CARNAVALIZAÇÃO / Cacá Fonseca e Pedro Britto


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CARNAVALIZAÇÃO DA CORDA: SOBRE RUA E MOBILIZAÇÃO EM SALVADOR

Cacá Fonseca e Pedro Britto1

Desce do trono, rainha
Desce do seu pedestal
De que te vale a riqueza sozinha
Enquanto é carnaval
Desce do sono, princesa
Deixa o seu certo rolar
De que adianta haver tanta beleza
Se não se pode tocar?
Hoje você vai ser minha
Desce do cartão postal
Não é o altar que te faz mais divina
Deus também desce do céu
Desce das suas alturas
Desce da nuvem, meu bem
Por que não deixa de tanta frescura
E vem para a rua também

ARNALDO ANTUNES

COMISSÃO DE FRENTE ::: A cidade encapsulada em tapumes; suas entradas, portões, praças, postos de gasolina, escolas, igrejas, hospitais, mercados, TUDO emparedado por muros provisórios de madeirite, que bloqueiam a tênue permeabilidade dos limites entre público e privado. Estes cercamentos se alastram por toda a região inserida nos circuitos “Barra – Ondina” e “Centro – Campo grande”, eixos hegemônicos do carnaval de Salvador; e amotinam-se também sobre o seu entorno. Um ermo de cidade, encerrada no fechamento para a segurança dos imóveis contrapõe-se à voluptuosidade dos camarotes, repletos de marcas de cerveja, de bancos, de emissoras de televisão, de jornais e revistas, de cantoras, fechados para a segurança dos turistas e pagantes. O empresariamento da folia significa a indigência do espaço urbano, o reboque da dimensão pública pela privada, num assolamento das múltiplas espessuras foliãs intrínsecas à experiência cultural da vida urbana. A avidez pelo espaço ata à aspereza dos muros a efusividade de estruturas gigantes que pairam sobre o chão urbano com aderência pontual e metálica. Os pés dos andaimes pousam sobre a rua, empurram sobre sua superfície um espaço inacessível, os camarotes, e expropriam dela a sua existência insólita. Insultam a efusividade com a privação, de forma que a instauração da indigência do espaço público constrange a pulsão foliã dos corpos.

Em 2012 a retração da dimensão pública das ruas de Salvador durante o carnaval passou por um efeito de amplificação e de radicalização dos instrumentos no momento em que a cidade se confrontava com mais uma aliança perversa entre capital público e privado. A praça de Ondina, localizada no final do circuito “Barra-Ondina” foi concedida pela prefeitura para a empresa Premium Produções Artísticas, responsável pelo agenciamento do Camarote Salvador. Tal empreendimento a princípio reformou a referida praça a fim de obter o direito de uso, e para tanto orientou a conformação do espaço ao pressuposto de que tudo deveria desaparecer, tal como a tábula rasa moderna, entre os meses de dezembro a março. Todos os elementos do projeto – mobiliário, traçado urbano, iluminação, equipamentos de esporte – e a própria inexistência da vegetação atestam a orfandade da praça e a desertificação da sua dimensão pública.

PASSISTAS::: É quinta-feira de véspera de carnaval na cidade da Bahia, primeiro dia dos blocos na avenida, quando um grupo de foliões, agrupados pela insígnia de PIPOCA INDIGNADA2, perfura a ordem pré-estabelecida do desfile e adentra o circuito “Barra- Ondina” antes de qualquer trio oficial e patrocinado. Levam cartazes militantes, denunciam nomes de vereadores corruptos, um dragão chinês traveste-se de metrô (aquele projeto fiasco que já soma 12 anos de construção), apitos, bloco das viúvas do prefeito João, da máfia do “busu”, enredam o corpo-a-corpo, a irreverência, o inesperado no circuito e o transfiguram momentaneamente em rua. Ali onde o carnaval expõe o ápice da saturação de processos urbanos – mercantilização, empresariamento, privatização da vida e até mesmo da alegria – uma contração súbita e transitória brinca a rua, instaura porosidade nas reentrâncias coletivas e públicas da sua alteridade. A folia reinveste sobre as marchinhas carnavalescas gritos:

_ “É na rua carnaval, é na rua carnaval”, direcionados para os espectadores do circuito, que escorados no peitoril dos camarotes, estampados no peito a bandeira-abadá dos seus patrocinadores.

