Ponto de Cultura / Davy Alexandrisky


Assuntos:



“O Cultura Viva emancipa. A burocracia tutela”;
“Potência de uma Narrativa”;
“Povo faz Cultura. Burocrata, burocracia”.
“Direto ao Ponto”

Algum desses frasistas famosos, cujo nome me escapa no momento, disse que “uma batalha começa a ser perdida pelas palavras”.

Trago esta frase ao primeiro parágrafo de um texto que se pretende uma análise poética da narrativa do Programa Cultura Viva e sua mais notória ação, os Pontos de Cultura, absolutamente divorciado de qualquer sentimento beligerante.

Se o faço é porque nosso tema versa exatamente sobre uma revolução.

O Programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura talvez sejam a única verdadeira revolução experimentada nesses 500 anos do Brasil. Revolução no seu sentido mais primitivo, de revolver – revirar, desarrumar, por em desordem – provocando profundas transformações na compreensão que sempre tivemos do papel de um Ministério da Cultura. (ousaria dizer que além de profundas, irreversíveis. Que por ousado deixo entre parênteses).

Sustenta esta minha crença o fato de que o Programa e os Pontos subvertem a lógica que confere à expressão Cultura, um caráter de erudição e excelência artística, preconceituosamente consagrados pela elite e parte expressiva da nossa academia.

Um programa audacioso, que traz para a centralidade da agenda de políticas públicas de Cultura, de forma inédita, o fazer cultural do Brasil profundo. E recupera seu conceito mais elementar: “Cultura é tudo o que o homem faz”.

Priorizando e revalorizando os processos, em relação às obras artísticas decorrente deles.

Com a leveza e a simplicidade do suave reconhecimento às ações de Cultura realizadas regularmente num determinado território, para o que metaforicamente o Ministro Gilberto Gil chamou de “do-in antropológico”, como na intenção de estimular os “pontos energéticos” deste “corpo cultural”.

Ainda nas palavras do Gil: um exercício de “desesconder” o Brasil profundo, num longo mergulho para apresentar o Brasil aos brasileiros.

Um Programa que, na sua inata vocação subversiva, rompe com a rotina paternalista dos governantes, desfocando as carências para focar as potências dos indivíduos e movimentos sociais e culturais, que sobreviveram por 500 anos à margem das políticas públicas.

Estamos tratando neste artigo de uma verdadeira revolução feita através de muitas batalhas cotidianas e em várias frentes.

Mas, voltando ao parágrafo inicial e a sua frase motivadora – “uma batalha começa a ser perdida pelas palavras” – é preciso transbordá-la da semântica para o espaço da disputa política. O espaço das tensões, dos fluxos e refluxos: a palavra como arma de poder.

A motivação é rejeitar o discurso que criminaliza o Programa, por uma suposta complexidade na sua adequação aos controles burocráticos da Lei 8.666.

Rejeitar o discurso que cria problemas insolúveis que comprometam a continuidade e/ou ampliação do Programa.

Rejeitar o discurso que condena o cidadão comum, contribuinte das riquezas deste país a um “não diálogo perpétuo com o Estado brasileiro”, mantendo este “privilégio” às grandes corporações.

Rejeitar o discurso que elege burocracia como norteadora das políticas públicas.

Rejeitar o discurso subserviente às planilhas de controle e outrose cartórios.

Rejeitar, enfim, o uso indevido das expressões “problema” e “complexo”, nos discursos sobre o Programa Cultura Viva!

O uso, intencionalmente pejorativo, da expressão “complexo” tende a criar um grau de íntimo parentesco com a expressão “complicado”, que é antônima a expressão “simplificado”, que, por sua vez, traz na sua raiz a melhor tradução de um Ponto de Cultura: “simples”.

Porque não há nada mais simples do que o Estado devolver uma “nano-partícula” do montante do imposto arrecadado aos que o pagam, através de um “micro apoio” a uma ação cultural, regularmente desenvolvida por um ou mais contribuintes, em um determinado território.

Esse é o nosso grande desafio da hora: começar a vencer esta batalha pelas palavras.

