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A Luta por “Democracia Real” no Coração do Ocupar Wall Street / Hardt e Negri

sábado, março 31st, 2012

A luta por ‘Democracia Real’ no coração de “Occupy Wall Street”

O acampamento em Manhattan mostra o fracasso da representação popular no Congresso dos EUA

11/10/2011, Michael Hardt e Antonio Negri, Foreign Affairs e Uninomad

http://www.foreignaffairs.com/articles/136399/michael-hardt-and-antonio-negri/the-fight-for-real-democracy-at-the-heart-of-occupy-wall-street e http://uninomade.org/ e http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/10/luta-por-democracia-real-no-coracao-de.html

Tradução: Vila Vudu

As manifestações sob a bandeira de Occupy Wall Street ressoam em tantas pessoas, não só porque dão voz a uma sensação de injustiça econômica, mas também, e talvez mais importante, porque manifestam sofrimentos e aspirações políticas. Ao espalharem-se da parte sul de Manhattan para cidades grandes e pequenas por todo o país, mostraram que a indignação contra a ganância das grandes corporações e a desigualdade econômica é real e profunda. Mas, no mínimo tão importante quanto isso, é o protesto contra a falta – ou o fracasso – da representação política. Não é tanto a questão de se um ou outro político, esse ou aquele partido, nada faz ou é corrupto (embora isso, também, seja verdade), mas de se o sistema político representativo é, em termos gerais, inadequado. Esse movimento de protesto pode, e talvez consiga, converter-se processo democrático constituinte genuíno.

A face política dos protestos de Occupy Wall Street aparece quando o pomos ao lado de outros “acampamentos” do ano em curso. Juntos, formam um ciclo emergente de lutas. Em muitos casos, as linhas de influência são claras. Occupy Wall Streetinspirou-se nos acampamentos das praças centrais na Espanha, que começaram dia 15 de maio, depois da ocupação da Praça Tahrir, no Cairo, no início da primavera. A essa sucessão de manifestações, é preciso acrescentar vários outros protestos, como as longas manifestações na Assembleia Estadual em Wisconsin, a ocupação da Praça Syntagma em Atenas, os acampamentos de israelenses por justiça econômica. O contexto desses vários protestos são muito diferentes, claro; e não são simplesmente repetição do que acontecera noutros lugares. Mas cada um desses movimentos conseguiu traduzir para a própria situação alguns elementos comuns.

Na Praça Tahrir, a natureza política do acampamento e o fato de que os manifestantes não eram nem jamais seriam representados, em nenhum sentido, pelo atual regime, eram visíveis. A exigência “Mubarak tem de sair” mostrou-se suficientemente potente para envolver todas as demais questões. Depois, nos acampamentos da Porta do Sol em Madri e da Praça Catalunha em Barcelona, a crítica da representação política foi mais complexa. O protesto espanhol reuniu vasto conjunto de demandas sociais e econômicas – sobre o déficit público, moradia e educação, dentre outras –, mas sua “indignação”, que a imprensa espanhola rapidamente apontou como a emoção que os definia, foi claramente dirigida contra um sistema político incapaz de tratar daquelas questões. Contra o arremedo de democracia que o atual sistema representativo oferece, os manifestantes dirigiram um dos seus principais slogans: “Democracia real ya,” ou “Democracia real, já”.

Occupy Wall Street deve ser entendido, então, como mais um desenvolvimento ou permutação dessas exigências políticas. Mensagem alta e clara dos protestos, é claro, é que os banqueiros e as indústrias da finança de modo algum nos representam: O que é bom para Wall Street com certeza não é bom para o país (ou para o mundo). E parte mais significativa do fracasso da representação, portanto, deve ser atribuída aos políticos e aos partidos políticos aos quais compete representar os interesses do povo, mas que, de fato, só representam, mais claramente, os bancos e os agentes que emprestam dinheiro. Esse reconhecimento leva a uma questão aparentemente simplória, básica: a democracia não deveria ser o governo do povo sobre a pólis – quer dizer, sobre toda a vida social e econômica? Em vez disso, o que se vê é que a política tornou-se subserviente aos interesses econômicos e financeiros.

Ao insistir na natureza política dos protestos de Occupy Wall Street, não estamos dizendo que todas as questões políticas possam ser equacionadas em termos das disputas entre Republicanos ou Democratas, ou os resultados do governo Obama. Se o movimento continuar a crescer, é claro, talvez force a Casa Branca ou o Congresso a tomar novos rumos de ação, e pode vir a ser, mesmo, significativo ponto de contenção durante o próximo ciclo eleitoral presidencial.

Mas tanto o governo Obama quanto o governo George W. Bush são autores de “resgates” de bancos e banqueiros. A falta de representação, que os protestos evidenciaram, aplica-se aos dois partidos. Nessas circunstâncias, o clamor dos espanhóis por “democracia real, já” soa ao mesmo tempo, urgente e desafiador.

Se, observados em conjunto, esses diferentes acampamentos de protesto – do Cairo a Atenas, Madison, Telavive, Madrid e, agora, New York – manifestam uma insatisfação com as estruturas da representação política, então, oferecem o que, como alternativa? O que é a “democracia real” que tantos propõem?

As pistas mais claras estão na própria organização interna dos movimentos – especificamente, no modo como os acampamentos oferecem novas práticas democráticas. Esses movimentos desenvolveram-se segundo o que designamos como “uma forma multitudinária” e são caracterizados por frequentes assembleias e estruturas participativas para construir e tomar decisões. (E vale a pena observar que, quanto a isso, Occupy Wall Street e várias das demais manifestações também têm raízes nos movimentos de protesto antiglobalização que se estenderam, no mínimo, de Seattle em 1999 a Gênova em 2001.)

Muito se tem dito sobre mídias sociais como Facebook e Twitter, sempre usados nos acampamentos. Esses instrumentos de rede, evidentemente, não criam os movimentos, mas são ferramentas úteis, porque, em vários sentidos, correspondem à estrutura dos experimentos horizontais e democráticos dos próprios movimentos. Em outras palavras, o Twitter é útil, não porque divulga eventos, mas porque reúne as ideias de uma grande assembleia, para uma específica decisão, em tempo real.

Não espere que os acampamentos, então, desenvolvam líderes ou representantes políticos. Nenhum Martin Luther King, Jr. vai emergir das ocupações de Wall Street e outras. Para melhor ou para o pior – e certamente estamos entre aqueles que consideramOccupyWallStreet um assunto promissor – este ciclo emergente de movimentos vai se expressar através de estruturas de participação horizontal, sem representantes específicos. Tais experiências de organização democrática em pequena escala teria que se desenvolver muito mais, é claro, antes de se poder elaborar modelos eficazes para uma alternativa social, mas os ocupantes expressam poderosamente sua aspiração por uma “democracia real”.

Enfrentando a crise (financeira do capitalismo) e vendo claramente a forma como ela está sendo gerenciada pelo sistema político atual, os jovens que participam dos vários acampamentos fazem, e com inesperada maturidade, a desafiadora pergunta: “Se a democracia – ou seja, a democracia que temos hoje – está atônita sob os golpes da crise econômica e é impotente para fazer valer a vontade e os interesses da multidão, não seria a hora , talvez, de considerar que esta forma de democracia seja obsoleta?”.

Se as forças políticas geradas pelo poder da riqueza e das finanças passaram a defende interesses supostamente democráticos das atuais Constituições, incluindo a dos EUA, não é possível e mesmo necessário, hoje, propor e construir novos valores Constitucionais que possam abrir avenidas e retomar o processo de busca coletiva da felicidade? Tal raciocínio e tais demandas, já vivamente explicitados nos movimentos idênticos que acontecem na Europa e na África Mediterrânea que se implantaram pelos EUA a partir de Wall Street, mostram a necessidade de um novo processo Constituinte e democrático.




El 15M como insurrección del cuerpomáquina / Raúl Sánchez Cedillo

sábado, março 31st, 2012

Raúl Sánchez Cedillo

Cuando escribimos el presente texto, han pasado más de seis meses desde la irrupción del 15 de mayo de 2011. Desde entonces, el 15M ha vivido lo suficiente para que quepa advertir sus efectos en el sistema político y ha desplegado lo bastante sus capacidades para que podamos reconsiderar las hipótesis que al respecto podíamos elaborar hace unos meses, a saber: ¿es un movimiento capaz de refundar la democracia y de qué modo?  Dicho de otra manera: ¿hasta qué punto y bajo qué condiciones es o puede devenir un movimiento constituyente, un poder constituyente (y por ende, es portador de novedad e invención radicales)? O dicho aún de otra manera: ¿hasta qué punto es portador de un proyecto nuevo de revolución (como forma del poder constituyente) y cuáles son las características determinantes de su tempo y proceso revolucionarios? Asimismo, una última e importante cuestión: ¿es una excepción sin modelo, o bien cabe pensar, mutatis mutandis, en una reproducibilidad-traducibilidad en otros contextos continentales y globales?

Por otra parte, a las primaveras árabes de 2011 y a la ocupación de la Plaza Síntagma de Atenas han sucedido en otras ciudades del mundo irrupciones muy similares –fundamentalmente, la iniciada por “Occupy Wall Street” en los USA desde el 17 de septiembre de 2011– que a estas alturas nos permiten hablar de variantes o, más bien, de una variación continua de un prototipo global. Ahora bien, ¿un prototipo de qué?

Podemos afirmar que el 15M, como las primaveras árabes, es un movimiento de revolución democrática, radicalmente (inventor) de democracia y de democratización radical. Pero ante todo el 15M es un proceso de politización masiva de multitudes, de reapropiación de lo político por parte de cientos de miles de personas y, hasta cierto punto, de millones. No es un movimiento de opinión pública, ni de derechos civiles. Incluye estas dimensiones en lo que llamamos un proceso de movimiento-sistema-red.

Si hace unos meses podíamos atrevernos a plantear la hipótesis de que el 15M expresaba, in nuce, un prototipo de poder constituyente, hoy creemos que esa hipótesis encuentra aún más asideros en la fenomenología del movimiento. Téngase en cuenta que hablamos de poder constituyente, esto es, no de «movimiento social», de «sociedad civil», «opinión pública», «acción colectiva», etc. Sino de una multitud que se organiza y se conduce para la fundación de un orden político nuevo que invalida y destituye el vigente. En este sentido, podemos sostener que el 15M es un prototipo de un poder constituyente adecuado a la multitud contemporánea. Se trata, sin duda de un work in progress, de una invención radical, de un proceso abierto y discontinuo y en gran medida solo incipiente.

¿Por qué decimos «adecuado a la multitud contemporánea»? Pensamos, en efecto, que con el surgimiento del 15M se han puesto en práctica problematizaciones y líneas de fuga radicales respecto a buena parte de las aporías que acechan a la autoconstitución de una multitud capaz de autogobernarse. Nos referimos a las relaciones entre unidad y diferencia política; al problema de la decisión (¿quién, cómo, cuándo?); a la construcción del consenso entre una multiplicidad cualquiera de singularidades; a las relaciones entre alteridad e identidad, tanto en lo que atañe a la definición del amigo y el enemigo políticos como a las funciones de control que la identidad juega en el proceso; al problema de la fuerza y la legalidad y al problema de la ruptura política de la obediencia constitucional.

Desde la revolución tunecina contra Ben-Ali hasta el más reciente movimiento Occupy en Estados Unidos, la noción de una nueva modalidad de revuelta o de revolución de tipo distribuido, emergente, sin cabeza o jefatura identificables (donde el referente técnico es la arquitectura de red peer to peer), basada en el uso de las redes sociales en Internet y en general de las tecnologías de la información y la comunicación en red, se ha tornado en un tema de actualidad en los grandes medios y en el debate tanto académico como político. Sin embargo, tanto a favor como en contra, tanto desde la supuesta objetividad académica como desde la subjetividad del compromiso político, la discusión y el análisis sobre las llamadas «revoluciones 2.0» solo ha hecho énfasis en uno u otro aspecto de las mismas.

En primer lugar, y desde la simpatía, se ha glosado mucho sobre la acción colectiva emergente, rizomática, horizontal, distribuida, etc. Es decir, se ha escrito sobre la estructura del movimiento y su novedad radical respecto a las estructuras dominantes de la acción colectiva. Por otro lado, y con frecuencia desde las miradas adversarias, se ha escrutado el mensaje, el programa, la alternativa enunciada por tales movimientos, al objeto de descubrir su insuficiencia o su incompatibilidad respecto a las mediaciones políticas sensatas, aceptables o, desde posiciones «revolucionarias», de poner de manifiesto su carencia de un «cuerpo fuerte» y de la «dureza» necesaria para operar un cambio social radical.

