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Kairós junino (Bruno Cava)

sábado, junho 29th, 2013

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Quantas pessoas têm a chance de experimentar um momento histórico, enquanto ele ocorre? Quantas não passam as vidas inteiras, ansiando por tempos de agitação, sem a chance de vivenciar um dia sequer de uma abertura para o porvir? E ficam melancólicas, inautênticas? Ficam suspirando por outras épocas, de onde seus heróis mortos falam num tom inacessível de aventura e terror, quando quase se pode sentir o calor das assembleias, a espreita das batalhas, amores trágicos e perseguições imoderadas?

Hoje, não temos razão para melancolia. Se existe uma definição de momento histórico, este é um deles. A perplexidade faz parte, porque estamos no meio da fumaça. Caminhamos sobre o terreno da incerteza radical, por onde erram nossos humores, na oscilação entre entusiasmo e decepção absolutos.

O fracasso da velha esquerda em pautar e conduzir os protestos não precisa necessariamente significar que os protestos não sejam de esquerda, como alguns sentenciaram horrorizados. Talvez signifique que a velha esquerda não seja mais esquerda. Não mais. Talvez signifique, aliás, que seja a hora de a velha esquerda reaprender a ser esquerda. E antes o levante qualificar a esquerda, do que esta a qualificá-lo. Ser esquerda, aliás, não é isso? Requalificar os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais, o “terceiro setor” altermundista e todos quantos, a partir do movimento real que põe tudo a mover-se?

Triste mesmo é quem vive um momento histórico e já torce para que passe logo, para que tudo volte ao status quo ante, de volta a suas reuniões obscuras e marchinhas anódinas de 50 ou 100 cupinchas, balançando as mesmas bandeiras. Também sucede aí uma zona de conforto, uma sensação bovina de segurança em não precisar se relacionar com o outro radical — com o outro do mundo que continuou se transformando, apesar de nossas ideologias e convicções de ferro. O esquerdismo nunca foi tão esquerdista. Como pessoas paralisadas de medo diante da cinza vulcânica, prestes a virar estátua fúnebre.

Enquanto isso, a grande imprensa e setores da direita, mais espertos e muito bem organizados neste país, não cessarão de desqualificar o sentido político das manifestações. Trabalham incansavelmente, na imagem e no discurso, todas as suas contradições e ambiguidades, tirando proveito do que puderem. Só reconhecem as pautas que lhes interessam diretamente: o resto será ingenuidade ou crime. Fora dessas pautas, não deixarão de promover o receituário da criminalização da revolta e mobilização popular, no caso extremo com o discurso do terrorismo, em mais uma ditadura comissária, agora sob o cajado supremo da FIFA. Apelarão aos bordões mais batidos, às invocações morais mais mecânicas. Tentarão frear o ímpeto constituinte, sabotar as redes de organização, cooptá-las, desmobilizá-las pela intimidação, a culpa e o cansaço, para que o medo retorne ao “lado certo”. Tudo isso já sabemos, e deveríamos estar vacinados.

Passado o justo entusiasmo, é preciso reorganizar o pensamento. Sem engessar, permitir-se porém uma avaliação mais ou menos lúcida de apoios em que possamos precariamente nos segurar. O fato é que tudo mudou no junho quente. Quem acha que vai passar incólume está enganado: nada será como antes. Ainda que irresolvidos, os próprios problemas mudaram. Até o poder constituído, tão burocrático e amarrado de legalismos, acordou no Brasil de junho, apressando-se em esboçar concessões e oferendas, a fim de amortecer o impulso constituinte. Porque este, mais do que em assembleias ad hoc, já está solto. Subsiste em estado bruto, na confluência de insatisfações muito concretas, de demandas muito concretas, de uma percepção precisa a respeito da posição reservada à maioria da população no novo Brasil. O futuro do Brasil do futuro está mal organizado e distribuído, do ponto de vista dessa maioria que participa e apoia os tumultos. É essa maioria, — deliciosamente monstruosa, nada silenciosa, maioria aliás que ruge, — é ela quem porta em si mesma e por si mesma a força de transformação.

A Copa deste ano vai chegado ao fim, e pode ser que as grandes manifestações de rua tenham atingido um ponto crítico. Nem tanto um ponto de esgotamento, mas de transmissão. Por um lado, o poder constituinte por assim dizer “a quente” exerce o papel de fazer o medo mudar de lado. Passá-lo para o lado de lá, conferindo cá a sensação de que é possível, sim, que nós podemos. Por outro lado, em paralelo aos milhões se manifestando nas ruas, acontece também um trabalho mais “a frio” (digamos, menos fervente), que multiplica encontros, instâncias, fóruns, redes e alianças. Esse espessamento de organização também é poder constituinte, porque confere duração e qualifica a potência acumulada.

As manifestações não são espontâneas. Espontaneidade seria sair do trabalho ou da escola para assistir à TV, tomar um banho, de repente encontrar os amigos. Sair às ruas para expressar-se em meio a uma multidão de gente, qualquer que seja a roupagem simbólica, já não pode ser um ato de espontaneidade irrefletida. Para uma indignação mecanizada bastaria aderir às caretas dos âncoras do telejornal, ou emular uma impostação moral qualquer do editorial do jornalão, sobre qualquer tema que seja. Espontaneamente, ao ter contato com essas pulsões da grande imprensa, somos poupados de nos indignar, como quando assistimos a comédias e a risada de fundo efetivamente ri por nós. A indignação que chega às ruas no meio dos outros, diante de bloqueios policiais, não é risada enlatada. Num evento desses, o corpo desembota, recupera o viço. Aí está, também, um manifesto político, à revelia das bandeiras ou antibandeiras que sejam ostentadas. A subjetividade já está em processo.

Reduzir as expressões das ruas à pura negatividade, como um caos niilista, perde de vista o essencial. É exatamente isso que pretende que acreditemos quem não quer que nada mude, e não por acaso se infiltre nos movimentos para encobrir as suas tendências construtivas, exacerbando a linha caótica de interpretação. A negatividade a que temos assistido só acontece, aliás, porque assentada sobre uma positividade maior. Desejamos essa positividade, daí não aceitarmos o que nos oferecem, numa recusa por vezes tumultuada e assustadora. A dignidade é primeira. Eu me revolto contra o sistema de transportes, porque sei que é possível experimentar a mobilidade urbana de outra maneira, e que seja possível construir politicamente um transporte menos superlotado e lento, menos humilhante, e que seja potencialmente gratuito.

