ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA / Gabriel Alvarenga


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ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA: da postulação ao ato – Gabriel Alvarenga

Após Foucault, como não radicalizar a estética da existência? Em todo seu percurso de construção de um esquema de pensamento paradoxalmente desconstrutor e criativo, Foucault aporta no cuidado de si e na estética da existência numa atitude afirmativa: a busca do cultivo de possibilidades. Uma cumulação de todo seu trabalho, no delinear de jogos de verdade, na produção ativa da realidade, no diagrama político energizado por uma ética. Desafia tudo isso dentro de uma estética viva, com resistência e liberdade inflexionadas em cada dobra realizável. Não há sujeito, e sim uma prática constante e complexa – não imanejável, mas exigente.

Como suportar e habitar com a estética da existência de Foucault? Como tal noção aciona lutas e embates no contemporâneo? Qual seu corte, sua contundência? É preciso, antes de tudo, retirar decalques e nós estáticos, e ativar a proposição dentro das lutas – da vida –, tendo como propulsão as considerações de prática de liberdade e criação vital. Estética da existência não desenrola somente escritos e abstrações conceituais. Sua potência é de atuação, é pragmática, e trazer seus tensionamentos para dentro do real é catalisar nossas resistências e proposições por um possível.

Tal postulação cunha brechas de ação. O plano da estética e sua imensa potência de criação, que traz em arrasto as dimensões políticas e éticas das ações no real. E a noção de existência como constituição de um si, longe de individualidade ou mesmo grupo delineável, e sim processo constante de criação de modos de vida e práticas de liberdade.

E com Deleuze & Guattari temos mais combustível nesse enfrentamento que Foucault inicia. Temos: fuga, ruptura e guerra, num nomadismo que busca agenciamentos e parcerias confabuladas. Heterogeneidade plural de conceitos, obras artísticas, análises políticas, numa POP-análise engenhosa. A quebra é profunda e a superfície heterogênea. O pensamento processual invade a pretensa divisão racional do real e faz rupturas afirmativas. Arte, ciência e filosofia são divisões de especificidade de procedimento do pensar, não de hierarquia. Há de se filosofar artísticamente, artefactuar com conceitos, e isso sempre a empreender a afirmação do novo. Com que pretensão poderíamos recolocar tais paradoxos avivados por nossos intercessores dentro de caixas confortáveis e digeríveis? Como viver como obra de arte?

De postulações a armas de luta, da filosofia à prática, do livro à rua. Estamos a engastar uma estética da existência, um nomadismo, uma máquina de guerra onde se busca brecha de ação, de criação dentro do sistema. Estética – dimensão de manejo e potente de criação. Arte – pensamento no traçado de inusitadas maneiras outras de interferir na produção do real, mas interferir pela afirmação do diferente, do arranjo novo e mutante. Existência – queda do sujeito individual, cunhando uma liberdade que deve ser reiteradamente praticada e com resistências criativas e vivas.

E temos o encontro, o agenciamento como ponto de ação. No agenciamento, seja ele entre um leitor e uma palavra ou num numeroso levante contra sistemas de opressão, devemos ativar o plano da estética e tantas outras noções que resgatamos aqui por serem noções-arma de embate, de transformação.

Trazemos a estética da existência para rua. A arte para fora das galerias e obras finalizadas. Trazemos para rua individualidades que se decompõem e criam novas composições em múltiplos encontros. Fazer do contato uma obra de arte. Não peça artística tão só, mas a criação de um novo possível com o que temos num agenciamento: afetos que emergem e fluem, tudo o que temos à mão e o movimento vital que não estanca. Isso é politizar a ética pela criação estética do novo. Fazer do agenciamento não somente encontro, e sim campo de batalha.

Ataque no traçar de fugas no real, em inusitadas maneiras de interferir nos processos capitalísticos produtores de dominação e morte. Ativar a radicalidade da estética, saindo de abordagem cristalizada na arte ou em conceitos avaliativos, e trazer seu desenrolar nos micromovimentos da vida. A estética da existência habita muito mais o estômago dos transeuntes que ruge de fome e ânsia, do que as pontas dos dedos de pretensos dândis com artifícios inofensivos e por vezes incrustados dentro dum sistema que já os fabrica aos montes. Estética-ataque nesse catalisar da criação do possível por entre as formações contemporâneas sempre muito atentas no reproduzir da vida em graus imensos de dispersão e captura.

Difícil não, custoso. A transmutação da estática inerte (seja na sisudez de ações dum movimento, na construção asséptica de críticas reacionárias ou mesmo num conformismo que adia o embate), em prol de uma estética consistente e ativa. Um pouco mais de contato e contundência, baixar a guarda e suportar o barulho do mundo, escutar, virar e compor com ele. A máquina do mundo em cada centímetro de pele. Mais velocidade, lâmina e tato. A criação como nosso fluxo – prática, pragmática. Esse o paradoxo que buscamos habitar com grande potencia, sempre entre a militância e a filosofia, entre a arte e a vida, o traçado e a fuga, os obstáculos e o processo.

Desconstruir as capturas e reproduções capitalísticas de consumo da vida desde a academia. Radicalizar os conceitos de tais autores enchendo-lhes de energia de criação, fugindo de debates vazios e abstratos que tanto arrefecem tais noções. Movimentos sociais, uma pessoa que se revolta, políticas de estado, textos, uma intervenção urbana – são energia e prática de tais postulações, e temos de enchê-las com isso: com vida.

Foucault, Deleuze & Guattari na praça, no meio do indistinto coletivo, como tirar da biblioteca os livros que sempre querem penetrar outras vidas. Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada1. Um cuidado e si nômade, uma estética da existência tão afiada e disruptiva como a arte.

Catalisar os conceitos, buscando sua performance criativa, seu traçado estético e contundente. A vida como obra de arte sendo o cuidado de criar seu si como o traçado de uma linha em meio ao caos, mas esta sempre linha de fuga praticada numa fina liberdade comum e indistinta. Transformar a arte com o sangue que corre das veias dos pobres aos esgotos das sarjetas.

Novos regimes de sensibilidade, maleabilidade e elasticidade vital. Ativar a alça comum que nos energiza, o campo de força catalisado pelo encontro que nos liga sem criar limite, mas sim superfície de contato e coloridos outros. Guerrilha, na surdina, coletiva e de deslocamentos múltiplos, e por aí o movimento de criação de possíveis perde seu sentido individual ou artístico como adereço. Ganha matizes de multiplicidade e desmonte pela afirmação do inusitado e alegre encontro com as diferenças. O fortalecimento pelo contato, a criação dentro de cada segundo transcorrido em calçadas comuns, o toque do enamoramento que engancha-nos ao ponto mais tenro do real – o encontro em que estamos a todo instante. What better place than here, what better time than now2?

1 Cada lugar na sua coisa, Sergio Sampaio.

2 Guerrilla Radio, Rage Against the Machine.



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