Sobre o Laboratório de Cartografias Insurgentes / Geo Abreu

Cartografia: carta + -o- + -grafia, proveniente por inflexão do francês. cartographie (1832 sob a f. chartographie) ‘id.’, (1838 sob a forma cartographie) ‘id.’, de carte (t. de geografia) + -graphie;

Insurgente: do latim insúrgens,éntis, particípio presente de insurgère ‘levantar-se sobre, elevar-se’;

Enquanto o verbete ‘cartografia’ está cada dia mais em voga, a palavra ‘insurgência’, tão distante do uso coloquial, parece ter sido redescoberta. No Rio de Janeiro, a emergência de uma nova forma de governança global das cidades aportou massacrante, passando por remoções forçadas, reconfiguração do espaço da cidade, e nenhuma consulta popular a respeito dos novos fluxos de pessoas, valores e idéias. Esta é apenas uma mostra do que será o legado dos chamados megaeventos (copa 2014, olimpíadas 2016) à cidade maravilhosa.

Em setembro de 2011 o Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, abrigou um encontro para investigação de espaços de ruptura e desestabilização de significados. A idéia sugerida foi a da reunião de saberes em torno da criação de novos mapas críticos+afetivos que dessem conta não apenas das mudanças em curso, mas conseguissem expressar a potência verdadeiramente criativa da cidade, aquela sob a qual repousa seu fazer diário: a Megadinâmica dos Pobres.

Estratégias do desejo

Pesquisadores, participantes de movimentos sociais, a[r]tivistas, squatters, produtores culturais, comunicadores, trabalhadores autônomos, precários & simpatizantes formaram um grupo bastante heterogêneo cujas propostas e ações tiveram lugar em uma semana de pré-laboratório e dois dias de encontro intensivo.

Sob o guarda-chuva do coletivo IP://, representantes de coletivos como Acidade, Antena Mutante, Mídia Tática, Rio 40 Caos, Hackitetura e Universidade Nômade proporcionaram a construção de um espaço de convergência para a aproximação das propostas de cartografia com as comunidades e organizações que tratam do tema das remoções, assim como a aproximação das próprias organizações – a troca de expectativas, sonhos, desejos.

O chamado pré-lab contou com atividades&oficinas tão variadas quanto a composição do encontro: cartografia com pipas; redes sociais livres; comida viva; uma deriva pela região do futuro ‘porto-maravilha’; e bate-papos que se estendiam noite a fora, cobrindo vasto perímetro e saindo da Rua Jogo da Bola, passando pela Pedra do Sal, Morro da Providência, Vila Autódromo, Quilombo do Campinho, Tabajaras, Lapa-Central, Cali, Gijón, Belém, Santarém, entre outros caminhos.

No sábado, a apresentação de ferramentas como o FIC, englobando os relatos de pessoas que já passaram pela experiência coletiva da criação de alguns dos mapas que compõem o projeto, e o papo via web com os argentinos do Iconoclasistas, foram os pontos altos do primeiro dia, lotando a casa.

O domingo abriu com o mesmo sol generoso do dia anterior, e assim, foi publicamente lançado o Olimpi(c)leaks, site que copila documentos oficiais, linkes, imagens e vídeos sobre o atual processo de remoções, com especial atenção ao caso carioca. A ideia é transformá-lo num espaço de divulgação e denúncia, mas também de contraposição de discursos, apresentando a situação de um lugar que a mídia corporativa não quer alcançar. No mais, o dia correu como previsto, com a formação de três grupos de trabalho cuja intenção seria ultrapassar o espaço-tempo do laboratório, amadurecendo as investigações: um grupo se ateve a dinâmica de transformação da Zona Portuária; um segundo focalizou as energias nas lutas em curso em duas comunidades – Vila Autódromo e Estradinha; e um terceiro propôs pensar a criação iconográfica mais adequada para composição dos mapas.