Se me indigna a gestão policial dos territórios dos pobres, é porque conheço outras formas de auto-organização, formas políticas e culturais muito mais cooperativas, alegres e democráticas. Se estou sonhando alto com essas formas, é sonho porque quero generalizá-las, mas o sentimento que existam e me sejam próprias já está aqui. Já as vivencio como reais e sei que muitos o fazem. É um “possível atual”, como diria Deleuze, que preenche o presente de sentido.

Se me ofende o modo como realizam os megaeventos, é porque vejo como estão na base de um projeto de cidade diametralmente oposto à vida na cidade (que esse mesmo projeto explora). Tenta frustrar uma cidade viva onde me vejo mais livre e produtivo: querem me renegar dessa urbanidade abundante.

O trabalho do positivo, para as revoltas, está em entrelaçar os pontos dessa vida mais rica de sentidos e dignidades, num projeto encarnado de cidade, trabalho e cidadania.

Nesse sentido, não são mesmo manifestações voluntaristas. Estão muito bem calcadas num projeto em formulação multitudinária, ainda que seja hoje um projeto caleidoscópico e bastante confuso. Como não seria, se a própria ideia de organização política mudou nos últimos tempos? A realidade está solta, sem gentileza pros esquemas. Não temos as ferramentas para enxergar e tatear isso. Estão sendo criadas, no movimento mesmo, embaralhando as cartas com que nos habituamos a jogar. Criemos!, como solicita o meu amigo Luís Alencar. Mais que petição de humildade, é a percepção impositiva que, num momento assim, tudo tem de ser construído.




O inferno é aqui, mas a Maré vive (Rociclei Silva)

sábado, junho 29th, 2013

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Na quinta feira, 20 de junho, a multidão tomou de assalto a Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, transformando-a em um mar de gente. A violência da polícia militar contra os manifestantes levou aqueles que nunca haviam sofrido ou presenciado sua forma de ação covarde, selvagem e desumana ao pânico. As redes sociais foram tomadas por fotos, relatos e vídeos de pessoas perplexas diante do que presenciaram ou sofreram. Muitos viram um caveirão, ao vivo, pela primeira vez. Mas uma frase me chamou atenção nas redes sociais: “O Bope transformou Lapa, Centro e Catete num inferno”. E eu pensei comigo: não, vocês ainda não viram o inferno, e não sabem do que eles são capazes.

Cinco dias depois, as minhas palavras se concretizaram na favela da Maré. Após uma manifestação pacífica, o Bope invadiu a favela atrás de traficantes que estariam infiltrados entre os manifestantes e que faziam arrastão na Avenida Brasil. A polícia fez da favela da Maré o inferno na terra, tal e qual descrito por Dante Alighieri. O Bope reproduziu, com riqueza de detalhes, a obra do artista italiano. É preciso lembrar que a obra de Dante é uma alegoria através do conceito medieval de Inferno, mas que se encaixa perfeitamente nas ações medievais do Bope com armas contemporâneas. Após 24 horas de operação, a obra estava concluída, tendo como pano de fundo um mar de sangue e corpos estirados. Violações de todos os direitos, inclusive da vida, humilhações, cárceres, assassinatos, violações de todos os tipos exercidas pelo estado.

De acordo com a descrição de Dante, o inferno é destinado aos glutões, hereges e fraudadores. Mas na maré os condenados, sem direito algum à defesa, são pobres, precários, informais, negros, pardos e nordestinos sem nome, identidade e direitos, desprezados pelo estado e outros segmentos da sociedade. Após a barbárie, acho que a visão do inferno do poeta inglês John Milton, cujo poema épico Paraíso Perdido retrata o inferno como “uma grande fornalha”, onde suas chamas oferecem “nenhuma luz, mas sim escuridão visível”, retrata melhor o quadro de genocídio imposto a Maré por homens de preto. Homens que tomados por ódio saem da favela deixando para trás seu rastro sujo de sangue e horror cantado em verso e prosa em suas mórbidas canções. Rastro que deixa marcas no corpo, mas principalmente na alma de todos aqueles que ali vivem. E saber que o lema da corporação (Polícia militar) é “Servir e proteger”. Fica uma pergunta: servir e proteger a quem?

Diante de toda essa barbárie o que fazem? É preciso sair do discurso, fazermos com que nossa indignação ultrapasse as palavras e se transforme em ação. Quantos infernos ainda serão criados? Quantos corpos inocentes ainda cairão? É de nossos bolsos que sai o dinheiro que mantém tal corporação. Até quando esperar ?

Mas a Maré não se cala e muito menos se entrega. Porque é potência. A potência da Maré é a potência e a riqueza dos pobres em insistem no ser, na conservação da vida que se torna desejo potente e não pode mais ser reprimido. O vazio da dor e do sofrimento se transforma em escolha de vida e libertação. Na Maré e em outras favelas a dor não é elemento que conduz ao imobilismo. Ao contrário, ela é a força que incomoda, mas que estimula a luta, a ação, a cooperação e que veste a vida e não a desnuda.

Como uma fênix a Maré renasce todos os dias, a cada por do sol ela reafirma a vida.

A Maré não renasce das cinzas, mas da vida, do desejo de viver e dizer “não!” à morte e superar, na fortaleza de propósitos renovados, a miséria, as lágrimas e o horror. A Maré é o amor que supera a morte a cada instante da vida.

Força Maré, não deixe que a fraqueza e covardia dos fracos tiranos, que fazem da violência sua linguagem, submetam a força daqueles que fazem do amor a razão da vida.




Ser de esquerda é ter a coragem de mergulhar na multidão (Giuseppe Cocco)

sábado, junho 29th, 2013

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Qualquer que seja seu desfecho, o levante da multidão é um terremoto que faz ruir, ao mesmo tempo, os prédios governamentais da esquerda que está no poder e os palácios decadentes das ideologias. Fica a pergunta: a esquerda é reformável? Como militar pela esquerda diante do fato que suas categorias (seja ela “a classe operária” ou a “Nova Classe Média”) e suas formas (as bandeiras, os partidos, os sindicatos, as ONGs patrocinadas) são ultrapassadas?

Depois das agressões às bandeiras de partidos, no último dia 20 de junho, toda a esquerda entrou em uma postura reativa: “se as manifestações não gostam de nossas bandeiras, elas são de direita ou são massa manipulada pela direita”.

A extrema esquerda se junta aos oportunistas encastelados nos governos. Aqueles que tinham esquecido as bandeiras e as usavam apenas para limpar as mãos sujas nas coalizões espúrias, passaram a fazer do uso delas uma questão de “honra”.