Menos habituales han sido hasta ahora los enfoques que tratan de comprender estos procesos emergentes con arreglo a una modelización fuerte, capaz de dar cuenta exhaustiva de la fenomenología de tales movimientos desde un punto de vista estructural, genealógico e histórico. Como suele ocurrir, encontramos los esbozos más interesantes de esa comprensión entre analistas hostiles que se apasionan por su objeto. Es el caso, siempre inquietante, de David Ronfeldt, viejo analista y estratega de la contrainsurgencia para la RAND Corporation, que ha comenzado a analizar el movimiento Occupy en Estados Unidos conforme a su esquema de análisis de las relaciones entre formas tribales, instituciones jerárquicas, mercados y redes (TIMN), así como desde el punto de vista de las relaciones prácticas de los movimientos respecto a los factores conjugados espacio-tiempo-acción (STA).

Volviendo al 15M, se trata de describir aquello que, out of the blue, ha prendido, sin que con plena seguridad podamos decir que «sigue ahí», atendiendo a lo que a nuestro modo de ver resulta decisivo, a saber, la «puesta en existencia», el ritornelo constituyente del 15M. Si exploramos la fenomenología del movimiento encontramos la recurrencia de todos los elementos que se vienen enumerando en las descripciones de las «revoluciones 2.0», pero al mismo tiempo no podemos dejar de advertir la resistencia que esa misma fenomenología ejerce contra las distintas modelizaciones y «explicaciones». Cabe sospechar que, entre otros motivos, lo hace porque sigue siendo un proceso abierto, vivo.

Sin embargo, no cabe oponerse a las explicaciones parciales en nombre de una totalidad abierta sin considerar justamente cada uno de los elementos que se han aglomerado en esa totalidad o sistema, así como las características más relevantes de su formación. Al objeto de poner de manifiesto el exceso, la contingencia, el plusvalor de acontecimiento de su puesta en existencia.

Si partimos de la hipótesis de que el 15M es una modalidad événementielle –esto es, surgida de un acontecimiento improbable e impredecible– de sistema-red capaz de autoorganización, consideremos brevemente por separado sus aspectos fundamentales.

Proceso emergente, sin «sujeto», policéntrico, autopoiético

Atendamos brevemente al modo de surgimiento del 15M. Cabe rastrear genealogías de la movilización de red que en el caso español remiten sin duda a los enjambres del 13 de marzo de 2004. Un acontecimiento que ya ha ingresado en la historia paranoica del régimen constitucional español (casi como algo forclos, inconcebible, inimaginable, intolerable), pero que asimismo forma parte de la gramática de la movilización en red en el reino de España.

Pero el 13M fue una flashmob, una multitud singularísima y evanescente. En cambio, con el 15M estamos ante una dinámica emergente que da origen a un proceso de autoalimentación y autoconstitución y a un movimiento que, por más que desbordante y regulado por umbrales antes que por límites, no ha dejado de ser reconocible, innegable, absolutamente presente. El movimiento del 15M no es un (gran) movimiento más. Es el más importante de los últimos treinta años en el reino de España. Pero además presenta una fisionomía que hace de él un movimiento radicalmente nuevo.

Ni que decir tiene que el desarrollo de las redes sociales ha abonado el terreno para este tipo de movilizaciones. Y, por supuesto, la primavera árabe produjo ese contagio en las «neuronas espejo» de muchas minorías en el reino de España.

Ahora bien, ¿cómo ha «funcionado» el 15M? ¿Cuál ha sido el «método»?

El 15M presenta en su origen las características de un proceso emergente, es decir, la sorpresa, la imprevisibilidad, la novedad y la nueva ordenación de lo preexistente, con el surgimiento de estructuras, comportamientos propiedades y pautas nuevas en un sistema complejo. Con Félix Guattari diremos que responde a una heterogénesis, esto es, se trata de una dislocación de lo posible que hace que una multiplicidad de elementos a priori incomposibles «prenda», de repente, en una nueva composición que encuentra formas de autoordenación. El 15 de mayo hubo manifestaciones en las principales ciudades españolas. Al término de una de ellas, una ínfima minoría de personas decide quedarse a acampar en la Puerta del Sol: ahí tenemos una heterogénesis.

Estructura policéntrica, componentes del movimiento-sistema-red y constitución de una esfera pública post-media

El 15M comenzó como un virus de afecto, cuyo vehículo lingüístico se resume en el lema de aquella jornada: «No somos mercancía en manos de políticos y banqueros». El contagio prende así, de manera simétrica y contraria a como prende el pánico o la euforia en los mercados financieros, y da lugar, cuando nadie lo esperaba, a manifestaciones masivas. Contagio y enjambre.

Así, pues, la red se presenta como la estructura fundamental, y la más profunda y rica de la heterogénesis del 15M. No hablamos solo de Internet y de las redes sociales, sino de la forma red de la cooperación y comunicación social general en la que, por así decirlo, el 15M se pone a funcionar. Y lo hace en conexión con esta forma red fundamental, que responde al patrón de una fully connected network, en la que todos los nodos están en condiciones de conectarse con todos los demás. O, como decíamos más arriba, responde a una arquitectura peer to peer, igualitaria, horizontal y equipolente.

Lo interesante es que esta forma red subsume o se subordina las redes de tipo asimétrico, esto es, las dominadas por centros de enunciación y emisión de consignas (partidos, sindicatos, ONGs, organizaciones de extrema izquierda, media mainstream). Esto ha introducido una ruptura radical en el régimen de producción mediática de la realidad. El sistema-red 15M se ha tornado desde el principio de su existencia en productor de cotas crecientes de realidad, puesto que, cuando es la red el agente fundamental de enunciación –y no el responsable, el portavoz o la organización–, la capacidad de controlar los comportamientos a partir de operaciones de enunciación sobre las acciones previsibles de los sujetos entra en una zona de radical indeterminación y disputa.

Desde este punto de vista, las acampadas se presentan como una espacialización y al mismo tiempo una pretensión de «representación» del 15M. Ponen en escena los cuerpos y sus palabras, y remiten la palabra al cuerpo y a su resistencia. Ficcionan y fabulan una soberanía y una asamblea de los muchos en la calle, en la desnudez potente de la multitud no autorizada. Replican el contagio en la erótica indiscriminada del contacto, de la composición de cualesquiera y de la complicidad anónima.

De las acampadas nacen las asambleas. Y éstas se ponen como estructuras de autogestión de la politización de la vida y de difusión, extensión y concreción del movimiento en el territorio y en sus problemas. Pero también, tendencialmente, como lugares de identidad, neutralizaciones del devenir.

De esta suerte, tenemos una estructura policéntrica sin centro principal, sin cuartel general. La tradición política desconfía radicalmente de la capacidad estratégica de una estructura semejante. Tanto la reaccionaria como la revolucionaria. Su unidad, parece, no puede ser más que efímera. Su capacidad de decisión eficaz resulta prácticamente imposible. Su autoorganización solo podría terminar con el tiempo en una entropía ininteligible. Lástima que una montaña de hechos demuestre lo contrario.

Pero la vocación de este texto tampoco es la de una apología, ni siquiera soterrada.

Ahora bien, ¿cómo es posible que en una estructura semejante la cooperación eficaz sea un hecho, al menos durante periodos sostenidos? No estamos aquí en un terreno ideal, arendtiano o habermasiano, de la deliberación y la acción política en concierto. Tales enfoques solo explican una parte, la más aparente y menos clara del 15M.

En lo que atañe a la capacidad de ataque, el 15M perfecciona las dinámicas del enjambre y de la ciberguerra en manifestaciones y concentraciones inesperadas y no autorizadas; en el bloqueo y los piquetes contra los desahucios o en las ocupaciones de inmuebles y en su defensa. Se sabe que solo inutilizando la infraestructura física de la red cabe evitar los enjambres, es decir, el control eficaz solo es posible bajo la forma de una dictadura de pura antiproducción (no es otra, por lo demás, la axiomática de la «austeridad»). Pues en la red misma, en sus códigos, protocolos y signaléticas reside el mecanismo de activación y modulación del enjambre.

El enjambre no es aquí una metáfora. No en vano se habla de cooperación distribuida de tipo estigmérgico entre agentes espacial y temporalmente separados. Y la cooperación estigmérgica remite a las marcas y las señales de todo tipo que permiten que individuos con facultad deliberativa no tengan que deliberar, es decir, dilatar en el tiempo y la incertidumbre su decisión y su activación cooperativa. Sino que pueden comportarse como agentes inteligentes no deliberativos que responden a las señales relevantes, activándose a la par que replicándola. Esta dimensión estigmérgica explica la viabilidad de la contramovilización total de varios meses desde el 15 de mayo. Pero tan importante como la dimensión antagonista que designa el prefijo «contra», lo es su dimensión de automovilización. Ahora bien, ¿qué o quién es aquello que se moviliza a sí mismo?

El 15M como sistema-red autopoiético abierto

Las principales estructuras y situaciones que ha presentado el 15M contienen incontables elementos y singularidades, es decir, no estamos, sin más, ante distintos tipos de comunicación y cooperación entre individuos. Desde el punto de vista espacial, la Puerta del Sol, por ejemplo, no es solo una amplia plaza del Madrid histórico, sino también un lugar que contiene una historia menor, en la frontera de lo oficial, de revuelta e insurrección. La carga de los mamelucos de Goya se sitúa en la Puerta del Sol, y las imágenes de la manifestación de la tarde del 14 de abril de 1931, en la que se celebra la proclamación de la II República española, han servido de ilustración de muchos manuales escolares y documentos didácticos. En otro ámbito, la fuerza mitopoiética de las intervenciones de Anonymous moviliza universos de valor preñados de afectos transversalistas, cuya capacidad de contagio no encaja en la cuadrícula de análisis de los valores o las creencias del individuo que participa en la acción colectiva (en una protesta a través de Twitter, por ejemplo).

En este sentido, cabe afirmar que la cooperación estigmérgica en red y la aparición de universos de valor (ético, estético) y afecto han proporcionado el suplemento que permitió dar consistencia (y transistencia, esto es, capacidad de contagio, traducción, recombinación, hibridación) a la aglomeración a priori incomposible de elementos, singularidades y estructuras del 15M. Lo que de esta manera se determina es un proceso autopoiético, esto es, una autoproducción de sí de una sistema-red abierto. Lo propio de una autopoiesis, más allá de toda aproximación metafórica, es tanto la capacidad endógena de producción de nuevas estructuras y relaciones, como una reproducción de un conjunto de singularidades en su singularidad o, dicho de otra manera, una capacidad de metamorfosis que no destruye la unidad de su conjunto. Aunque tan solo aceptáramos su existencia durante unas semanas, o acaso unos días, podemos sostener que el 15M es la puesta en existencia de ese proceso autopoiético.

Ahora bien, ¿cómo explicar la fuerza de una autopercepción, el reconocimiento de sí entre singularidades anónimas y a priori individualizadas y separadas por una red de representaciones de pánico e inmunidad, esto es, el escenario dominante de la «crisis» y la «austeridad» en Europa?

Sabemos que ha habido un afecto dominante, la indignación, ese odio, que une a los individuos en una pasión civil. Todas las luchas sociales parten de una figura del odio. La determinación de un cuerpo indignado transindividual produce una mayor potencia, una alegría común, y por lo tanto una esperanza que hace perder el miedo. Digamos que tenemos en ello una causa eficiente de la unidad del sistema autopoiético del 15M, pero no una explicación convincente de su espesor e intensidad, ni de su extraordinaria resistencia a la normalización, la banalización y neutralización políticas. En cierto modo, podemos decir que el 15M ha ido contra el sentido común de lo político porque ha redescubierto o reinventado un común político de los sentidos.

A contrapelo del grado cero del significado que el problema de la conciencia tiene en el discurso político (también en lo que atañe a la «conciencia de clase»), el 15M ha renovado el interés y el valor del problema, precisamente en la medida en que ha multiplicado sus dimensiones y, sobre todo, porque las ha desindividualizado radicalmente. Nuestra idea de sistema-red permite anteponer esa conciencia intensiva y transindividual del sistema autopoiético en su proceso de autoproducción a toda asimilación a las nociones pantanosas de la conciencia ideológica o de la conciencia moral.

Para desplazar radicalmente el problema de la conciencia de tales tópicos podemos servirnos, mediante una extrapolación que consideramos no abusiva, de la teoría experimental de la conciencia de Antonio Damasio como el «sentimiento de lo que acontece» por parte de un organismo metaestable (en este caso un organismo colectivo híbrido y compuesto).