Fortalecer a narrativa do Programa, com um discurso de palavras escolhidas cuidadosamente.

Enfrentar o palavrório dos que por preguiça intelectual pretendem fugir à discussão sobre o alcance e os incontáveis méritos do Programa, amparados por pseudos argumentos sobre os, não menos falsos, “problemas complexos”, que envolvem a execução do Programa na prática.

Vencer os palavrosos que dizem, cinicamente, que o Programa é “o maior legado do Governo Lula, mas, ‘infelizmente’, esbarra na burocracia antiquada, anacrônica, obsoleta, confusa, retrógrada, caótica…”, que emperra o Estado brasileiro, sob o falso pretexto da necessidade de controle do dinheiro público.

Quando todos sabemos – as manchetes diárias dos jornais nos não nos deixam esquecer – que, ao invés de impedir, a burocracia cria trilhas sombrias para a “fuga científica” dos recursos do Tesouro Nacional, sob o manto sagrado das “complexas planilhas” arquitetadas pelos “especialistas”.

Ora, por favor, entupam a caixa de mensagens desta publicação com respostas à pergunta que não quer calar:

Quem deve mudar: o Programa ou a burocracia?

1 – O Programa Cultura Viva é cantado em prosa e verso por autoridades de todos os escalões e esferas governamentais como uma ação espetacular do Estado brasileiro (ou um pouco menos, se exagerei. Mas que é muito elogiado por quase todo mundo é uma verdade inquestionável).

2 – Igualmente, mas em sentido diametralmente oposto, a burocracia brasileira é execrada, amaldiçoada, repudiada, atacada por todo mundo, nos mesmos escalões e esferas governamentais (isto não é um exagero. É uma unanimidade).

Ou seja, o Programa é maravilhoso e a burocracia é um horror!

O que torna crime hediondo de lesa pátria, mudar o bom para atender ao ruim!

Ou será que fiquei maluco?

Seria esta a resposta correta? Não mexer no que emperra e mudar o que dá bons resultados!

Isto por si só já seria trágico. Mas, como tudo que está ruim pode piorar, chega às raias do surreal esta preguiça das autoridades públicas para o enfrentamento às distorções da Lei 8666, para desembaraçar a sobrecarga de trabalho para o MINC, quando em alguns minutos essas mesmas autoridades mexem na “imexível” Lei 8666, para atender a exigências relativa as obras para a copa do mundo de 2014.

Para isso, pode. Muda-se até a Lei.

Aliás, diariamente surgem novas Portarias, Instruções Normativas e outros instrumentos infra legais, que revogam as disposições em contrário, em favor de conveniências pontuais.

Mas, se faltar juízo para alguém que ouse propor uma mínima, que seja, alteração de Instrução Normativa, Portaria, Resolução, ou algo que o valha, para agilizar – desemperrar – uma determinada etapa do processo. Logo será acusado de estar patrocinando o mau uso do dinheiro público.

Por isso, nessa guerra particular de palavras, quero propor a substituição definitiva das expressões “complexa” e “problema”, no discurso que trata do Programa Cultura Viva e dos seus Pontos de Cultura. E substituí-las, respectivamente, por “audaciosa” e “solução”.

Como negar a “audácia” na proposta do Programa e dos Pontos, na medida em que oferece “solução” para a secular falta de diálogo do Estado com a sociedade contribuinte.

Uma ousadia que nunca foi admitida, por não interessar aos Governantes de plantão “puxar assunto” para uma conversa aberta com a sociedade brasileira.

A guerra vai ser muito longa. Precisamos ir de batalha em batalha até a vitória final, quando hastearemos no ponto mais alto do mastro nossa bandeira da utopia eterna. E, insisto, a primeira delas é a batalha das palavras, por aonde vimos sendo derrotados.

Davy Alexandrisky



8 Responses to “Ponto de Cultura / Davy Alexandrisky”

  1. Jeffersonmellotv disse:

     

    De fato, talvez esteja aí a peja para um início de discussão, de forma
    desapaixonada e focada na questão principal que é o “emperramento da máquina
    pública”.