Já os que faziam oposição pela esquerda não conseguem ver que o problema das bandeiras é exatamente o… problema das bandeiras: a luta não é por ideais (as tais bandeiras). A  mobilização deve ser, agora, multitudinária, sua polifonia, espontânea e auto-organizada, bem como a ausência de linha, organicidade e liderança; estas, são as maiores bandeiras que um militante pode carregar! Insistir em impor a “Luta das Bandeiras” a um movimento que tem a luta como bandeira foi um erro político até aquele recente 20 de junho. Hoje, pode ser  uma grave irresponsabilidade: deixar esse espaço aberto justamente àquela direta, que avança usando apenas o verde e o amarelo.

A questão é inventar uma nova antropofagia política, um novo “pau-Brasil”, como Oswald de Andrade soube fazer nos anos 1920. A poeira dos escombros e a fumaça dos gases lacrimogênio ainda não baixou, mas já dá para ver um novo horizonte. Apesar dos perigos, este é o horizonte do possível. E ser de esquerda é sobretudo ter coragem, política e até ontológica, de mergulhar no possível.




Belo Horizonte e os ônibus sem catraca (André Veloso)

sábado, junho 29th, 2013

A discrepância entre o custo do sistema e o quanto, como e quando se cobra por ele evidenciam que as decisões devem estar no campo político, não técnico. É uma questão de escolha: se nossa sociedade decidir que sim, o transporte é um direito e deve estar disponível a todos, sem distinção ou tarifa, então ela achará meios para tal. – Movimento Passe Livre, São Paulo. Folha de São Paulo – 12 de Junho de 2013.

Nos estudos de economia mineira, costuma-se utilizar a tese de que o “empresariado mineiro seria mais atrasado e mais débil do que o empresariado nacional” para se justificar o fato do famoso “atraso econômico de Minas em relação a São Paulo”.


Nada mais longe da verdade.


Os levantes que vemos agora em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre são uma reação imediata aos aumentos de passagem que ocorreram nos últimos dias (ou semanas) nessas cidades. É claro, não são levantes contra centavos, são pelo direito à mobilidade, ao ir e vir. E questionam profundamente a atual concepção de transporte (coletivo, público e privado), principalmente quem, como e quando esse transporte é financiado.
Mas, todos concordam, os levantes foram iniciados pelo aumento da passagem. Pelo fato de – de um dia para o outro – termos que pagar mais 20 centavos por um transporte truculento, superlotado, congestionado, que nos leva para um lugar que não queremos para fazer um trabalho no qual, em geral, não nos sentimos realizados.
Pois bem, novamente: nada mais longe da verdade afirmar que a elite mineira é inepta. A tradicional família mineira se traduz em uma elite extremamente astuta e perniciosa, agindo da forma mais silenciosa possível, como um mineiro comendo pelas beiradas.


Segundo o contrato de concessão dos serviços de transportes público em BH, licitado em 2008, a passagem de ônibus é reajustada de acordo com uma equação paramétrica que leva em conta os custos do transporte e os reajusta de acordo com a inflação registrada pelo IBGE e pela FGV (a equação está no fim deste texto, para quem quiser ver). Com um detalhe: pelo contrato, esse reajuste é publicado no dia 28 de dezembro e EFETUADO, TODOS OS ANOS, NO DIA 29 DE DEZEMBRO.


É quase desnecessário dizer que nesta época do ano a grande maioria da população belo-horizontina se encontra fora da cidade: além de ser fim de ano, grande parte de nós tem origem no interior do estado (em 1960, 70% das pessoas que moravam em BH não haviam nascido aqui).


A equação paramétrica e a data em que é feito o reajuste são dois elementos que fazem parte da construção do mesmo discurso feito pelas autoridades públicas e empresários para a população. Busca-se passar a impressão de que o reajuste faz parte do sistema, que ele é uma necessidade técnica para que o sistema permaneça funcionando, e que se ele não for cumprido o sistema pode entrar em colapso, os empresários não investirão mais, e a cidade parará.


Em outras palavras: o véu técnico encobre o caráter necessariamente político da tarifa.


Neste último sábado (08 de junho), o presidente da BHTRANS, Ramon Victor César, em fala realizada no X Congresso da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo da Grande BH, deu a entender que a tarifa pode ser reajustada para cima, ainda neste ano. Além do reajuste anual, há uma revisão a cada 4 anos da tarifa, para averiguar se os reajustes foram “justos”. A grande multinacional Ernst & Young foi contratada para realizar essa revisão e, segundo esta, um dos fatores de desequilíbrio da atual tarifa é que os salários dos trabalhadores das empresas tiveram um reajuste maior do que o índice que mede o preço da mão de obra na dita equação. Ou seja, os empresários perderam parte de seu “diminuto” lucro, que, é claro, deve ser ressarcido à custa do usuário.
Lúcio Gregori, idealizador do projeto Tarifa Zero durante o governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo (1989-1993), costuma afirmar que a tarifa do transporte público funciona como um fetiche, como algo que encobre a verdadeira natureza do transporte público. O empresariado a vê como a única forma de remuneração de seu serviço, o Governo a vê como um instrumento de barganha política e a população costuma associá-la à qualidade do serviço, não conseguindo enxergar outra possibilidade que não seja a de pagar pelo ônibus no momento da sua utilização.


Apesar disso, o absurdo do sistema tarifário é evidente. Diferentemente de outros serviços públicos como saúde, educação e segurança pública, que são financiados por toda a população de maneira indireta, o transporte público é completamente financiado por quem se utiliza dele e no momento da utilização. A analogia é simples: imagine uma catraca na entrada de uma sala de aula, cobrando pelo custo de manutenção da sala e pelo salário do professor. Só quem pudesse pagar poderia ter aula. Ou ainda, uma catraca na entrada da ambulância e/ou dos leitos hospitalares. Por fim, imagine uma caixinha para o policial, toda vez que você chegasse em casa sem ter sido assaltado.


Essa lógica perversa faz com que os mais pobres, que são aqueles que não podem comprar uma moto ou um carro, financiem a mobilidade urbana dos mais ricos. E isso se torna um círculo vicioso. Quem puder escapar do transporte público, o fará rapidamente. Com mais motos e carros nas ruas, mais congestionadas ficam nossas vias e mais lento, ineficiente e custoso será o ônibus, que, portanto, irá aumentar sua tarifa para poder se financiar, levando mais pessoas a optarem pelo transporte individual.