De esta suerte, un proceso de puesta en existencia, una aglomeración existencial de elementos heterogéneos accede a una unidad, a la propiedad de un sistema-red abierto en constante experiencia de afectar y ser afectado por su afuera, por el campo social, y en esa medida construye lo que con Damasio podríamos llamar un proto-self (hecho de señales y emociones que remiten a un cuerpo común emergente). Para ello podemos pensar que ha sido preciso que, más allá del nombre genérico, la indignación y sus gamas cromáticas, expresadas en miles de enunciados e imágenes en la red, hayan podido operar como lo que Guattari denomina un afecto problemático, es decir, una tensión afectiva y cognitiva que, por así decirlo, pone en suspenso, tornándolo susceptible de cambio y mutación enriquecedora, el régimen normal de las funciones de trabajo-vida sometidas a la movilización total.

Retomando las expresiones de Damasio, a partir de una protosubjetividad transindividual del afecto de indignación tendríamos una «core consciousness» (que corresponde a un «core self»), resultado de la emergencia de un mapa neuronal de las afecciones del sistema emergente 15M en sus encuentros e interacciones con otros cuerpos y objetos, un mapa de segundo orden que activa la inteligencia colectiva en una dinámica de apropiación-transformación del campo social (que correspondería, en términos de Damasio, a una «extended consciousness», que permite «considerar la mente del otro; la capacidad de sufrir con dolor en contraposición a sufrir dolor sin más y reaccionar ante el mismo; la capacidad de sentir la posibilidad de la muerte en sí mismo y en el otro; la capacidad de valorar la vida; la capacidad de construir un sentido de lo bueno y de lo malo distintos del placer y el dolor; la capacidad de tomar en consideración los intereses del otro y del colectivo […]»).

Una ruptura de las rutinas de la esclavitud maquínica

En este sentido decimos que la clave del 15M es una insurrección del cuerpo-máquina contra la destrucción de las condiciones biopolíticas de la democracia que suponen las políticas de austeridad. Cuando se habla de cuerpo-máquina no estamos, de nuevo, ante una aproximación metafórica.

La función trabajo-vida de la cooperación social en red se basa en sistemas de interfaces entre cuerpos y máquinas y en la expresión de las dimensiones maquínicas de lo humano. Christian Marazzi ha explorado hasta qué punto la separación entre capital fijo y capital variable se torna borrosa y aporética en el capitalismo cognitivo, en la precisa medida en que el capital fijo inmaterial memorizado en los cerebros se presenta como medio de producción, como «sedimentación de saberes codificados, conocimientos adquiridos históricamente, experiencias, en definitiva, trabajo pasado». Esta interiorización o incorporación del capital fijo en los cerebros de los individuos, inseparable de su puesta en red a través de sistemas de máquinas, es el presupuesto de la actividad de valorización (de explotación) de la cooperación social o función vida-trabajo, y en esa misma medida (esto es, en la medida en que es medio de producción y, por ende, su reproducción forma parte del proceso global de producción) configura lo que Marazzi (así como, desde otro punto de vista, Robert Boyer) denomina un «modelo antropogenético», esto es, «un modelo de “producción del ser humano a través del ser humano” en el que la posibilidad del crecimiento endógeno y acumulativo viene dada sobre todo por el desarrollo del sector educativo (inversión en capital humano), del sector de la sanidad (evolución demográfica, biotecnologías) y del de la cultura (innovación, comunicación y creatividad)». Resulta sumamente interesante vincular el problema principal que se plantea Marazzi en el texto que citamos –a saber, ¿quiénes y cómo pagan el coste de la amortización de los cuerpos-máquina en las condiciones de una producción basada en un modelo antropogenético?– con lo que podemos llamar la «génesis maquínica» del 15M. Puesto que, bajo las condiciones impuestas por el axioma de la «austeridad», el coste de la amortización lo pagan, en tiempo y calidad de vida, los propios cuerpos máquina. Y sobre todo quienes viven-trabajan en mayores condiciones de precariedad e invisibilidad social e institucional. La reducción a un mínimo de las partidas del welfare state, la precarización del acceso al cualquier tipo de renta, la desposesión de títulos de acceso a garantías sociales para sectores crecientes de la población, el funcionamiento automático de los mecanismos de expropiación vinculados al endeudamiento, etc., se traducen en un redoblamiento de la violencia sorda de la movilización total de la sociedad red, en un tempo que conduce a un límite de sostenibilidad las formas de vida de los sujetos, llevándolas a un paroxismo.

Consideremos hasta qué punto esto es así en las dimensiones de lo que Guattari denominaba la esclavitud [asservissement] maquínica, es decir, los procesos de captura de las funciones maquínicas humanas (desde el sistema psicomotriz a la expresión codificada de las emociones, pero también el reconocimiento y la respuesta a señales y expresiones codificadas de tipo lógico y semántico, como en la gramática de las redes sociales y en general de las web 2.0) por parte de sistemas de máquinas técnicas y lógicas más desterritorializadas (los interfaces de usuario de los distintos soportes informáticos y telemáticos, el sistema de conducción automovilística, en el ejemplo princeps de Guattari, o el sistema de atención, servicio y vigilancia de un equipo de asistentes de vuelo comercial o el protocolo de recepción y clasificación de un servicio hospitalario de urgencias, pero también el sistema de trabajo humano en una cadena de montaje taylorista). La esclavitud maquínica funciona con arreglo a automatismos de la percepción, la emoción y la cognición que no precisan de una conciencia focal plena salvo en situaciones límite. En esa medida no es un sistema de sometimiento que implique las dimensiones de identidad del sujeto o una interacción simbólica asimétrica, sino que es esclavitud en el sentido cibernético de la expresión, como cuando se habla de un «servomecanismo». Consideremos hasta qué punto la inmersión infocomunicativa de las funciones trabajo-vida en la sociedad red está hecha de tales automatismos prácticamente inconscientes bajo el control modulado de máquinas técnicas e informáticas. Si hay una infraestructura maquínica de la movilización total productiva, la encontramos en estas dimensiones de subordinación inconsciente o preconsciente. Y en esa misma medida, volviendo al 15M, algo ha debido producirse, una ruptura, una suspensión activa en esos automatismos para que tales funciones se hayan puesto al servicio de la emergencia de ese proto sí mismo de un sistema autopoiético, antes y después del 15 de mayo de 2011. En este sentido hablamos de una insurrección del cuerpo máquina, porque, antes de convertirse en un proceso deliberativo, discursivo y de reconocimiento entre sujetos e individuos –que se presentan como otros tantos niveles de consistencia del sistema red 15M–, una bifurcación perversa, una emergencia rítmica, una singularización contagiosa de las funciones de esclavitud maquínica ha tenido lugar, de tal suerte que ha entrado en juego la procesualidad de un inconsciente maquínico, esto es, de aquel que, según Guattari, «sería el de los campos posibilistas, el de las micropolíticas moleculares, así como […] el inconsciente alejado de los equilibrios estratificados». El inconsciente maquínico «está hecho del conjunto de posibles que pueden habitar todas las dimensiones del agenciamiento».

De esta suerte, la clave de bóveda del sistema 15M se sitúa entre los ritornelos que se cifran en lemas como «No somos mercancía en manos de políticos y banqueros. Democracia real ya» y, sobre todo, desde las plazas, el «No tenemos miedo». Una virtud transversalista en las imágenes y los signos, en el agenciamiento colectivo de enunciación que se construye a partir de actores emergentes como DRY, pero también y sobre todo en el gesto de la acampada de la Puerta del Sol y su resonancia de red, ha llegado al corazón mismo de las rutinas, de los ritornelos reiterativos de la función trabajo-vida vinculada a la esclavitud maquínica. Desviando tales rutinas y poniéndolas al servicio de la construcción de la «contra movilización total» de un sistema red. Generando, por así decirlo, un plusvalor maquínico que se ha traducido en una conversión en máquina de guerra de las modalidades más banales de interacción telemática. Así, por un lado, las imágenes de la Puerta del Sol han funcionado, en su resonancia con la plaza Tahrir, como un ritornelo sensible que ha dado una entidad a priori inverosímil a universos de valor capturados en hashtags como #spanishrevolution, adoptados irónicamente en un principio, pero tornados sobre la marcha en una creencia validada por el proceso mismo del 15M. Este tipos de ritornelos sensibles ha dado la realidad de una puesta en existencia, de un territorio existencial precario al circuito entre el espacio (público) físico y la red, entre los cuerpos en la calle y los cuerpos individualizados conectados a la red, que han podido ser percibidos por cada singularidad del 15M como modos y atributos de una misma sustancia. Por otro lado, el afecto problemático de lo que podríamos llamar una «indignación transversalista» se ha traducido en un «enloquecimiento» de las rutinas (tanto laborales como vitales) de cientos de miles de personas, ha recombinado y redireccionado (estigmérgicamente) los patrones neuronales entre atención, emoción, percepción, cognición y acción, alumbrando un tempo singularísimo del «deseo de la máquina» que antecede a toda deliberación o decisión del individuo. El «no tenemos miedo» ha podido alcanzar el corazón de los cuerpos-máquina.

Estructura paradójica de la decisión y la representación: entre el pueblo y la multitud. Las máscaras y proceso de autoconstitución

Resulta interesante considerar, a la luz de lo expuesto, las dificultades que en las acampadas y las asambleas se han presentado a la hora de tomar decisiones, de funcionar por consenso pero sin unanimidad, de instalar el disenso en su seno sin que éste cristalice en bloques e identidades. Mientras que la función de espacialización, así como de expresión del cuerpo y de ocupación y reapropiación física del territorio urbano por parte de las acampadas, las asambleas y las manifestaciones no autorizadas constituye uno de los puntos fuertes de su consistencia y las valida como uno de los centros del sistema-red 15M, sin embargo es notorio que el añadido o la superposición de las funciones de «ágora» de individuos cualesquiera y, en cierto modo, de «asambleas populares constituyentes» se ha encontrado con dificultades críticas que han lastrado su funcionamiento y su dimensión de «máquina de guerra» social en el territorio metropolitano. No obstante, la constante inmersión del subsistema de ocupaciones y asambleas en el conjunto (indeterminable en número y extensión en un momento dado) del sistema red 15M ha resuelto buena parte de tales atolladeros en las situaciones más críticas y que podían presagiar una parálisis y el comienzo de la descomposición. Entra aquí en juego la idea de una validación de las propuestas y de decisión por «recursividad», en la que la densidad y masividad de las intervenciones sucesivas en la red sobre problemas o alternativas planteadas hace que tales problemas y alternativas se reformulen sucesivamente a partir de oleadas de participación y, en cierto modo, emerjan «opciones atractoras» que, en el medio, activo y dominado por pasiones alegres cooperativas, del sistema red emergente, tienden a encontrar las soluciones más adecuadas para el problema (táctico, organizativo, etc.) planteado. Pero sería un error disociar esta «wisdom of the crowds» de las condiciones excepcionales y frágiles de un sistema red nutrido por la indignación (un odio) y la falta de miedo (una alegría contagiosa). Dicho sea para evitar toda apología de la espontaneidad óptima de los sistemas emergentes, que llevaría a entender el 15M como una más de sus ilustraciones.

Entendemos así mejor el «vamos lento, vamos lejos», que ha servido de respuesta a las exigencias de «resultados» o «soluciones» inmediatas. Se vislumbra en ello la conciencia intermitente de la irrepresentabilidad de una multitud, y por ende la necesidad de las máscaras y el perspectivismo intrínseco de la forma 15M. La condición es que el proceso se desenvuelva en un medio estigmérgico que permita romper los bloqueos que se dan en situaciones y espacios determinados.  En este sentido es un sistema de apropiación perspectivista, es decir, que se apropia y constituye lo real a partir de una miríada de actos singulares de enunciación y de reapropiación, enriqueciendo la complejidad y al mismo tiempo tornándola legible y practicable en las dimensiones estigmérgicas de su uso parcial, perspectivista, por parte de unas u otras componentes del sistema-red 15M.

