Alberto de Nicola
Gigi Roggero
Bill Readings escreveu “The University in Ruins” em meados dos anos noventa (1996, na edição da Harvard University Press). A Universidade estatal está em ruínas, a universidade de massa está em ruínas, e a universidade, enquanto lugar privilegiado da cultura nacional, também está em ruínas. A própria cultura nacional está em ruínas. Podemos ler esse processo a partir da nossa perspectiva de participação em movimentos do trabalho vivo: este é o ponto de vista no qual situamos nossa análise. E, tanto a crise da universidade, quanto a da cultura nacional, foi determinada, acima de tudo, por esses movimentos. Não temos nenhuma nostalgia, portanto. Na realidade, a ‘empresarialização’ e a construção de uma “universidade global”, para usar as palavras de Andrew Ross, não são uma imposição unilateral. São processos baseados em relações sociais, ou seja, relações de força. Não achamos útil se opor a este processo em nome do passado, nós contribuímos para sua supressão. Ao contrário, temos que transformar esses processos em um campo de conflito. Devemos investir contra eles em um estágio avançado: este é o problema. Precisamos analisá-los para descobrir formas de resistência e linhas de fuga.
Mas, o que é a universidade atualmente? Do ponto de vista capitalista, é um dos locais de hierarquização da força de trabalho. Os mecanismos de valorização, desvalorização, desmantelamento e segmentação da força de trabalho estão baseados no conhecimento e no controle da produção de conhecimento. Mas, a universidade não é o único espaço para tal controle, pois há um transbordamento da produção de conhecimento das instituições de ensino: esta produção se difunde pelas redes de cooperação social, redes que são, por sua vez, ambivalentes, uma combinação conflituosa de autonomia e de comando capitalista, de lutas por liberdade e resultados apropriados pelo mercado. Assim, no contexto mais amplo das metrópoles, a universidade se torna cada vez menos central na hierarquia capitalista, embora continue sendo um local de grande concentração espaço-temporal da força de trabalho.
Como é que o valor é produzido na universidade? Quando o conhecimento se torna um meio central de produção, o problema capitalista é a forma de medi-lo. Na última rodada do debate da edu-factory, vimos que também nisso que chamamos de capitalismo cognitivo ocorre “cognitivização da medida”. Ou seja, há uma imposição de unidades artificiais de medida a fim de reduzir o conhecimento vivo a conhecimento abstrato. O direito autoral e de patentes, os créditos estudantis, a acumulação de capital social e humano, a redação de referências para pesquisadores e professores – Matteo Pasquinelli fala de uma espécie de ‘economia das referências’ – são exemplos dessas unidades artificiais. Também há unidades artificiais para medir o valor de cada instituição na hierarquia universitária. O culto liberal da meritocracia está morto, e nós não o lamentamos de forma alguma. Hoje em dia, a universidade corporativa está baseada em um rentismo parasitário. E, deste ponto de vista, é paradigmática do capitalismo contemporâneo.
A hierarquização da universidade não é regida por uma dialética da inclusão e exclusão. No capitalismo global contemporâneo não há mais “fora”, não existe exterior possível entre a universidade e a metrópole, existe apenas um interior marcado por relações de exploração. A inclusão diferencial foi a resposta dada aos movimentos que nos anos 60 e 70 desafiaram a governança universitária. Nos EUA, a resposta ao movimento Black Power e à criação de instituições autônomas de Black Studies conjugou repressão brutal e inclusão diferenciada. Esse tipo de inclusão diferenciada fica evidente, por exemplo, nas estratégias da Fundação Ford de financiamento seletivo aos programas de Black Studies, favorecendo os moderados e marginalizando os radicais. Neste sentido, a governança universitária contemporânea visa incluir para poder controlar. Mas, isso também significa que a tal governança é um processo aberto e permanentemente em crise, que se baseia na impossibilidade das formas clássicas de governo do trabalho vivo. Neste cenário, como dizem Sandro Mezzadra e Brett Neilson no seu recente livro Università Globale. Il nuovo mercato del sapere, a produção de fronteiras se torna o principal dispositivo de governança e de multiplicação dos regimes de trabalho: as fronteiras não são linhas que dividem processos de inclusão e exclusão; elas são móveis, flexíveis, são áreas de hierarquização em constante mutação.
Por outro lado, há sempre um excesso relacionado à inclusão do trabalho vivo/conhecimento. Deste ponto de vista, as fronteiras também são espaços de resistência e linhas de fuga. Os trabalhadores precários e os estudantes – enquanto trabalhadores, e não como força de trabalho hierarquicamente integrada no processo de ensino – são enunciados da fronteira. O que não significa que eles sejam marginais ou figuras oprimidas não totalmente incluídas: eles são um excesso potencial no processo de hierarquização. Nós aprendemos uma lição importante com a recente mobilização de “pesquisadores precários” na Itália: quando os pesquisadores precários reivindicam exclusivamente o reconhecimento do seu lugar na hierarquia da força de trabalho e sua inclusão na torre de marfim, este excesso é encerrado em termos políticos. Ou seja, a “classe criativa” ou os “trabalhadores do conhecimento” não são apenas categorias das teorias sociológicas. Eles são, acima de tudo, conceitos políticos. Por um lado, legitimam o conceito inútil e anacrônico de “divisão internacional do trabalho”; a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual – bem como a divisão do trabalho por gênero, a divisão entre trabalho produtivo e reprodutivo, ou ainda entre trabalho cognitivo e afetivo, etc. – não é objetiva, mas um dispositivo para hierarquizar e controlar a potência do trabalho. Por outro lado, os atores da “classe criativa” querem reivindicar seus direitos legais no regime de inclusão diferenciada, mas não colocam esse regime em questão.