Assim, como tem pautado o Movimento Passe Livre, devemos ir além da luta pela revogação de aumentos ou redução da tarifa: devemos questionar a tarifa em si. A primeira coisa a ser revista deve ser o contrato entre as empresas de ônibus e a prefeitura de BH, no caso municipal, e entre as empresas de ônibus e o estado, no caso da Região Metropolitana. Esse contrato garante o monopólio da exploraçãodos serviços para essas empresas, que se constituem como verdadeiras máfias. O de Belo Horizonte foi feito em 2008 e dura até 2028, para 4 consórcios. O da Região Metropolitana é ainda pior: são 7 consórcios com exploração garantida de 2008 a 2038!


A possibilidade concreta do ônibus sem catraca em Belo Horizonte


É óbvio que o transporte público custa dinheiro. Para se possibilitar a revogação da tarifa nos ônibus de BH, simultaneamente a um aumento e melhoria de sua frota, propõem-se quatro fontes básicas de recursos, que constituiriam um fundo municipal de mobilidade urbana.


A primeira já está aí, são recursos que a PBH já possui, mas são mal direcionados.


O orçamento de 2013 da Prefeitura de Belo Horizonte prevê um gasto de cerca de 230 milhões de reais para o programa Corta-Caminho (VIURBS) da BHTRANS. Esse programa, de maneira geral, prevê uma série de intervenções viárias na cidade para desconstruir a lógica centro-radial de trânsito. Ou seja, desconstruir a necessidade de ter de passar pelo centro para chegar a qualquer lugar da cidade. Apesar de ser necessário, a prioridade dada ao programa é absurda, visto que este atende principalmente aos interesses dos automóveis privados. É por demais óbvio que a ampliação da malha viária, abertura de novas ruas e construção de viadutos não resolveu, não está resolvendo e não irá resolver o problema de mobilidade de BH ou de qualquer outra metrópole. A frota de carros belo-horizontina cresce 7% ao ano, e é simplesmente impossível comportar esse crescimento com uma ampliação da malha viária que chegue perto desse ritmo, sob pena de transformar a cidade em uma grande e única massa de asfalto.


Para se ter uma ideia das prioridades da PBH, o meio-passe estudantil recebeu apenas 4 milhões de reais no orçamento 2013, menos de 2% dos recursos destinados ao VIURBS. Ou seja, trata-se de uma questão de prioridades e controle do orçamento público, o que é claramente político.


A segunda fonte de recursos também já está aí. São os recursos em vale-transporte pagos pelas empresas a seus funcionários.


Com a instituição bilhetagem eletrônica (cartão BHBUS), esses recursos passaram a ser transferidos antecipadamente para as empresas de ônibus. Além disso, diferentemente dos antigos vales-transporte de papel da década de 1990, é quase impossível para o trabalhador utilizar o cartão BHBUS como “moeda”, vendendo sua passagem ou trocando por outros serviços. Assim, o que se propõe é simples: em vez de pagar às empresas de ônibus, na forma do cartão, o dinheiro da passagem de seus funcionários, as empresas com sede em BH pagariam esse valor ao fundo municipal de mobilidade urbana. Nenhum custo a mais para ninguém.


A terceira fonte de recursos provém diretamente da revisão do contrato de concessão das empresas de ônibus. Apesar de nós, sociedade civil, não termos acesso à planilha de custos das empresas, salta aos olhos que estas auferem lucros altos, mais altos que a média do capital em outros setores e com a vantagem de terem um monopólio. Sem entrar na discussão da municipalização ou não do transporte (que, é claro, é um debate que precisa ser feito), a mera mudança da forma de contratação do serviço (estabelecendo, por exemplo, valores anuais a serem pagos às empresas) já tornaria o serviço bem mais eficiente e barato.


Por fim, a quarta fonte de recursos provém de um IPTU progressivo, que estabeleceria uma equidade de fato no financiamento do transporte. Paga quem se beneficia do transporte público, e não quem utiliza. E, assim, paga mais quem pode pagar mais, paga menos quem só pode pagar menos, e não paga nada quem não pode pagar. Nesse sentido, bancos e o grande comércio e indústria poderiam entrar com a maior parte dos recursos.


A verdadeira mudança da Tarifa Zero


O que mudaria em Belo Horizonte se o ônibus fosse sem catraca, se fosse completamente gratuito?
A resposta: simplesmente tudo. Toda a lógica de se estar e transitar na cidade mudaria. Grande parte da população, que simplesmente não se conhece (e não conhece a cidade), se encontraria, teria acesso aos equipamentos culturais, ao centro da cidade, a outros e diversos rincões da cidade. Se locomover não seria considerado um suplício e não estaria ligado exclusivamente à lógica do trabalho.


Ter acesso a todos os locais da cidade, de maneira gratuita, mudaria a forma como nos apropriamos do espaço urbano, o modo como enxergamos e participamos de sua construção. Significaria, em última instância, uma nova dimensão de liberdade em nossa sociedade.


O acesso do povo à cidade tem se mostrado, muito mais do que o lucro, o verdadeiro medo de nossas elites governantes. E é essa a maior conquista que o Movimento Passe Livre nos deu: demonstrou que é possível e urgente sonhar e mudar esta cidade.




A multidão das ruas grita por educação. Mas o que esperamos da educação? (Marina Bueno)

sábado, junho 29th, 2013

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Acompanhando os desdobramentos das manifestações no Rio, nas ruas, nas redes sociais, na mídia, em simples conversas com pessoas próximas, fui tomada por sentimentos conflitantes, que expressam bem, a meu ver, o clima geral que tomou conta do país nas últimas semanas. Entre convergências, dissidências e dúvidas que este momento vem produzindo, algo tem me incomodado mais: os discursos em torno da educação. Tomada pelos gritos e cartazes das ruas, a educação se fez presente mesmo quando a pauta aparecia como uma colcha de retalhos de desejos e vontades difusas.

Citando Emma Goldman, um cartaz presente nos protestos virou uma foto amplamente divulgada nas redes sociais: “o elemento mais violento da sociedade é a ignorância”. Junto a ela, discursos que afirmam que o não investimento em educação é algo proposital, uma vez que se pretende manter o povo (leia-se, o pobre) nessa tal ignorância. Isso faz com que políticos corruptos cheguem ao poder (e o país é o que é por estas escolhas mal feitas). Afirmando a necessidade de “mais educação”, tal análise atribui ao ensino escolar a possibilidade de superação dessa ignorância, de forma a criar condições para que todos aprendam a escolher seus governantes.

É necessário lembrar, no entanto, que os frutos que colhemos hoje foram brilhantemente semeados por pelo menos dois séculos de governantes letrados, diplomados, que passaram por instituições de excelência e que historicamente foram apoiados e escolhidos por outras cabeças pensantes como eles. Então convenhamos que não é possível atribuir ao pobre, ao cara sem estudo, a responsabilidade pela situação social atual do país (e nem mesmo aos governantes que não fazem parte dessa elite intelectualizada).

