Os Roms, uma população desconhecida e perseguida (Olivier Borus)


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Olivier Borius

O verão 2010 francês se tornou finalmente muito quente. Não pelas temperaturas, mas pelas polêmicas nacionais e internacionais que o Presidente Nicolas Sarkozy gerou com seu discurso dito de Grenoble1.  O discurso é na verdade uma declaração de guerra, com um tom e uma retórica que não é sem lembrar Sergio Cabral e os moradores das favelas, contra os traficantes e os voyous2.  Esse discurso constitui agora uma marca no mandato dele. Terá um antes e um depois o discurso de Grenoble.

A polêmica vem principalmente da estigmatização do estrangeiro, que seja francês ou não, feita ao longo do discurso : assimilação da imigração com a delinquência -que até hoje apenas a extrema direita fazia-, previsão da perda da nacionalidade francesa para as pessoas de origem estrangeira tendo cometido um crime -que criaria duas categorias de francês, colocando assim um fim ao principe republicano de igualdade-, fortalecimento da política de luta contra a imigração clandestina e contra a implantação de acampamentos clandestinos dos Roms –que faz da França um dos únicos paises da Europa, com a Italia, a levar uma política massiva de expulsão dos Roms, se colocando em contradição com o direito europeo que prohibe a expulsão de cidadãos europeos, o que são os Roms.

Ora, a consequência direta do discurso foi justamente a intensificação da expulsão dos Roms. Trezentos acampamentos deviam ser destruidos, e mais de mil roms foram expulsados durante o mês de agosto. Isso gerou uma condenação quase unânime da comunidade internacional : o Parlamento Europeo, a Comissão europea, a presidência do Conselho europeo, o Papa Bento XVI, a ONU, os Estados Unidos, muitos paises europeos como o Luxembourgo, a Alemanha, a Austria, a Finlândia. Também, a imprensa estrangeira se mostrou violenta, bem mais do que a imprensa francesa, para condenar essa política, que o sábio New York Times qualifica de “xenofóbica”.

Na França, os Roms são entre 250 000 e 500 000. Na Europa, não a Europa dos 27 mas dos 40 Estados europeos, são entre 8 e 12 millions. É uma população desconhecida e mal amada. Originaria do norte da India, ela se instalou na Europa há sete séculos. Trata-se de um povo europeo, antes da hora, sem estado, mas com uma cultura, uma língua, um hino e uma bandeira. Um povo sem território própio, que faz dizer que onde têm Roms, tem Europa. Eles são cidadãos do mundo sem saber. São do mundo antes de ser europeos. Cosmopolitas, não são sem pátrias, eles têms muitas.

Rom significa “homem” na língua romani. Os Roms constituem um povo pela lingua, a historia. Sofreram, como os judeus, um genocídio da parte dos nazistas. Conheceram em Roumania, como os negros, séculos de escravidão.
Os Roms, ou Ciganos, vivem por grupos de famílias muito unidas entre elas. Eles foram considerados como nômades, enquanto a maioria é hoje sendentário. Na verdade, não são nômades, são móveis,  porque freqüentemente deslocados ou perseguidos.

Na frança, chama-se “gens du voyage3”, mesmo se a maioria deles não viaje. A locução “gens du voyage” é uma apelação administrativa apenas francesa. Não tem equivalência na Europa. Ela permite nomear os Roms ou Ciganos pois a França não reconhece nenhuma minoria. Ora, pelo número, os Roms constituem a primeira minoria cultural da Europa. Eles têm uma representação na ONU, e uma delegação no Conselho da Europa.

Desde 1990, uma lei impõe às cidades francesas de mais de 5 000 habitantes de instalar terrenos para receber os « gens du voyage », terrenos com acesso à agua e à eletricidade. Ora, muitas poucas cidades respeitam a lei. Então, os roms não têm muito escolha, e instalam os acampamentos de maneira ilegal, em condições de vida difícis.

Assim, é um povo que chama atenção, interpela porque é diferente. Os Roms nos questionam. Se afirmam como uma nação sem teritório e contestam a todo homem o direito à propriedade individual do chão.

Os Roms são rejeitados, estigmatizados, excluidos e agora expulsados, porque não se integram. Eles têm uma identidade forte que eles não querem abandonar. O grande medo deles é tornar-se um Gadjé, ou seja, um não Rom. Eles vivem entre os Gadjé, mas não como eles.

Assim, os Roms nos levam a questionar o modelo social dominante. Eles trabalham para eles mesmos, recusam o trabalho-emprego, o trabalho assalariado. Eles trabalham como artesãos, comerciantes, raramente em empresas. A vida deles, perto da natureza, parece suspeita. A pobreza ou a riqueza deles surpreende : como é possível viver assim ? Como é possível viver sem adoptar o modo da maioria? Como sobreviver ao longo dos séculos sendo sempre e em todo lugar perseguido? A resiliência deles ao longo dos séculos apesar dos regimes políticos fica um mistério. Também a relação deles com a terra, do homem com a terra, à natureza, ao trabalho.



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