Así, más allá de la «toma del poder», el movimiento del 15M presenta una ambivalencia no resuelta entre reconocimiento, regeneración democrática y éxodo. Porque no cuesta entender que la valencia antagonista del odio (puesto que la indignación es un odio) esté subordinada al proceso del sistema autopoiético, a la puesta en existencia de sí mismo. Odio necesario, pero subordinado a la constitución de las nociones comunes del sistema red. Entendemos así mejor la función de las máscaras, las mil caras y los mil programas del 15M como una modalidad de sabotaje de las funciones de identidad coextensivas a la formalización de un antagonismo molar entre dos sistemas asimétricos, el sistema constitucional y el sistema-red 15M. Donde, en las condiciones del espacio político del Estado-nación, la molarización del enfrentamiento con el sistema constitucional solo puede terminar con la descomposición del 15M en los atolladeros acostumbrados de la sacrosanta unidad transcendente o las «patologías» del escisionismo, la representación parlamentaria o el abandono de la desobediencia civil no violenta ante el recrudecimiento de la represión policial y judicial. Los problemas de la desnacionalización del espacio político europeo, el de la inmersión del sistema-red en el diagrama antagónico de explotación y expropiación de las políticas de «austeridad» en cada ciudad y territorio, así como el de la formalización constituyente del proceso mismo de apropiación y transformación de lo real por parte del sistema red en su puesta misma en existencia, (que atañen a la creación de instituciones y a la contraposición de una escritura y de unos actos constituyentes a una norma constitucional que ampara la supresión de las condiciones materiales o biopolíticas de la democracia bajo el imperium del sistema de partidos), son la cifra de la crisis presente del 15M tras el último ápice de intensidad del 15 de octubre de 2011.

Espero que estas consideraciones nos ayuden a comprender el 15M sin hacer uso de interpretaciones que anulan su potencia y esplendor, la banalizan o la reducen a esquemas sociológicos y politológicos acostumbrados. El 15M explica o expresa antes de representar, y los explicadores han de ser explicados.




OcupaRio: Repressão, Autogestão e Rua / Luis Carlos de Alencar

sábado, março 31st, 2012

Luis Carlos de Alencar

Já chegamos ao décimo dia de OcupaRio e seguimos adiante. Na semana que antecedeu à ocupação, havia a questão da resistência – sabíamos que a guarda municipal agiria por achar que a prefeitura detém a competência para legislar sobre o uso do solo urbano. Depois de tensa abordagem logo no segundo dia, dissolvida depois de muita negociação, pressão e união, essa ameaça já não se faz presente. Os guardas constantemente transitam pelo nosso entorno, batem papo com um ou outro acampado e até escutam de canto d’ouvido os arremedos das assembléias.

Várias assembléias ocorreram para que a autogestão se iniciasse com entrosamento satisfatório. Alguns grupos de trabalho (GT) foram fundamentais para o amadurecimento da dinâmica da Assembléia. O GT Processo, de Atividades. de Comumincações, de Arte, o Queer, todos eles ampliaram o alcance da OcupaRio. Mas a parte crucial para o acampamento são o GT Infra (cuida da expansão das barracas, da viabilização de novas aquisições tecnológicas para os demais GT etc), o Alimentação (garante uma refeição e lanches durante para todos os acampados e passantes e moradores de rua) e o Segurança (atua em rondas de duas horas)

A autogestão fora pautada em todas as assembléias até o quarto dia. A essa altura, ninguém mais aguentava discutir somente os problemas dos GT. A maturidade da articulação entre os GT garantiu que uma nova dinâmica fosse experimentada. Até agora está dando certo. Assembléia geral ocorre aos aos sábados e uma menor, afeita somente aos GT, acontece nas quartas. Qualquer problema que atinja um ou mais GT simultaneamente poderá ser diretamente resolvido, sem mais delongas de assembleísmo. As atividades dos GT se fortaleceram com essa autonomia e agora eles é que estimulam as ações nascidas na Ocupa. Há ainda iniciativas individuais, sem necessidade de respaldo dos GTs. E também as atividades de grupos, que não são nem indivíduos nem GT, como o Zeitgeist, os negrianos, os de permocultura, de estêncil.

Depois de quatro dias, um outro aspecto veio à tona: a realidade de rua. Como tal, falo de um dispositivo: as dinâmicas, os saberes, os corpos, os poderes, os conflitos, as harmonias e as diacronias, as economias simbólicas que circulam no espaço da rua, de modos diferentes, questionam a noção de território e repercute diretamente a tensão entre a identidade do movimento e sua impossibilidade de identificação.

A minha percepção da OcupaRio é que ela consiste na intensificação do fluxo da cidade em um determinado espaço. A praça da Cinelândia foi sacudida, tonificada, bombardeada, se transformou em uma área onde seus conflitos, sentidos, disputas, políticas, estéticas se concentraram e ganharam um relevo maior. Porque entram em contato, em choque, em ressonância, correm em paralelo, enfim, potencializam-se e se intensificam, na medida em que esse fluxo opere segundo a matriz da ocupação: horizontal, autogestionária e plural.

A realidade de rua, por sua vez, implica choques com reverberações imprevisíveis. Imaginem a classe média branca, os universitários, os passantes, os hippies artesãos, os anarcos, os drogaditos de crack, os bebuns, a guarda municipal, os exus de diversas proveniências, todos convivendo juntos numa mesma praça. Acontece que a realidade da rua já está lá antes de qualquer mobilização da Ocupa. E tem suas regras, suas formas de resolução de conflitos, de sociabilidade, onde o Estado e seu fetiche do Estado Democrático de Direito não tem vez.

Num acampamento de ocupações tradicionais, os grupos buscam exercer uma autoridade sobre o território gestionado. São estabelecidas regras pelo coletivo. Desrespeitadas, isto pode ocasionar a expulsão de seus membros. No entanto, na OcupaRio, a situação é de outra natureza. Ou melhor: de várias naturezas. A praça como referência de atuação espacial não permite a demarcação territorial para o exercício da política. Da Ocupa, a política emana para a praça, para as ruas, para o entorno. Quanto mais potencializar o seu caráter de fluxo, maior a sua reverberação para outros confins (sem falar que a Ocupa também existe na internet). Também a lógica da praça não possibilita a expulsão de qualquer membro, porque não dá pra definir os “de dentro” e os “de fora”. Quem pode expulsar de uma praça quem quer que seja? E depois? Vai manter o pária afastado com uma linha imaginária que ele não poderá cruzar?

Se a Ocupa em uma praça intensifica o fluxo, também o conflito é potencializado: grupos diferentes, perspectivas e vivências distintas, interesses e sentidos diversos. Ali se tonificam as assimetrias sociais e raciais, os fascismos, a violência. Eles não irão desaparecer com a Ocupa, mas ao contrário, serão encarados como nunca antes, no corpo-a-corpo dia e noite. Agora já não dá para fechar o vidro do carro ou fazer das leis de rua a verdade absoluta. Tudo está em choque.

Ilustro com uma das crônicas diárias que vivenciamos na Ocupa. Noutro lugar, uma moradora de rua atirou uma pedra na cabeça de outro que dormia. Depois disso, ela veio para a Ocupa e participou das atividades ao longo do dia. Dois colegas da vítima vieram no encalço e aguardaram hora oportuna. Com o tempo, notou-se que ela estava com a costela quebrada. Alguém chamou a SAMU e, ante a ameaça do justiçamento, a guarda municipal interveio no acampamento para protegê-la. O homem: “Seu Guarda, é o senhor quem vai levá-la para a ambulância? O senhor sabe que ela não irá chegar lá, né? Isso aqui é a lei da rua. Aí no acampamento mandam vocês, aqui fora manda a rua…”. Durante todo o episódio, houve intensa mobilização e discussão dos acampados ali presentes. Algumas pessoas queriam dispensar a guarda e a SAMU e administrar a situação, outros ponderaram que o melhor seria ela ser tratada e ter uma chance de escapar, ao ser levada pela SAMU. E houve uns poucos que disseram que ela deveria pagar pelo que fez. O bom senso ganhou e escoltaram-na para a ambulância. O homem se atirou com um pedaço de pau e tentou arrebentar a mulher. Terminou detido por mais de dez guardas e levado preso. A postura da Ocupa foi de não nos metermos na rixa, exceto para garantir que a mulher fosse levada até a ambulância.

E aí? O que fazer? Não há solução ideal que pudesse ser tomada naquele momento. Apesar de tudo, vi que a Ocupa não negou o problema: viveu-o. Refletiu, pensou, tentou demover os vingadores de sua intenção, alguns conversaram com a mulher, os guardas replicavam que nós havíamos aberto um precedente para o morador de rua, que agora eles iriam se escamotear por ali.

No entendimento dos presentes, há uma compreensão geral de que não devemos nos dividir entre acampados e moradores de rua, até por que isso seria impossível. Eles estão lá, eles somos nós, são integrantes do GT Segurança, do GT Alimentação, participam das rodas, das atividades culturais, das dinâmicas de teatro, de corpo, do GT Queer. E a baderna é também provocada por quem não é morador de rua.

Essa relação fluida, sem identidade possível, é já a Ocupa. Complemento: enquanto não tivermos identidade, enquanto a organização for sempre um devir, as dinâmicas se alterarem cotidianamente, as experimentações forem a palavra de (des)ordem, o espaço estiver sempre se redesenhando, não seremos localizados e, portanto, o fluxo continuará, e nisso reside a nossa única segurança possível: a de convivermos sem ela, de assumirmos que todos os conflitos são os nossos conflitos e é nossa a responsabilidade para lidar com eles.

Ocupemos a realidade das ruas, essa que nos antecede e que seguirá, se não ocuparmos! Ocupem, amigos e amigas.




Construindo uma instituição do Comum / Entrevista com Gigi Roggero da Edu-Factory

sábado, março 31st, 2012

Construindo uma Instituição do Comum – Entrevista (Traduzido por Bruno Stehling, da OcupaRio / OcupaTeoria)

Original em inglês no site http://prekariatet.se/text/building-institution-common/


Entrevista com Gigi Roggero da Edu-factory

“O que antes era a fábrica, hoje é a universidade”, afirma o coletivo internacional Edu-factory, que começou como uma lista de emails de 500 estudantes, ativistas e pesquisadores de todo o mundo. Eles argumentam que no capitalismo cognitivo de hoje, experimentamos a transformação da organização vertical do conhecimento em captura e expropriação de conhecimento comum após sua produção. Esta apropriação e exploração dos conhecimentos produzidos em comum abre uma possibilidade de autonomia da produção de conhecimento. O fato de que hoje o conhecimento é produzido no comum também torna possível nos re-apropriarmos dele. A tentativa do Edu-Factory de criar uma universidade autônoma global é uma forma de recuperar tal conhecimento comum. O Edu-Factory escreve: “prática teórica é sempre prática política, e prática política não é apenas prática teórica”. Eles alegam que não há produção de conhecimento que não seja política. A teoria é sempre um campo de luta e em tempos de “capitalismo cognitivo”, talvez um dos mais importantes. Nós nos encontramos com Gigi Roggero, um dos fundadores do coletivo Edu-factory, na conferência “Trabalho da Multidão” (Labour of the Multitude), em Varsóvia, para falar sobre o Edu-Factory, as lutas recentes da universidade e dos trabalhadores precários, bem como as idéias sobre educação autônoma.


1 – Quais foram as principais idéias por trás do projeto Edu-factory quando você começou em 2006-07?



A idéia principal foi examinar as transformações da universidade e os conflitos dentro da produção do conhecimento. Nós imediatamente assumimos um ponto de vista transnacional, já que hoje, a prática política e teórica não pode ser limitada ao Estado-nação. Quando eu falo da prática teórica, estou falando sobre algo que está imediatamente dentro das lutas, dos movimentos e da prática política.
2- Então, em termos práticos, tudo começou como uma lista de e-mails, certo?


Começou como uma lista de discussão, mas com algumas inovações. Nós achávamos que as antigas listas de discussão da década de 1990 tinham alguns problemas. Nossa experiência era de que elas geralmente começavam com grande quantidade de e-mails seguidos de uma discussão dispersa, onde era difícil se concentrar em um único tópico. Estas listas produziam uma grande quantidade de caos, mas não um caos produtivo de fato, e depois de algum tempo elas costumavam entrar em declínio. Então, quando começamos a nossa lista no início de 2007, introduzimos algumas regras. A primeira foi um limite temporal. Isto significa que começamos a primeira rodada de discussões em janeiro e terminamos em março. Por três meses a lista foi aberta e depois fechada. A segunda inovação foi a organização da discussão. Fizemos um cronograma de intervenções, textos escritos por pessoas diferentes no coletivo. Depois que eram publicados na lista, todos os debates e postagens seguintes se concentravam em torno deles por cerca de uma semana. Isso funcionou muito bem. Tivemos duas rodadas de discussões que estão parcialmente compiladas em um livro que será lançado em italiano, inglês, espanhol e polonês. Os dois tópicos dessa discussão durante a primeira rodada foram as transformações da universidade e conflitos na produção do conhecimento, e a segunda fase foi orientada em torno do mercado global de educação e a construção da instituição do comum.

3- Vocês realizavam outras coisas fora da lista de e-mail?