     

    Não se concebe transformar os fazedores culturais em meros PRESTADORES
    DE CONTAS, obrigando-os a preencher planilhas intermináveis, acessar sistemas
    enfadonhos e estressantes como o SICONV e SELIC.

     

    Lembrado muito bem a questão das conveniências, quando se modifica leis
    maiores, interferindo até no Estado de Direito, pois sendo o Brasil um país
    federativo, e os Estados possuindo suas autonomias (?) para gerir leis próprias,
    vimos a FIFA, sorrateiramente, intervir nos ameaçando com “chute no traseiro”.
    E nos quedamos paralisados, dizendo “amém!”. 
    Será que precisamos mesmo de COPA DO MUNDO?

     

    A famigerada lei 8.666 (até os três últimos dígitos é (666~サタン~?) é o mangá do capeta.  E assim, neste contexto  macabro e perverso, vemos companheiros e
    companheiras relegados à própria sorte.

     

    É a questão do Edital de 2007, dos Pontões, ainda mal explicada e
    deixada ao sabor do desconforto, diversas entidades, que não tiveram como
    cumprir as exigências do conveniamento (uns por inexperiências, outros pela exigüidade
    do tempo e tantos outros por absoluta falta de compreensão do que o Estado
    pretendia de fato).

     

    Se for para iniciarmos uma revolução pela palavra, que comecemos agora,
    discutindo questões pontuais e necessárias a esta mudança que se faz urgente.
    Tem que haver outros critérios, formas e maneiras de se fazer acontecer, sem
    que estejamos , como sempre, sendo nivelados por baixo.

     

    A cultura merece um tratamento mais sociabilizado e os fazedores
    culturais, merecem, no mínimo… RESPEITO!!!

     

    Mário Jéfferson Leite Melo

  2. Cabeto Rocker Pascolato disse:

    Jeff,
    Sábias palavras vinda de um homem que eu tenho orgulho de conhecer!
    Sim, não é mais cabível sermos destroçados culturalmente por meia duzia de políticos concomunados por interesses egoístas, apoiados por leis antiquadas, paralisantes e à serviço do desserviço cultural desse país!
    Não é mais cabível vermos nossas energias e nossa cultura real e profunda ser derrotada por pessoas mal intencionadas com a vida! Abraços, Cabeto Rocker

  3. Cuqueiro disse:

    Muito bem mestre Davy!

    Você tocou no cerne da questão!

    Esse jogo de palavras que os inescrupulosos estão realizando, na verdade é uma tática das mais antigas, em que alguns poucos que querem manter a nova velha ordem que só beneficia a eles mesmos, se colocam como donos de uma dita “verdade”, inventando fábulas para ver o quanto e até quando conseguem enrolar o povo, ou desvirtuar nossa atenção. Pior ainda é perceber que estes agentes do Estado de coisas são apenas peças no tabuleiro dos que realmente mantém as ordens, leis e normas para manter seu poder e domínio sob os demais, e como tais submetem-se, muitas vezes cegamente, a servir ao sistema, tornando-se nada além de escravos em prol da injustiça social. Mas como todos sabemos, se a “verdade” existe, ela se revela com a massa e não com a minoria, e a massa conhece e defende o Cultura Viva.

    No contra-ataque desse conflito de interesses, sugiro que além de ressaltar a “audácia” do Programa enquanto “solução” para a necessária mudança de paradigmas na relação entre Estado e sociedade, aprofundemos o significada das seguintes palavras (seguem entre parenteses a definição na minha perspectiva – como exercício, talvez seria interessante outros ponteiros refletirem os significados sob seus pontos de vista):
    – “empoderamento” (consciência individual e coletiva)
    – “autonomia” (liberdade para estabelecer leis próprias)
    – “protagonismo” (principal agente de transformação)
    – “emancipação” (libertação social sob princípios de igualdade)

    Nossa atenta observação, reflexão e estratégia é fundamental principalmente neste momento, em que estão utilizando trechos de textos fora de contexto como pretexto para fazer um dito “redesenho”…

  4. Saudações Caro Davy,

    Nós do Ponto de
    Cultura Mirante lhe encontramos na Revista Global Brasil, mais do que
    participantes da batalha semântica e territorial, nos sentimos
    representados enquanto Ponto de Cultura e confiantes para batalha.
    Assim, como encontrar um amigo na rua, nosso primeiro movimento foi
    de saudá-lo e em seguida parabeniza-lo! Como Ponto de Cultura e como
    sujeitos contemporâneos, que sentem a crise cognitiva do sistema e
    reivindicam autonomia, nos sentimos re-energizados.

