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15M, multidão que se utiliza de máscaras para ser uma > Raúl Sánchez Cedillo

quinta-feira, agosto 4th, 2011
15M, multidão que se utiliza de máscaras para ser uma
Raúl Sánchez Cedillo, Universidad Nómada
Tradução de Bruno Tarin
Mais de um mês após a erupção de 15 de maio, a plena realidade de um movimento revolucionário sem precedentes e imprevisível não deixa de provocar admiração e entusiasmo àqueles que tenham apenas alguns minutos para pensar sobre o que está acontecendo na Espanha.
Esta erupção não está sendo uma jacquerie (revolta) contra as políticas de austeridade econômica, e também não é um movimento pelos direitos civis e de desobediência que podemos encaixar em um esquema (liberal) clássico. O movimento estourou e tem aparecido como um movimento de democratização radical e ao mesmo tempo de radicalização democrática. “Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos. Democracia de verdade agora! “. Não só em suas críticas e propostas para a reforma radical do sistema representativo de partidos, mas também em seus modos de discussão e deliberação nas assembleias e comissões, expressa intensamente a força e os problemas das instâncias de democracia direta de massas. Nos seus modos e repertórios de ação coletiva, os da desobediência civil de massa pacífica e não testemunhal, os da resistência e proteção mútua dos corpos contra a violência policial e os do desafio e assédio aos parlamentos, o 15M se afirma como um movimento de radicalização democrática, o mais poderoso e desconhecido da história constitucional espanhola.
O afeto da indignação não é suficiente para dar conta da extensão, intensidade e persistência do 15M, mesmo que explique a natureza tumultuosa de seu surgimento. Na minha opinião, os aspectos mais interessantes (e felizmente inquietantes) tem a ver com o fato de que o movimento vem se firmando como uma rede de redes, de singularidades, que opera em vários níveis da realidade (das praças às  redes sociais, passando pela mídia corporativa) e que é capaz de autoregular-se em cada novo ato de seu processo e de seu antagonismo.
Parece como si o 15M fosse plenamente consciente de que não existe um fora viável do sistema de regulação constitucional dos antagonismos (e de sua lógica subjacente de amigo-inimigo) e de que precisa de máscaras que evitem qualquer tentativa de identificação e divisão, desviando a luz dos focos policiais e midiáticos.
É extraordinário ver agora como o movimento foi capaz de organizar em rede sua erupção, o 15M, de realizar uma mutação sem se destruir e em tempo útil em acampamentos e assembleias nas praças,  para assembleias de bairro nas grandes cidades, de organizar ações distribuídas e inesperadas contra a execução de despejos pelas  hipotecas não pagas e de voltar a inundar as ruas contra o Pacto do euro de 19 de junho. E como converteu até agora em fonte de legitimidade e de nova indignação todas as tentativas de neutralização e criminalização, sem perder a multiplicidade, complexidade e radicalidade e, acima de tudo, unidade de esforço e aplicação sem uma unidade de comando.
Mas talvez o mais surpreendente é que o 15M está fazendo tudo isso sem a participação de qualquer estrutura pré-existente de protestos políticos e sindicais. Cuidadosamente mantidas a parte, são incentivadas a participar dissolvendo-se e metamorfoseando-se no movimento.
Esta natureza de sistema-rede aberto, é na minha opinião a chave do carácter constituinte do 15M. O problema do auto-governo de uma multidão, ou seja, o da combinação da diversidade do movimento e sua capacidade para se unir na implementação oportuna da força, nas formas de decisão por uma espécie de “consenso emergente”, na capacidade de decidir na abundância de tons e opiniões, fazem deste movimento uma ameaça formidável e duradoura. Hoje, começa a amadurecer o projeto de concerto polifônico de instituições analógicas e digitais capazes de responsabilizarem-se de produzir o comum. O principal atrativo do 15M diante das tentações recorrentes de “solução política”, eleitoral ou não, vai na minha opinião na ênfase na produção de instituições materialmente capazes de se reapropriar e de gerir a produção social que ocorre nas metrópoles (cidades-fábrica).
Nem é necessário falar que como na Grécia ou na Tunísia, Marrocos ou Egito, o 15M dificilmente se manterá vivo ou será diminuído a um destino trágico se não tiver intercessores, relevos, parceiros em outras áreas e cidades Euro-Mediterrânicas. A inteligência indignada distribuída está nas melhores condições para identificar os adversários principais e secundários e de evitar os atalhos do voluntarismo e do desespero.