A universidade não ocupa uma posição central na produção capitalista. Mas é central enquanto espaço político. Na última rodada de debate apareceram alguns ótimos exemplos de mobilizações de alunos, de estudantes de graduação e de trabalhadores precários de todo o mundo: da China aos EUA, da Grécia à Itália, da África do Sul à França. Se usarmos os termos do ‘operaísmo’ italiano – a relação entre a composição técnica de classe (fundamentalmente baseada na divisão capitalista do trabalho) e a composição política de classe, que aponta para a combinação entre as relações de exploração e os processos de subjetivação, os conflitos e a identificação coletiva, podemos dizer que os trabalhadores da universidade (ou seja, estudantes e trabalhadores precários) são centrais na composição política da classe, não na técnica. Entre as lutas dos trabalhadores e a composição de classe existe uma hierarquia, mas ela não é determinada pela hierarquia capitalista: ao contrário, ela se baseia na articulação entre as posições no sistema de produção e a subjetividade, ou seja, na recusa potencial da hierarquia capitalista. E esta hierarquia é constantemente questionada pelas próprias lutas. Embora exista uma relação entre a composição técnica e a composição política, não há homologia e simetria. Neste sentido, como podemos transformar a universidade em um espaço político de luta e êxodo? Esta é a questão. De fato, a metáfora “edu-factory” não significa que a universidade seja o mesmo que as fábricas industriais. Pelo contrário, ela indica que temos que nos organizar como os trabalhadores industriais fizeram, mas de um modo diferente e com diferentes tipos de instituições.
Esta é a base específica do problema da tradução. A difusão da universidade de língua inglesa como um modelo de “universidade global” ocorre através da tradução contínua, uma “tradução homolinguística”, para usar as eficazes categorias propostas por Naoki Sakai e Jon Solomon. Na Itália, por exemplo, o modelo de universidade corporativa não foi completamente desenvolvido, mas combinado com a conservação do poder feudal na academia. No entanto, este não se opõe à tendência empresarial. Pelo contrário, o poder feudal é a maneira particular em que o modelo corporativo é traduzido para o sistema universitário italiano. A interrupção da tradução capitalista na universidade global não implica o retorno à universidade nacional da cultura, mas pressupõe colocar o problema da tradução (isto é, “tradução heterolinguística”) a partir do ponto de vista do trabalho vivo/conhecimento. “Tradução heterolinguística” se refere à questão da relação entre a composição técnica e a composição política da classe, entre singularidade e a produção do comum, e também à comunicação das lutas. Esta tradução se move em uma dimensão espaço-temporal autônoma e intercepta o plano global do capitalismo, embora não coincida com ele. Hoje em dia, qualquer um que use o modelo historicista e tradicional de centro-periferia é incapaz de analisar o desenvolvimento capitalista global. Acima de tudo, não consegue ver que este modelo foi abalado pelas lutas e pela irrupção das margens no centro.
Habitar ruínas, como considerou Bill Readings, ou seja, continuar habitando, mas sem nostalgia. Habitar ruínas sem se fechar em guetos eletivos, e aí temos o problema central: como podemos organizar a liberação da potência do trabalho vivo/conhecimento? Como podemos passar pelos filtros e pelos guardiões da inclusão diferenciada, pela governança universitária e seu rentismo parasitário? Temos que distinguir entre o gueto e a autonomia. O gueto é completamente funcional ao regime de governança: é uma forma particular de inclusão diferenciada. A autonomia é a libertação da potência coletiva. É luta e êxodo, resistência e linhas de fuga – a recusa do conhecimento dominante e a produção de conhecimento vivo antagônico. Chandra Talpade Mohanty defende que o que constitui a segregação, do ponto de vista do poder, poderia ser transformado em autonomia para criar saberes oposicionistas, do ponto de vista da transformação. Este ponto de vista é constituído pela atuação das minorias, não enquanto minorias marginais, mas centrais. Temos que abandonar o ponto de vista da maioria, ou seja, o universalismo e a exportação de modelos universais. A grande questão relativa às instituições implica a necessidade de ir além da dialética entre ação institucional e anti-institucional. Habitar as ruínas envolve as lutas e a resistência contra a universidade corporativa, atuando nas fronteiras, e a construção imediata das instituições do comum. Como demonstra edu-factory, há uma série de experiências de auto-educação ao redor do mundo, universidades autônomas e redes organizadas de produção de conhecimento antagônico. O principal problema, agora, é a organização e a tradução destas experiências em instituições do comum. Ou seja, instituições permanentemente abertas à sua própria subversão – não universalistas, mas baseadas em singularidades irredutíveis – visando à construção do comum e da gestão coletiva da cooperação social.







