A Tunísia é a nossa Universidade > Anna Curcio e Gigi Roggero





Notas e reflexões da Liberation without borders tour

Por Anna Curcio e Gigi Roggero* | Tradução de Pedro B. Mendes

Hoje, a Tunísia é um laboratório político extraordinário. Destruindo definitivamente qualquer reminiscência inveterada do espelho colonial, no qual a “periferia” deve observar o “centro” para ver a imagem de seu futuro refletida nele, as lutas sociais estão determinando o ponto mais avançado no interior do capitalismo global. Realizar pesquisa neste laboratório representa a possibilidade de encontrar respostas e desenvolver questões políticas não resolvidas.
Acima de tudo, emergem aqui algumas indicações fundamentais sobre a temporalidade da crise. Entre 2007 e 2008, quando começamos a desenvolver nossa análise da crise econômica global, não poderíamos imaginar a deflagração de novos ciclos de luta. Ou melhor, esses novos ciclos eram de caráter fragmentário e não generalizado. Hoje, podemos ver como o próprio conceito de ciclo deve ser completamente repensado: quando a crise já não é uma fase específica, mas um elemento horizontal permanente e insuperável do capitalismo cognitivo, as próprias lutas adotam uma temporalidade diferente. Elas aguardam e atacam o inimigo onde ele é mais fraco, ou seja, onde a composição do trabalho vivo é a mais forte.
É por isso que as primeiras insurreições no contexto da crise global aconteceram na Tunísia e no Egito. Além disso, elas colocam a insurreição e a revolução de volta na agenda; duas coisas das quais muita gente, gente demais, pensou que tinha se livrado junto com velhos problemas políticos do século 19. Mas os movimentos sociais impuseram sua agenda de novas maneiras. A insurreição não está mais ligada à conquista do Estado e o perímetro do espaço nacional foi definitivamente ultrapassado. Agora se luta para destruir as fronteiras, afirmar o direito a voar e a mobilidade do trabalho vivo.
Os ativistas tunisianos têm uma percepção clara das coordenadas de luta, coordenadas que são traçadas a nível imediatamente transnacional. Novamente, podemos ver como outro elemento peculiar da crise contemporânea – o de infecção (cf. o Diário de Christian Marazzi) – viaja em busca dos movimentos do trabalho vivo e de suas práticas organizacionais. A insurreição tunisiana foi a fagulha para o movimento no Egito e para todo o mundo árabe. E agora em Wisconsin, Espanha e Grécia, o primeiro item da agenda é: façamos como na praça Tahrir. A infecção dos conflitos se dá por meio de redes, de redes sociais a mensagens de texto. Elas não são apenas ferramentas que facilitam a circulação da informação e da comunicação. Aqui, a rede é totalmente reapropriada pelo conhecimento vivo, torna-se uma forma de organização da multidão, e a expressão e a prática da inteligência coletiva. Que extraordinária experiência de se ver, em termos concretos, como os manifestantes se movem no espaço metropolitano: em uma manhã de sábado qualquer, o compromisso é às 10 horas na frente do teatro na Avenida Bourghiba. Porém, após 40 minutos ainda não há ninguém e os policiais detrás do arame farpado estão tensos e sem entender; em apenas alguns segundos, surgem cem, duzentas, trezentas pessoas, gritando com o governo de transição para ele ir, clamando pela continuação do processo revolucionário. Quando a manifestação é atacada com paus e facas por policiais à paisana e/ou figuras sombrias pagas por comerciantes preocupados com seus negócios no limiar da temporada turística, todos se dispersam de forma súbita e aparentemente desordenada, assim como haviam chegado. No entanto, apenas poucos minutos depois, o enxame se recompõe em frente ao Ministério dos Assuntos Sociais com ainda mais gente, e novamente em frente à sede dos sindicatos para exigir a convocação de uma greve geral.