O Edu-factory é composto de militantes, ativistas, estudantes, pesquisadores – trabalhadores e precários na universidade que são imediatamente militantes. Estamos todos envolvidos em lutas diferentes. O que discutimos foi interno à nossa atividade política concreta – uma atividade que não era só com base na web, mas antes de tudo em espaços concretos. Também organizamos conferências, reuniões e oficinas diversas em Amsterdã, Roma, Austrália, Reino Unido e nos Estados Unidos. O Edu-factory foi um dos organizadores da reunião de Paris sobre as Lutas da Universidade contra a austeridade, ocorrida em fevereiro passado.

4 – Você descreve a produção de conhecimento hoje como um campo de batalha central. Você poderia desenvolver a sua idéia de produção de conhecimento e explicar porque isso é tão central em suas análises?



Algo sobre o qual temos discutido e escrito bastante é o capitalismo cognitivo, e que o trabalho está cada vez mais centrado em torno das capacidades cognitivas (mentais e linguísticas). Com isto queremos dizer que o conhecimento é fundamental para as novas formas de trabalho e acumulação capitalista. Não é central apenas na produção social, mas também como um meio de produção. Quando falamos de trabalho cognitivo, claro que não estamos dizendo que o trabalho manual está desaparecendo, mas que o processo que torna cognitivo o trabalho é um paradigma central que afeta a composição de classe inteira. Em outras palavras, hoje você tem um processo que torna cognitivo o trabalho também para o tradicional trabalhador de fábrica. Não se pode compreender o funcionamento da fábrica se não se compreende o processo que torna cognitivo o trabalho.

5 – Você também fala sobre um movimento em que o capital não organiza mais a produção de conhecimento a partir de cima, mas é forçado a capturá-lo após a sua produção. Você pode falar um pouco sobre essa transformação?


Durante o capitalismo industrial, a cooperação social era organizada principalmente de cima para baixo. Você tem a fábrica e os trabalhadores que são postos na fábrica para produzir cooperação. A fim de montar um carro a partir de peças diferentes, tem que haver cooperação entre os trabalhadores, mas esta cooperação é principalmente organizada por empresários capitalistas. Agora, se você olhar para formas de produção de valor de hoje, há uma cooperação social que é cada vez menos organizada pelo capital. Ao invés disso, cada vez mais o capital precisa organizar uma captura a partir da base. A figura corporativa do caçador de tendências é exemplar. Nos anos vinte, Henry Ford disse: “compre o carro que você quiser, o importante é que ele seja um Ford T preto”, resumindo o sonho capitalista de induzir necessidades a partir de cima. O caçador de tendências, por outro lado, age diretamente a partir de baixo, tentando capturar e traduzir expressões de subjetividade para a linguagem do valor. O Capital chega depois da cooperação social ser pré-formada. É só pensar na Internet onde o Google é o modelo principal de empresa. Este modelo não organiza a cooperação verticalmente, mas em vez disso tenta continuamente agregar valor para a cooperação social que existe independentemente dele. Eu também tenho que dizer que quando falamos do tornar-se cognitivo do capitalismo, como eu disse antes, isso não significa que não há mais o capitalismo industrial clássico, mas isso significa também que ele passa por mudanças. Assim como capitalismo industrial não significava que as atividades artesanais foram desaparecendo, mas sim que o novo paradigma de acumulação capitalista passava a ser a fábrica e a organização industrial.

6 – Como você pode ver isso como uma captura, quando o capitalismo já produz, pelo menos em parte, a cultura e a linguagem da qual este conhecimento surge? Ou em outras palavras, como você pode dizer que é uma captura quando a cultura que produz este conhecimento desde o início é uma cultura capitalista?


Em primeiro lugar, quando eu falo de cooperação social e captura eu não quero dizer que a cooperação social é externa ao capital.Na verdade, eu acho que não há um “fora”. Capital, em uma análise marxista clássica, é uma relação social e não algo externo. Cooperação social está dentro da relação capital – social, mas ao mesmo tempo, há um processo de “tornar-se autônomo” da cooperação social. Em relação à linguagem, eu acho que é um bom exemplo da forma como a captura está funcionando. Porque quando eu falo de captura eu não falo de uma idéia puramente parasitária de capital, mas de uma transformação na sua forma de organização. Isto é, a organização capitalista é cada vez menos relacionada à organização da cooperação social, e cada vez mais à organização da captura. Porque, naturalmente, a captura tem que ser organizada. E sobre a linguagem, eu acho que esta é uma questão muito boa, pois é também uma questão que a luta tem que considerar. Como são possíveis as formas clássicas de comunicação dentro das lutas hoje? Como podem linguagens diferentes criar uma composição comum? O Capital traduz diferentes linguagens para a homogeneidade da linguagem do valor. Eu acho que o problema dentro das lutas, hoje, não é reduzir a heterogeneidade à homogeneidade, mas traduzir a heterogeneidade em uma composição comum. Existem alguns estudiosos interessantes sobre a questão da tradução, um estudioso japonês chamado Naoki Sakai, que desenvolveu a distinção entre as traduções homolingual e heterolingual, por exemplo. Tradução Homolingual é uma homogeneização das diferenças lingüísticas. É a forma através da qual a captura capitalista funciona. Há uma produção de diferenças dentro do Capital, mas estas diferenças têm que ser traduzidas para a homogeneidade da linguagem do valor. A tradução heterolingual é uma forma de criar uma linguagem comum, sem essa redução à homogeneidade. Vamos dar um exemplo, o encontro de dois imigrantes de diferentes idiomas em um país estrangeiro: eles têm que falar em uma língua nova, diferente de suas línguas maternas e do idioma do país em que se encontram. Isso quer dizer, eles têm que produzir uma nova língua comum, que não existia antes. Acho que o problema das lutas é o problema da tradução heterolingual, isto é, a tradução de heterogeneidade em uma composição comum. O comum não é a homogeneidade, mas é algo baseado em multiplicidade e diferenças.

7 – Em seus textos você menciona que os teóricos neoliberais de hoje usam e promovem a idéia de “rede” (network) como forma de organização, e você dá alguns exemplos. Quão diferente é a rede da Edu-Factory das redes descritas pelos estudiosos neoliberais?


Esses estudiosos neoliberais que citei – por exemplo, Yochai Benkler, que escreveu um livro chamado The Wealth of Networks – argumentam que o modelo clássico da Microsoft baseado na propriedade intelectual não funciona porque ele bloqueia a cooperação social e o poder de inovação produtiva. As novas formas de empresa, o Google por exemplo, têm que enfrentar o problema do que chamamos de captura da produção comum. Assim, nosso problema é, digamos, uma idéia fraca da rede. Isto é, que a rede é imediatamente a realização de uma nova forma de produção horizontal. Mas essa idéia de produção horizontal é exatamente no que a captura pelo capital é baseada hoje. Em outras palavras, a horizontalidade não é um ponto de partida, mas é o que está em jogo na cooperação autônoma. O nosso problema da rede é como construir uma idéia forte da rede. No Edu-factory, a partir das diferenças dentro das lutas, tentamos colocar estas questões: como é possível construir uma rede e uma nova forma de organização transnacional para além de um sistema representativo, e como é possível traduzir as diferenças em um espaço político comum? Nós não enfrentamos isso só em nível teórico, mas nos exemplos que eu mencionei antes (a organização da reunião de Paris, a reunião que estamos preparando para os movimentos da América do Norte, um encontro na Índia, o processo de networking e organização entre a Europa e a Tunísia), onde não há apenas processos envolvendo o Edu-Factory, mas várias outras redes e organizações. Estes são exemplos de como exatamente nós tentamos construir uma ideia forte de rede e da rede como uma forma de organização.

8 – Eu li parte do arquivo de e-mails que vocês tem online, e houve uma discussão no início de 2007 sobre o uso global do idioma inglês e como a linguagem acadêmica poderia ser potencialmente excludente. Eu gostaria de saber como vocês pensam sobre isso hoje, especialmente dentro de suas discussões e textos coletivos.


De uma forma muito simples, eu acho que nós temos que evitar um duplo risco. Por um lado, temos que evitar o risco de homogeneização, como mencionei antes, tradução homolingual de línguas diferentes, mas por outro lado, acho que também temos que evitar o risco das identidades de idiomas. O inglês foi imposto como um padrão em um processo histórico. Como é possível reverter e quebrar esse padrão? Acho que temos que agir dentro e contra ele. Usamos o inglês exatamente para superá-lo e para criar um espaço comum em que possamos lutar contra essa homogeneização. E também nos envolvemos em outras situações (a exemplo da reunião em Tunis em setembro-outubro passado) onde as principais línguas eram árabe e francês. O problema é pensar as lutas contra o capitalismo global como uma exaltação do local, porque a identidade do local é apenas uma das maneiras em que o Capital global funciona.

9 – Você fala sobre instituições autônomas, mas a maioria das pessoas envolvidas na Edu-factory não são também professores ou estudantes em universidades e, em certo sentido, dependente delas?


A idéia foi imediatamente concentrar-se na universidade como um espaço de luta, mas ao mesmo tempo assumindo que a produção de conhecimento está amplamente difusa no social. Não há um ‘fora’ da produção de conhecimento e não há um ‘fora’ da universidade. Nós interpretamos as universidades como aparelhos de captura e o problema é como romper essa captura e construir uma instituição do comum. Como reapropriar-se coletivamente da universidade: enfrentamos este problema de dentro.

10 – Nos últimos anos, vimos uma tendência de diferentes formas de iniciativas de educação alternativa. Mas como podemos diferenciar uma educação autônoma, enquanto formas de luta e contrapoder, de lugares onde as pessoas simplesmente estão usando umas às outras para obter e produzir conhecimento, a fim de se tornarem melhores concorrentes em um mercado de trabalho cognitivo?


O risco da educação autônoma e da educação autodidata (self-education) é de elas serem imaginadas como “ilhas felizes”, uma situação onde há as “instituições oficiais” e as “instituições alternativas”. Temos que quebrar essa dialética entre “alternativa” e “oficial”. Temos que interpretar o objetivo de instituições autônomas como o acesso ao conhecimento para todos e a cooperação autônoma de conhecimento vivo. Se estas experiências se limitarem a criar espaços comunitários, elas são ineficazes. O problema é como imaginar a educação autônoma como instituições do comum. Isso significa uma re-apropriação da riqueza social que nós produzimos em comum, e a destruição dos aparelhos de captura.

11 – Também parece haver um renovado interesse na auto-organização dentro do movimento estudantil e dos trabalhadores precários.


Claro, essas experiências apontam para um sentimento e um desejo pelo comum e por ir além da dialética entre o público e o privado. Mas eu tenho que dizer que, de um ponto de vista estratégico, o problema não é o espaço utópico ou o espaço comunitário, mas a construção do comum. Com tudo isso, podemos dizer que não temos nada a defender. O objetivo das lutas contemporâneas não deve ser o de defender a universidade pública, porque público e privado são complementares no processo de privatização, mas sim, essas lutas devem estar imediatamente situadas na prática constituinte do comum.

12 – Como você acha que essas idéias de instituições autônomas de hoje se relacionam com as críticas educacionais e da contracultura da década de 1960? Hoje parece haver um interesse renovado na crítica contracultural e educacional da época.


Eu acho mais ou menos o que eu disse antes, que essas idéias são importantes, mas às vezes há uma tendência para criar espaços marginais. A instituição do comum não é, de forma alguma, um espaço marginal da crítica alternativa, mas sua meta é a construção de novas relações sociais. Por exemplo, na Itália em 68, nós tínhamos as chamadas “anti-aulas”. Mas na década de 1980 e 90, esta prática de anti-aulas começaram a dizer que existem programas oficiais e existem as aulas onde você pode aprender o que é excluído do programa oficial. Eu acho que essa idéia não funciona porque há um grande risco de marginalização e formação de guetos. Em outras palavras, corre-se o risco de se reduzir a uma demanda de cidadania dentro da academia existente. Na verdade, eu não acho que a universidade contemporânea exclui: na universidade de hoje você pode falar de quase tudo o que você quiser, porque a própria universidade é uma máquina de despolitização. Por exemplo, na universidade anglo-saxã há uma moda crescente em torno de Deleuze, Althusser, e a chamada “teoria italiana”, mas de uma forma na qual isso é desconectado de suas raízes políticas. Eu acho que sem as raízes políticas, corre-se o risco de se falar apenas de categorias abstratas privadas de composições materiais. Os conceitos de Marx ou do Operaismo não são categorias abstratas, de forma alguma, mas ferramentas políticas. Se você não entende o conceito como uma ferramenta política, você não pode entender o conceito em si.

