A esquerda diante do abismo da democracia > Exposito, Herreros e Rodriguez





Por Marcelo Exposito, Tomas Herreros e Emmanuel Rodriguez*| Tradução de Pedro B. Mendes

Em 11 de março de 2004, dez explosões simultâneas mandaram pelos ares quatro trens em Madri e tiraram a vida de cerca de 200 pessoas, além de ferir cerca de 2.000 e de semear o terror. Nas horas que se seguiram, o governo do Partido Popular, liderado por José María Aznar, deu início a uma grande confusão, a fim de capitalizar politicamente a dor. Simultaneamente, os telefones celulares começaram a receber mensagens de texto: encontremo-nos na rua. Levas de pessoas tomaram os espaços públicos, em manifestações e concentrações difusas, espontâneas, exigindo saber a verdade. Era sábado, 13 de março, dia de eleição. No dia seguinte, os votos majoritários deram uma inopinada vitória ao candidato do PSOE, José Luis Rodríguez Zapatero. Dito com clareza: Zapatero chega ao governo da Espanha impulsionado por um movimento social. O novo presidente prometeu em público: “Não os decepcionarei.” Conservemos por um momento essa imagem. Domingo, 15 de maio de 2011. A manifestação convocada por redes sociais na Internet vai além das expectativas: dezenas de milhares de pessoas se reúnem em sessenta cidades espanholas, sob o lema comum “Democracia real, já!”, que arrasta atrás de si uma constelação de enunciados: “Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros”, “não nos representam”. As manifestações geraram tamanha euforia que centenas de pessoas ocupam as praças centrais de suas respectivas cidades, começando por tomar a mais emblemática delas, a Puerta del Sol, em Madrid. A poucas horas da celebração de eleições autárquicas e regionais em toda a Espanha, o chamado Movimento do 15-M recupera o sentido à palavra “política” em meio a uma campanha eleitoral deplorável. Dito com clareza: tudo leva a crer que o presidente Zapatero deixará o governo da Espanha levado por um movimento social, que começou a se tornar de indignação por conta de sua gestão da crise econômica e agora é um clamor de refundação democrática.
Propomos um exercício de montagem simples: juntar essas duas imagens, a de movimentos sociais apartidários e espontâneos em sua origem, que marcam a entrada e a saída de um presidente sobre o qual se depositou esperanças progressistas. O que aconteceu entre uma imagem e outra? Que sentido produz esse contraste? Como se deu essa transição entre aquele aumento da confiança na participação eleitoral para a mudança e o furioso descontentamento atual?
A explicação reside no fato de que o presidente Zapatero, desperdiçou uma oportunidade histórica: as condições em que foi eleito abriam a possibilidade de um exercício renovado da política que levasse em conta a potência de uma sociedade organizada. Ele insistiu, ao invés disso, em um republicanismo cívico, cujo progressismo não permite enxergar nos cidadãos algo mais que eleitores singulares e titulares de direitos outorgados de cima para baixo. Isso o impediu de compreender a situação delicada de sociedades em que o sistema clássico de representação política e de delegação da soberania popular através do mecanismo do voto está em uma crise irreversível. De conseguir entender que a tensão atual e complexa entre os poderes e contrapoderes sociais foi a condição mesma de sua chegada ao poder, talvez tivesse enfrentado a crise econômica – que marcou a inflexão final de seu governo – de forma substancialmente diferente de como o fez, negociando com os poderes econômicos e supra-institucionais indesejáveis políticas de ajuste – que nos hipotecam o futuro – a espera de encarar seus eleitores de frente no último minuto e apostando todas as cartas e a confiança no medo à direita. Aqueles com quem Zapatero não foi capaz de governar: os contrapoderes sociais, a capacidade de agitação democrática que a sociedade contém em latência, voltaram a tomar corpo para dizer: Já basta!
Entre uma imagem e outra (2004-2011), lá se vão sete anos em que a rua foi agitada por uma direita que deduziu o colapso da representação democrática e dela tira proveito descaradamente: movendo-se como peixe no mar de corrupção e da mentira, atiçando a população contra as mesmas instituições políticas em que essa direita atua para favorecer setores com mais poder e riqueza, manipulando o justificado descontentamento social, promovendo uma guerra civil entre a classe média e as menos favorecidas. Por sua vez, a esquerda adota conceitos como ajuste, reforma e austeridade com o objetivo de retornar à normalidade econômica. No entanto, descobrimos que a crise é fundamentalmente crise da política como a conhecemos. E nesta crise, a esquerda partidária tem uma responsabilidade objetiva, por ser incapaz de criar mecanismos eficazes de distribuição de renda e de inventar novos direitos sociais. Os governos de centro-esquerda da Catalunha, da Galícia e das Ilhas Baleares, e de outras grandes cidades, não reinventaram as formas de democracia, nem a relação do Estado com o corpo social, nem empreenderam políticas diferentes das prescritas nos manuais de administração e gestão do território.
É neste contexto que o movimento do 15-M se afirma: não é tempo de mendigar confiança nem de aceitar promessas. Apenas uma aposta ofensiva, que invente outra ética, outra política para além da nostalgia e da resignação poderia fazer a esquerda passar a um novo ciclo histórico. Como não poderia deixar de ser, a refundação da política democrática necessita, mas também sustenta a estimulação de um novo ciclo de lutas e conquistas sociais. Lutas, mobilizações dos pobres e novos cidadãos. As temáticas abertas e a mobilização urbana não precisam ser inventadas: encontram-se nos enunciados e nos problemas já presentes na agenda dos movimentos e nas reivindicações cidadãs. O Manifesto do Movimento de 15-M afirma muito claramente: “As prioridades de qualquer sociedade avançada devem ser a igualdade, o progresso, a solidariedade, o livre acesso à cultura, a sustentabilidade ecológica e o desenvolvimento, o bem-estar social e a felicidade das pessoas”.
Uma “Carta dos Novos Direitos” poderia ser uma das opções para reconfigurar o velho estado de bem-estar social. Tratar-se-ia de um projeto político e econômico para qualquer partido que se considere de esquerda. E, no entanto, seria uma receita para os partidos de esquerda que “representam” o público. A cidadania hoje se constitui como tendência à auto-representação. Migrantes, mulheres, pessoas afetadas pelas hipotecas, pela destruição do meio ambiente ou pela degradação dos serviços públicos, comunidades agrupadas em torno de modos de vida singulares, redes sociais e um longo etcetera de composições emergentes têm encontrado formas de falar por si mesmos, sem as formas calcificadas de mediação por parte do aparato institucional ou representativo. Tudo indica que a esquerda partidária será obrigada a atravessar, não apenas na Espanha, mas em toda a Europa, uma longa jornada através do deserto. É hora de assumir a obrigação de ensaiar, para um futuro próximo, novas abordagens que só podem passar pela aceitação dos limites de sua representatividade e pela cooperação com os movimentos e as formas de associação que crescem nas novas texturas urbanas. O acesso à moradia, o direito à saúde e ao cuidado, o reconhecimento dos comuns, o direito a estudar ou à mobilidade ressoam como um clamor subterrâneo dos novos tempos, que exige ser ouvido porque se faz realidade no exercício cotidiano das novas formas de habitar a cidade. Necessita-se de futuros governos que, para restabelecer a esquerda institucional, ao invés de curvarem-se aos poderes econômicos e para-democráticos, se ponham a serviço das urgências indicadas pelos novos movimentos sociais.

*Membros de Universidad Nomada (Espanha)



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