Entretanto, a insurreição tunisina não é um evento espontâneo, sem história e sem organização. Ela possui uma longa genealogia, feita de mobilizações e de lutas, desde pelo menos – como nos disseram – o início do processo revolucionário vislumbrado nas greves dos mineiros de 2008. Mas mesmo nos anos 70 e 80, estudantes e trabalhadores deram vida a extraordinárias experiências de conflito: o domínio repressivo e autoritário de Ben Ali foi uma resposta a eles. Os jovens e os trabalhadores tunisianos usaram então, com pragmatismo inteligente, o único sindicato do regime, o UGTT, e a união dos estudantes, a UGET: eles eram campos de treinamento para os ativistas e espaços de organização capilar que foram virados contra a hierarquia. Mais uma vez, foi no sul da Tunísia que o movimento acumulou força: simbolicamente, não é por acaso que o processo insurrecional iniciado em 17 de dezembro em Sidi Bouzid quando Mohamed Bouazizi – um jovem universitário forçado a trabalhar como ambulante – ateou fogo ao próprio corpo em praça pública. Essa força se transformou em potência quando o movimento conquistou o espaço metropolitano em 14 de janeiro, dia da queda de Ben Ali. Desde então, milhares de jovens proletários vieram do interior e de outras cidades para a capital, para ocupar a Casbah e continuar a revolução.
Portanto, as imagens transmitidas pela mídia mainstream não têm nada a ver com o que está acontecendo no Norte de África, conforme explicou Miguel Mellino. “Revolta do pão” ou “Revolução Jasmim” são rótulos que tentam exorcizar a realidade comum de que a revolução tunisina realmente fala. Vários analistas americanos observam, aterrorizados, como a composição dos movimentos sociais no Magrebe é parecida com a situação nos Estados Unidos e na Europa: jovens com alto nível de educação, desempregados e precários que já não vêem nenhuma correspondência possível entre um diploma universitário e seu salário. Assim, enquanto alguns descartaram de forma imprudente a categoria de trabalho cognitivo por exigências táticas incompreensíveis, ou talvez porque estejam desiludidos com a falta de visão dos capitalistas italianos por sua recusa em investir na “economia do conhecimento”, foi exatamente este sujeito que conduziu as lutas do outro lado do Mediterrâneo.
Na Tunísia, deve ficar claro para todos, mesmo para os teimosos que insistem em acusá-la de ter um vício “progressista”, que não há essencialismo identitário na categoria de trabalho cognitivo. Por um lado, ela indica não apenas os estudantes ou jovens altamente qualificados, mas a multidão que produz saberes e é expropriada pela captura capitalista. Logo, falar em “trabalho cognitivo” significa falar em potência e em exploração, ao mesmo tempo. Nas periferias da Tunísia, adolescentes e jovens utilizam cotidianamente a rede e falam várias línguas fluentemente, aprendidas muitas vezes através das antenas parabólicas tão odiadas pelos puristas anti-consumo da esquerda ocidental que não compreendem o processo ambivalente de subjetivação envolvido no uso do “conhecimento morto” das tecnologias de comunicação. Por outro lado, o movimento revolucionário na Tunísia nos mostra claramente a questão política da aliança, ou melhor, da composição comum entre os jovens do precariado cognitivo e do proletariado das periferias. Atenção, porém: não se trata necessariamente de figuras distintas, mas do mesmo processo visto de diferentes ângulos. A escola, a universidade e os saberes deixam definitivamente de ser meios de ascensão social utilizados pela classe média empobrecida para a mobilidade no mercado de trabalho, assim como promessa de redenção social para o proletariado da periferia. Vários outros sujeitos atingidos pela crise foram se agregando em torno desta composição, começando por advogados, magistrados e trabalhadores da área dos serviços (especialmente aqueles do setor de telecomunicações), isso tudo somado ao acúmulo de lutas operárias no sul do país ao longo das décadas anteriores.
A revolução tunisina tampouco foi uma “revolução pacífica”: quem sabe o que diria o ícone da juventude celebrado pelo jornal Repubblica ao ver as jovens e os rapazes das periferias de Túnis exibir orgulhosamente os comissariados e escritórios do partido RCD que eles incendiaram? Será que estas figuras sem alma são capazes de compreender o que significa dizer que hoje essas crianças já não têm de olhar para baixo diante de um policial ou de um protegido do regime, as representações mais imediatas da opressão de classe.
