Arquivo da Categoria ‘Conexões Globais’


Somos todos clandestinos (Francesco Raparelli)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Francesco Raparelli

Somos todos clandestinos. Somos todos antirracistas, e não se trata de retórica de solidariedade. A crise e seus efeitos cada vez mais concretos não fazem mais que escancarar a caixa de Pandora.  De migrantes expulsos a fuzilados – porque escravizá-los não funciona mais – aos mestres deixados em casa porque são muitos, aos precários que veem se esfumaçar qualquer possibilidade de obter uma renda, aos estudantes que veem se esvanecer qualquer possibilidade de um futuro digno. Somos muitos, muitos mesmo, nas escolas e nos postos de trabalho, e qualquer um pode ser descartado. Assim, nos tornamos clandestinos, chantageáveis, perigosos, devendo ser divididos, postos em competição, por não sermos confiáveis. Nós não pagaremos pela crise. (mais…)




1º de Março, um novo início (Sandro Mezzadra)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sandro Mezzadra

Um novo começo. Disso trata o 1º de março. Desde o início, ao receber as notícias que chegavam dos quatro cantos da península, tive a sensação de que algo novo se punha em movimento. Vozes frescas, emocionadas e, por vezes, surpresas, davam conta de greves de consumo e de greves nas fábricas (“Não precisamos de autorização para fazer greve”, diziam muitos coletivos, zombando da miopia dos sindicatos), de manifestações estudantis e de “lições de clandestinidade”, de passeatas diante do INPS , dos canteiros de obras, de milhares de lugares onde o trabalho dos migrantes é explorado cotidianamente, mas onde também lutam e resistem diariamente. Depois chegaram as fotos, e as praças mostravam desde cedo caras novas de uma composição juvenil na qual se cruzam histórias e cores, línguas e emoções. À medida que o dia passava, as ruas de milhares de cidades italianas foram se preenchendo e confluindo em uma extraordinária expressão da multidão (ao menos uma vez o uso deste termo não é retórico), em rejeição ao racismo e na afirmação de uma nova cidadania. (mais…)




O Norte perdeu o Sul (Olivier Borius)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Olivier Borius

Hoje, como de costume, eu consulto os jornais brasileiros e franceses online. Esta manhã, estou curioso para ver como a imprensa francesa tratou da criação de um novo bloco regional na América Latina e Caribe, sem os Estados Unidos e o Canadá, que aconteceu na véspera, dia 23 de fevereiro. Surpresa! Nenhuma repercussão. Nem o Libération, nem o L’Humanité, nem o Le Figaro, falam disso. Eu consulto então o maior telejornal nacional do país, TF1. De novo, nada. Nada o dia 24, dia 25, dia 26. O único artigo (pequeno) que eu encontrei foi no Le Monde, dia 25, na seção Internacional. (mais…)




‘Des-nacionais” (Sindia Martins dos Santos)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Um pedaço do Congo no Brasil, um Brasil no Congo.

Sindia Martins dos Santos

A mulher negra agachada ao lado da mesa improvisada com caixotes plásticos estendeu a mão oferecendo um pedaço de Kuanga. A massa de mandioca, dizia Mama Bia, era um prato congolês muito parecido com o angu mineiro. Durante a semana, a massa seria misturada ao feijão, temperado com azeite de palma (similar ao óleo de dendê), cebola e alho, e fortalecida com folhas de mandioca. Ou então, misturada ao peixe, transformando-se num forte pirão. (mais…)




Resistir para acreditar (Beatriz Lemos)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Beatriz Lemos

