A opção democrática contra os novos fundamentalismos > Cunca Bocayuva





Intervenção em “Encontros Moviola” na Livraria Moviola, RJ, organizado por Rodrigo Guéron  em 21/10/2010

Cunca Bocayuva

“O governo Lula e o manejo da potencialidade do capitalismo. A mobilidade plebéia”

Vou tentar pensar três coisas: o momento em que estamos; o que está em jogo; e as opções que temos. Estamos tentando pensar a conjuntura. Já vimos que há o modo de administração da política e da estratégia de sustentação do governo Lula, que definitivamente não dá certo.

Não dá certo fazer uma política centrada nos aparatos e no fisiologismo. Vulnerabiliza, leva a mensalão, enfraquece e pisa na militância.
Não dá certo fazer um tipo de campanha conduzida pelos publicitários, por cima, de salto alto. Não dá certo, tem de convocar a militância.

Não dá certo tentar garantir a vitória, na ideia da base da sustentação: precisa de mobilização crítica. Isso aprendemos e agora está confirmado. No primeiro turno, as máquinas financeiras predominam, os interesses desproporcionais, os interesses menores predominam, a base de apoio meio que desaparece, os parlamentares eleitos nem sempre vêem para o protagonismo, e é preciso uma energia real de política.É um aspecto interessante de estarmos vivendo esse segundo turno. Isso suscita paixões.

O lado ruim é que evidentemente, não desenvolvemos uma estratégia de avaliação crítica, de dizermos o que, além do que Lula já fez, a Dilma poderia avançar? Não fizemos avaliação crítica e autocrítica, não assumimos um tipo de postura analítica crítica e um tipo de mobilização programática. Agora e depois, temos um preço a pagar por isso. Mas o adversário não tem programa.

O adversário não tem programa, porque o programa apresentado pela experiência do governo Lula é um plano de mobilidade social muito intensa, quero dizer, maneja toda a potencialidade do capitalismo brasileiro no que é possível, de ampliar mercados de massa, garantir segurança alimentar, produzir dinâmicas redistributivas, fortalecer ações educativas, garantir políticas de identidade, promover direitos setoriais…

Evidentemente, embora não realize reformas na propriedade fundiária (mais difícil entrar na questão da propriedade da terra), o governo Lula foi governo em que se viu brutal mobilidade social. Há hoje 23 milhões a menos de pobres e 30 milhões a mais de pessoas em novos padrões intermediários, que se pode chamar de uma classe média, e que o pessoal tem chamado de “uma gentry”.

Estamos falando, em 200 milhões, de uma virada de 50 milhões. É claro que, quando esses 50 milhões de pessoas fazem essa virada, elas não têm nenhuma obrigação de pagar qualquer tributo eleitoral pela própria virada. Elas viram como donas de seu nariz e da forma como vão expressar-se.
Cabe evidentemente às forças políticas organizar a energia dessas 50 milhões de pessoas, disputar com eles os novos desejos que eles passam a ter.
Marina [Silva] entrou nessa chave ambivalente desses desejos. Ela trabalhou o desejo da ordem da “santidade”, de uma moralidade abstrata, articulada por interesses e garantias de um pensamento de segurança religiosa, junto com um mecanismo de desenho da temática ambiental, que de fato ficou fragilizada e tem limites, no processo do governo Lula.

E o adversário, i.e., aquilo que vem desse liberalismo tosco a que ficou reduzido o PSDB, e dos aparatos que são de um capital bancário de uma aristocracia intelectual que vem de um Paulistério – pq Serra é um reduto de um Paulistério que articula um conjunto de interesses – procurou fazer essa sua política de classe que não pode ser explicitada, se transformar [em plataforma política], essa política de cultura de classe, esse mal-estar com a vitória de um operário, que nunca foi engolido, com alguém que vem de baixo, com essa vitória de Lula, essa vitória plebéia.

A era Lula trouxe mobilidade plebéia. Tem mulher, negro, favelado, operário, na vida social brasileira, circulando na cidade. O tema da favela está posto.

Evidentemente, independentemente de o governo Lula não ter resolvido tudo isso numa chave de esquerda, a sociedade brasileira produziu isso. As questões apareceram, as questões ficaram visíveis. Não dá para esconder a cor das pessoas, o sexo, os desejos, tudo isso ficou visível. Não dá para marchar pra trás. Minha esperança de que Dilma vença brota daí, de que não dá pra marchar para trás. Tudo isso ficou visível. [fim da Parte 6, em http://www.youtube.com/watch?v=KsThwc71P2A&feature=related]

Segue em Parte 7 http://www.youtube.com/watch?v=xSFHIaqnnkQ&feature=related

Mas sustentar isso exige que se entenda a possibilidade de manejar o mal-estar e o medo. O que se fez: uma operação para produzir uma ideia de temor e de demonização da Dilma. Esse processo funcionou, por sua vez, porque Dilma estava prisioneira de um mecanismo de “só precisamos administrar os louros do governo Lula”. Mas os louros do governo Lula são vitórias de todos e tem de ser defendidos por toda a sociedade.

Há também uma avaliação do governo Lula que diz que o lulismo pôs muita gente no governo, gente que entrou por concurso. Seja como for, essas pessoas existem, estão trabalhando. Mas essas pessoas não foram mobilizadas para defender as políticas que elas mesma fazem. Eles devem sentir orgulho do que fazem, mas têm de agüentar os ataques que fazem ao governo Lula pela política de Cultura. Os gestores públicos e assessores não trabalham na campanha contra os que atacam o governo Lula. O pessoal do ministério da Cultura, por exemplo, que foi barbaramente atacado. Gil foi barbaramente atacado. Mas o pessoal do ministério não sai para a campanha de defender o que eles mesmos fazem. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há uma prática generalizada: dá 6h da tarde, acaba o expediente, e o pessoal vai pra rua, fazer campanha cada um pro seu partido. Mas em grande escala no Brasil, isso não existe.

