Segurando o Abacaxi (Rubens Pileggi)




Rubens Pileggi

Era uma tarde quente de sol. Sexta-feira, véspera de carnaval. Alguns dos participantes estavam fantasiados para a ocasião. Outros carregavam um abacaxi de plástico como adereço mais do que condizente com a situação das artes plásticas no Rio de Janeiro. Afinal, alguém há de descascá-lo.O encontro do pessoal da Carta ao Presente e Futuro com Cláudia Zarvos, gerente de artes plásticas da Prefeitura do Rio de Janeiro, foi aberto pela artista Paula Trope:

“… nossa preocupação é com o fazer artístico e suas interseções com outras esferas da sociedade. Estamos aqui interessados em participar, opinar e debater as políticas públicas, no que diz respeito à nossa área de atuação, as artes visuais contemporâneas”.

O grupo da Carta ao Presente e Futuro nasceu nos debates sobre políticas culturais para a cidade do Rio de Janeiro, realizados no evento FEBEARio no Espaço Cultural Sérgio Porto em 2008. Estes debates desencadearam uma mobilização de artistas visuais, críticos, curadores, pesquisadores, educadores, produtores e representantes de instituições. Profissionais que há muito estão dispostos a descascar o abacaxi.

Embora heterogêneo, para esse grupo representatividade não deve ser apenas um slogan publicitário, mas uma demanda do momento político que vivemos, na busca da produção de uma esfera pública de fato democrática, constituída pela multiplicidade de manifestações nas quais a arte está incluída.

Por conta da exclusão da classe artística dos processos das políticas culturais, nem sempre – ou melhor, quase nunca – as ações públicas conseguem se desdobrar em resultados positivos, obrigando todos a uma tomada de posição.

Quando o ex-prefeito César Maia tentou impor a construção do Museu Guggenheim na área portuária do Rio de Janeiro, em 2003, numa atitude em dissonância com os interesses da arte carioca e nacional, a classe artística se articulou e conseguiu impedir a conclusão de um projeto que nada mais revertia à população do que o direito a ver, do lado de fora, mais um elefante branco privado beneficiado com o dinheiro público. Naquela ocasião, nasceu o bloco carnavalesco “Vade Retro”, manifestação político-momesca alinhada com as reivindicações das artes visuais.

Aliás, no último carnaval, com o tema “Vade Retro Crise: Arte dá Dinheiro!”, o Bloco garantiu a festa na tarde de terça-feira, atravessando o Arpoador até as proximidades do Posto 9, repleto de foliões de todas as categorias e nacionalidades, confraternizados nas lutas, nas dores e nas alegrias.

O FEBEARio (Festival de Besteira que Assola o Rio de Janeiro) ampliou o leque de modelos de manifestações artísticas – tradicionalmente pautadas nas exposições de obras em galerias e museus – com rodas de bate papo, intervenções enérgicas, performances, além da exposição que ocupava as galerias do espaço. Nesses debates quinzenais tiveram continuidade as discussões acerca das políticas culturais cariocas iniciadas em 2003 com o episódio Guggenheim. Foram convidados profissionais das artes com distintas experiências e trajetórias, inclusive com a participação de representantes do Ministério da Cultura, entre outros.

Seguiram-se várias reuniões que culminaram na elaboração de uma carta – fruto de um processo democrático, aberto, horizontal, participativo e transparente – colocada na internet para a subscrição de outras pessoas da área, entre artistas, curadores, teóricos, críticos, pesquisadores, estudantes de arte e demais envolvidos e interessados nos desdobramentos e desenvolvimento das artes visuais contemporâneas na cidade.

Foi com base neste documento – a “Carta para o presente e futuro das artes” (em anexo) – que se realizou a primeira reunião com a então futura Secretária Jandira Feghali e o recém-nomeado Subsecretário de Difusão e Democratização Cultural, Humberto Araújo. No encontro, ambos garantiram abertura, incentivo e participação da classe nas decisões em sua gestão à frente da cultura, na cidade.

