A Política da Cultura Ponto a Ponto > Pedro Mendes





Por Pedro Mendes

A administração (e a fruição) de nossas riquezas comum – culturais e naturais – depende não do des-envolvimento, mas de um envolvimento que só o reconhecimento da produtividade da vida pode proporcionar. A nosso ver, os Pontos de Cultura são uma resposta possível a um anseio democrático por dispositivos constituintes adequados aos novos modos de produção e expressam o desejo da multidão enquanto composição da nova força de trabalho. Operam como uma rede de espelhos: não se destinam às pessoas, mas ao contrário, emanam delas.
A seguir, algumas das qualidades dos Pontos de Cultura que consideramos potentes, e que podem contribuir para explicar não apenas seu sucesso, mas também para apontar possíveis caminhos para novas políticas públicas (da cultura ou não).

a) Transversalidade;
Existem diversas questões que ligam os produtores de cultura entre si: – da mais óbvia, ou seja, do fato de que o trabalho como um todo vem se tornando cada vez mais comunicativo, linguístico e performativo (logo, cultural, se por cultura entendemos a gama de saberes e faculdades que as pessoas envolvem no decorrer de suas vidas); – à questão da precariedade, que parece se espraiar igualmente pelo conjunto das atividades produtivas: precariedade das condições de trabalho, com jornadas ilimitadas e contratos por tempo cada vez mais restrito, inexistência de direitos (que se restringem a quem possui carteira assinada), precariedade também das relações pessoais e redução da vida ao cálculo econômico; – passando pela potência expressiva (produção de subjetividade) que reúne (sem reduzir) em um mesmo patamar produção do mundo e produção de si, natureza e cultura, política e estética.

b) Liberdade de expressão como experiência comum de relações interconectadas;
Mas o que significa ser pobre, ser precário hoje? Significa sofrer uma série de restrições no que diz respeito não apenas às suas possibilidades de produzir, mas ao risco de, produzindo (apesar de todas as adversidades), não poder se expressar em um ambiente em que se preza acima de tudo a comunicação, a cultura! Significa que, uma vez conseguindo se expressar, o fará de maneira sempre tolhida, sempre incompleta e inserida em uma hierarquização biopolítica.
As recentes marchas em torno da liberdade de expressão (não apenas as que já passaram, mas também as porvir) são o grito de liberdade de um sem-número de minorias que se reconhecem no fato de serem portadoras de histórias de vida riquíssimas, numa relação potente e em espiral que só faz multiplicar as possiblidades de expressão contra as monoculturas do poder.

c) Ensaio de orquestra;
Pensemos por um minuto nos inúmeros jovens que habitam as periferias das grandes metrópoles, por exemplo. Camelôs, músicos, LGBTT, negros, sem-teto, indígenas, quilombolas, brancos (e brancas) pobres cujas vozes e corpos só ganham visibilidade em situações excepcionais, em casos de violência ou em abordagens folcloristas. Pois são esses mesmos jovens, chamados por inúmeros membros da gestão atual do MinC (mas não apenas) de amadores e gentinha, que nutrem com suas histórias de coragem e de luta grande parte da singular produção cultural brasileira, contribuindo para constituir uma eco(socio)logia única e, por isso mesmo, cada vez mais valorizada pelo capital.
Por isso, os agentes políticos tradicionais precisam passar a encarar a diversidade como um valor central da própria vida, essencial ao seu (des)envolvimento em qualquer escala e digno portanto de ser preservado. No entanto, como sóacontecer com sistemas dinâmicos, sua preservação só é possível por meio da produção contínua de diferença, no sentido de uma diversidade que não cessa de diferir, muito além da panaceia multicultural tão classe média e tão em voga.
Mesmo porque, até que isso se torne realidade, mercado e blocos de poder não terão o menor problema em encontrar o valor apropriado (em todos os sentidos) para nossas riquezas comuns (tanto nossa diversidade cultural quanto nossa biodiversidade).

d) Diferença;
Carregamos populações inteiras dentro de nós, assim como proporcionamos o ambiente para que outras tantas se desenvolvam. Os muitos que fomos/somos/nos tornamos a cada dia não apenas tornam a vida mais interessante (ou pelo menos mais leve) para nós mesmos como serve de fonte para todos aqueles e aquelas com quem entramos em relação, mesmo sem saber.
Nesse sentido, facebooks, twitters e similares são tecnologias sociais antes de serem ‘técnicas’. Elas servem para materializar anseios e desejos há muito presentes entre nós. Anseios e desejos sobretudo de nos organizarmos de forma menos desigual, mais horizontal e aberta às diferenças de cada um e de todos. Diferenças históricas, regionais, mas também sociais, de gênero e ligadas à cor da pele. Diferenças biopolíticas.
São dispositivos que proporcionam controle sim, mas também são ferramentas essenciais de organização e de ocupação dos espaços públicos (praças, universidades e até mesmo governos), e nesse sentido, são sintomas, não causas, das inovações expressas em Praça Tahrir ou no Ministério da Cultura de Gilberto Gil e Juca Ferreira, entre outros.

