtores musicais, cineastas, roteiristas, e profissionais na área gráfica, áudio e informática, fazendo emergir novos mediadores e produtores culturais. Mediadores e produtores que se tornam protagonistas de uma economia informal baseada em processos colaborativos que transformam seus territórios de atuação em territórios produtivos geradores de renda, trabalho vivo e entretenimento. Uma economia que se movimenta sobre uma produção frenética de diversos produtos e serviços. É o monstruoso precariado urbano contemporâneo em constituição. Em muitos desses territórios o hip hop ocupa a lacuna deixada pelo Estado e promovem eventos musicais, teatro, dança, cinema, sarau de poesia, literatura, biblioteca, oficinas diversas, internet gratuita e muito mais. E são nesses momentos de interação que o monstro mostra sua força e compartilha conhecimento, informação, formas de vida, linguagens e afetos que permitem a expansão do comum e a resistência em rede.

O Monstro não para. Móvel e mutante está em toda parte atuando em diversas frentes. O monstro atua em presídios, casas de recuperação de menores infratores, em centros de tratamento, como na favela da Rocinha no Rio de Janeiro, onde o Grupo de Break Consciente da Rocinha trabalha o break como terapia ocupacional no Centro de Atenção Psicossocial. Atua de forma solidária com campanha de doação de sangue, ou no caso do festival para ajudar os moradores da favela do Moinho entre tantos outros. A internet é o espaço sem fronteiras. São sites, portais, blogs, rádios webs e TVs web que fazem a periferia fugir para além das bordas. É através dela que as periferias de todo o mundo interagem, compartilham. Mas também é o espaço da mobilização e articulação.

Mas nem tudo são flores. Na prática, muitos discursos e atitudes se contradizem. Apesar de denunciarem a desigualdade e o preconceito, o machismo e a homofobia estão presentes nas palavras e gestos de alguns integrantes. Não raro, encontramos a exploração capitalista dentro das relações da cultura. É isso, o monstro traz em sua carne as marcas dos conflitos, contradições e ambiguidades. Mas isso não significa o caos e sim elementos que possibilitam múltiplas formas de construção do monstro hip hop e promove reflexão sobre as divergências comuns no movimento.

Fluido e dinâmico está sempre conectado a qualquer instante, em qualquer lugar. O monstro hip hop está em toda parte. Multiplicando relações e intercâmbios faz surgir novas agregações, novas formas de trabalho, de aprendizagem, de produzir, de criar e viver, ou seja, uma potência de produção de sentidos. A cada ruptura seus integrantes encontram sempre linhas que os remetem uns aos outros instaurando novos laços, ou seja, uma potência de interação.

No meio da guerra cotidiana pelo direito de viver, o monstro acordou para a vida, e pela vida, e soltou seu grito não para atingir o tímpano, mas a alma de todos aqueles que o emudeceram e paralisaram. O monstro cansou de esperar para ver, cansou de sofrer calado, enxugou as lágrimas e descobriu a potência da vida e do corpo. Segue o monstro seu caminho afetando e sendo afetado, transformando vidas, mundos e mentes. E é assim que se dá a metamorfose, se a vida lhes oferece armas, drogas, álcool, violência e miséria eles desenvolvem poesias, música, ritmo, cores, alegria e sorriso. E o sorriso e a alegria supõem a dominação do medo. O sorriso e a alegria são a celebração da vida. Então vamos celebrar a vida, pois tudo que o monstro quer é ser feliz. Vida longo ao monstro hip hop!

1 Rociclei da Silva é doutorando em Ciência da Informação pelo IBICT/UFRJ e coordenador e gestor do blog Polifonia Periférica



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