De fato, bom seria que a escola pudesse ser capaz de livrar todos os sujeitos de certa ignorância que se faz presente nas mais sutis formas de violência – a ignorância social, humana e politica – reproduzida quase que naturalmente por discursos baseados naquilo que nem se sabe bem como funciona. Discursos que se apoiam numa concepção que carrega um tom fundamentalmente moralista das relações – seja honesto, não fure fila, dê o lugar para um idoso no ônibus e assim você mudará o país – desconsiderando e por vezes apoiando essa estrutura social que produz individualismos, desigualdades e naturalizações de todas as ordens. Discursos vazios que exigem um determinando “ser” humano, sem a consideração de que alguns “humanos” vivem sem condições mínimas de humanidade.

Se a escola pudesse atender a esta expectativa, todos precisaríamos voltar a ela! Dentro e fora dos contornos da educação, a construção de outros padrões de relações é um processo do qual todos fazemos parte. E não falo de “cada um que faça a sua parte” numa concepção que reforça essa análise moral já tão difundida e naturalizada socialmente. Falo da construção de uma concepção humanizada, que refuta a ideia da naturalização da questão social, como se ela fosse inevitável, fruto do esforço maior de uns e menor de outros.

Ainda na era industrial Marx nos mostrou através de seus estudos que o trabalho nunca é recompensado na medida de seus esforços. O capitalismo financeiro mais tarde nos revelou que “quem mais ganha” nem sempre o faz trabalhando. No capitalismo industrial ou no capitalismo financeiro, sempre se tratou da expropriação pelos poucos da riqueza produzida pelos esforços de muitos. E as condições degradantes de vida da maior parte da população desse país também ensina – àqueles que conseguem minimamente perceber a realidade para além dos discursos cristalizados pelos preconceitos de todos os dias – que se o pobre não se esforçasse sequer estaria aqui pra contar história! O direito à vida na prática é uma luta diária por sobrevivência.

Aqui surge outra questão apontada pelo discurso pró-educação: a desqualificação de outras politicas que compõem o sistema de proteção social brasileiro, sobretudo a assistência social, tomada sempre enquanto um mero assistencialismo – apesar da transferência de renda ser uma das garantias da politica nacional de assistência social, que foi uma conquista histórica, fruto de um processo intenso de luta. Inversões de todas as ordens são postas a circular a respeito dessa política, sobretudo no que diz respeito ao bolsa família: fala-se de um valor que não é real (próximo ou até superior do que o salário mínimo); da produção de um imobilismo para o trabalho com afirmações que apoiam até mesmo as formas de trabalho escravo; da necessidade de uma porta de saída antes mesmo de se pensar nas possibilidades de entrada.

Quero abrir um parêntese para dizer que não se trata aqui de fazer uma oposição à ampliação dos investimentos na área da educação. Ao contrário, como profissional e militante da área acredito que investir na educação é um passo importante para uma mudança que se faz necessária. No entanto, é preciso que duas questões sejam consideradas.

A primeira delas é a necessidade de reconhecermos a indivisibilidade e interdependência dos direitos fundamentais como elementos constitutivos de um sistema de proteção e promoção social. O desrespeito a um deles aponta para violação de seu conjunto. Neste sentido, não cabe atribuirmos uma maior ou menor importância às diferentes áreas da política pública, uma vez que cabe à ela garantir condições dignas de vida à população, através de um conjunto de medidas relacionadas. Esta concepção está na base do entendimento de que a política de saúde, para dar um exemplo, não pode ser pensada de forma isolada, uma vez que é direta e indiretamente influenciada por outras condições que a ela se relacionam: trabalho, saneamento, habitação, etc.

A segunda questão que também se vincula a anterior, é que o reforço desse discurso messiânico que atribui à educação uma função salvacionista, além de se equivocar ao desqualificar a necessidade de outros mecanismos para além do ensino formal, não problematiza seus elementos mais estruturais: currículo conteudista; disciplinas que pouco se comunicam entre si; priorização de uma “inteligência prática” em detrimento do pensamento crítico; politica fechada em si, com pouca trajetória no campo da intersetorialidade; frágeis ou quase inexistentes mecanismos de participação direta; rotinas pautadas numa hierarquia autoritária e homogeneização de comportamentos.

A escola que temos (e não falo apenas da pública), é espelho da sociedade que temos: não possibilita a construção de novos padrões de relações sociais, materiais e politicas, ao contrário, reforça o estado presente das coisas. Em outros termos, investimentos financeiros na educação são mais do que necessários, mas sozinhos serão incapazes de promover a mudança que as mais de 100.000 pessoas que se manifestavam nas ruas do Rio imprimiram em seus gritos e bandeiras – seja em relação a escola ou ao que se espera dela!




A direita também disputa ruas e redes (Valter Pomar)

sábado, junho 29th, 2013

esquerda

Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.


Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.


A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas” o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.


Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.


Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.
Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.
Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.


As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.


Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que os autoproclamados “movimentos sociais”, assim como os partidos “populares”, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.


Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.
Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?


Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou “fascistas”. Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.
As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.


A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento “estranho” da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.


A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.
As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.
Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.


Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.


Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.
O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acredita-se que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.


Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa elietoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar.


A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com o nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.


O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações são da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui o uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.


Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, cria-se condições melhores para que possamos disputá-lo.
Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.


Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.
É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.
Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.


Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.


A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.


Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.


O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos conservadores que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidrelétricas etc.


Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.
Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos paramilitares da direita.


É preciso diferenciar as manifestações de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social.
Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.
Quanto a batalha da comunicação, novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contra-atacar a direitas nas redes sociais; é preciso enfrentar o que dizem os monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já.


Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da
esquerda.


Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.
Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte: “o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita”.


Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.




Tudo como nunca! (Luís Carlos Alencar)

sábado, junho 29th, 2013

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No Rio, 22 de Junho. O que se passa depois de dois dias do Levante Popular da Presidente Vargas? Alguns dias depois da rebelião popular da ALERJ? O silêncio que antecede novas expressões retumbantes de política! Dá para sentir no ar o cheiro excitante do inominável: a ambiência é a da possibilidade total!


As mobilizações são como um território condensado: tempo e espaço se intensificam nos arredores do trajeto. Tudo está eclodindo e se reinventando em menos de uma semana. Décadas de processos sociais estão sendo vivenciados em dias: conflitos contra as forças de repressão do estado, aprendizados durante a revolta, resistência que se organiza e se refaz, sobreposição de análises de conjuntura, riscos de vida e desejos destrutivos edificantes, embates com a extrema-direita, partidos ou não partidos, organização ou espontaneísmo, aliados ou inimigos, estratégias, princípios ou método, puxar manifestações só da esquerda ou disputar corações e mentes, fechar em poucas pautas ou potencializar a hidra, identidade ou fluxo, avançar ou recuar?


