Grécia – Indignados > por Europa Zapatista





Enquanto na Espanha o despejo violento dos indignados da praça de Barcelona teve como resposta a reconquista desse espaço, na Grécia os indignados locais também passaram a se concentrar nas praças. Após alguns dias, as milhares de pessoas na praça central de Atenas estão dando seus depoimentos através do twitter e redes sociais.
O protesto, sem partidos políticos, sindicatos e organizações históricas se centra sobre a gravidade da crise no país e as receitas impossíveis do Governo e da Europa.
São pessoas de todas as idades que se dirigem para a Praça Syntagma.

De Europa Zapatista para o GlobalProjecthttp://www.globalproject.info/it/in_movimento/Grecia-Indignados/8645

Tradução de Pedro Mendes

28  de maio de 2011

Milhares de pessoas estão há três dias ocupando as praças gregas após uma convocação anônima. Um chamado circulou pelo Facebook dizendo: “gregos indignados na Praça Syntagma”. Tudo começou em 25 de maio, inspirado pela concentração em Puerta del Sol, na Espanha. A convocação dizia ainda: “venha mesmo sem chamadas para a manifestação, sem slogans de partidos, sem identificação de qualquer sindicato”.

Eu mesmo sequer tinha visto o Facebook, mas a reunião foi divulgada através do boca-a-boca, e-mails, mensagens de texto. Com uma única frase: “Dia 25 de Maio, às 18 horas., na Praça Syntagma”. Definitivamente havia incerteza, suspeita, desconfiança, houve até quem dissesse que era senso comum imaginar que movimentos nascessem no Facebook. E então… surpresa! Uma surpresa imensa: de 25 a 40 mil pessoas. Mas os números, em si, não importam, a praça está tomada.

As ilusões de muitos e muitos meses se tornam verdade diante de nossos olhos. Para alguns é o momento de começar a se questionar: “Quem são? De onde vêm? O que dizem? O que pretendem?…não possuem um objetivo. Isso vai acabar amanhã”. Uma necessidade enorme de conferir uma identidade. Mas a verdade, afinal, é que eles são anônimos, é anônimo(a): a identidade coletiva é apenas “indignados, Indignado(a)”.

Entre eles estão alguns poucos nacionalistas, que cantam o hino. Há também algumas “pessoas pela vida”, que parecem desconfortáveis na praça. Entre eles, estão pessoas de classe média que se queixam por terem testemunhado o fim de sua “vida justa”. Entre eles estão muitos jovens, trabalhadores, desocupados, empregados… pessoas, enfim, pessoas de todos os tipos, pessoas comuns.

São elas que quase timidamente começam a fazer uma assembleia no centro da praça, por volta de 21 horas, e dizem, durante a assembleia, que não querem representantes e que só a própria poderá se pronunciar. São elas que começam a se organizar para dar forma coletiva a uma concentração de indivíduos. E as únicas que voltam no dia seguinte, 26 de maio e, novamente, no dia 27 de maio. Também são elas que enchem as praças de Salônica, Patras, Pyrgos, Volos, Larissa, Heraclion, Jania, Komotini, Levadia, Arta, Kozani, Esparta, Kavala, Poros, Lamia, de Atenas… são… somos

28 de maio de 2011, duas da madrugada

Praça Syntagma, Atenas – Uma nova ágora é construída como espaço para se ouvir e ser ouvido. Milhares de pessoas formam um círculo no centro da praça. Uma parte sentada, outra parte em pé. Uma assembleia popular, aberta, começou às 22 horas e ainda continua. O microfone circula, a palavra circula, é impressionante o respeito em relação ao que os outros dizem. Decidiu-se fazer uma declaração geral do encontro. Uma tarefa difícil em se tratando de tanta gente. Mesmo assim se escutam propostas, toma-se nota, e elas são postas em votação. É necessário chegar a um acordo sobre a forma de tomar decisões. Alguns insistem sobre o consenso pleno, outros recordam a importância das partes se pronunciarem e de se decidir sobre as questões em que há acordo.

Quase por unanimidade se decide que uma proposta será aprovada depois de tanta discussão, mas por meio da busca pelo consenso e da aprovação de pelo menos dois terços da assembleia.

Também se decide que a assembleia – a de hoje, mas também as próximas – serão consideradas encerradas quando os participantes forem menos da metade dos que começaram.

E quais serão os temas centrais da declaração?

Há três propostas em questão: a “democracia real já”, “democracia real e direta já” e “democracia direta já”.