Com a nova administração já empossada foi feita, então, outra reunião, desta vez com a presença de Cláudia Zarvos e do vereador e Subsecretário de Integração e Projetos Especiais Mario Del Rei, na Prefeitura Municipal. Nesta ocasião, a curadora e crítica de arte Luiza Interlenghi, assim colocou a questão:

“Queremos representatividade. Para que haja apoio à produção. Apoio à realização de exposições, ao debate crítico, à pesquisa, residências, publicações…”.

A “Carta para o presente e futuro das artes” faz um apanhado das manifestações artísticas produzidas no Rio de Janeiro e sua ressonância, tanto nacional, como internacionalmente. Busca, também, mostrar a importância das instituições para o desenvolvimento, produção e circulação da arte. Elabora criticamente as relações culturais e econômicas, que ocorrem de forma muitas vezes paradoxal, convergindo em uma cidade de histórico altamente favorável, mas que sofre pela falta de um programa claro do Estado em relação à Cultura. Além disto, a carta afirma a questão da experimentação como marca da ousadia dos artistas e agentes culturais cariocas. Finalmente, lista 21 solicitações, das quais cinco pontos são prioritários. São eles:

  1. Indicação, por parte da classe artística, de representantes na Comissão Mista da Secretaria de Cultura formada por integrantes da sociedade civil;
  2. Abertura de um canal de comunicação, consultoria e decisão entre um Conselho integrado por artistas visuais, pesquisadores, curadores, e pessoas de notório saber na área, e a Secretaria;
  3. Garantia de que dois Armazéns da área portuária sejam destinados às Artes Visuais, caracterizando-se como espaços de múltiplo uso;
  4. Lançamento de editais públicos para financiamento de pesquisas em arte através da concessão de bolsas de produção e pesquisa, financiamento de projetos, entre outros e para ocupações de espaço nas instituições geridas pela prefeitura;
  5. Discutir as ações públicas que visam privatizar ou semi-privatizar os espaços culturais, durante a atual gestão.

Além da carta, outras ações foram e estão sendo disparadas na tentativa de reunir a classe artística em torno do movimento deflagrado, entre elas, um blog que contém o histórico do que foi realizado até agora. O grupo segue mobilizado de forma rizomática, auto-gestionada e vivencial, buscando novas formas de atuação e diálogo com agentes do poder público, enquanto aguarda o desdobrar das decisões tiradas na reunião. Entre elas, ficou acertado um primeiro contato com Gilberto Gouma, gerente dos Centros Culturais, que passaria o perfil e a política adotada em cada um deles, e a organização de um seminário sobre políticas culturais e instituição.

Passado quase um ano de nosso primeiro contato com a gestão da atual administração municipal – embora sem muitos avanços no diálogo – o grupo se prepara para tentar acompanhar, de maneira propositiva, a I Conferência de Cultura da Cidade do Rio de Janeiro, anunciada pela Prefeitura e prevista para outubro, fazendo representar as dúvidas e inquietações da classe. Ou seja, o que persiste, todavia e sempre, é o DESEJO POLÍTICO de existir em contato direto com o Estado. Um Estado que não seja impositivo ou escorregadio, mas aberto para dialogar com as diferentes vozes da sociedade.

ACESSE NA INTERNET:

Blog: http://cartaaopresenteefuturo.wordpress.com

Petição: http://www.gopetition.com/online/23579.html


¹ Naquele momento, presentes: Aimberê Cesar, Cristina Ribas, Joana Csekö, Julia Csekö, Luiza Interlenghi, Maurício Ruiz, Neno del Castillo, Paula Trope, Rubens Pileggi, Sonia Salcedo e Suely Farhi. Participam ainda Bárbara Szaniecki, Clarisse Tarran, Daniela Mattos, Ricardo Basbaum e Sheila Cabo.

² Com samba-enredo de Mauricio Ruiz.

³ Organizado pelas artistas Joana Csekö e Julia Csekö.

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