Fios de nylon: do “não à guerra” ao movimento 15-M





Fonte: http://madrilonia.org | Tradução de Pedro B. Mendes

Tradicionalmente, a memória das lutas dos trabalhadores, responsável pela conquista de muitos dos direitos que ora vem sendo tirados, assume uma perspectiva histórica por meio de narrativas que permitem unificar em sentido progressivo os ciclos de luta. Ao se fazer isso é bastante comum recorrer à metáfora da trama dos fios preto (no caso das lutas autônomas ou anarquistas) e vermelho (no caso dos comunistas), que se refere ao fundo de continuidade dessas lutas por todas essas décadas.
Atualmente, ao passo que cada evento é apresentado como um acontecimento único (frágil, fugaz ou pura moda mesmo) vale a pena tentar seguir esses fios, por mais precária que essa tentativa possa ser, já que eles nos permitem alcançar a lógica que há muito orienta os diferentes processos. É isto que acontece com o Movimento 15-M, o qual, apesar de muitos de seus membros não terem feito parte de manifestações como o ‘Não à guerra’, ‘13-M’ ou ‘V de Vivienda’, suas mobilizações e práticas são reproduzidas em discursos que reverberam, como os próprios slogans, entre eles.
Nestes casos, não podemos dizer que o fator unificador de todas as lutas que ocorreram na última década é a história de uma mesma classe, ou mesmo uma simples identificação geracional. O que as une todas é um conjunto de fios entrelaçados que foram responsáveis por manifestações dispersas no tempo e que respondem a uma memória subterrânea coletiva daqueles que constituíram um conjunto de práticas e de formas de se fazer política e de se ocupar as ruas.
Esses fios de nylon, transparentes e fortes, são o que nos permite constatar que existem novas formas de redes sociais, para as quais a Internet desempenha um papel central e onde a organização política não passa por uma organização central, seja ela um partido ou sindicato, nem um programa político petrificado. Mas acima de tudo, podemos observar que esses modos de agir, longe de serem passivos, como muitos argumentaram, são capazes de acumular essas experiências, traçar linhas de continuidade e de atá-las em torno de semelhante lógica em momentos políticos e econômicos muito diferentes.
Essas premissas simples são o que têm feito com que nos últimos anos tenhamos testemunhado diversas ondas de protestos com argumentos reiterados contra a corrupção política, as mentiras do governo e essa falsa democracia. E mesmo que estes argumentos tenham sido criticados por serem demasiado vagos e gerais, desqualificados como birra juvenil de quem não consegue propor alternativas, acabam por irromper com enorme força no espaço público.
É verdade que não chegaram a formar uma agenda política, até porque uma das premissas básicas desses movimentos é não ter um programa em sentido estrito. O fato é que a própria classe política, que insiste em cobrar um programa alternativo, tem falhado constantemente, além de mentido em seus próprios programas. O ponto de partida de todos esses movimentos não tem sido a política enquanto uma nobre arte, como se esforça por afirmar Rajoy [1] , mas sim partir do fato inegável de que a política caiu em total descrédito. Assim, em que política é possível acreditar hoje em dia? E a resposta é que só se pode acreditar na micropolítica, na democracia real.
A crença na democracia real não foi desenvolvida no plano teórico, mas pela força das circunstâncias. Como acreditar em uma classe política que invade países contra a vontade de 90% dos cidadãos? Como acreditar em governos que jogam com a autoria de um atentado à bomba para se manter no poder? Como acreditar em um sistema que dá aos mercados o poder de decidir sobre o direito constitucional à moradia adequada? Como não ir contra governos que resgatam os banqueiros e os poderosos às custas do empobrecimento da maioria?
A legitimidade desses movimentos, para além dos slogans da imprensa, é que todos surgiram na defesa de uma verdade inquestionável e se lançaram contra uma série de mentiras ultrajantes: o Iraque foi atacado para melhorar a governança da economia global, o ETA realmente não foi o autor dos atentados de 11 de Maio, moradia não é um direito e a crise está sendo paga pelos mais fracos. Alguém no seu perfeito juízo diria o contrário? Estas verdades não fizeram mais que comprovar que os políticos se recobrem diariamente com um manto de mentiras, corrupção e interesses (dos poderosos). E esta afirmação não é uma apologia ao radicalismo, ela foi confirmada publicamente, não pode ficar tudo por isso mesmo, tem de haver consequências!
Hoje em dia vemos que a classe política caiu em descrédito total. A auto-organização do corpo social abriu uma frente política de redes anônimas de dimensões globais que chuta, grita, protesta, organiza e, sempre que possível, derruba governos. E neste momento, ninguém duvida de que falamos sério.

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Nota: [1] Mariano Rajoy – presidente do Partido Popular (PP) espanhol.



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