Inicia-se a discussão e não é difícil perceber, através das mãos levantadas – por meio desta votação tão estranha, embora clara, horizontal, direta – que a proposta central escolhida é “democracia direta já”.

Há ainda propostas que não precisam sequer passar pelas discussões e que são aprovadas debaixo de uma salva de palmas.

Enquanto isso, comissões de trabalho são organizadas: comissão de limpeza, de tradução, de comunicação, multimídia, de eventos culturais, saúde, alimentação… a lista é longa. À uma hora da madrugada, enfim são formadas 16 comissões que se reunirão hoje, sábado. As pessoas se inscrevem para participar, vão e vem, se saúdam, escutam, cuidam da limpeza e gritam slogans, seguindo os passos daqueles que, sobre as escadarias diante do Parlamento, nunca deixaram de gritar.
Terceiro dia na Praça Syntagma.

E a praça se organiza. O desconforto e as dúvidas de ontem deram lugar aos primeiros passos – ainda tímidos – de ação coletiva.

30 de maio de 2011

Será que há palavras para descrever o que foi o dia de ontem na Grécia? Para expressar o que aconteceu de extraordinário, o que há de novo? Certamente que há, mas eu não as tenho.

Mesmo os números são difíceis de descrever (os meios de comunicação de massa falam em 100 mil pessoas na Praça Syntagma): como é que se avalia uma assembleia de 4.000 pessoas que tentou, em meio a um mar de milhares de outras [pessoas], e durante seis horas, dar um rosto comum aos desejos de tanta gente diferente? Como é que se faz para descrever as assembleias populares realizadas em 69 cidades gregas que, pela quinta noite consecutiva, teceram redes de base?

Como explicar que muitos e muitas, milhares mesmo, falem de democracia direta, de auto-organização e de horizontalidade? Não posso, nem me arrisco… ainda é cedo… mas reproduzo as palavras de um colega de Puerta del Sol (Madrid).

“Eu observo os rostos, há pessoas de todas as idades, de todos os gêneros… é impressionante, nós precisávamos de um espaço assim: as pessoas vêm, contam suas frustrações políticas, exaustas  de não serem escutadas… nós precisávamos, nós precisávamos de algo assim…”

Não somos ninguém”, diz uma faixa estendida no meio da multidão. E milhares de ninguéns levantaram suas cabeças nos últimos dias para dizer um “NÃO” muito claro não apenas para os cortes, não apenas para as medidas econômicas, nem mesmo para toda a classe política, mas principalmente a um sistema que, para se manter, dissemina a morte da dignidade e da vida.

Saudações… e as fotos de ontem, em Atenas, para compartilhar a alegria, o nervosismo, a rebelião, a dignidade e a resistência.

Resolução da Assembleia Popular da Praça Syntagma / Atenas, 27 e 28 de maio de 2011

Já há muito tempo que se tomam decisões sobre nós, sem que nós estejamos presentes.

Somos trabalhadores, desocupados, jovens que vieram à Praça Syntagma para lutar por nossas vidas e por nosso futuro. E estamos aqui porque temos consciência de que as soluções para nossos problemas só podem vir de nós mesmos.

Apelamos a todos os atenienses, trabalhadores, desocupados e jovens para que venham para cá, e a toda a sociedade para que encha as ruas e tome a vida em suas mãos. Aqui, nas praças, daremos forma às nossas solicitações e demandas.

Apelamos a todos os trabalhadores que se preparam para entrar em greve no curto prazo, para que venham para cá e fiquem conosco. Não deixaremos a praça até que se vão aqueles que nos colocaram nesta situação: governo, Troika[1] (FMI, Banco Mundial, União Europeia), bancos e todos aqueles que nos exploram. A estes, enviamos uma mensagem: a dívida não é nossa!

DEMOCRACIA DIRETA JÁ!

Igualdade! Justiça! Dignidade!

Só se perde a luta que não se inicia!

Assembleia Popular de Praça Syntagma

Atenas, 28 de maio.

2 de junho de 2011

“Finalmente, nos levantamos”. Este é o sentimento entre as dezenas de milhares de pessoas que encheram as praças gregas.

A explosão do movimento M15 na Espanha serviu como um impulso porque exprimia a profunda indignação do povo grego. A mensagem aos poderes político e econômico é clara: “que se vão todos!”, diz uma faixa em espanhol diante do Parlamento de Atenas, na histórica Praça da Constituição.