Para fechar o encontro, o grupo Anarcofunk trouxe a vitalidade de suas letras e ritmo, selando assim a congregação geral e a criação de nós para desenvolvimento dos caminhos a seguir.

Occupy Laboratório

Mesmo com a força do encontro promovido pelo Lab de Cartografias, a composição e os espaços de investigação mantiveram-se restritos por questões demasiado humanas. No entanto, a despeito desse pequeno ponto de convergência fluminense, a conjuntura global confluiu para a criação de um espaço de discussões riquíssimo: o Movimento Occcupy, fruto da ocupação de praças por movimentos multitudinários, deu a tônica ao debate político durante o ano de 2011. Neste contexto , o Rio de Janeiro viu florescer a Ocupação da Cinelândia, cujo caráter único e ao mesmo tempo múltiplo, intrigou e atraiu um grande número de pessoas e opiniões. A ocupação permanente do espaço da praça chegou a ter mais de 100 barracas, abrigando estudantes, discussões, moradores de rua, leituras, aulas, atividades e assembléias públicas pensando a construção de novos espaços de representatividade e participação política. O Laboratório de Cartografias Insurgentes esteve presente e acompanhou de perto a autoformação deste monstro. A carne da multidão mostrando com toda a potência que “embaixo da pele, o corpo é uma máquina a ferver”.

O também chamado Ocupario durou pouco mais de um mês no tempo-do-capital, mas ainda reverbera no tempo-do-desejo e em iniciativas como o Ocupa Teoria, grupo surgido na acampada e que tem organizado ciclos de discussões horizontais sobre temas como propriedade, identidade, representatividade e variações sobre o conceito de comum, intentando a ocupação temporária das praças a cada final de ciclo, levando as discussões até as pessoas e levando as pessoas até a discussão.

Em dezessete de dezembro passado comemorou-se com intensa programação – mesmo sem as barracas, removidas duas semanas antes – um ano que na cidade de Sidi Bouzid, Tunísia, Tarek Bin Tayeb Bouazizi, mais conhecido como Mohamed Bouazizi, um jovem ambulante de 27 anos, saiu para o trabalho e combinou com seu tio e padrasto que fosse buscá-lo às 11h para irem juntos rezar. No decorrer da manhã Mohamed ficou furioso porque confiscaram sua mercadoria. Ele foi 3 vezes a prefeitura, reclamou, chorou, mas ninguém o ouviu, ninguém quis ajudá-lo. Ele não sabia o que fazer. A única coisa que ele queria era que lhe devolvessem as frutas, mas Fayda Hamdi, a fiscal que o atendeu disse que as tinha dado a uma entidade de caridade e não podia fazer nada por ele. Dizem que foi nesse momento que ela lhe deu um tapa na cara. Em frente à prefeitura, Mohamed subiu no seu carro de frutas, com um líquido na mão, provavelmente gasolina, derramou-o na cabeça e ateou fogo. Um amigo tentou contê-lo antes, mas ele dizia: “Não se envolva. Respeite-me.”

Depois desse episódio as praças da Tunísia foram ocupadas e logo depois as praças de todo o mundo também. É com essa energia que um chamado global está sendo feito para a reocupação das praças em doze de maio. Que a globalidade das lutas siga se corporificando. E continue, e continue…

“A plataforma Web FIC – Fronteiras Imaginárias Culturais – visa ser uma base de dados de conteúdos agrupados por mapas, retratando aspectos culturais de diferentes comunidades e coletivos, através de registro multimídia. Os mapas cognitivos, também entendidos como mapas mentais, mapa êmicos, psicogeografia ou cartografia social e imaginativa, podem ser apreendidos como representações gráficas de conjuntos de representações discursivas, contudo acreditamos que os mapas cognitivos extrapolam o campo da representação e abrem o horizonte das possibilidades, criam uma forma de reapreender o mundo segundo o registro da criação.” Fonte: http://fronteirasimaginarias.org

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