DESEJOS, IMPREVISTOS E IMPROVISOS / Marcelo Wassen


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DESEJOS, IMPREVISTOS E IMPROVISOS NO PROJEO RADIO INTEROFÔNICA #5 – Marcelo Wassen

Planejamento e improviso. Entre estes dois pólos o projeto “Rádio Interofônica #5: Descartografias visuais, sonoras e audiovisuais” aconteceu. Por um lado, as atividades artísticas previstas foram realizadas de acordo com o que foi previamente pensado pelo coletivo Interofônica. Por outro lado, somente durante a execução das ações é que elas puderam ser realmente efetivadas e ativadas, já que a participação do contexto era fundamental e moldou as próprias formas de realização do trabalho colaborativo. E é justamente neste momento de efetivação que se faz necessário saber improvisar. Antes de discorrer sobre o tema, explicarei resumidamente o projeto.

Os dois eixos de atuação foram a criação de uma rádio temporária local e a construção processual de uma cartografia colaborativa, em uma lona de 2 x 7 metros e na internet, através da participação dos diversos moradores de Cachoeira (BA) e região. Conforme coloca Mariana Novaes, outra integrante do coletivo Interofônica, no texto “Descartografias visuais, sonoras e audiovisuais: uma experiência coletiva no Recôncavo Baiano”, estes dois eixos foram articulados para criar um espaço de encontro, convívio e troca, possibilitando uma produção de desejos em comum.

Esta prática coletiva, no entanto, parte e dialoga com os desejos e intenções pessoais de cada envolvido. O envolvimento dentro dessas práticas de arte é amplo e diverso, desde os integrantes do coletivo até os artistas, artesãos, estudantes e articuladores culturais, nascidos ou não em Cachoeira. No meu caso, enquanto artista propositor e à frente dos objetivos práticos do projeto, vivenciei duas experiências distintas durante a realização do meu desejo de estabelecer um diálogo entre as pessoas deste contexto específico e minhas vivências artísticas anteriores. A primeira delas foi quando encontrei mais uma tampa/estrela da constelação de Aldebarã.

O trabalho “Descobrindo a constelação de Aldebarã” teve início em 2003, em Florianópolis (SC), quando comecei a encontrar e pontuar sobre o mapa da cidade tampas de incêndio fundidas em metal com a insígnia “Aldebarã” e um ano (sempre entre 1980 e 1984). A quantidade destas tampas em comparação com outras era bem menor e cada encontro tinha peso significativo, quase como descobrir uma linguagem secreta inscrita entre o nível da rua e o subsolo. Cada tampa era fotografada, batizada e inserida na Constelação de Aldebarã – um grupo imaginário de estrelas, desenhado sobre o mapa da cidade. Com o público, foram criadas diversas interfaces lúdicas para que novas tampas/estrelas fossem descobertas, primeiramente em Florianópolis, e depois em Criciúma (SC), Porto Alegre (RS), Maringá (PR), Rio de Janeiro (RJ).

Ao chegar em Cachoeira, pela primeira vez deparei-me com uma maior quantidade de Aldebarãs já presenciada. A cada 5 metros, uma tampa/estrela era encontrada. A busca, antes uma procura minuciosa, ali se tornou um exercício banal. Tentei usar a localização da tampa/estrela para iniciar conversas na rua (como na frente da loja “Miscelânea Iemanjá”) ou mesmo comparar as pequenas diferenças entre elas, através da fotografia. Durante duas semanas de vivências presenciais, usei diferentes táticas, tal qual um músico que improvisa sobre um mesmo tema, sem chegar a um formato fechado conclusivo.

Porém, a proposta onde o improviso realmente se efetivou foi no Diário Cartográfico – fruto do diálogo entre eu, Mariana Novaes, Ronaldo Eli e Luciana Tognon com um dos participantes do projeto, Roni Bon. Foi este último quem trouxe sua experiência do trabalho em gráfica e deu início à uma publicação tamanho A3, criando capa com tipografia artesanal e encadernação manual. O Diário teve como objetivo registrar a passagem do público pelo espaço da Rádio Interofônica, interferindo nas suas páginas com desenhos, textos, poemas ou simples comentários. Tal proposta surgiu como uma indefinição da artista Luciana Tognon dentro do projeto.

Inicialmente ela ministraria uma oficina relacionada à prática videográfica. Contudo, durante a implementação da rádio e da cartografia na lona, a oficina deixou de ter um propósito. A partir do desejo de interação com as pessoas que estavam freqüentando diariamente o espaço da rádio e, principalmente, através de uma escuta atenta às possibilidades em potencial, que se pôde pensar e viabilizar colaborativamente tal proposta. O Diário surgiu com o intuito de criar diálogos, circulando entre os moradores de Cachoeira, mesmo depois do término desta etapa presencial, tornando-se, assim, um dispositivo cartográfico móvel. Estes diálogos trouxeram surpresas já nas primeiras interações.

Outro residente de Cachoeira e participante de algumas atividades do projeto foi Rufino. Ele é restaurador e estava trabalhando na igreja ao lado da sede temporária da rádio. Dentro do Diário, fez desenhos do que para ele é significativo: atabaques, vasos cerâmicos de comidas, mulheres com típicos trajes baianos e uma antiga luminária de rua. Quando perguntei sobre este elemento, ele me falou da intensa presença delas pela cidade – um indício da sua longa história, com 481 anos desde sua fundação. Esta informação poderia ser enumerada como mais um dado histórico do local, porém novamente me deixou surpreso. Depois da conversa com Rufino, encontrei luminárias na câmara municipal, em uma casa antiga abandonada e até na igreja em restauração.

Diferente das tampas/estrelas que se comunicaram com minhas experiências urbanas anteriores e minha proposta artística, a luminária colocou em relação as múltiplas temporalidades presentes na configuração da cidade pela arquitetura e mobiliário urbano, mas principalmente criou um vínculo compartilhado entre eu, passageiro, e Rufino, residente. Relação que surgiu desta mescla entre ter o desejo objetivo de realizar algo e manter abertura para que os fatores imprevistos e não calculados ocorram. É neste sentido que o improviso se apresenta como um saber específico das propostas que buscam o diálogo vivo e afetivo entre propositores e participantes de projetos artísticos colaborativos.



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