Para ler mais sobre o Edu-Factory visite: www.edu-factory.org




Os lugares da luta de classes: para fazer co-pesquisa / Uninomade Itália

sábado, março 31st, 2012

tradução: Bruno Cava / fonte: http://uninomade.org/i-luoghi-della-lotta-di-classe-per-fare-conricerca/

1) É aqui e agora, na crise, que se reabre o campo da pesquisa militante sobre o capitalismo e a subjetividade do conflito. No capitalismo cognitivo, financeiro e globalizado, o conflito se dá no terreno  heterogêneo da expropriação do comum. Ocorre antes sobre o território do que nas empresas. Os limites constatados nas lutas de 2011 (em termos de efetividade) colocaram na ordem do dia um excedente de conhecimento “situado”, a respeito dos modos em que ocorrem, — e como se transformam na crise, — a produção e a captura da riqueza social. Desta maneira, foram expostos possíveis pontos de ruptura aos dispositivos de expropriação. Em outras palavras, queremos analisar como “trabalha o capital”, e como se trabalha contra ele, a partir dos reservatórios (as empresas) onde se condensam e é extraído valor.

O discurso sobre a empresa, pela esquerda partidária e o sindicato, parece prender-se, de uma parte, à crítica do excesso dos lucros financeiros em relação à produção real. De outra parte, se dirige aos pactos neoliberais e neocorporativos. Do lado do trabalho, o discurso oscila entre a acrítica “defesa da ocupação produtiva” (por exemplo, o emprego) e a reivindicação por uma melhor regulamentação da situação de flexibilidade no trabalho, a fim de mitigar o impacto das demissões e do desemprego (dito isto, não temos a intenção de menosprezar a resistência dos trabalhadores formais). Ora, é inegável que a dupla chantagem ao trabalhador, —- seja a dissolução do regime formal de trabalho, seja a situação de precariadade, — é aspecto crucial para compreender como o “trabalho” hoje é constrangido a procurar o “capital”. Esta visão de parcela da esquerda, — além de limitada politicamente à reclamação moral em nome de inexistentes forças progressivas, — nos parece interna ao modelo da crise A atual crise ambiciona nada menos do que a restauração de um capitalismo mais antigo, baseado no nexo entre lucro e produção da riqueza social (“capital produtivo”), que outrora sustentava o capitalismo industrial tradicional. Esse nexo já foi desestruturado pelas revoltas operárias, das mulheres e das novas gerações, disparadas nos anos 1960, que não estavam mais dispostas a reproduzir a divisão social e de gênero no trabalho, uma divisão que suportava o modelo fordista de produção capitalista.

Tornou-se necessário atentar para as novas coordenadas metropolitanas do conflito, no paradigma do trabalho cognitivo. É preciso atentar ao excedente estrutural da produção no capitalismo cognitivo, em relação a seus lugares tradicionais. Não se trata de negar a permanência de formas nada novas ou inovadoras de exploração (inclusive no âmbito do trabalho intelectual), nem de fazer uma distinção esquemática entre trabalho industrial fordista e pós-fordista. Trata-se, na realidade, de levar ao centro do discurso menos o fato (certo) da subordinação, do que a potência do trabalho vivo cooperativo no novo capitalismo, tanto dentro quanto fora da empresa. Referimo-nos a uma potência que reside na relevância assumida e na acumulação cognitiva das qualidades inalienáveis do trabalho (o saber, a experiência, a habilidade, a afetividade, a capacidade de cooperar, comunicar, imaginar). No capitalismo contemporâneo, convivem e se alimentam reciprocamente, — jamais sem atritos e “conflitos internos”, — formas de acumulação financeira, cognitiva e industriais (e também proto-industriais). Essas devem ser pesquisadas mutuamente, na sua co-presença, inclusive nas articulações hierárquicas entre si ou internas. Faz-se necessário enunciar a co-presença dessas formas sem deixar de considerar as relações de poder. Isto não implica, com efeito, renunciar a localizar os pontos de crise e centros de comando do capital, que podem ser tudo menos diluídos num (inexistente) capitalismo “líquido e horizontal”.

Aqui está a atualidade da pesquisa sobre as formas de produção/valorização e a subjetividade do trabalho vivo. Para nós, a empresa não pode ser pensada como baluarte contra a financeirização da economia, nem, por outro lado, exclusivamente como forma convencional de organização e mando sobre o trabalho. A empresa, no novo capitalismo, é antes de tudo uma forma de geração e de corrupção do comum, — para citar Commonwealth. O ponto nos parece relevante: para muitas pessoas, as empresas consistem num local onde podem cooperar com outras e participar de projetos coletivos, escapando de uma situação individual de isolamento. Mais precisamente, seriam “os únicos espaços que permitem um acesso, embora distorcido, ao comum.”


2) Mas, hoje, o que são as empresas reais? Ultrapassada por uma nova economia do tempo (que abole a fronteira entre tempo de vida e tempo de trabalho) e do espaço (com a implicação da metrópole e dos territórios na produção), pelo confundir-se entre lucro e renda, como pela proliferação de lutas no esgotamento político do nexo fábrica-sociedade; diante tudo isso, a empresa parece dissolver-se, como principal sede produtiva do valor ou como lugar do conflito. Isto, todavia, não significa ceder a um pensamento da indiferenciação. A “fábrica metropolitana” do capitalismo financeiro, cognitivo e globalizado precisa antes de tudo ser pesquisada na sua materialidade. Não se pode imaginá-la como uma superfície lisa, sem qualquer atrito ou rugosidade, sem atores sociais que estejam em condição de desfavorecimento, sem que haja processos de subsunção da cooperação social, operados pelos canais financeiros, pelas brands e pelas redes comerciais. que subsuma a cooperação social graças à prisão do canal financeiro, do brand e das redes comerciais. Esses conglomerados devem ser pesquisados caso a caso, e interrogados no âmbito da identificação dos pontos de crise e de ruptura. É nesse nível de indagação e análise que se pode colocar a perspectiva da greve precária.

Atenção: não se trata de restaurar a hierarquia conceitual entre fábrica e sociedade, voltando a confinamentos que foram transbordados e desestruturados pelas lutas operárias e proletárias dos anos sessenta e setenta, quando da emergência de uma nova composição de classe, que passou a  assumir a heterogeneidade e as diferenças como traço constituinte e irredutível. Mas, no momento em que, para responder a essas lutas, a sociedade foi convertida em uma matriz de empresas, é nessa realidade mesma que se reprojetam os espaços, — flexíveis ou transitórios, — da produção e da captura do valor, em seus diferentes graus de intensidade. Não se trata da centralidade de uma mitológica “economia real”. Ao contrário, através dos fluxos pervasivos da financeirização real, a empresa pode funcionar como um reservatório para a condensação e extração do valor. Aí se pode inverter a relação, num potencial ponto de aplicação de força, com vistas a revolucionar o processo de valorização. Além das contradições e ambiguidades — que, a seu passo, reclamam um outro espaço de aprofundamento; — nos parece que as lutas recentes demonstram, pelo menos, o caráter nevrálgico de determinados gânglios produtivos, onde — aqui é o caso, por exemplo, da logística — se combinam conhecimentos complexos, organizações flexíveis, uma exploração ergonômica e mental.


Portanto, por mais potentes que sejam os dispositivos de assujeitamento (o endividamento individual e coletivo, a deslocalização, a chantagem da precariedade e da ausência de renda, a ameaça de demissão) e os dispositivos patológicos interiorizados no trabalho vivo, conseguimos tornar visíveis projetos de apropriação do comum, que não afrontam o esquema dessas novas formas de extração do valor. Esclarecemos: à medida que a produção devém comum, o empreendedor schumpeteriano morre: agora, o capital deve capturar a jusante o que cada vez menos consegue organizar a montante. E é aqui, do ponto de vista de uma autonomização tendencial da cooperação social, que se apreendem as mutações reativas da forma-empresa. No seu significado mais amplo, ela se torna máquina organizada para a captura de valorização social, para a governança da economia da educação e das redes, que remunera os capturadores de modo direto (salário adequado, gratificação, opção por ações, bônus) e indireto (prestígio, status, e mais nesse sentido). Sem romper essa máquina, as instâncias de libertação, êxodo e comunalização se arriscam continuamente a ser reabsorvidas pelo próprio esquema de captura. A ruptura da máquina de captura é a passagem fundamental, embora não seja suficiente por si só, para a reapropriação do comum e, em consequência, a criação de uma nova institucionalidade, de instituições do comum.

3) Essa tendência deve ser situada na materialidade dos processos determinados pela crise. Eles nos obrigam, novamente, a focar a trama de acumulação financeira, cognitiva e industrial, como modos peculiares de extração do mais-valor e da exploração. Seja para neles compreender a atual configuração produtiva, seja para apreender-lhes as sucessivas mutações. Sobretudo, para individuar na reestruturação do capitalismo os terrenos possíveis de contestação e contrassubjetivação, e fazer explodir os antagonismos.

Um primeiro campo de pesquisa a interrogar diz respeito à produção dos serviços coletivos e de welfare [NT. seguridade social, bem-estar social]. Não somente porque têm sido objeto de cortes, mas também em virtude dos processos de privatização realizados e pretendidos. Configuram-se como importantes terrenos de avanço e conquista da parte dos investidores financeiros e industriais. Os setores da educação, da saúde, dos serviços de cuidado pessoal e doméstico estão entre os poucos que, também na crise, nos EUA e na Europa, têm crescido em número de empregados. Junto aos serviços públicos locais, tudo isso tem sido objeto de crescentes interesses e planos de investimento.

Quais serão as respostas dos trabalhadores, uma vez confrontados com a previsível reestruturação do capitalismo? Será a proteção dos direitos e prerrogativas sociais e de utilidade pública (aquelas que a publicística neoliberal chama impudentemente de “privilégios”)? Ou, nessa passagem, à frente das formas de resistência e conflito (sobre as quais podemos apostar), se abre um espaço para experimentar uma alternativa da produção do comum? Apostar, então, sobre uma aliança entre trabalhadores e usuários dos serviços que dê resposta aos fatídicos quesitos de o que, como e para quem produzir?

Pesquisar essas transformações dos serviços de welfare e coletivos nos ajuda também a esclarecer o problema da relação entre privado, público e comum. Deste ângulo, se pode facilmente ver como o “público” não só é, hoje, um lugar de poderes constituídos com aversão a qualquer abertura ao comum, mas já está, na realidade, inteiramente privatizado por dentro. Tínhamos ressaltado, a propósito da escola e da universidade, —numa crítica de dentro dos movimentos — quanto às posições voltadas à preservação do status quo (o que, de toda sorte, dificilmente sucederá). O modelo anglo-saxão de corporate university nos mostra como o processo de privatização do sistema de educação se coloca além do estatuto jurídico, e acaba por esmaecer a distinção entre público e privado, forjando um novo paradigma para a organização do trabalho e da captura. Pense-se, ainda, para citar um outro serviço de welfare, na saúde. Os hospitais são obrigados a reorganizar-se segundo o cálculo custo-benefício, a racionalidade gestora e a competição de mercado. Enquanto isso, muitas atividades sócio-assistenciais encontram-se externalizadas (a considerada esfera “privada social”), ou seja, diluídas diretamente sobre as famílias e indivíduos, que, nessas esferas, precisam aceitar a sua suposta responsabilidade sem nada receber em troca. O que é o público hoje senão esse new public management, isto é, os poderes constituídos do estado e mercado? Poderemos, então, dizer que, na dissolução da dialética entre público e privado, a alternativa não se apresenta entre o comum e o público, mas entre o comum e o privado, sendo o público uma variação interna ao último. Consequentemente, a questão que as lutas põem pode ser lida nos termos do conceito detransição, à condição de subtrair esse conceito da política de dois tempos em que geralmente é entendido [NT. A situação revolucionária, a situação pós-revolucionária], para repensá-la completa e imediatamente a partir da potência constituinte dos movimentos e do trabalho vivo contemporâneo, aqui e agora.