Curto-circuito, rua, atravessamento, esbarrão, conflito, suor, emoção, atropelo, grito, polícia, “A rua é pública”, estranhamento, a comissão de frente puxa. O delírio desacelera a rítmica circuito-trio-elétrico, um arremesso de confetes pontilham e pulverizam R-U-A. A cadência é do caminhar, do pular, do contato, pés, chão, os passistas da pipoca indignada tomam a rua …

Eu quero é botar meu bloco na RUA
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
EU QUERO É TODO MUNDO NESSE CARNAVAL…

SÉRGIO SAMPAIO

ALEGORIA: a CORDA

A corda! Olha a corda!, logo virou

A cobra, olha a cobra. A cooooorda. Acorda a corda a corda

Cordacordacordaacordacordacorda corda acorda a orda…….

A arquitetura da segregação carnavalesca elabora-se com as hiper estruturas metálicas dos camarotes e a ínfima estrutura da corda, barreira de restrição implantada ao rés da rua, que fratura a multidão foliã em dois grupos, pagantes e não pagantes e aos primeiros reserva-se o privilégio da proteção erigida por uma corrente humana, os cordeiros3.

No motim dos pipocas, passistas- indignados, a matéria plástica e fibrosa de uma extensa corda de 10 metros movimenta-se pelas mãos de dois foliões, que se revezam constantemente. Cada um alça uma das pontas e na estreiteza da sua linearidade fabulam círculos giratórios. Batem a corda, ondulam sua rigidez em elasticidade, fantasiam a corda-cobra e a corda pra pular. Atravessam na planura do asfalto uma flutuação propagadora dos sentidos da brincadeira e da infância.

O espaço conformado pelas duas extremidades da corda em movimento é ocupado por grupos de 5, 6, 3 pessoas, convertendo-a num campo de atratividade intensivo e desfigurando sua expressão hegemônica, a barreira proibitiva. Intercepta camarotes, circuito, asfalto e de forma magnética, as crianças, arrebatadas pelo entusiasmo de existirem como tal, como crianças. Elas, pequenas operárias da folia, catadoras de lata em sacos às vezes do seu próprio tamanho, agem em bandos, às vezes duplas, por vezes visivelmente irmãos, uma ou outra só. É comum notar um espanto no seu rosto, parecem não acreditar que ali se pode pular corda. E entregam-se com um viço pulsante e um ímpeto de urgência à folia da corda, cantam, gesticulam saltos, misturam golpes de capoeira. Com a maestria de passistas, jogam de forma encantadora com a alegoria: pipocando a rua, pipocando R-U-A::

o homem bateu em minha porta e eu abri.

Senhoras e senhores põe a mão no chão.

Senhoras e senhores pulem de um pé só.

Senhoras e senhores deem uma rodadinha.

E VÁ PRO OLHO DA RUA!

CANTIGA DE CORDA – DOMÍNIO PÚBLICO

1 Cacá Fonseca é designer e doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Urbanismo da UFBA e Pedro Britto é arquiteto-urbanista, professor da FAUFBA e doutorando pelo mesmo programa.

2 A “pipoca indignada” foi uma manifestação organizada por dois movimentos da sociedade civil de Salvador, o Desocupa e Vozes de Salvador. O convite para a saída na avenida circulou especialmente em redes virtuais, com a seguinte chamada “desfile sua indignação, fantasie-se, proteste”. A denominação pipoca é uma citação do termo já utilizado em Salvador para se referir ao grupo de foliões não pagantes, que fica fora da corda dos trios elétricos, não usa os abadás como forma de identificação e ocupam/ disputam o espaço residual da privatização da cidade.

3 Os cordeiros são homens e mulheres que seguram a corda dos trios elétricos ao longo do desfile. Formam uma barreira humana restringindo o acesso ao espaço circundado pela corda apenas aos pagantes.



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