e) Autonomia;
É o próprio Célio Turino, um dos idealizadores dos Pontos de Cultura, quem defende sua política como a instauração de um tipo novo de Estado, mais permeável à participação dos novos sujeitos sociais, muitos dos quais nunca foram ouvidos e também por isso nunca tiveram o prazer de escutar suas próprias vozes.
Processo este que procede por saltos, por descontinuidades, como se pode perceber, mas que dificilmente poderá ser omitido, uma vez que afetou grupos de sujeitos tradicionalmente submetidos que não abrirão mão de sua presença tão facilmente. Nesse sentido, os Pontos de Cultura e toda a gama de políticas públicas possíveis de ser vislumbradas por meio deles assinalam um acontecimento político da maior importância que, mesmo combatido violentamente por um bloco de poder que reúne de empresários de olho no futuro (e outros nem tanto) a corporações de artistas criadores – todos sedentos por ampliar sua fatia do bolo – abriu as portas para a efetivação de outro modelo de relação não apenas entre Estado e cidadão, mas também e principalmente entre as próprias pessoas envolvidas no processo, que, apesar de tudo, continua, é bom que se diga.

f) Espaço vital;
E continua principalmente em decorrência dessa forma de organização imanente que a relação entre os Pontos expressa e que encontrou na política pública um meio material e econômico para efetivar sua mobilização produtiva. Da vida das pessoas às redes e destas de volta à vida das pessoas, a produção cultural contemporânea encontra sua pujança no fato de que formação dos agentes, produção e organização se dão em um mesmo espaço e são partilhados por todos os envolvidos no processo de forma contínua, sendo praticamente impossível estabelecer onde começa uma e termina outra.
É na formação levada a cabo no âmbito nos { } de cultura (os Pontos, mas também aqueles espaços / sujeitos ainda não reconhecidos) que se aprende a organizar e a produzir – material, eventos, subjetividades, não importa! – aprendizado prático e dinâmico, que por sua vez vai se estender à quase totalidade das atividades produtivas ou organizacionais, uma vez que se trata de ambientes aquecidos, de trocas constantes e de condições instáveis, que requerem capacidade de adaptação e (auto)formação continuadas que, por outro lado, vão desempenhar influências determinantes para a capacidade de organização de cada grupo ou indivíduo, além de imprimir uma marca singular naquilo que produzem, e assim por diante… criando novos modos de vida alternativos que não cessam de se multiplicar.

g) Pontos de Cultura: problema de sustentabilidade!
O elemento (aparentemente) paradoxal desta equação é que sempre se espera que tudo que for bom para a cultura ou para a natureza, deve necessariamente ser ruim para os negócios: não mais! A grande decisão que temos que tomar é quanto ao tipo de sustentabilidade que queremos afirmar: se a sustentação de um sistema absolutamente desigual e violento, que põe em risco a própria existência do planeta por sua lógica desenvolvimentista desenfreada que agride igualmente a ecologia social de que falávamos há pouco; um outro, marcado por um maior equilíbrio, uma maior abertura, que respeite e favoreça as diferenças, essencial portanto ao estabelecimento de relações produtivas entre populações e grupos de populações em âmbito global, processo por si só demasiado arriscado, cheio de descaminhos e desencontros.
Pois os conceitos de economia criativa e/ou indústria criativa representam uma débil tentativa de mascarar sob o imaginário da criatividade modelos que estão totalmente ultrapassados, insustentáveis para nós e para o planeta. A verdadeira criatividade portanto consiste em estabelecer um ponto de vista da cultura e da vida sobre modelos econômicos que tem como único elemento de sustentação o exercício do poder por blocos interessados exclusivamente em preservar seus latifúndios (por isso a mono-cultura!), sejam eles financeiros, territoriais, políticos e até mesmo culturais!
Para resumir, o que nós queremos é ter liberdade para levar adiante as opções que fazemos, sem a tutela do Estado e bem longe da mão do mercado! Exigimos como direito inalienável dos novos tempos ter espaço para tanto (no plano material como no digital) e para todos: moradia digna! e liberdade para nossas trocas, nossas dinâmicas de colaboração… Queremos também ser remunerados pelo trabalho vital que realizamos (renda garantida), ter acesso a direitos feitos sob medida para todos nós (e não o contrário) e, principalmente, influir nos processos políticos de decisão das prioridades, dos investimentos, da gestão do comum… porque aqui se faz, aqui se paga! Mas não apenas. Aqui também se cuida, se compartilha e se ama!



2 Responses to “A Política da Cultura Ponto a Ponto > Pedro Mendes”

  1. Celioturino65 disse:

    Estou na America Central em mais um saguao de hotel e quero compartilhar a alegria em ler um artigo tao lucido e claro sobre os Pontos de Cultura. Parabens ao autor e a revista Global. Seguimos juntos, mesmo quando distantes. Punto de Cultura, la unidad en la diversidad!
    PS – daqui a pouco tenho encontro com ministro da Cultura da Costa Rica: eles tambem querem CULTURA VIVA por aqui e estao trabalhando com toda seriedade e respeito

    Celio Turino

  2. Celioturino65 disse:

    Estou na America Central em mais um saguao de hotel e quero compartilhar a alegria em ler um artigo tao lucido e claro sobre os Pontos de Cultura. Parabens ao autor e a revista Global. Seguimos juntos, mesmo quando distantes. Punto de Cultura, la unidad en la diversidad!
    PS – daqui a pouco tenho encontro com ministro da Cultura da Costa Rica: eles tambem querem CULTURA VIVA por aqui e estao trabalhando com toda seriedade e respeito

    Celio Turino




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