Tampouco foi uma simples revolução para derrubar o soberano e alcançar finalmente o estágio de desenvolvimento liberal-democrático. O regime de Ben Ali não era uma exceção ou um resíduo feudal, mas uma peça totalmente integrada na governança mundial e no capitalismo financeiro. Sua atitude, afinal, não foi diferente da [atitude] dos gestores da Enron e de outros envolvidos em grandes “escândalos financeiros”: quando se deram conta de que o barco estava afundando, fizeram como os oficiais nazistas na 2ª Guerra Mundial e pegaram todos os candelabros e utensílios de prata que podiam durante a fuga. Uma vez mais, a questão política não é a existência dos corruptos, mas o sistema que produz corrupção. Não por acaso, um dos aspectos decisivos em disputa é a questão da dívida externa: de fato, o movimento se recusa a respeitar os acordos feitos por Ben Ali com os organismos do capitalismo global.
Por todas estas razões, a fase atual é extremamente delicada. O governo de transição – que, após a destituição de Gannouchi, imposta pela segunda ocupação da Casbah, passou a ser liderado por Essebsi – tem tentado impor uma normalização repressiva, seguindo o desejo de ordem de setores empresariais e comerciais tunisianos sempre prontos a assumir a derrota diante da sombra incômoda do círculo de Ben Ali. Enquanto isso, escritórios governamentais e ministérios são cercados por arame farpado, tanques ocupam as ruas, o toque de recolher e os apagões sistemáticos nas periferias visam garantir a transição ordenada ao “estado” de democracia-liberal, isto é, ao fim do processo revolucionário. Não por acaso, a palavra “revolução” é saudada justamente por aqueles que tentam bloqueá-la, sobretudo por parte das forças islâmicas moderadas que – não muito diferente do centro laico – já se apresentam como candidatos a melhores aliados para garantir a estabilização imperial. O mesmo vale com relação à guerra na Líbia. Quem a apoia é o bloco moderado, enquanto que, para os ativistas, está claro que se trata de uma guerra contra os movimentos revolucionários. Muitos ativistas contaram-nos de amigos e camaradas que decidiram lutar contra o regime de Gaddafi e das complexidades geográficas das linhas de insurgentes na batalha: em Misratah, há uma composição muito semelhante àquela do movimento tunisino, enquanto que em Benghazi está se tentando instalar uma sucessão para o coronel líbio com uma substancial continuidade política, e logo em acordo com as potências que estão conduzindo a guerra.
Diante do Tribunal de Justiça, um advogado sintetiza: “não podemos falar de uma contra-revolução, simplesmente porque ainda não houve revolução”. Eis a questão. Próximo dali, centenas e centenas de jovens que vieram de todo o país para ocupar a Casbah não querem ir para casa, e para o proletariado tunisiano não há casa para voltar enquanto não se produzir uma transformação radical: a opção pela migração ou pela continuação do processo revolucionário expressa duas formas da mesma luta, no fim das contas. A explosão de liberdade que se espraia pelas ruas da metrópole tunisina se choca frontalmente com a tentativa de governá-la com fins de normalização: a liberdade de comércio opõe-se, cara a cara, a potência de liberdade do comum. Então, como o poder destituinte se torna [poder] constituinte? Como é que o enxame se torna dispositivo de ataque e a horizontalidade determina a verticalidade coletiva, isto é, construção de novas relações sociais e de instituições do Comum? Em suma, como é que a insurreição se torna revolução? No contexto da crise global, estas são as questões que o laboratório político na Tunísia pôs na ordem do dia.
Como dizíamos, as coordenadas espaciais deste desafio estão claras para os ativistas: são traçadas em um plano imediatamente transnacional: em particular, o Norte da África de um lado e a Europa do outro. Mas não se trata de solidariedade genérica, sujeita a acabar na armadilha identitária ou a ceder a caridade colonial. “A melhor maneira de ajudar na libertação do povo palestino está em nos libertarmos a nós mesmos”, resumia com destreza um companheiro.

*Membros de UniNomade (Italia)



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