O exercício de rememorar minha estadia como curadora brasileira residente em Batiscafo  me facilitou entender o motivo de meu incômodo ao responder a pergunta dos amigos após o retorno da viagem: “Você foi para Cuba, que maravilha! E aí, como foi?” O incômodo vinha por não saber ao certo a resposta, e apenas concluía ter sido uma experiência intensa.
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Argentina: entre o governo e a governança (Cesar Altamira)

domingo, 20 de dezembro de 2009
Cesar Altamira

Tradução:
Leonardo Retamoso Palma
Lúcia Copetti Dalmaso

Uma primeira análise sobre as eleições nacionais para renovação de deputados e senadores realizada em junho de 2009 pode levar a interpretar o resultado como um voto de castigo ao governo kirchnerista, que perdeu a maioria parlamentar. Múltiplas razões podem explicar a derrota: o péssimo manejo do conflito com o setor agrário, que se estendeu de março até julho de 2008; questões de forma e estilo de governo (prepotência, soberba política e autoritarismo) que provocaram repúdio social; assim como os míseros resultados em termos de bem estar social do último ano e meio de gestão, que influenciaram uma parte importante da sociedade entediada diante da retórica oficial mentirosa – que falseia dados econômicos e sociais – que põe em dúvida os propósitos e princípios igualitários que o governo dizia e diz encarnar.

A derrota política põe em xeque a legitimidade do governo, fenômeno que se faz ainda mais contundente quando recordamos que esta crise se produz em um país onde o conflito social se resolve na rua, com métodos de ação direta em praças e rodovias. Trata-se de uma sociedade altamente politizada, onde a baixa institucionalidade deve ligar-se à crise da relação salarial fordista. (mais…)




A nova constituição boliviana (Salvador Schavelzon)

domingo, 20 de dezembro de 2009
Salvador Schavelzon

Tradução:
Leonardo Retamoso Palma
Lúcia Copetti Dalmaso

Depois de ter promulgado a nova Constituição, em 7 de fevereiro deste ano, o governo boliviano dá os primeiros passos para implementá-la. Modificou a estrutura do gabinete para se adequar ao novo texto, elabora suas primeiras leis (Eleitoral, Marco de Autonomias, de Justiça, etc.) e realiza modificações nos ministérios e nas políticas públicas para também adaptá-los à nova estrutura. Segundo estabelece o primeiro artigo da nova Constituição, o Estado agora se caracteriza como Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário, Intercultural, descentralizado, com Autonomias e fundado na pluralidade. Com o novo cenário, as organizações sociais e indígenas aproximam-se agora da constituição de autonomias e do desenvolvimento do controle social. Por sua parte, o governo prepara-se para 6 de dezembro de 2009, quando serão eleitos os primeiros assembleístas do novo parlamento e Evo Morales se submeterá à reeleição. A dispersão e falta de projeto da oposição convidam a supor que Morales se imporá novamente nas urnas. Sendo assim, começaria um mandato de cinco anos, que seria o último, devido a que nas negociações para convocar o referendum aprobatório da Constituição no Congresso, o presidente cedeu à possibilidade de reeleger-se por dois novos mandatos depois do atual. (mais…)




Global entrevista Michael Hardt

domingo, 20 de dezembro de 2009

“O melhor futuro para os EUA é se tornar como a América Latina”

Autor de “Império” e “Multidão”, junto com o filósofo Antonio Negri, Michael Hardt esteve em dezembro no Brasil, participando do Fórum Livre de Direito Autoral – o Domínio do Comum, evento organizado pela Escola de Comunicação da UFRJ e Rede Universidade Nômade. Em um dos intervalos do evento, alguns dos participantes da Rede Universidade Nômade conversaram com Hardt.

Na entrevista, ele coloca em evidência o fato de que as crises do capitalismo são resultado da força do poder constituinte da multidão e provoca cada um de nós a se colocar na disputa em relação ao que se produzirá a partir da crise atual.

Da mesma maneira, ao comentar sobre o significado das eleições de um negro – Obama – e de um operário – Lula – o autor e militante nos chama atenção para um elemento essencial: a eleição em si pouco significa sem a potência das mobilizações sociais.

Participaram da entrevista:

Gilvan Vilarim, Pedro Barbosa Mendes e Felipe Cavalcanti.

Tradução: Pedro Barbosa Mendes

Universidade Nômade – A primeira pergunta diz respeito à crise. Tomando-se a crise como um momento de indefinição no qual ainda não é possível perceber com clareza a dimensão dos deslocamentos ocorridos, como aproveitar o atual processo para construir uma possibilidade de abertura/ruptura, em sua opinião?

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