Na territorialização dos conflitos, passaram a estar presentes (e intensificadas) todas as assimetrias sociais e muitos dos seus personagens – a massa (a cheirosa e a fedida), o racismo e o antirracismo, o fascismo (do estado e da direita organizada) e o antifascismo (das esquerdas que se articulam). Como não haver conflitos? Espera-se fazer movimentação de massa com 2 milhões de pessoas de esquerdas? Se nem entre nós podemos considerar que historicamente houve paz… A nós anarquistas: não era por isso que esperávamos? A cotidianização da política? A possibilidade real de disputarmos ideias, experiências, agires políticos?


Quem disser que está fora disso, não se espante, simplesmente é a assunção da incapacidade de agir nos novos cenários. O programa de revolução foi à bancarrota. Algumas estruturas de organização tem mesmo que sucumbir, para se reinventarem, tem que fazer a autocrítica e possibilitar maior participação de seus membros, mudar radicalmente a sua dinâmica e a de seus processos deliberativos. Não é só a democracia burguesa, nem o estado que está em xeque: as nossas organizações também estão! Em última instância: nós mesmos não podemos ser os mesmos.


O território das mobilizações está se ampliando: para além das ruas, pelas redes virtuais (não mais como chamados, mas como disputa de sentidos, embates pelos significados de todos os processos), pelas reuniões, plenárias, assembleias populares…


Precisamos de mais. E para ampliar ainda mais esse território,
precisamos investir na criatividade, nossa principal arma. O momento é propício para invenções – do mundo, das pessoas e da ação! Temos que manter o fluxo se espalhando pela cidade, pelo país, para se tornar afluente do mundo.


O que determinará a força da correnteza é estarmos todos em curso. Manter a criação (que também opera pela destruição) para além de passeatas. Estas já em si deixaram de ser a modorrenta marcha dos mesmos, com os mesmos, para os mesmos e se afirmam como a ação direta e o protesto social como proposta democrática de participação.
Temos que avançar! É um terreno novo, que ninguém sabe ainda como manejar, portanto espaço de liberdade em disputa. Temos que explorar justamente isso: a disputa pela liberdade de existirem espaços livres.
Vamos criar novos eventos, mas também constituir novas possibilidades de manifestações mais perenes: assembleias no interior das manifestações, assembleias populares de bairros
como manifestação em si, teatros e perfomances de terrorismo poético, festividades de combate, ocupas virais, façamos o inusitado como enfrentamento e proposição.


CRIEMOS! (pero sin perder la revuelta)




O anjo exterminador: o princípio do fim ou um novo começo (Cunca Bocaiúva)

sábado, junho 29th, 2013

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A banalidade do mal parece estar tentando tragar a emergência do novo na chave dos fenômenos extremos no Brasil. No século XX tivemos a era dos extremos plena de incertezas, no século XXI temos a era das incertezas plena de extremos. O final do filme o Anjo Exterminador sugeria um impasse tendendo ao apocalíptico, um final que não acaba. De todo modo no decifra ou devoro-te em curso o Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro estão soltos, no Brasil de Euclydes e Glauber sempre se trava uma guerra do fim do mundo e Pindorama entra em transe.


As conjunturas ultrapassam e atropelam os sujeitos, quando novas e velhas forças se movem e questionam práticas, instituições e governos, mesmo sem saber para onde ir e o que propor. Quando se convocam os “Estados Gerais”, quando se sucedem e se entrelaçam as muitas reações e movimentações, quando se formam muitas as zonas de sombra e opacidade. Repentinamente as figuras por trás do palco emergem na cena. Os resíduos e os excessos dos modos de produção e das relações sociais abrem espaços sem que deixem de aparecer vários vazios, clarões e muita fumaça. Em horas como essas o fantasma autoritário e a imagem apocalíptica se mostram, quando cai a falsa imagem que recobria o deserto do real.


Na véspera dos eventos e jornadas de junho o ovo da serpente estava se abrindo com as forças retrógradas em temas de direitos humanos, sexuais e reprodutivos. A violência no campo e na disputa sócio-espacial retornava junto com o desejo de criminalização dos jovens. Mas o movimento juvenil contra os aumentos de tarifas impediu o nascimento prematuro da velha criatura. Uma pergunta se dá em meio a um quadro de sinais contraditórios: será que a geração XXI começa a escapar da razão cínica do mundo privatizado e segregado, ou estamos diante de um salto quântico na tentativa de liquidar a reemergência da política (apesar das potencialidades das chamadas redes sociais) pela via de novos movimentos de direita? A explosão da imagem (terror e medo) existe como uma combinação entre fenômenos de psicologia de grupo/massas e uma sedução pela barbárie parece superar o acontecimento. As câmeras ficam esperando os momentos de incêndio, todos esperam o momento em que a “plebe ruge” e as forças da polícia avançam com seus novos aparatos e instrumentos de contenção não letal. Os bando de rostos cobertos se chocam contra seres com armaduras da nova era medieval. Mas todos sabem que a violência e os resíduos mórbidos explodiram porque já estavam ali (com a banalização da violência e sua fabricação como indústria que se articula com a cultura do medo e a ideologia da segurança)? O evento e suas imagens assustam se relidos pelos incêndios e depredações, numa linha de entendimento que reinterpreta e transforma a desordem em inverso simétrico da ordem. Ouço muitas perguntas sobre a hipótese que o fascismo social reforce o apoio para a exceção, entendida como um antídoto para a falência dos poderes e para a desordem.


Muitos perguntam onde está a coordenação das lutas, onde estão as lideranças, sem tentar se aproximar das novas dinâmicas horizontais? Se m perguntar qual a razão de se ouvir tão poucas vezes as vozes dos movimentos que aspiram por políticas de acesso aos direitos como o MPL? Será que quando militantes de partidos são atacados por trogloditas neonazistas, quando as bandeiras políticas e ideológicas são vistas como problemas, não estamos vendo se preparar um cenário para uma ruptura institucional? Na distância que se colocam as lentes e na forma técnica de ler as imagens pela proximidade que distorce, os governantes desaparecem encolhidos e recolhidos em seus palácios e refúgios. Mesmo quando cedem na redução das tarifas as redes não são ouvidas.