exposito 0113

Movimento 15M na Praça do Sol, Madrid

Foto: Marcelo Expósito (publicado sob licença CC 3.0)

Raúl Sánchez Cedillo, Universidad Nómada (Tradução de Bruno Tarin)

Mais de um mês após a erupção de 15 de maio, a plena realidade de um movimento revolucionário sem precedentes e imprevisível não deixa de provocar admiração e entusiasmo àqueles que tenham apenas alguns minutos para pensar sobre o que está acontecendo na Espanha.

Esta erupção não está sendo uma jacquerie (revolta) contra as políticas de austeridade econômica, e também não é um movimento pelos direitos civis e de desobediência que podemos encaixar em um esquema (liberal) clássico. O movimento estourou e tem aparecido como um movimento de democratização radical e ao mesmo tempo de radicalização democrática. “Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos. Democracia de verdade agora! “. Não só em suas críticas e propostas para a reforma radical do sistema representativo de partidos, mas também em seus modos de discussão e deliberação nas assembleias e comissões, expressa intensamente a força e os problemas das instâncias de democracia direta de massas. Nos seus modos e repertórios de ação coletiva, os da desobediência civil de massa pacífica e não testemunhal, os da resistência e proteção mútua dos corpos contra a violência policial e os do desafio e assédio aos parlamentos, o 15M se afirma como um movimento de radicalização democrática, o mais poderoso e desconhecido da história constitucional espanhola.

O afeto da indignação não é suficiente para dar conta da extensão, intensidade e persistência do 15M, mesmo que explique a natureza tumultuosa de seu surgimento. Na minha opinião, os aspectos mais interessantes (e felizmente inquietantes) tem a ver com o fato de que o movimento vem se firmando como uma rede de redes, de singularidades, que opera em vários níveis da realidade (das praças às  redes sociais, passando pela mídia corporativa) e que é capaz de autoregular-se em cada novo ato de seu processo e de seu antagonismo.

Parece como si o 15M fosse plenamente consciente de que não existe um fora viável do sistema de regulação constitucional dos antagonismos (e de sua lógica subjacente de amigo-inimigo) e de que precisa de máscaras que evitem qualquer tentativa de identificação e divisão, desviando a luz dos focos policiais e midiáticos.

É extraordinário ver agora como o movimento foi capaz de organizar em rede sua erupção, o 15M, de realizar uma mutação sem se destruir e em tempo útil em acampamentos e assembleias nas praças,  para assembleias de bairro nas grandes cidades, de organizar ações distribuídas e inesperadas contra a execução de despejos pelas  hipotecas não pagas e de voltar a inundar as ruas contra o Pacto do euro de 19 de junho. E como converteu até agora em fonte de legitimidade e de nova indignação todas as tentativas de neutralização e criminalização, sem perder a multiplicidade, complexidade e radicalidade e, acima de tudo, unidade de esforço e aplicação sem uma unidade de comando.

Mas talvez o mais surpreendente é que o 15M está fazendo tudo isso sem a participação de qualquer estrutura pré-existente de protestos políticos e sindicais. Cuidadosamente mantidas a parte, são incentivadas a participar dissolvendo-se e metamorfoseando-se no movimento.

Esta natureza de sistema-rede aberto, é na minha opinião a chave do carácter constituinte do 15M. O problema do auto-governo de uma multidão, ou seja, o da combinação da diversidade do movimento e sua capacidade para se unir na implementação oportuna da força, nas formas de decisão por uma espécie de “consenso emergente”, na capacidade de decidir na abundância de tons e opiniões, fazem deste movimento uma ameaça formidável e duradoura. Hoje, começa a amadurecer o projeto de concerto polifônico de instituições analógicas e digitais capazes de responsabilizarem-se de produzir o comum. O principal atrativo do 15M diante das tentações recorrentes de “solução política”, eleitoral ou não, vai na minha opinião na ênfase na produção de instituições materialmente capazes de se reapropriar e de gerir a produção social que ocorre nas metrópoles (cidades-fábrica).