E pensar que tudo começou dia 25 de maio, às 18 horas no ponto zero da #greekrevolution, proposta feita apenas dois dias antes via Facebook. O convite, para tal, era mínimo, definido pela palavra “indignado”. Mas em apenas 40 horas, 25 mil pessoas se reuniram em Atenas, 20 mil em Tessalônica e 5 mil em Patras.  E ninguém poderia esperar que a presença nas praças ainda fosse crescer mais. Pois atualmente há mais de 40 mil pessoas na Praça da Constituição, e milhares espalhadas por todas as cidades, gritando, dançando e debatendo.

Desde então, a praça se enche todos os dias, às 18 horas. Domingo, 29 de maio, o chamado dia da “revolução europeia” foi dia da maior praça, repleta e completa pelas mais de 100 mil pessoas presentes à Praça da Constituição (Syntagma).

E o mais impressionante não se limita aos números, mas se refere à paixão da multidão, que não se cansa de gritar por horas “Fora, fora!” aos políticos, enquanto clamam por “Pão, educação e liberdade”, um slogan histórico dos movimentos sociais gregos.

O que dizer ainda da rara, porém bem-vinda escassez de violência e gás lacrimogêneo em uma manifestação que já dura uma semana? Assim podem participar pessoas de todas as idades, com filhas e filhos, e muitas afirmam que “os espanhóis nos mostraram como se manifestar”. E, sobretudo, do processo constituinte que vem ocupando as ruas, segundo os princípios da democracia direta?

A luta dos “indignados” gregos se auto-organiza em assembleias diárias e a participação das pessoas cresce a cada dia. Em Atenas, milhares de pessoas participam das assembleias, onde organizam sua vida no acampamento, elaboram planos de ação e afi(n)am seu discurso comum. Houve uma primeira resolução, traduzida em várias línguas, que agora circula pela rede. A partir daí se formaram vários comitês e foram organizadas assembleias temáticas, tudo com a participação de centenas de pessoas.

Na praça, há uma cantina comum, um centro médico, pontos de informação e de coordenação de voluntários, grupos de técnicos, grupos artísticos, de radiodifusão e de imprensa, de advogados e de vigilância. Ela se transformou em uma vibrante área de expressão, livre e comum, recordando a antiga democracia direta ateniense, e novamente o Maio de 68, em Paris, e a Plaza del Sol, em Madrid. Centenas de pessoas passam a noite toda na praça, com as barracas preenchendo os espaços entre as árvores.

Sem partidos

Outra novidade da mobilização é a ausência de partidos e demais organizações ‘políticas’. Assim como no caso espanhol, trata-se de um movimento de pessoas, o que não significa que seja apolítico ou individualista. Ao invés disso, há uma tentativa de definir novamente a política em um sentido comum, de forma direta e para além dos limites das hierarquias e estruturas tradicionais. Ainda que milhares de militantes experimentados participem do processo, a grande maioria se transforma e se animada no (e pelo) processo, aprendendo com as pessoas que estão na estrada pela primeira vez, em vez de dirigindo-as.

Assim, o movimento dos ‘indignados’ gregos não se enquadra nas fronteiras políticas e ideológicas já existentes, criando uma enorme confusão para o governo, todos os partidos (incluídos aí os de esquerda), os sindicatos e mesmo as organizações radicais de esquerda e o movimento anarquista.

Sem dúvida, todos reconhecem(os) que os próximos dias serão críticos para a evolução do movimento. Será ele capaz de se estender para além das ruas, abrangendo também os bairros e espaços institucionais de trabalho? Essa é a questão que preocupa os “indignados” gregos, uma vez que, em oposição à situação espanhola, o movimento grego tem um enorme senso de urgência, devendo impedir o segundo acordo de ‘resgate’ que vem sendo preparado entre o governo e a troika (UE, do BCE e do FMI), e que deve ser implementado no final de junho.

De toda forma, os “indignados” gregos também apostam na expansão do movimento para outros países europeus. O anúncio de que a multidão em Barcelona havia retomado a Praça Catalunha na última sexta-feira (27 de maio) provocou uma explosão de felicidade na assembleia, em Atenas, assim como as notícias das manifestações na Espanha e em outros lugares havia provocado no domingo anterior.

Inventam-se ainda outras maneiras de encorajar aqueles que até agora não tomaram as ruas, como se vê em uma bandeira que diz “silêncio, não acordem os italianos!”. Desta maneira, as praças de toda a Grécia antecipam com esperança a próxima manifestação europeia, domingo, dia 5 de maio.

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Nota:

[1] Palavra russa que designa um comitê de três membros.



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