Os porta-vozes da polícia se transformam no discurso que sopra na mídia elogiando a despolitização dos jovens e manifestantes, mas nas ruas morde esperando um tempo para que seja comprovada a provocação tantas vezes repetida pelos mais diversos tipos de atores que explodem depois de um tempo em que nenhum desdobramento ou demanda parece ter se materializado. O processo não é diferente de quando as torcidas vão aos estádios e para as ruas, não é diferente das explosões derivadas de intervenções e desocupações forçadas. O quadro de segregação sócio-espacial esta contaminado lósos invisíveis e intocáveis que povoam a nossa cena urbana, com a comprovada ausência de políticas para milhares que estão no limbo social e sob o efeito da enorme possibilidade com a experiência da violência e do arbítrio jurídico e carcerário. Nesses dias se disse que o número de jovens que desistiram de procurar
emprego é próximo dos 16%, mas bastam 1% dos jovens para ocupar os vazios, para uma pequena explosão de barbárie (face ao quadro de um país como a França).


O quadro explosivo gera uma fantasia, um tipo de gozo imediato que promove a reprodução da ação de explosão com seu efeito imagético, que permite a repetição do discurso contra a os radicais e baderneiros. Por isso, temos um quadro de temor cuja amplificação indica o reforço da cultura do medo e do terror que se manifesta em todo o processo histórico de massas.


O que se pode prever de maneira quase certeira é que a manifestação pacífica tende a virar conflito violento se for acompanhada de esvaziamento ideológico e provocação política contra a ideia de formar um novo sentido para a ideia que até agora correspondia ao partido político formal. A negação do caráter posicionado e da existência de coletivos significativos confunde o bom valor da horizontalidade e da autonomia com a fragmentação e a anomia. Numa dinâmica de repetição que levará os atores ao grande medo ou a uma fadiga por falta de horizonte, que exige consultas, assembleias e processos de construção de plataformas. A velocidade e o ritmo da imagem-evento instantânea acaba colocando no ar o nosso fascínio primitivo pelo fogo, que se volta contra as edificações e a arquitetura que se supõe representar o poder, mesmo que ele se exerça em outro lugar na esfera do capital e do Império.


Muitos perguntam se vamos ter grupos extremistas e grupos criminosos se movendo e dando as cartas nas ruas, ou esta tendência é uma linha menor de força do que normalmente já vemos nas grandes cidades, onde quase diariamente vemos arrastões, incêndios de ônibus, etc. Qual será o cenário das cidades? Vamos ter a polícia violenta e a experiência de controle e exceção experimentando novas armas ou uma política cidadã? O Congresso vai abrir as portas, os prefeitos e governadores vão reconhecer o movimento ou vão tentar explorar a fragilidade e o isolamento de Dilma? A Presidenta já acenou de maneira pálida com o reconhecimento do movimento, mas será que ela não precisa de novos interlocutores?


Hoje falo metaforicamente sobre a imagem do Anjo Exterminador, posto que a ficção nos ensina muito sobre a realidade amplificada pelo medo. A questão do potencial simbólico se coloca na disputa entre o acontecimento e sua imagem. Será que podemos voltar aos fundamentos constituintes e defender o artigo 6 da Constituição como programa mínimo que nasce das ruas para colocar a questão do controle social, dos gastos e das políticas públicas? Ou será que vamos para uma reforma elitista da política que busque aprofundar a democracia autoritária, tutelada e restrita fazendo como no passado o casamento da luta contra a corrupção com a concentração de renda e o poder golpista através do regime de exceção? Será que vamos marchar incertos em um processo prolongado de crise que acentuará a bifurcação entre autoritarismo e democracia e, terá uma conclusão que pode ir do retrocesso até uma democracia ampliada? Será que um novo processo constituinte poderá resolver e atualizar os desafios de uma efetiva democratização pós-neoliberal?


A crise do neoliberalismo que destruiu as políticas e direitos de bem-estar social não tem encontrado uma esquerda capaz de formular uma agenda alternativa para o século XXI. A direita não possui um programa que possa responder além do discurso da antipolítica e da criminalização dos outros, com seus modelos carcerários e seus campos de contenção de imigrantes. Mas os muros não podem conter a contradição entre globalização de mercadorias e barreiras para as pessoas, entre turismo e migrações, entre comércio e guerra.


O ciclo da autonomia relativa da política e da centro-esquerda começa a se fechar na América Latina, não basta insistir em governar melhor a economia nacional e ampliar o mercado de massas. A força alienadora e voraz do capital financeiro globalizado cria a dívida impagável e especula com a moeda e a terra. Na esfera simbólica, na segurança subjetiva e no desejo das pessoas a imaginação humana precisa do reconhecimento. A dimensão estética ainda prevalece sobre a dinâmica ética. Os sentidos e os valores para ordenar a dimensão simbólica se colocam como tema urgente para um cenário de fenômenos extremos que exigem um esforço de coordenação. Precisamos considerar a necessidade de auto-organização das forças sociais autônomas sem desconsiderar uma posição de mediação, negociação e escuta capaz de fazer um desenho de novos possíveis, de novas alianças com base na fonte de poder constituinte que se reabre com a demanda por direitos econômicos, sociais e culturais.
Não fossem limitações pessoais e subjetivas momentâneas eu iria para a rua. A “a maior arquibancada do Brasil” pode encontrar força no texto da Constituição. Que melhor momento poderia haver para bradar com ela na mão em defesa do artigo 6? Que melhor momento para a imediata ativação de alguns dos conselhos e o esforço de implementação das decisões das conferências políticas públicas? Para o Rio poderia ser dada uma prioridade para um novo mix de transporte no âmbito urbano-metropolitano; para a implementação de políticas de direitos da juventude que podem ser sob formas flexíveis de “serviço civil voluntário”; para a retomada da política de pontos culturais e de Casas Brasil; para a articulação e implementação das prioridades combinadas do PAC de favelas com o Morar Carioca.


O avanço da democracia nas cidades brasileiras depende da escuta da voz, da participação e do controle dos seus habitantes. Já ficou clara a exigência de redefinição e modificação de prioridades nos programas de governo das cidades, de modo a poder evitar a mega exploração. O importante é barrar a direção dada ao processo de especulação usando as políticas urbanas e os projetos em curso para os grandes eventos. Mesmo a China teve que rever uma parte significativa de suas políticas para atender a uma parte das demandas do protesto social e, frente a uma crítica moral sobre os rumos dos gastos com grandes obras. Uma meta geral para a pluralidade de atores sociais é garantir mais acordos e melhores políticas, de modo a que se possa fazer um pacto de acesso e redefinição do direito à cidade.