Nem é necessário falar que como na Grécia ou na Tunísia, Marrocos ou Egito, o 15M dificilmente se manterá vivo ou será diminuído a um destino trágico se não tiver intercessores, relevos, parceiros em outras áreas e cidades Euro-Mediterrânicas. A inteligência indignada distribuída está nas melhores condições para identificar os adversários principais e secundários e de evitar os atalhos do voluntarismo e do desespero.




Favela também é Cidade

domingo, maio 23rd, 2010

Conselho Popular do Rio de Janeiro e Movimentos Sociais unidos contra a remoção


NÃO À REMOÇÃO! FAVELA TAMBÉM É CIDADE.

Tendo em vista a tragédia ocorrida após as últimas chuvas que atingiram principalmente as favelas e as comunidades pobres, vimos manifestar ao Poder Público e à população da Cidade do Rio de Janeiro o seguinte: (mais…)




Manifesto: A luta dos pobres e a arrogância de ser poder

domingo, dezembro 20th, 2009
Rede Universidade Nômade

Comentário ao documento do Secretário Municipal de Habitação do Rio de Janeiro

Em 30 de junho de 2009, a rede Universidade Nômade lançou um manifesto[1] de apoio à luta dos trabalhadores pobres e sem-teto do Centro da cidade do Rio de Janeiro que tinham acabado de ser violentamente despejados, com base em decisão judicial e por um forte contingente de polícia, de um prédio ocupado na Lapa. Nesse documento, criticávamos a falta de políticas públicas e a ausência de negociação por parte das diferentes instâncias de governo estadual e municipal e, ainda, o não cumprimento de (outra) decisão judicial que determina a concessão imediata de moradia (ou o pagamento de um aluguel social) aos sem-teto: ele está – na hora em que escrevemos – com 135 assinaturas, a maioria delas de professores universitários. Muitas são de ativistas e redes de movimentos sociais[2]. Alguns dias depois, o Secretário Municipal de Habitação fez circular uma “resposta” intitulada “Salada ideológica com fins desconhecidos”[3]. Nesta, entre outros comentários abertamente desrespeitosos, ele faz a distinção entre os signatários que seriam autores do documento e os que teriam assinado por mera amizade, aos quais convida a um diálogo que na realidade é uma chamada à disciplina de uma “união” sem opinião. Aqui vai um comentário de alguns dos signatários, aqueles que se reconhecem na Rede de movimento que chamamos, há alguns anos, Universidade Nômade (daqui em diante, UN). (mais…)




O que há de novo na política habitacional do Rio? (Marina Bueno)

domingo, dezembro 20th, 2009
Marina Bueno

Em resposta ao manifesto da Rede Universidade Nômade sobre a questão da habitação e o último episódio violento de despejo de 30 famílias que ocupavam um prédio no centro do Rio, o secretário municipal de habitação Jorge Bittar, expôs um conjunto de proposições contrárias às críticas contidas no documento, das quais ele chamou de “salada ideológica com fins desconhecidos”. Destaca-se em sua fala, que o documento assinado por intelectuais respeitados, alunos e integrantes dos movimentos sociais, “nada esclarece e nada propõe”. Em discordância de tal afirmação e aceitando o convite ao diálogo feito pelo secretário (embora seu texto se apresente muito mais como uma delimitação de lados – opostos), vamos dar continuidade ao debate. (mais…)




A cidade insubmissa (Alexandre Mendes)

domingo, dezembro 20th, 2009
Alexandre Mendes

Da fuga dos escravos na direção dos quilombos livres, passando pela recusa nordestina ao poder oligárquico e à miséria, sem esquecer os fluxos de migração vindos de todo o mundo, o Brasil é atravessado por êxodos constitutivos que criam dinâmicas de liberdade e estabelecem novas formas de vida. Nascidas na velocidade desses êxodos, as grandes cidades brasileiras, tão caóticas quanto insubmissas, emergem como espaço de intensas lutas e conflitos em torno dos direitos e da cidadania.

Planejamento autoritário, concentração fundiária e de renda, violência, racismo foram algumas das tradicionais estratégias para o controle e exploração das multidões de pobres e migrantes que chegavam às cidades. Contudo, tais mecanismos não impediram o exercício de uma crescente e viva resistência exercida pelos novos habitantes. (mais…)







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