O tempo das revoltas / Alain Bertho


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Entrevista realizada por Marc Beaugé com Alain Bertho, autor do livro Le Temps des Émeutes, Bayard 2009

Tendo acontecido em momentos diferentes, que relação vocês estabelecem entre as revoltas na França em 2005 com as revoltas na Inglaterra em 2011?

As revoltas de 2005 abriram uma sequência na qual as acontecidas em 2011 encaixam-se perfeitamente. Estamos, desde 2005, no que eu chamo de “tempo das revoltas”, quer dizer, um período de multiplicação das revoltas, em escala variada e em lugares e contextos bem diferentes. Consegui identificar mais de 500 revoltas no mundo inteiro em 2009, 1.200 em 2010, e mais de 1.000 desde o início deste ano. Estamos, portanto, em uma fase muito particular, diferente de tudo que aconteceu nos últimos 50 anos. As revoltas de 2005 não foram as primeiras na França, mas foram as primeiras a em chamar a atenção massivamente. Em certo modo, conseguiram o que queriam. Em 2005, tudo aconteceu a partir da morte de dois jovens que estavam sendo perseguidos pela polícia. É o mesmo que aconteceu em Londres em 2011, mas também em Villiers-le-Bel em 2007, na Grécia ou em Montreal em 2008… Evidentemente, a morte suspeita de um jovem não é a única causa das revoltas, mas trata-se de uma causa que atravessa os continentes e que faz com que jovens muito diferentes possam se mobilizar de maneira muito parecida.

A partir de que momento a reação a um acontecimento trágico se transforma em um movimento mais vasto em termos sociais e políticos?

A morte de um jovem não é mais do que o elemento desencadeador que permite a emergência de outros elementos de raiva e frustração. Estamos num momento singular de crise da representação política. As frustrações, as cóleras que poderiam, bem ou mal, se exprimir através dos dispositivos democráticos não encontram mais espaço para se expressar. Não podem mais ser verbalizadas. A insurreição intervém como substituto, como um último recurso. É crucial, portanto, observar e entender o que são as revoltas, porque no fundo interpelam a todos nós. O que observamos na França em 2005? Incêndios de automóveis, de ônibus, de alguns edifícios públicos. Com poucos confrontos diretos, as revoltas francesas são inapreensíveis. E praticamente sem saques. É uma maneira de os jovens dizerem: “Estamos aqui, nós existimos”. Em Londres já foi diferente. Existia uma vontade de confronto com a polícia. Houve também incêndios de edifícios privados e muitos saques. É fundamental entender isso como a intensificação do sentimento de exasperação diante das desigualdades sociais… Hoje, a distribuição de renda na Inglaterra é equivalente à que predominava há um século. Existem os ricos cada vez mais ricos, os visivelmente ricos, e uma grande parcela de pessoas cada vez mais pobres. Em um contexto em que as políticas sociais tornaram-se inoperantes, em função da subordinação dos governos à lógica financeira, dispõe-se de um terreno muito propício às revoltas.

Alguns tentam despolitizar as revoltas inglesas, caricaturando seus protagonistas como simples ladrões, motivados pela ganância fácil…

Trata-se da tese do poder, do Estado. E é uma tese reconfortante também. Mas o sistema político tal como existe não é capaz de resolver os problemas, e a exasperação deve se exprimir então de um modo diferente, não apenas nas urnas. As revoltas de 2005 – como as de 2011 – são a expressão de uma doença social que não para de aprofundar-se.

É por isso que o medo de contágio das periferias francesas não parece materializar-se …

Venho observando o fenômeno das periferias francesas faz vários anos, e é bastante surpreendente constatar que as revoltas se parecem, mas não existe contágio de fato. É sempre em um contexto nacional muito preciso que as pessoas assumem o risco de atos violentos. Não se trata, para eles, de um ato banal. Fisicamente, mas, sobretudo, penalmente, os protagonistas assumem riscos enormes. Na Inglaterra, a repressão será severa… É preciso, portanto, observar o contexto preciso das revoltas, o local.

As revoltas são então mecanicamente menos contagiosas que a revolução?

Sim, posto que o que permite a um movimento propagar-se são as palavras. A primavera árabe, na Tunísia, inicia-se também a partir da morte de um jovem em que a policia está implicada. Há os primeiros confrontos e logo isso se propaga para as cidades vizinhas. São as revoltas clássicas. Além disso, a ministra do Interior na França (naquele momento) Michèle Alliot-Marie, não se ilude. De certa maneira, ela diagnostica alguma coisa que conhece bem – ao menos que acabe acontecendo algo muito diferente. Essa juventude urbana agrega outras cidades, outras gerações. O movimento se amplia e, a partir daí, um novo espaço político se abre. E vemos surgirem as palavras, os discursos.

E as lideranças? Há sempre lideranças mediáticas nas revoluções, mas não no caso das revoltas inglesas ou francesas…

Certamente. Os “insurretos” estão isolados, ele não têm sustento em alguma força política, sindical ou associativa. Também não possuem sustentação de outros jovens mais assistidos, mais urbanos. Não tem havido movimentos de agregação em torno das revoltas francesas e inglesas. Diferentemente dos acontecimentos da primavera árabe, que tiveram ampla repercussão na Europa. Pela sua ação, pela sua ideologia e pelos discursos, os Indignados inspiram-se na primavera árabe. Mas não os protagonistas das revoltas (pelo menos por enquanto). Cabe a eles o desafio de colocar palavras nas suas ações…

Tradução do francês por Gerardo Silva.



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