Escrevo essa nota diante de processos extremos para dialogar com os poucos que possa alcançar no ciberespaço. Immanuel Wallerstein deu indicações uteis para os momentos da crise do sistema mundo: 1)Que o processo é longo (o “outono”); 2) Que o quadro se bifurca entre a via capitalista de Davos e a via anticapitalista de Porto Alegre; 3) Que devemos apostar no avanço na demanda por direitos; 4) Que segundo a teoria do caos o fato da brutal incerteza quanto aos resultados só pode ser contrabalançado pela certeza de que faz diferença o que fizermos e como agiremos. Nossa ação interfere nos desdobramentos e resultados.


O grande evento para o mundo é a democracia que avança no Brasil. Como diria Milton Santos, precisamos de um novo pacto cívico-político cujas bases estão esboçadas na Constituição. O manto autoritário e oligárquico precisa ser afastado em nome da justiça social e ambiental. Sendo que, o povo organizado constrói a democracia. Sei que esse otimismo e desejo parece estranho, face ao quadro fragmentado, crítico, caótico e híbrido da disputa e das escaramuças em nossas cidades.


A bandeira nacional só tem significação quando os caminhos que ela indica tem sua fonte no povo se afirma pela letra da Constituição de 1988. Esperando que não tenhamos de nos desgastar com o gozo de forma estética que apela para um maniqueísmo imagético, sem deixar de sugerir uma agenda cujas bases éticas sustentam a República Democrática. Para o que cabe fortalecer o Estado social e um programa de economia mista de novo tipo. Cabe ampliar a forma de governar, onde a democracia representativa e a democracia direta possam interagir com novas esferas em rede cibernética com projeção no espaço, construindo o direito à cidade.




Enxame do Comum (Alexandre do Nascimento)

sábado, junho 29th, 2013

ENXAME

Eis que surge um monstro emergente,
um movimento que cresce potente,
intolerante aos governantes que disputam
o dinheiro das empresas de rapina,
indignados contra filhos da puta
de terno, de toga e de farda,
contra a armada estupidez truculenta
que odeia negro, pobre
e quem não paga propina.
É levante dos que não mais aguentam
a esnobe podridão,
a suja negociação,
o racismo da remoção,
o choque de segregação,
a negação de direitos
e tantos outros desrespeitos,
como o aval pra matar pretos
concedido ao policial.
É o levante contra a política
a serviço do Capital.
Chegou a hora da crítica
ser desobedientes com cede,
ser fome de democracia,
fazer-se antropofagia,
constituir-se em redes.
É o Comum pelo fim dessa farsa,
Multidão num enxame de massas,
ocupando mídias, ruas e praças
num grito de arrebentar paredes.

COMUM

E o Comum, o que é?
É um conceito em aberto,
É algo ainda incerto,
monstro em constituição,
confluência de Axés.
Mas o amor é seu ponto de partida,
e seu preceito a multiplicidade,
pretinhosidades em produção de direitos
e de expressões de humanidade e vida.
No Comum as diferenças
não são indiferentes,
o que importa no Comum é gentes
e o ser pleno é a crença,
o Comum é relação.
E relação em outra estética,
é quilombismo como ética,
é expressão de um outro mundo,
não é representação,
é democraciocupação.
No Comum somos Ubuntu.




O retorno do poder constituinte (Ricardo Gomes)

sábado, junho 29th, 2013

pancho villa revolucion mexico

A gestão neoliberal contemporânea articula duas formas majoritárias de poder. Por um lado, a gestão da sociedade feita pelas polícias, que se desdobra na transformação constante das pessoas em policiais. Todos policiando todos, numa misto de paranoia violenta e paternalismo emburrecedor. De outro lado, a gestão cool, limpinha, racional. Esta, aparentemente está acima da outra, mas uma implica e deseja a outra. Há entre elas uma troca e sustentação necessárias, que marcam todos os corpos. Às vezes uma das duas, por erro de avaliação ou por uma estratégia elaborada, tenta tomar a frente da outra.


Foi o que aconteceu ontem, principalmente em São Paulo, onde a vertente policial excedeu sua própria legitimidade em ser a violência excessiva dita “necessária”. Esta legitimidade não vem do povo, não emana do desejo da sociedade, e sim dos poderes constituídos, uma legitimidade desde o começo pura violência. Fez isso quando violentou membros notórios dos poderes constituídos: a imprensa. Mas não nos enganemos, mesmo que a imprensa conservadora fique inicialmente contra a PM, isto será passageiro, será um pequeno ajuste para que a violência funcional da PM possa ser mais uma vez apontada para o alvo de sempre, a população e seus desejos insurgentes.


A manifestação de ontem é fruto de um movimento relativamente longo. Outras já haviam sido feitas pelo mesmo movimento, inclusive uma no início do ano, quando conseguiu barrar o aumento da passagem. Nesta, porém, ficou claro que não se trata de uma manifestação com uma demanda única, não é “só” o aumento do preço da passagem. Rapidamente ela tomou a forma de uma revolta popular pela retomada da cidade, negando a gestão do tipo “cidade-empresa” e afirmando outra forma de viver coletivamente.
Nesse sentido, dentro dos movimentos, não pode prevalecer a obscuridade fetichista e falsa de certa horizontalidade imposta. Há quem diga ser horizontal e ficar criando regra do que pode ou não pode. Certas coisas ou são decididas pela multidão ou ninguém decide e seguimos o ritmo da forma mais proveitosa. Por exemplo, na caso das bandeiras de partido. Se nenhum partido tentar tiranizar os protestos não há pq negar o uso de bandeiras por quem está colaborando.


A violência constituinte exercida pela população é uma das bases da política, anterior a toda e qualquer formalização; é ela quem permite avanços e/ou retrocessos. Quando os poderes constituídos perdem isso de vista, ela, a violência, sempre latente nas democracias neoliberais, aparece, tanto como lembrança do processo político constituinte, quanto como forma atual e concreta para renovar este processo, fazer ele funcionar mais uma vez. Às vezes não há outra forma, quando a participação popular é vetada alguma faísca deve ser criada, algum caminho que possibilite mais uma vez a que cidade seja das pessoas.


Por fim, deve-se levar em consideração que possivelmente as manifestações sejam frutos da história recente, das articulações progressistas, de certos avanços que atravessaram o estado em um passado próximo, e das respostas e retrocessos em relação aos avanços — numa espécie de amadurecimento político, onde estas manifestações estão inseridas, contra as novas formas de exploração da vida, e, claro, segundo o desejo de querer mais, de responder criativamente às novas formas de exploração, com outros direitos, atrás de outras muitas conquistas.







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