4) Neste cenário, devemos nos interrogar não somente como o comum é produzido e capturado, mas também sobre o que tem impedido a sua organização coletiva. Devemos, assim, colocar no centro da pesquisa os processos de subjetivação. O que significa, desta perspectiva, sustentar que a empresa é, atualmente, a organização das capturas e dos capturadores do comum? Existem, antes de tudo, dispositivos de diferenciação da modalidade de inclusão no mercado e dos esquemas redistributivos, que operam sobre uma base discriminatória etária, racial e de gênero. Em segundo lugar, há modelos distintos das empresas de captura, estruturados pela necessidade simultânea de estimular e segmentar a cooperação social. Por isso, das empresas antropogenéticas (de produção do homem pelo homem) às instituições bancárias e financeiras, passando pela web 2.0, o comum é o recurso profundo e a ameaça mortal do capitalismo contemporâneo. Ao fragmentá-lo, sem cortar o ramo sobre o qual se assenta, as empresas se tornam formas de organização das patologias do trabalho cognitivo. Parece-nos útil ler nesses termos os tópicos tradicionais da ideologia, do professionalismo e da meritocracia, enquanto economias discursivas que se baseiam sobre a materialidade do real para mistificar a luta de classe, causando efeitos patogênicos. Isso não é mera metáfora: as formas cada vez mais difusas de depressão ou ciclotimia representam menos a reprodução ou o retorno de modelos tayloristas, do que o sofrimento específico e historicamente próprio ao trabalho cognitivo, marcado pela obessão de desempenho, de competição, de subordinação ou cumplicidade com os aparelhos de captura. Aqui, se abre um novo campo de pesquisa e um extraordinário desafio à medicina do trabalho. Não pode ser excluída, nesta reflexão, a tensão entre a privatização do social, em termos semelhantes ao biopoder neoliberal: o capital humano, o recurso humano, o empowerement, o risco etc. Esse regime semântico aparentemente neutro faz da racionalidade da empresa algo que excede o seu campo e se impõe como um todo como um modelo cognitivo e regime de verdade para a sociedade.

Afinal, o bloco do comum está consignado ao que podemos chamar mecanismos de prescrição da subjetividade. Na máquina de captura, a ética do trabalho — progressivamente consumada nas lutas e nos processos de precarização — torna-se uma ética da responsabilidade social. Nas empresas de welfare, isto é imediatamente palpável: como fazem uma acompanhante, uma enfermeira ou um trabalhador de uma cooperativa comunitária para entrar em greve? Devem recusar suas próprias funções e sabotar a máquina, e serem estigmatizados pelo público? Ou, ainda, como evitar a auto-censura, pela sua própria interioridade individual? Essa responsabilização social é estendida até se tornar um mecanismo de chantagem generalizada: vemos isso nas mobilizações dos pesquisadores, preocupados em não prejudicar seu trabalho, ou dos precários, sobrecarregados com a responsabilidade de serem empreendedores de si mesmos, de sua própria condição precária, além de produtores de serviços para outros. Esclarecemos: é evidente que a recusa específica do trabalho do operário-massa não é repetível diante das transformações produtivas das últimas décadas, com a explosão da forma-salário e a desmedida da exploração e das lutas. No entanto, no momento em que a composição inteira do trabalho vivo é socialmente explorada, a questão passa a ser: quais formas de recusa historicamente determinadas podem hoje ser praticadas, sobretudo enquanto recusa da organização da captura e da socialização da “responsabilidade”, ou melhor, do “interesse geral” do capitalismo em crise.

Vale ressaltar: a ruptura da estrutura de captação do valor significa criar novas instituições de cooperação social, instituições do comum. Romper os dispositivos de endividamento significa, por exemplo, reapropriar-se da renda social, interrogar sobre que coisa quer dizer construir os sovietes no sistema bancário e contra as empresas financeiras.


5) O problema, agora, não é restaurar, mas, na realidade, levar até as últimas consequências a dissolução do pacto de fidelidade entre o capital e o trabalho. Enquanto os sindicatos não perceberem isso, estarão condenados a continuar — consciente ou passivamente — subordinados às iniciativas das empresas, ou seja, presos a uma resistência acessória ou setorial, de pequeno fôlego. Os acontecimentos do último ano e meio nos parecem significativos. Como romper, então, os dispositivos de inclusão diferenciada, patologização e chantagem do trabalho vivo contemporâneo? Como praticar formas de greve metropolitana e não exclusivamente corporativas, capazes assim de agir para desatar a trama de empresas e produção biopolítica? Como pensar, por exemplo, numa greve dos transportes em que os trens e ônibus venham a funcionar gratuitamente e para todos, numa greve em que os hospitais cessem de exigir o pagamento ou o plano de saúde, em que a educação seja arrancada da gestão pública e repensada no interior mesmo da da cooperação dos saberes vivos? Não é a isto que as hipóteses da greve precária aludem? Foram importantes as antecipações que vínhamos cultivando desde a metade dos anos noventa, que, hoje, estão sendo reaprendidas e desenvolvidas na construção de instituições do comum. Isto pode vir a culminar, mediante a apropriação das válvulas e reservatórios de condensação do valor, num aspecto constituinte que os movimentos dos “indignados”, “occupy” e No Tav delineiam.

Noutras palavras, a questão não é uma aliança entre diferentes movimentos ou entre grupamentos sociais, o que pressuporia um mecanismo de representação definitivamente esgotado. Trata-se, em vez disso, de construir uma política da subjetivação que se determine na tensão entre produção do comum e captura empreendedora. Para evitar equívocos, reafirmamos que não estamos, de fato, sustentando uma mitológica centralidade da empresa para a luta de classe em nossos dias. Trata-se, na verdade, da multiplicação das fábricas de subjetividade, de individuar os campos de sedimentação e acúmulo de autonomia, os seus traços de generalização, os elementos paradigmáticos ou peculiares, a respeito da composição do trabalho vivo, os pontos em que são prejudicados os patrões. De resto, pesquisa para nós não significa fazer “sociologia do capital”: outros o fazem provavelmente melhor, certamente para o inimigo. Se nos interessa raciocionar em empresas, formas de subjetivação e de captura da cooperação social, é porque retemos que também neste espaço vive a possibilidade de uma subjetivação autônoma, que contém in nuce potencialidade de de-empresariar, por assim dizer, a cooperação social. Fazer pesquisa significa então por-se na condição de habitar campos de conflitos possíveis, se se quer — esta a aposta — organizar o discurso do conflito, fazer saltar as tampas que contêm a emergência da composição política do trabalho vivo, abrindo espaços constituintes. Significa, assim, liberar as forças subjetivas e políticas autônomas, hoje bloqueadas pelos cercamentos da representação, interna e externa aos movimentos. É, além disso, através de uma pesquisa e de um trabalho de organização que se pode pensar em unificar as lutas dos pobres e dos grupos empobrecidos da classe operária, e da dita classe média. É aí, nas lutas, que a pesquisa devém “co-pesquisa”, Ou seja, dispositivo de luta que unifica o que resta da classe operária e de outros extratos depauperados da sociedade. É, sobretudo, nas estruturas, nos espaços e sobre o território do welfare metropolitano que isso se torna possível.



Muitas das derrotas recentes derivam, em toda a Europa, da ruptura dessa relação entre os pobres e a classe trabalhadora. Eis porque co-pesquisa é a prática militante e revolucionária do que temos chamado uma política da composição. Isto significa, também, habitar o que Romano Alquati chamava o “meio alcance”, quer dizer, os tempos, os espaços e os níveis onde a aposta teórica se faz discurso político.




O tempo das revoltas / Alain Bertho

sábado, março 31st, 2012

Entrevista realizada por Marc Beaugé com Alain Bertho, autor do livro Le Temps des Émeutes, Bayard 2009

Tendo acontecido em momentos diferentes, que relação vocês estabelecem entre as revoltas na França em 2005 com as revoltas na Inglaterra em 2011?

As revoltas de 2005 abriram uma sequência na qual as acontecidas em 2011 encaixam-se perfeitamente. Estamos, desde 2005, no que eu chamo de “tempo das revoltas”, quer dizer, um período de multiplicação das revoltas, em escala variada e em lugares e contextos bem diferentes. Consegui identificar mais de 500 revoltas no mundo inteiro em 2009, 1.200 em 2010, e mais de 1.000 desde o início deste ano. Estamos, portanto, em uma fase muito particular, diferente de tudo que aconteceu nos últimos 50 anos. As revoltas de 2005 não foram as primeiras na França, mas foram as primeiras a em chamar a atenção massivamente. Em certo modo, conseguiram o que queriam. Em 2005, tudo aconteceu a partir da morte de dois jovens que estavam sendo perseguidos pela polícia. É o mesmo que aconteceu em Londres em 2011, mas também em Villiers-le-Bel em 2007, na Grécia ou em Montreal em 2008… Evidentemente, a morte suspeita de um jovem não é a única causa das revoltas, mas trata-se de uma causa que atravessa os continentes e que faz com que jovens muito diferentes possam se mobilizar de maneira muito parecida.

A partir de que momento a reação a um acontecimento trágico se transforma em um movimento mais vasto em termos sociais e políticos?

A morte de um jovem não é mais do que o elemento desencadeador que permite a emergência de outros elementos de raiva e frustração. Estamos num momento singular de crise da representação política. As frustrações, as cóleras que poderiam, bem ou mal, se exprimir através dos dispositivos democráticos não encontram mais espaço para se expressar. Não podem mais ser verbalizadas. A insurreição intervém como substituto, como um último recurso. É crucial, portanto, observar e entender o que são as revoltas, porque no fundo interpelam a todos nós. O que observamos na França em 2005? Incêndios de automóveis, de ônibus, de alguns edifícios públicos. Com poucos confrontos diretos, as revoltas francesas são inapreensíveis. E praticamente sem saques. É uma maneira de os jovens dizerem: “Estamos aqui, nós existimos”. Em Londres já foi diferente. Existia uma vontade de confronto com a polícia. Houve também incêndios de edifícios privados e muitos saques. É fundamental entender isso como a intensificação do sentimento de exasperação diante das desigualdades sociais… Hoje, a distribuição de renda na Inglaterra é equivalente à que predominava há um século. Existem os ricos cada vez mais ricos, os visivelmente ricos, e uma grande parcela de pessoas cada vez mais pobres. Em um contexto em que as políticas sociais tornaram-se inoperantes, em função da subordinação dos governos à lógica financeira, dispõe-se de um terreno muito propício às revoltas.

Alguns tentam despolitizar as revoltas inglesas, caricaturando seus protagonistas como simples ladrões, motivados pela ganância fácil…

Trata-se da tese do poder, do Estado. E é uma tese reconfortante também. Mas o sistema político tal como existe não é capaz de resolver os problemas, e a exasperação deve se exprimir então de um modo diferente, não apenas nas urnas. As revoltas de 2005 – como as de 2011 – são a expressão de uma doença social que não para de aprofundar-se.

É por isso que o medo de contágio das periferias francesas não parece materializar-se …

Venho observando o fenômeno das periferias francesas faz vários anos, e é bastante surpreendente constatar que as revoltas se parecem, mas não existe contágio de fato. É sempre em um contexto nacional muito preciso que as pessoas assumem o risco de atos violentos. Não se trata, para eles, de um ato banal. Fisicamente, mas, sobretudo, penalmente, os protagonistas assumem riscos enormes. Na Inglaterra, a repressão será severa… É preciso, portanto, observar o contexto preciso das revoltas, o local.

As revoltas são então mecanicamente menos contagiosas que a revolução?

Sim, posto que o que permite a um movimento propagar-se são as palavras. A primavera árabe, na Tunísia, inicia-se também a partir da morte de um jovem em que a policia está implicada. Há os primeiros confrontos e logo isso se propaga para as cidades vizinhas. São as revoltas clássicas. Além disso, a ministra do Interior na França (naquele momento) Michèle Alliot-Marie, não se ilude. De certa maneira, ela diagnostica alguma coisa que conhece bem – ao menos que acabe acontecendo algo muito diferente. Essa juventude urbana agrega outras cidades, outras gerações. O movimento se amplia e, a partir daí, um novo espaço político se abre. E vemos surgirem as palavras, os discursos.

E as lideranças? Há sempre lideranças mediáticas nas revoluções, mas não no caso das revoltas inglesas ou francesas…

Certamente. Os “insurretos” estão isolados, ele não têm sustento em alguma força política, sindical ou associativa. Também não possuem sustentação de outros jovens mais assistidos, mais urbanos. Não tem havido movimentos de agregação em torno das revoltas francesas e inglesas. Diferentemente dos acontecimentos da primavera árabe, que tiveram ampla repercussão na Europa. Pela sua ação, pela sua ideologia e pelos discursos, os Indignados inspiram-se na primavera árabe. Mas não os protagonistas das revoltas (pelo menos por enquanto). Cabe a eles o desafio de colocar palavras nas suas ações…

Tradução do francês por Gerardo Silva.




