Sol, ou quando o impossível virou imparável > Marta Malo





Marta Malo
(Madrilonia, Madrid, Espanha)

Escrever para orientar-se, à velocidade que o momento impõe. Entre a poética e a teoria, escrever para oferecer algo à co-fabulação do mundo, para contribuir, de dentro, para criar a praça, para prolongar o evento que Sol é. Porque, sim, Sol foi um evento: desses acontecimentos inesperados que redesenham o mapa e reabrem o horizonte do possível.

Na manifestação do 15 de maio, feliz da vida com o tamanho da manifestação e a atmosfera nova, uma Radio Mobile Unit entrevistou alguns dos presentes. “Como lhe parece o futuro?”. Apesar da energia circulante, muitos dos entrevistados estavam declaradamente pessimistas: “Parece sombrio.” Na 2ª-feira, quando notícias sobre o acampamento em Sol começaram a pipocar como pólvora nas redes sociais, alguém escreveu numa lista para trocar bens e serviços: “O que importa que alguns estejam acampando, enquanto os outros estão na loja ao lado, comprando?” Importa, porque não era um simples acampamento: o gesto claro de uns poucos se tornou sinal para os muitos: “é agora, ou nunca”. E a fome de fazer soltou-se, a fome de falar.

Um dos graffiti dizia: “o impossível virou imparável.” Não há melhor descrição do evento que Sol é. Generosidade distribuída, sorrisos por todos os lados, grupos de amigos decidem “ir juntos à praça”. Outros, já não desconhecidos entre eles, tornaram-se companheiros num movimento comum, a praça como um ímã irresistível… Uma tarde, o filho de uns amigos, de um ano e meio, pôs-se a gritar “Sol! Sol!”: tínhamos nos afastados, e ele procurava aquele Sol que tanto nos afetou naqueles dias. Há dez dias, ninguém teria imaginado que Sol pudesse ser algo além do centro comercial e turístico de uma capital europeia.

Sol, não como lugar geográfico, mas como evento não esperado, apareceu para derrubar dois dos pilares sobre os quais se apoiava o estado das coisas: de um lado, rompeu o consenso estabelecido depois da Transição, segundo o qual o sistema partidário vigente é o melhor sistema imaginável de governo, e questionar isso seria abrir as portas ao caos e à escuridão da ditadura (contra o “Não se pode cair na tentação de questionar o atual sistema democrático”, de Angels Barceló, o movimento insiste: “Eles chamam o sistema de democracia, mas não é.”)

De outro lado, rejeita a interpretação da crise que a faz parecer um acaso meteorológico, ante o qual não há alternativa além de apertar os cintos. Contra o gerenciamento político da crise econômica, a praça grita: “Não é ‘resgate’. É chantagem!” e aponta os responsáveis, os políticos governantes e os banqueiros.

Excitados, sem conseguir acreditar que, de fato, “alguma coisa se mexe”, ansiosos para desacreditar o que se mexe antes que produza impacto real, os políticos jogaram de volta à praça a chantagem das “alternativas”: “Vocês dizem não, mas não têm nada a propor.” O que eles não sabem é que, para gerações sem futuro, a incerteza sobre o que virá é assunto diário, problema de todos os dias, e Sol nos permite, afinal, viver essa incerteza ao lado de outras pessoas.

Parecia evidente que o efeito do evento-Sol e, em geral, do movimento 15 de Maio nada faria além de aprofundar as tendências eleitorais já existentes. E, sim, a derrota do partido Socialista foi acachapante, mesmo em cidades já governadas pelo partido Popular, como Madrid. E agora?

Os acampamentos (não só o de Sol, mas os outros, em tantas cidades) continuam. Um amigo disse: “Já não se trata de tomar as ruas, trata-se de fazer a praça.” A partir dessa intuição, lanço uma hipótese: só se faz a praça insistindo, cavando mais fundo nos elementos que tornaram possível o que já se fez: a crítica do poder político (“Democracia Real Já!”) e do modo como administra o poder econômico (“Quem tem de pagar pela crise são os responsáveis pela crise!”) como mínimo denominador comum; a cooperação entre muitos como força prática que torna a praça real e tangível, que torna esse mínimo denominador comum não apenas habitável mas prazeroso, algo em que vale a pena insistir. Contra a (auto)representação dos milhares de coletivos e lutas preexistentes, com o correspondente risco de balcanizar a praça, o evento-Sol nos convida a procurar um ponto de conexão, um lugar de onde nós possamos contribuir para esse comum, começando do que somos – claro –, mas também de um compromisso com o que nos uniu.

Não só isso. 15 de Maio confirma a força de um ator que ninguém previu, que se pode chamar de “Passe adiante!”, porque se auto-organiza mediante essa frase-passe simples, proliferante. “Passe adiante!” tem genealogia: das mobilizações contra a guerra, 13 de Março, V de Vivienda [“C de Casa”]. Sem qualquer outra estrutura além das redes de amigos e cooperação social, sem grandes organizações ou programas, com slogans simples, diretos, reagindo contra um evento externo que serve para reunir gente, marcando hora, tornando urgente sair às ruas (a guerra, as bombas do 11 de março, as eleições…). Desde que apareceu, muitos tentaram “convocar o movimento”, fazendo circular datas diferentes pela internet, mas “Passe adiante!” é ator desconfiado, sobretudo de grupos organizados. Filho de décadas de desmobilização política e não-filiação, ainda insiste no poder “do povo”, “das pessoas”. E só dá certo, pode-se dizer, quando convoca peer-to-peer, de ponto a ponto, para a ação.

Perguntaram a um rapaz que chegava à praça, vindo de Bilbao, depois de dias fascinado com o que estava acontecendo aqui: “E agora?” Ele respondeu: “Não temos de ter medo que os acampamentos percam energia. Os ativistas, às vezes, quando ficam excitados com alguma coisa, atiram-se a ela até se exaurir, e acabam exaurindo o movimento, como mãe superprotetora que exaure o filho. Eu não sou ativista. Saio daqui e volto para a minha vida. Depois, quando outra coisa acontecer, eu volto.”

“Passe adiante” aparece e desaparece. Como contribuir sem sufocar. Como habitar a (previsível) diástole do movimento, sem infarto. Como aprender a estar junto como uma parte, pequena parte, mas sempre parte, desse imprevisível ator. São questões que Sol deixa sobre a mesa.

Amigos argentinos insistem: “É tudo muito interessante, mas não é como 2001 na Argentina. Em 2001, os que tomaram as ruas foram os mais atingidos pela crise. Aqui não. Mal se vêem os sinais da crise.” Não interessa pensar sobre um movimento em termos de “o que falta”. O que importa é pensar sobre como Sol afeta os mais duramente atingidos pela crise econômica: os que perderam as casas, os cronicamente desempregados, os que foram definitivamente empurrados para a economia informal, os que não têm documentos nem esperança de regularizar a situação em que vivem porque não têm contrato, ou os que perderam os documentos porque não podem pagar a assistência social…esses terrenos mais penetrados pela “intervenção social”, mais afetados pela des-filiação política…São os grandes desconhecidos, que Sol introduz nessa nova fase. Como eles mesmos se envolverão?

Há muito que andar, mas a paralisia acabou. Podemos sorrir.



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