    O sistema possui suas
    máquinas de reprodução e seus mecanismos de defesa, mas nesse
    momento que demonstra crise é que estamos à ocupar!
    Territorializar, entre múltiplos, espaços políticos e de
    significados. Desterritorializar essa burocracia reprodutora de um
    sistema elitista e patriarcalista. Relembrar, quem sabe, de algum
    ideal de Estado Moderno, onde a burocracia, não mais pensada de
    forma pejorativa, mas como mecanismo otimizador que permita
    aproximações, contágios e integrações, reterritorializa-la,
    pô-la ao rés do chão . Nesse aspecto a Cultura Viva e os Pontos de
    Cultura vem se mostrando como eficiente tática, pois trata-se do
    confronto direto com a lógica de poder.

    Esperamos te encontrar
    numa diversidade de lugares, seja geográficos ou digitais. As
    “Ponteiras” Luara Monteiro, Isabela Bimbato e Thiara Pagani
    mandam forte abraço e carinho pela acolhida na Cúpula dos Povos.
     

  5. Saudações Caro Davy,

    Nós do Ponto de
    Cultura Mirante lhe encontramos na Revista Global Brasil, mais do que
    participantes da batalha semântica e territorial, nos sentimos
    representados enquanto Ponto de Cultura e confiantes para batalha.
    Assim, como encontrar um amigo na rua, nosso primeiro movimento foi
    de saudá-lo e em seguida parabeniza-lo! Como Ponto de Cultura e como
    sujeitos contemporâneos, que sentem a crise cognitiva do sistema e
    reivindicam autonomia, nos sentimos re-energizados.

    O sistema possui suas
    máquinas de reprodução e seus mecanismos de defesa, mas nesse
    momento que demonstra crise é que estamos à ocupar!
    Territorializar, entre múltiplos, espaços políticos e de
    significados. Desterritorializar essa burocracia reprodutora de um
    sistema elitista e patriarcalista. Relembrar, quem sabe, de algum
    ideal de Estado Moderno, onde a burocracia, não mais pensada de
    forma pejorativa, mas como mecanismo otimizador que permita
    aproximações, contágios e integrações, reterritorializa-la,
    pô-la ao rés do chão . Nesse aspecto a Cultura Viva e os Pontos de
    Cultura vem se mostrando como eficiente tática, pois trata-se do
    confronto direto com a lógica de poder.

    Esperamos te encontrar
    numa diversidade de lugares, seja geográficos ou digitais. As
    “Ponteiras” Luara Monteiro, Isabela Bimbato e Thiara Pagani
    mandam forte abraço e carinho pela acolhida na Cúpula dos Povos.
     

  6. RAIMUNDO CALCADA disse:

    O grande problema é que ponto de cultua deve ser um prêmio, uma parceria, não um convênio. Estão massacrando a criação sociocultural com tantas exigências, uma prestação de contas avassaladora, um monte de cheques e notas. Ponto de cultura não é empresa rica. Muitos pontos não estão conseguindo suportar e estão fechando as portas. Isso só tenderá a aumentar. Ou consertam isso ou dêem anistia para todos. O que importa é o trabalho feito.

  7. RAIMUNDO CALCADA disse:

    O grande problema é que ponto de cultua deve ser um prêmio, uma parceria, não um convênio. Estão massacrando a criação sociocultural com tantas exigências, uma prestação de contas avassaladora, um monte de cheques e notas. Ponto de cultura não é empresa rica. Muitos pontos não estão conseguindo suportar e estão fechando as portas. Isso só tenderá a aumentar. Ou consertam isso ou dêem anistia para todos. O que importa é o trabalho feito.




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