15M, multidão que se utiliza de máscaras para ser uma > Raúl Sánchez Cedillo

quinta-feira, agosto 4th, 2011
15M, multidão que se utiliza de máscaras para ser uma
Raúl Sánchez Cedillo, Universidad Nómada
Tradução de Bruno Tarin
Mais de um mês após a erupção de 15 de maio, a plena realidade de um movimento revolucionário sem precedentes e imprevisível não deixa de provocar admiração e entusiasmo àqueles que tenham apenas alguns minutos para pensar sobre o que está acontecendo na Espanha.
Esta erupção não está sendo uma jacquerie (revolta) contra as políticas de austeridade econômica, e também não é um movimento pelos direitos civis e de desobediência que podemos encaixar em um esquema (liberal) clássico. O movimento estourou e tem aparecido como um movimento de democratização radical e ao mesmo tempo de radicalização democrática. “Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos. Democracia de verdade agora! “. Não só em suas críticas e propostas para a reforma radical do sistema representativo de partidos, mas também em seus modos de discussão e deliberação nas assembleias e comissões, expressa intensamente a força e os problemas das instâncias de democracia direta de massas. Nos seus modos e repertórios de ação coletiva, os da desobediência civil de massa pacífica e não testemunhal, os da resistência e proteção mútua dos corpos contra a violência policial e os do desafio e assédio aos parlamentos, o 15M se afirma como um movimento de radicalização democrática, o mais poderoso e desconhecido da história constitucional espanhola.
O afeto da indignação não é suficiente para dar conta da extensão, intensidade e persistência do 15M, mesmo que explique a natureza tumultuosa de seu surgimento. Na minha opinião, os aspectos mais interessantes (e felizmente inquietantes) tem a ver com o fato de que o movimento vem se firmando como uma rede de redes, de singularidades, que opera em vários níveis da realidade (das praças às  redes sociais, passando pela mídia corporativa) e que é capaz de autoregular-se em cada novo ato de seu processo e de seu antagonismo.
Parece como si o 15M fosse plenamente consciente de que não existe um fora viável do sistema de regulação constitucional dos antagonismos (e de sua lógica subjacente de amigo-inimigo) e de que precisa de máscaras que evitem qualquer tentativa de identificação e divisão, desviando a luz dos focos policiais e midiáticos.
É extraordinário ver agora como o movimento foi capaz de organizar em rede sua erupção, o 15M, de realizar uma mutação sem se destruir e em tempo útil em acampamentos e assembleias nas praças,  para assembleias de bairro nas grandes cidades, de organizar ações distribuídas e inesperadas contra a execução de despejos pelas  hipotecas não pagas e de voltar a inundar as ruas contra o Pacto do euro de 19 de junho. E como converteu até agora em fonte de legitimidade e de nova indignação todas as tentativas de neutralização e criminalização, sem perder a multiplicidade, complexidade e radicalidade e, acima de tudo, unidade de esforço e aplicação sem uma unidade de comando.
Mas talvez o mais surpreendente é que o 15M está fazendo tudo isso sem a participação de qualquer estrutura pré-existente de protestos políticos e sindicais. Cuidadosamente mantidas a parte, são incentivadas a participar dissolvendo-se e metamorfoseando-se no movimento.
Esta natureza de sistema-rede aberto, é na minha opinião a chave do carácter constituinte do 15M. O problema do auto-governo de uma multidão, ou seja, o da combinação da diversidade do movimento e sua capacidade para se unir na implementação oportuna da força, nas formas de decisão por uma espécie de “consenso emergente”, na capacidade de decidir na abundância de tons e opiniões, fazem deste movimento uma ameaça formidável e duradoura. Hoje, começa a amadurecer o projeto de concerto polifônico de instituições analógicas e digitais capazes de responsabilizarem-se de produzir o comum. O principal atrativo do 15M diante das tentações recorrentes de “solução política”, eleitoral ou não, vai na minha opinião na ênfase na produção de instituições materialmente capazes de se reapropriar e de gerir a produção social que ocorre nas metrópoles (cidades-fábrica).
Nem é necessário falar que como na Grécia ou na Tunísia, Marrocos ou Egito, o 15M dificilmente se manterá vivo ou será diminuído a um destino trágico se não tiver intercessores, relevos, parceiros em outras áreas e cidades Euro-Mediterrânicas. A inteligência indignada distribuída está nas melhores condições para identificar os adversários principais e secundários e de evitar os atalhos do voluntarismo e do desespero.

exposito 0113

Movimento 15M na Praça do Sol, Madrid

Foto: Marcelo Expósito (publicado sob licença CC 3.0)

Raúl Sánchez Cedillo, Universidad Nómada (Tradução de Bruno Tarin)

Mais de um mês após a erupção de 15 de maio, a plena realidade de um movimento revolucionário sem precedentes e imprevisível não deixa de provocar admiração e entusiasmo àqueles que tenham apenas alguns minutos para pensar sobre o que está acontecendo na Espanha.

Esta erupção não está sendo uma jacquerie (revolta) contra as políticas de austeridade econômica, e também não é um movimento pelos direitos civis e de desobediência que podemos encaixar em um esquema (liberal) clássico. O movimento estourou e tem aparecido como um movimento de democratização radical e ao mesmo tempo de radicalização democrática. “Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos. Democracia de verdade agora! “. Não só em suas críticas e propostas para a reforma radical do sistema representativo de partidos, mas também em seus modos de discussão e deliberação nas assembleias e comissões, expressa intensamente a força e os problemas das instâncias de democracia direta de massas. Nos seus modos e repertórios de ação coletiva, os da desobediência civil de massa pacífica e não testemunhal, os da resistência e proteção mútua dos corpos contra a violência policial e os do desafio e assédio aos parlamentos, o 15M se afirma como um movimento de radicalização democrática, o mais poderoso e desconhecido da história constitucional espanhola.

O afeto da indignação não é suficiente para dar conta da extensão, intensidade e persistência do 15M, mesmo que explique a natureza tumultuosa de seu surgimento. Na minha opinião, os aspectos mais interessantes (e felizmente inquietantes) tem a ver com o fato de que o movimento vem se firmando como uma rede de redes, de singularidades, que opera em vários níveis da realidade (das praças às  redes sociais, passando pela mídia corporativa) e que é capaz de autoregular-se em cada novo ato de seu processo e de seu antagonismo.

Parece como si o 15M fosse plenamente consciente de que não existe um fora viável do sistema de regulação constitucional dos antagonismos (e de sua lógica subjacente de amigo-inimigo) e de que precisa de máscaras que evitem qualquer tentativa de identificação e divisão, desviando a luz dos focos policiais e midiáticos.

É extraordinário ver agora como o movimento foi capaz de organizar em rede sua erupção, o 15M, de realizar uma mutação sem se destruir e em tempo útil em acampamentos e assembleias nas praças,  para assembleias de bairro nas grandes cidades, de organizar ações distribuídas e inesperadas contra a execução de despejos pelas  hipotecas não pagas e de voltar a inundar as ruas contra o Pacto do euro de 19 de junho. E como converteu até agora em fonte de legitimidade e de nova indignação todas as tentativas de neutralização e criminalização, sem perder a multiplicidade, complexidade e radicalidade e, acima de tudo, unidade de esforço e aplicação sem uma unidade de comando.

Mas talvez o mais surpreendente é que o 15M está fazendo tudo isso sem a participação de qualquer estrutura pré-existente de protestos políticos e sindicais. Cuidadosamente mantidas a parte, são incentivadas a participar dissolvendo-se e metamorfoseando-se no movimento.

Esta natureza de sistema-rede aberto, é na minha opinião a chave do carácter constituinte do 15M. O problema do auto-governo de uma multidão, ou seja, o da combinação da diversidade do movimento e sua capacidade para se unir na implementação oportuna da força, nas formas de decisão por uma espécie de “consenso emergente”, na capacidade de decidir na abundância de tons e opiniões, fazem deste movimento uma ameaça formidável e duradoura. Hoje, começa a amadurecer o projeto de concerto polifônico de instituições analógicas e digitais capazes de responsabilizarem-se de produzir o comum. O principal atrativo do 15M diante das tentações recorrentes de “solução política”, eleitoral ou não, vai na minha opinião na ênfase na produção de instituições materialmente capazes de se reapropriar e de gerir a produção social que ocorre nas metrópoles (cidades-fábrica).

Nem é necessário falar que como na Grécia ou na Tunísia, Marrocos ou Egito, o 15M dificilmente se manterá vivo ou será diminuído a um destino trágico se não tiver intercessores, relevos, parceiros em outras áreas e cidades Euro-Mediterrânicas. A inteligência indignada distribuída está nas melhores condições para identificar os adversários principais e secundários e de evitar os atalhos do voluntarismo e do desespero.




Grécia – Indignados > por Europa Zapatista

quarta-feira, agosto 3rd, 2011

Enquanto na Espanha o despejo violento dos indignados da praça de Barcelona teve como resposta a reconquista desse espaço, na Grécia os indignados locais também passaram a se concentrar nas praças. Após alguns dias, as milhares de pessoas na praça central de Atenas estão dando seus depoimentos através do twitter e redes sociais.
O protesto, sem partidos políticos, sindicatos e organizações históricas se centra sobre a gravidade da crise no país e as receitas impossíveis do Governo e da Europa.
São pessoas de todas as idades que se dirigem para a Praça Syntagma.

De Europa Zapatista para o GlobalProjecthttp://www.globalproject.info/it/in_movimento/Grecia-Indignados/8645

Tradução de Pedro Mendes

28  de maio de 2011

Milhares de pessoas estão há três dias ocupando as praças gregas após uma convocação anônima. Um chamado circulou pelo Facebook dizendo: “gregos indignados na Praça Syntagma”. Tudo começou em 25 de maio, inspirado pela concentração em Puerta del Sol, na Espanha. A convocação dizia ainda: “venha mesmo sem chamadas para a manifestação, sem slogans de partidos, sem identificação de qualquer sindicato”.

Eu mesmo sequer tinha visto o Facebook, mas a reunião foi divulgada através do boca-a-boca, e-mails, mensagens de texto. Com uma única frase: “Dia 25 de Maio, às 18 horas., na Praça Syntagma”. Definitivamente havia incerteza, suspeita, desconfiança, houve até quem dissesse que era senso comum imaginar que movimentos nascessem no Facebook. E então… surpresa! Uma surpresa imensa: de 25 a 40 mil pessoas. Mas os números, em si, não importam, a praça está tomada. (mais…)




A esquerda diante do abismo da democracia > Exposito, Herreros e Rodriguez

terça-feira, agosto 2nd, 2011

Por Marcelo Exposito, Tomas Herreros e Emmanuel Rodriguez*| Tradução de Pedro B. Mendes

Em 11 de março de 2004, dez explosões simultâneas mandaram pelos ares quatro trens em Madri e tiraram a vida de cerca de 200 pessoas, além de ferir cerca de 2.000 e de semear o terror. Nas horas que se seguiram, o governo do Partido Popular, liderado por José María Aznar, deu início a uma grande confusão, a fim de capitalizar politicamente a dor. Simultaneamente, os telefones celulares começaram a receber mensagens de texto: encontremo-nos na rua. Levas de pessoas tomaram os espaços públicos, em manifestações e concentrações difusas, espontâneas, exigindo saber a verdade. Era sábado, 13 de março, dia de eleição. No dia seguinte, os votos majoritários deram uma inopinada vitória ao candidato do PSOE, José Luis Rodríguez Zapatero. Dito com clareza: Zapatero chega ao governo da Espanha impulsionado por um movimento social. O novo presidente prometeu em público: “Não os decepcionarei.” Conservemos por um momento essa imagem. Domingo, 15 de maio de 2011. A manifestação convocada por redes sociais na Internet vai além das expectativas: dezenas de milhares de pessoas se reúnem em sessenta cidades espanholas, sob o lema comum “Democracia real, já!”, que arrasta atrás de si uma constelação de enunciados: “Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros”, “não nos representam”. (mais…)




A Tunísia é a nossa Universidade > Anna Curcio e Gigi Roggero

terça-feira, agosto 2nd, 2011

Notas e reflexões da Liberation without borders tour

Por Anna Curcio e Gigi Roggero* | Tradução de Pedro B. Mendes

Hoje, a Tunísia é um laboratório político extraordinário. Destruindo definitivamente qualquer reminiscência inveterada do espelho colonial, no qual a “periferia” deve observar o “centro” para ver a imagem de seu futuro refletida nele, as lutas sociais estão determinando o ponto mais avançado no interior do capitalismo global. Realizar pesquisa neste laboratório representa a possibilidade de encontrar respostas e desenvolver questões políticas não resolvidas.
Acima de tudo, emergem aqui algumas indicações fundamentais sobre a temporalidade da crise. Entre 2007 e 2008, quando começamos a desenvolver nossa análise da crise econômica global, não poderíamos imaginar a deflagração de novos ciclos de luta. Ou melhor, esses novos ciclos eram de caráter fragmentário e não generalizado. Hoje, podemos ver como o próprio conceito de ciclo deve ser completamente repensado: quando a crise já não é uma fase específica, mas um elemento horizontal permanente e insuperável do capitalismo cognitivo, as próprias lutas adotam uma temporalidade diferente. Elas aguardam e atacam o inimigo onde ele é mais fraco, ou seja, onde a composição do trabalho vivo é a mais forte. (mais…)







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