Continuamos aqui – Arte e Política (Cyrille Larpenteur, Xelo Bosch)





Cyrille Larpenteur e Xelo Bosch

Todos os espanhóis tem direito de desfrutar de moradia digna e adequada. Os poderes públicos promoverão as condições necessárias e estabelecerão as normas pertinentes para tornar efetivo esse direito por meio da regularização do solo de acordo com o interesse geral para impedir a especulação.
Artigo 47 da Constituição Espanhola

De forma incontestável, a prática urbanística está estritamente ligada ao mundo liberal. O espaço está determinado pelas instâncias de poder e a arquitetura participa – de maneira totalitária – na produção desse espaço. O habitante acata as regras.

Desde a emergência dos Lumières, o pensamento ocidental dominante – o pensamento straight (heterossexual, masculino, branco) – pretendeu (e ainda pretende de múltiplas formas) “fazer brilhar” o mundo desses saberes. Uma hierarquia mais ou menos subjacente se desenha dentro da valorização, orquestrando a desvalorização de toda uma categoria de saberes. A pretensão ilusória de uma marcha frontal até o progresso pretendidamente observável das ciências ainda é o leitmotiv da dita “civilização” relegando a um nível inferior o que não é considerado portador de uma melhoria aproveitável para a humanidade.

Poder reconhecer a singularidade de cada um, no que diz respeito aos saberes, parece ser, mesmo sem estar formulado como tal, um enfoque abordado por teóricos (como Deleuze, Foucault e De Certeau…) da corrente dos anos 70. A criação do Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP) por Michel Foucault e Daniel Defert parece ser o ponto de partida de uma reflexão sobre os saberes considerados até então como naïfs, locais, particulares e pontuais. Ao participar da criação do GIP, Foucault quis permitir uma prática crítica política que não produzisse saberes de especialistas e sim saberes qualificados como sujeitados. A criação do GIP não foi uma gestão orientada para produzir saberes sobre as prisões nem a dar aos prisioneiros um novo objeto de saber. Para Foucault, se tratava de fazer os detentos falarem, de pôr em primeiro plano seus saberes tidos como hierarquicamente inferiores, e enfim de considerar os prisioneiros como sujeitos e não como objetos de saber.

O contexto de nossa intervenção ocorre em um acampamento de famílias ciganas que forma reagrupadas enquanto esperam por ser instaladas na cidade. “O encontro” foi o nome dado pelo município a esse conjunto de casas pré-fabricadas e concedidas dentro de um processo de “integração” de cinco, ampliado a onze anos. Durante as eleições municipais, com a participação das famílias de “O encontro”, o espaço de propaganda eleitoral foi ocupado para dar visibilidade à comunidade: Continuamos aqui.

Nossa intervenção “Continuamos aqui” constitui trabalhos nos quais se desenvolve uma prática que não é a de produção de saberes de especialistas, mas sim de produção de saberes sujeitados. Os poderes majoritários tendem a minimizar e a ocultar as diferentes reivindicações das minorias. O interesse deste gênero de intervenção é o de dar visibilidade às múltiplas reivindicações das minorias, compartilhar experiências trabalhando ativamente no terreno da politização da vida cotidiana.

Tradução de Barbara Szaniecki



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