O teatro para além dos eixos (Atílio Alencar & Leonardo Foletto)






Atílio Alencar de Moura Corrêa e Leonardo Foletto

Integrado ao Circuito Fora do Eixo, o Palco Fora do Eixo surgiu no início de 2010 a partir da necessidade de agregação e potencialização dos grupos teatrais independentes de todo o país, a exemplo do que vem acontecendo em anos recentes com a música. Num país de dimensões continentais e com tamanha exuberância cultural, um dos grandes desafios que se apresenta – e que se mostra indissociável do processo de formação de público – é justamente a criação de rotas de circulação viáveis e que democratizem o acesso aos espetáculos, numa realidade em que teatro ainda parece sinônimo de arte elitizada ou restrita aos círculos herméticos de pesquisa na área. Assim, é no mínimo ousada a proposta dos coletivos que engendraram o PFE: resgatar – sem cair na cilada fácil da caricaturização oportunista – o sentido mais radical da arte popular, adequando esquetes, espetáculos e performances à locais e públicos os mais diversos – e quase sempre distantes do que é tácitamente aceito como imprescindível em termos de condições estruturais. Pois foi ali mesmo onde a precariedade parecia configurar um obstáculo, que a criação coletiva viu uma veia potente a ser explorada. Armazéns abandonados, bares, praças e outros palcos provisórios passaram a ser encarados como zonas autônomas temporárias, numa lógica de ocupação produtiva e prazerosa marcada pela mobilização festiva, bem ao encontro do que descobrimos ao revirar as raízes do teatro ocidental. Não é a toa que uma das ações do PFE que mais vem chamando a atenção leva o nome de Ditirambo – alusão direta às celebrações dionisíacas que banhavam de vinho as ruas da Grécia Antiga – e prima exatamente pelo excesso, pela indivisibilidade entre cultura e cotidiano. A cultura tornada, de fato, coisa pública.
Só em Santa Maria, município da região central do Rio Grande do Sul, pelo menos cinco grupos tem se reunido não só para conceber ações teatrais, mas também para discutir cada inciativa enquanto movimento, suas demandas de sustentação e a transversalidade com outros agentes da cadeia produtiva. Diferente de outros momentos de efervescência da cena cultural local, o que rege a relação destes grupos no contexto atual são as práticas colaborativas, a ação em rede e o compartilhamento de tecnologias que possibilitam e potencializam a vivência de experiências comuns. Nunca a atuação de tais grupos é reduzida ao palco propriamente dito; desde a divulgação, o conhecimento técnico até a mão de obra braçal necessários para a realização de um evento, todos os momentos são partilhados, resultam do esforço de muitos e tem seus resultados avaliados desde uma perspectiva estruturante, na qual mais que o famigerado “sucesso de público e crítica” importa de fato o quanto a inteligência coletiva cria suas próprias ferramentas de produção. Baseada em princípios auto-gestionários, a coordenação destas células coletiviza concepção, produção e eventuais receitas e opera em níveis de formação que raramente são vivenciados nas universidades – ambiente do qual provém grande parte dos jovens artistas envolvidos com o PFE. Aqui, mais que simplesmente alimentar expectativas em relação ao mercado cultural, cada agente vivencia experiências que conduzem para além do estabelecido, gerando a partir da sua criatividade as condições de trabalho e vida. A pesquisa estética nunca é relegada à um segundo plano – porém sempre compreendida como parte de um processo em que a política, em sua acepção mais ampla, não é uma mera questão acessória, mas sim, a própria dinâmica que constitui tais relações.

E inevitavelmente, a proposição de políticas públicas para a cultura integra as pautas do Palco Fora do Eixo – o que implica em abrir diálogo frontal com os setores públicos oficialmente responsáveis pela cultura.

Mas como é vista esta movimentação toda pelo poder público?
Aqui cabe o relato de uma conquista interessante do PFE – ainda na cidade gaúcha de Santa Maria, nas palavras de uma das coordenadoras nacionais do movimento e integrante do Macondo Coletivo, Cláudia Schulz:

“Após uma madrugada de intenso vento norte na cidade de Santa Maria, centro do Rio Grande do Sul, o dia 1º de setembro de 2010 amanheceu cheio de esperança para um grupo de cerca de 20 pessoas, oriundas de vários grupos teatrais da cidade. Por volta das 08h30, era fechado um acordo para a ocupação de uma sala (a de nº 5) do complexo da Antiga Gare da Estação, onde atualmente se encontra a Secretaria de Cultura de Santa Maria.”

Após dois meses de reuniões e conversas, o Palco Fora do Eixo conquistava a sua primeira sede própria no país – e embora não existam garantias quanto ao tempo de cedência do espaço, é consenso entre os grupos que a ocupação de tal aparelho público já constitui, em si, um passo largo para o movimento.

A pemanência da sala nas mãos do PFE parece diretamente ligada às possibilidades de democratização do acesso aos produtos culturais lá veiculados – e à visibilidade que o processo de organização em rede pode conferir a tais ações. Com o que a comunicação integrada de coletivos do país inteiro pode contribuir para isso?

A resposta parece óbvia: ao evidenciar cada ação pontual enquanto momento expressivo de uma amplitude, as mídias livres integradas ao processo garantem a ressonância necessária ao movimento, tornando inquestionável a força de um circuito destas dimensões – para administradores públicos, inclusive.

Com pontos espalhados pelo Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais, o PFE já ensaia um avanço rumo às demais regiões onde atuam os coletivos Fora do Eixo, numa proposta de tornar cada célula um canal auto-gestado e colaborativo de artes integradas. O projeto, em âmbito nacional, conta hoje com os coletivos Macondo (RS), Enxame (SP), Colméia Cultural (SP), Goma (MG) e Megalozebu (MG).

O Circuito Fora do Eixo, rede da qual o PFE é um desdobramento, é hoje uma das principais redes de produção e circulação de cultura no país, presente em todas as regiões do Brasil e também na Argentina. O intuito da nova frente é o de buscar a articulação de diversos grupos independentes de teatro, dança e perfomance em torno de um potencial comum, que não é outro senão o de mostrar e viabilizar a sua arte para o maior número de pessoas possível. E, também, o de fomentar e estimular a capacidade criativa dos profissionais das mais variadas artes, iniciando assim um processo de interação entre as diferentes linguagens que compõem o novo modo de criação artística contemporâneo.



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