Só uma mulher para o amor vencer o ódio (Bruno Cava)


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Bruno Cava

Mais do que a continuidade de um governo dos muitos — que nunca-antes-na-história produziu riqueza no processo mesmo em que a difundiu –, a eleição de Dilma Rousseff exprime a potência de um novo país. Um Brasil que nunca cessa de renascer, na generosidade, na coragem e no amor — virtudes daqueles que não têm medo de se levantar diante das injustiças e lutar pelo que desejam. Um devir-Brasil que insiste em ressurgir da memória dos vencidos, saindo da Sala 101 para ocupar o Palácio da Alvorada.

Sobre os ombros do gigante multitudinário que foi (e ainda é!) o acontecimento-Lula, o novo governo reunirá mais e ainda melhores condições para aprofundar a mudança. Descortina-se uma oportunidade privilegiada para concretizar a democracia no seu sentido pleno, onde todos têm acesso aos direitos, à renda, à diferença, à participação política e cultural.

Esta foi a vitória dos excluídos, das minorias, do povão das periferias e do interior, do litoral e da Amazônia, dos saltimbancos nômades e dos espíritos livres, de todos os que preferem viver a aventura do desejo a sobreviver de esperança e temor. Venceu a militância alegre e desprendida, tão afirmativa nas ruas e praças, sobre a campanha de ódio dos rastaqüeras, fuxiqueiros e madames, tão negativa na grande imprensa. Venceu o “Dilma é Muitos!” sobre o “Deus me livre!”.

Em suma, perdeu a mais insidiosa máquina montada desde os anos de chumbo. Um organismo peçonhento e conservador, cuja dinâmica emotiva lembra o ritual dos <http://en.wikipedia.org/wiki/Two_Minutes_Hate>Dois Minutos de Ódio. De fato, foram quase trinta dias de ódio, de preconceitos e recalques veiculados pela grande imprensa e pelas rodinhas ressentidas. Teve de tudo: sexismo, racismo, fundamentalismo, regionalismo (sobretudo o franquismo da direita paulista). Com direito à histórica telefraude da bolinha de papel, e à intervenção ultramontana e hipócrita do Papa.
Mas a marcha da liberdade não legitima que falem por nós, que expropriem a voz dos muitos em nome da “opinião pública”, forjada por jornalões, revistas e âncoras televisivos. As lutas se potencializaram com as novas mídias e as redes sociais, que vão além da internet e se disseminam na multidão.

Tentaram vender o Céu, mas quem prevaleceu foi o sentido da terra. Às promessas de salvação do “homem de bem”, escolheu-se a felicidade terrena, construída aqui-e-agora. Entre os especialistas em moral e os políticos da democracia, preferiram-se os últimos. E tornamo-nos eles: como pontos das redes de mídia e de cultura, como enlaces políticos e politizados de uma experiência viva revigorada pelas urnas.

Esta mulher não cabe em nossas categorias, porque, hoje, Dilma é muitas e todas as mulheres. Como elas, já dizia Neruda, sorri quando quer chorar, ri quando está nervosa, e chora quando está feliz. Tal qual Eva: poder constituinte que liberta o homem da transcendência e arremessa-o à imanência do mundo, no reino dos desejos e da liberdade, pelo qual se luta e se constitui a democracia.



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