COPESQUISA / Bruno Cava


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COPESQUISA – Bruno Cava


Teoria e prática se distinguem, mas não se separam. Não há teoria que não esteja nutrida de práticas, nem prática que não seja animada por teorias. É caso de perceber os atravessamentos. A prática eficaz pode ajudar a mobilizar teorias até então infecundas, tanto quanto uma boa teoria pode desbloquear práticas ineficazes. Uma prática pura é tão impossível quanto uma teoria pura. Erros simétricos: voluntarismo e intelectualismo. Teoria e prática que não se percebem entre si significam teoria ruim e prática ineficaz. Em geral, separar teoria e prática é um procedimento associado a uma prática e uma teoria elitistas. Estas hierarquizam os saberes, estabelecem lugares de enunciação, interditos e campos invisíveis, e dessa forma integram dispositivos de poder. Dissociam sujeito e objeto, põe o objeto como coisa a assujeitar-se pelo sujeito teorizador, objetificam o sujeito. A copesquisa se faz de outra forma: entre sujeitos abertos à mudança de perspectiva. Nesse sentido, ela é perspectivista. O portador do método dispara uma perspectiva de libertação. À tendência descritiva ou sociológica, tem-se uma tendência política voltada à ruptura.

A copesquisa militante toma como ponto de partida a relação entre teoria e prática. Seu problema está em exercer uma teoria prática e uma prática teórica, onde produção do conhecimento e ativismo se dobram e redobram. É uma pesquisa das lutas nas lutas. Investiga um horizonte alargado de insatisfações, tensões, recusas, antagonismos e diferenças no modo de viver e gerar juntos. Ela investiga a composição política dos sujeitos produtivos, seus modos de auto-organização e liberdade. Pesquisa os momentos de autonomia por dentro do “modo de produção”, enquanto constituição material dos tempos e espaços. Analisa a produção do espaço e a libertação do tempo. Instala-se na emergência dos novos sujeitos produtivos, nos cronótopos do trabalho vivo. Perscruta pelo que se movimenta, se expande e propaga, pela franja movente e constituinte de novos direitos, formas de vida e subjetividades. Os saberes que interessam à copesquisa circulam nesse comum produtivo. São saberes vivos.

No fundo, a copesquisa já está, os sujeitos que habitam a franja já a realizam. A resistência ou pobreza já implica um pensamento organizado pela própria condição. Isso já exprime uma estética e uma poética. A copesquisa não é algo a se fazer, mas uma práxis coletiva de compartilhamento, inovação e enxameamento de saberes vivos, que todavia pode ser potenciada. Por isso, a copesquisa tem um “tempo longo”. Sua temporalidade se faz no paciente emassamento do sujeito revolucionário, ou melhor, na paciente produção de subjetividade revolucionária. Esta se condensa com a paulatina organização da autonomia, dentro e contra o “modo de produção” capitalista, sem fazer planos de sociedade futura ou aspirar a foras utópicos. A negatividade por si só nada cria. A recusa à subjetividade do capital está assentada numa positividade maior, a vontade de viver além da sociedade capitalista, vontade que é imediatamente ação coletiva, potência em ato. A trama dispersa desses atos, as alternativas, sabotagens, astúcias e recusas, tudo isso vibra junto numa rede. A copesquisa circula nessa rede. Aos poucos, é estimulado o aparente “espontaneísmo” das resistências e reexistências, mesmo cotidianas.

O processo como um todo revela o caráter abstrato da classe, o caráter global da luta, a possibilidade de as diferenças se comporem no mesmo plano político. Isso sem se reduzir à identidade, sem renunciar à própria distância constitutiva entre os sujeitos, numa autêntica unidade do movimento real. Essa abstração não é negativa. É construtiva do real. Trata-se da abstração determinada. O capital também abstrai. Por exemplo, abstrai a propriedade da posse, o valor do trabalho vivo, o indivíduo do conjunto das relações sociais, em suma, as relações de produção das forças produtivas. Sem abstração, os termos não entram em relação e o processo como um todo não se move. O termo abstraído está mais longe do concreto, mas desse jeito participa do processo mais complexo e sofisticado de acumulação, o capitalismo. Essa síntese do capital, contudo, arrasta consigo uma riqueza enorme de determinações materiais. Quer dizer, toda a luta de classe, a multiplicidade viva que anima a produção capitalista termina aterrada pela lógica capitalista.

O trabalho da copesquisa consiste em descer às forças produtivas e reverberar as determinações sintetizadas, mas incandescentes. Está em fazer aflorar as diferenças, os antagonismos, as singularidades, aflorados juntos, um arquipélago de microrrevoluções, um enxame de híbridos. Sem esse enriquecimento de determinações, a vivência do antagonismo resulta não só impotente, como conduz a uma teoria e uma prática ineficazes e contraproducentes. A abstração indeterminada só pode levar a golpes toscos, quiçá “terroristas”, bem como a juízos normativos, juízos a respeito do grau de anticapitalismo dos outros, de quão à esquerda se situa este ou aquele. A vanguarda da denúncia não procria.

A copesquisa assume que o comunismo não sucede o capitalismo. Precede-o em todos os aspectos, e continua vivo apesar das dentadas do vampiro. Tudo o que fora homogenizado e metrificado pelas sínteses ainda pulsa. Essa pulsação excede a forma do capital e se converte em imaginação. E imaginação real, o processo imanente de fabulação que a copesquisa acelera. O que fortalece é a positividade. O que interessa é a materialidade das lutas. Nenhuma pesquisa ou análise fora da franja.



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