ACAMPADAS / Sarah Nery


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ACAMPADAS – Sarah Nery
No anoitecer do dia 15 de maio de 2011, quando mais de 50 cidades espanholas tiveram suas praças tomadas por milhares de cidadãos indignados, um pequeno grupo de 40 manifestantes que estava na Praça Puerta del Sol, em Madri, no que parecia ser o término de um dia intenso de manifestações contra o sistema político e econômico, decidiu autonomamente acampar no local. Via chat, um ativista recebe assim a notícia: “Hemos acampado en Sol, Democracia Real Ya es un virus y ha impregnado a la sociedad y nosotros vamos a quedarnos aquí y ya veremos que pasa” (TORET, 2012). Assim começava uma situação não prevista pelo movimento – que há três meses articulava-se principalmente através das redes digitais – e que veio a se tornar uma de suas práticas mais importantes e a inspirar muitos outros a fazerem o mesmo: a acampada. “Toma la calle”, “Yes, we camp”, “Occupy”, “Ocupa” se tornaram as palavras de desordem desde então.

Inspiradas por levantes recentes, como a resposta popular à crise na Islândia, a Primavera Árabe no norte da África e no Oriente Médio, e a Geração à Rasca em Portugal, as acampadas dos Indignados multiplicaram-se pelas praças da Espanha e por países vizinhos que também respondiam de maneira similar às crises econômica e política que se intensificavam desde 2008. Tudo isso aconteceu impulsionado pelo poder da comunicação em rede, que sem dúvida vem modificando a vida em sociedade neste novo milênio. Por isso, quatro meses depois do 15M, a ideia da acampada como ferramenta de luta chegava aos Estados Unidos praticamente pronta no mote “Occupy Wall Street”, quando os manifestantes já convocavam os cidadãos com essa finalidade clara: ocupar o centro financeiro global para dar visibilidade à lógica cruel de um sistema que beneficia apenas 1% da população, em detrimento dos 99%. Mais uma vez, multidões nas ruas, barracas nas praças e zonas autônomas são instauradas para apresentar ao mundo a urgência de se repensar o sistema capitalista e a democracia representativa, nomeados então como os principais vilões dessa história.

Assim, as acampadas desta segunda década do século XXI passaram a constituir, através de suas práticas cotidianas, um novo espaço de interrelações verdadeiramente democráticas no espaço urbano, em busca da chamada “democracia real”. De forma dialógica, consensual e horizontal, definiram-se os protocolos para discussão e decisão, criaram-se os Grupos de Trabalho e as Comissões para tratar de assuntos específicos, realizaram-se inumeráveis ações/intervenções online e offline, promoveram-se incontáveis assembleias que se espalharam pelos bairros e cidades, tudo isso sem a presença ou cooptação de qualquer instituição, partido ou sindicato, como havia sido consensuado. Nesse fluxo contínuo de aprendizagem-e-ensinamento do novo (ou de desaprendizagem e desensinamento do velho) emergiram mini-cidades autogestionadas em meio às grandes cidades automatizadas do capitalismo neoliberal, apresentando-se então como verdadeiros laboratórios de experiências humanas/urbanas/democráticas possíveis. A relação com outros tão diversos como moradores de rua, aposentados, punks, estudantes, desempregados, feministas, dentre muitos outros, é uma das forças do movimento que encarna como poucos a máxima de “politizar o cotidiano e cotidianizar a política”.
Mesmo em escalas menores, as acampadas que têm sido promovidas no Brasil nesse contexto recente, especialmente a partir do movimento Ocupa (que teve no país uma primeira chamada para ocupação no dia 15 de outubro de 2011 – o chamado 15O – quase um mês após o Occupy Wall Street, ocorrido em 17 de setembro), também têm se apresentado como espaços autônomos e autogestionados de lutas e resistências, seguindo grande parte dos métodos utilizados nas experiências de outros países, guardando as devidas proporções. Além dos ocupas, temos visto por aqui cada vez mais estudantes ocupando as universidades, índios ocupando canteiros de obras de Belo Monte, professores em greve ocupando a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, dentre incontáveis exemplos que apresentam a permanência no espaço como uma eficaz tática de desobediência civil pacífica. Em contrapartida, as respostas do Estado têm sido cada vez mais violentas, com soldados excessivamente armados e geralmente agressivos, atacando desnecessariamente cidadãos comuns exercendo seu direito de manifestar-se em espaços públicos. Sendo que uma das principais estratégias das acampadas, como pregam as plataformas colaborativas desses movimentos, é o fato delas serem pacíficas, limpas e bem organizadas, não dando margem a argumentos oficiais que pudessem dissolvê-las. Sendo assim, as cenas de violência promovidas pelo Estado se tornam cada vez mais incoerentes frente à lucidez dos que falam pelo bem comum.
Certamente um caminho milenar pode ser imaginado para traçar as origens da acampada enquanto prática de resistência, particularmente a partir das culturas nômades da humanidade. As relações mais próximas com essa prática aparentemente estariam com os movimentos de luta pela terra, as ocupações de latifúndios e imóveis, cujo ícone mais conhecido no Brasil são os acampamentos do MST, considerados uma “nova forma de luta e resistência” (ABRAMOVAY, 1985). Podemos até arriscar uma associação com certos levantes da história, como, para citar exemplos brasileiros, Canudos e Coluna Prestes, que em diferentes momentos também constituíram suas zonas autônomas temporárias (BEY, 2001) de espírito revolucionário e nômade. Por hora, tudo isso não passa de especulação dialética. Pois, de ciganos a quilombolas, da cultura hippie à cultura punk, dos festivais de contracultura às raves, dos êxodos rurais e urbanos, tudo pode estar interligado à atual atmosfera das acampadas numa teia tão imensa e complexa quanto à que conecta os indivíduos pelo globo atualmente.



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