AMOR / Matilha Amorosa


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AMOR1

Não se trata aqui de dizer que o amor é isso ou aquilo, que esse tipo interessa, mas aquele não, e sim de, diante de suas múltiplas facetas, encontrar terrenos férteis onde ele aparece como o contrário da morte, ao invés de simples dimensão da vida: o que torna possível diferenciar a vida da morte é o amor! Diante disso, propomos o amor enquanto ferramenta de luta – como razão de ser mesma das ferramentas, e das lutas: terreno onde são semeadas as possibilidades de amar a vida, ou seja persistir na existência e de viver amando, lugar onde é semeada a experimentação da vida. Contra duas visões do amor: a arma que transforma sem ferir dos movimentos “peace and love” dos anos 70 que – como os saudosistas não se cansam de dizer – transformaram profundamente o mundo, sem tomar o poder. E o pragmatismo político que não deixa espaço para o amor: a negatividade que sustenta que a luta é sempre violência e objetividade. E que, por isso, a dimensão afetiva atrapalha e desvia o foco do combate.

Queremos nos afastar do amor compassivo, identitário, base incondicional da filantropia dentre tantas outras formas caridosas de ação política. No pressuposto reiterado do “lutar por amor”, este é colocado como sinônimo de solidariedade, espécie de altruísmo em benefício dos iguais: quase sempre homens, brancos, heterossexuais, trabalhadores e “respeitáveis”; que se “ajudam” mutuamente ou “ajudam” os outros fazendo o trabalho de conscientizá-los e de organizar suas formas de vida. Procura-se impor ao outro um modo de ser a partir de uma forma de amor homogeneizante e excludente que exige um comportamento, uma forma de vida pré-determinada e uma identidade que justifiquem as suas relações. Como foi o caso da França revolucionária, que reprimiu brutalmente os bravos haitianos que, inspirados nos ideais da revolução francesa, fizeram a revolução em seus próprios termos; ou dos indígenas no Brasil, tratados como grupos de segunda classe por não serem “como nós” – e que por isso não tem direito à terra e às vezes, mesmo à vida.

Um corpo que não ama é um corpo morto. Nesse sentido o amor se materializa nos encontros, pelo simples e poderoso fato de encontrar o outro. O outro negro, a indígena, a outra travesti, mulher e/ou jovem, a vadia, o artista, o operário, o camelô, o maconheiro, a hacker, o militante, a favelada, o estudante, a punk, o viciado, o hippie da praça. O amor nesse sentido é marginal e é o comum que nos une a todos contra os ritmos e determinações das pulsões de morte do capital. Que recentemente e em última instância se materializam em Fukushima, Pinheirinho, Belo Monte, Guerra do Iraque, nos celulares e laptops manchados com sangue dos trabalhadores chineses etc.

É no amor enquanto força que excede o campo do dado, do constituído, do aceito – que é normalmente e normativamente imposto – que o amar a vida e o viver amando florescem, admitindo os riscos, a relação com o desconhecido, o desviante – aquilo que faz desviar – o deslocamento, o inesperado, a nomadização: insistindo em outros roteiros diante de formas já estabelecidas (e capturadas) de repressão assim como de resistência. O amor enquanto abertura ativa para a diferença, expressão da criação e da invenção, que se opõe às formas de amor pelo semelhante, pelo conhecido – como forma de dissolução das diferenças e apaziguamento dos conflitos, que levadas ao extremo, despotencializam o amor e se tornam amor pela guerra, amor enquanto guerra.

Contra os planos de morte do capital, e escapando deles, os planos de vida atravessados pelo amor em que a luta pela vida é necessariamente perpassada pela criação e/ou manutenção da vida em suas muitas formas: como o “ecologismo dos pobres”, expresso nas lutas de resistência praticadas cotidianamente por caiçaras, tambaquis, quilombolas, guairobas, indígenas, capivaras, caipiras, palmeiras, tatus, agroecologistas e tantos outros. Um amor pela terra, leia-se insistência da vida e crença na própria terra, nos homens, nas coisas e nos sentimentos. Luta que se materializa também na atitude dos jovens das periferias das grandes metrópoles que, num gesto prenhe de paixão, ateiam fogo e destroem tudo o que encontram a sua volta, o que lhes lembra o amor que a cidade lhes nega! Na estratégia experimentada por estudantes gregos e chilenos que nos protestos utilizam-se do amor para conter os ataques truculentos da polícia. O beijo na boca na linha de frente das manifestações que imobiliza a repressão e faz o poder se ver desprovido das suas rotinas e protocolos totalmente baseados no já esperado confronto e disputa de força com os manifestantes. Plano de vida expresso pelo amor gay dos beijaços praticados mundo afora, e que em São Paulo paralisaram um grande centro comercial da cidade em resposta à repressão de um casal homossexual por agentes de segurança do shopping: beijaço que envidenciou que gays somos todos os que vivem (contra e) apesar das normas.

O amor é a força que produz o comum pela diferença: das diferentes espécies, mitos, tempos, ambientes… das combinações singulares – cada qual um mundo distinto com seus diversos conflitos, mas que nem por isso deixam de compor a multidão de corpos e que, ao partilharem a força do amor são capazes de coabitar o mesmo espaço não pela subordinação, hierarquia ou guerra, mas através da luta pela vida e por sucessivos atos de devoração do outro desejado. Voracidade! Luta pela vida que é o oposto da fome, assim como o amor que se coloca é o oposto da morte: desejo que nos toma plenos e nos atira além, em busca daquilo que queremos e desejamos. Aqui a luta por amar se torna amor pela vida… pelas vidas, no plural! As vividas e as imaginadas: força que nos atravessa e que, nos atravessando, nos liga uns aos outros; força que desestabiliza ao mesmo tempo em que agrega. Como partículas que tanto se atraem mutuamente como se repelem, compondo aqui e ali com outras partículas e formando novos corpos. Sempre com grande violência. Nenhuma partícula é indiferente à outra, assim como nenhum corpo passa despercebido a outro corpo. O amor nos leva assim a novos lugares, novas situações, a alternativas e alternâncias, a variações sucessivas, sempre escapando da previsibilidade e do movimento linear. Afinal, que pode um corpo senão, entre corpos, amar?

1 Texto colaborativo feito numa matilha amorosa em constante reagrupamento e experimentação.



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