Essa forma “partido” ela se traduz hoje de outras maneiras, em redes, em processos sociais, em espaços de produção intelectual, em máquinas produtivas. Esse espaço em que estamos aqui é espaço político: nós estamos “tomando partido”, “partidarizando”, nesse sentido, a discussão.
É fundamental que se tome partido, isso produz a democracia. No conjunto, isso vai produzir um resultado. Não há problema algum em a mídia, O Globo, ser partidarizado. Tudo bem, eles também tomam partido, normal que tomem, são partido, revelam sua face. Isso produz nitidez.

O problema é quando mobilizam um modo de produção permanente que combina intriga, medo, prejulgamentos etc., um conjunto de tecnologias ideológicas que assumem uma produção brutal de preconceitos e repulsas, em lugar de discutir as políticas! Não se vai para a televisão para discutir na TV se foi interessante a política educacional e universitária exitosa executada no país. Não se discute que para ciência e tecnologia, em vez de 400 milhões, temos hoje 4 bilhões de reais. Não se discute a política dos pontos de cultura, os territórios indígenas, a política quilombola, não se discute que o adversário não elegeu um negro. Não se discute que as mulheres estão na cena pública. Não se discute que Plínio e Marina foram do governo Lula. Não se discutia isso. Foi como se Marina não tivesse sido ministra do Lula. Não se discute que Lula garantiu Marina, anos a fio e, reciprocamente.
Claro que ela tem direito de avançar. E evidentemente, temos o direito de cobrar MAIS de Lula e da Dilma. O segundo turno, pra mim, é ocasião para dizer que há algo do petismo a ser resgatado. Não se pode reduzir o petismo a um conjunto de lógicas a que está reduzido hoje [por muitos petistas], ou a um lulismo.

O petismo é uma idéia que permitia estrategicamente uma nova prática política de massas, que pegava os que vivem de seu trabalho e da sua produção; e punha no centro da vida pública. A idéia de que os que produzem precisam ter cidadania, que os pobres  que produzem riqueza e o trabalho vivo tem de estar no centro da política. Isso foi trazido pela era Lula e não pode ser escamoteado.

Mas isso nos veio numa chave de uma demanda das pessoas que é tanto por emprego, quanto por consumo. A era Lula avançou nas dinâmicas do consumo, mas permanece prisioneira das limitações financeiras globais, de um modelo exportador de commodities, de uma sociedade que ainda tem um desejo marcado pelo individualismo, por formas problemáticas no trato da vida cotidiana etc.
Mas o mais grave, na conjuntura que estamos vivendo, é que o objetivo é sempre criminalizar o outro, criminalizar o desejo do outro: olhar o jovem negro e ver um criminoso potencial; olhar o desejo da juventude e criminalizar; olhar a independência da mulher, e criminalizar. Criminalizar a independência da Dilma e criminalizá-la. Marina também é independente, mas não foi criminalizada. Alguém viu o marido da Marina? Ela tem marido, mas não foi criminalizada por ter voz própria, tem mobilidade social, tem potência do feminino e da mulher, tem potência do índio. Tudo isso há na sociedade brasileira. Em alguns casos essas coisas são criminalizadas, não em outros.

Tudo isso está no Programa de Direitos Humanos III. Por isso ele foi atacado. Ele expressa programaticamente essas demandas e essas potências. De fato, nem se leu, de fato, o Programa. Porque o Programa defende direitos básicos, mínimos, que tornam a sociedade brasileira extremamente avançada. Porque a sociedade brasileira necessita de direitos civis e políticos e de liberdades – porque nossos liberais não defendem liberdade radicalmente – à altura de uma modernidade contemporânea. A sociedade norte-americana e a sociedade iraniana com seus fundamentalismos precisam reconhecer esse protagonismo dos direitos, dos homossexuais, das mulheres, sobre a juventude, sobre os direitos da infância. Esses direitos são permanentemente atacados há muito tempo. Porque tudo tem de ser resolvido na chave criminal. As cadeias estão cheias, e adianta o quê? A Polícia, quanto mais é violenta, mais é corrupta e inverte seu papel.

Essas posições que se manifestam aqui não são posições oficiais, são reflexões pessoais, mas têm o direito de se expressar na sociedade em diálogo, em tensão, com o campo governista. Afirmando certos aspectos das políticas e das liberdades construídas.

Não vejo problema algum no que diz O Globo, inclusive porque já é possível montar alternativas midiáticas produtivas, como vemos aqui. Produz-se assim uma quantidade enorme de informação. Muita gente nos ouve, nos vê e nós vemos outras coisas. O maior medo da mídia é a mídia. O maior medo da elite é a contra-elite que surgiu na mobilidade plebéia que a realizou no Brasil. Há outra elite que aparece com outra cara, outra cor, outro jeito e diz “Também quero participar da festa”.

E há muita gente na Índia, na China, nos EUA, por aí, muita gente olhando a festa brasileira e dizendo “Queremos fazer como vocês”. Para nós é pouco. Nós reclamamos. São anos e anos de peso escravista, de peso colonial, de exclusão. Mas já há excesso de riqueza. E temos de negociar a riqueza brasileira.

A Reforma Fiscal? Tem de vir. Fazer com que o capital pague mais, pelo seu custo de longo prazo, pelo que custa à sociedade. Reforma Política? Fazer com que o recurso público democratize mais a sociedade. Por isso não é feita. Fala-se dela, mas não se faz.



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