A opção democrática contra os novos fundamentalismos (Ivana Bentes)


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Intervenção em “Encontros Moviola” na Livraria Moviola, RJ, organizado por Rodrigo Guéron  em 21/10/2010

Ivana Bentes

Não sei se são velhos fundamentalismos. Talvez interesse chamar a atenção hoje para as estratégias que foram mobilizadas para trazer hoje à discussão, para recolocar em pauta hoje, os velhos fundamentalismos.

Acho que a novidade, em termos de cultura de massa, é que nunca se discutiram abertamente no Brasil alguns desses temas trazidos por essa campanha eleitoral: o aborto, o Estado laico… São questões que se explicitaram, afinal, de um modo que permite ver como a emergência dessa pauta, de uma forma conservadora pode ser um ponto de partida extremamente positivo para reverter-se essa pauta – depois da eleição de Dilma.

Nesse sentido, me oponho um pouco ao hiperativismo pessimista do Guerón [risos], e já antecipo aqui o meu otimismo crítico.

Claro que é momento de tensão, as coisas ainda não estão definidas, mas vejo de forma positiva a emergência desses temas. Não, evidentemente, o modo como estão sendo trazidos e tratados. Quanto a isso, acho que as estratégias de mídia são decisivas e devem ser discutidas.

No primeiro turno, ainda tivemos alguma boa discussão da pauta política, sobre os avanços nos programas de políticas públicas. Tivemos alguma discussão política, sobre os programas implantados pelo governo Lula, Bolsa-Família e outros.

Mas o segundo turno – e é onde se vê que a questão da mídia é decisiva na pautação desses temas específicos e para pautá-los em alguns momentos, não em outros – foi pautado por uma ideia, por um slogan que esteve na base da campanha de Serra e foi a ideia sobre a qual trabalhou a empresa que fez a publicidade da campanha, segundo a qual, a nossa ‘marca’ seria “uma crise moral”.

Já que eles não conseguiram, na discussão dos programas, empurrar para um impasse o projeto político, o projeto de Brasil do governo Lula, restou a eles impor a pauta da tal “crise moral”, uma suposta crise moral, é claro. As questões ligadas aos Estado laico, ao aborto, aos direitos dos homossexuais entraram aí.

Todos esses direitos já estão de forma muito clara no Plano Nacional dos Direitos Humanos. E quando foram apresentados lá já criaram certa reação, mas, naquele momento esses temas não foram trazidos à tona, pela mídia. Agora, então, eles voltam àquele tema. A verdade é que essa reversão ao discurso moralista, centrada nos ‘bons costumes’, voltou, agora, associada à possibilidade de Dilma ser eleita.

Não citaram o Plano, mas ele apareceu algumas vezes, sempre oferecido como ‘prova’ de que não se trataria de discussões vazias, mas que, sim, esses ‘riscos’ existiriam, no caso de Dilma ser eleita. Assim ‘reativaram’ a tal ‘crise moral’.

De novidade, só, que, antes, havia o discurso moralista de direita, e ele agia, mas muita gente não assumia esse discurso moral de direita. As pessoas tinham vergonha, jornalistas, intelectuais, sociólogos, a classe média, não explicitavam seu discurso de direita. Agora, assumiram. Na mídia, chama muito a atenção: articulistas, jornalistas, sociólogos explicitaram um discurso de direita, há produção acadêmica, há toda uma universidade mobilizada para constituir um ideário conservador, de direita, que reivindica para si o direito de existir. Isso, antes, não estava explicitado e, agora, apareceu de modo muito claro.

Claro. Há a questão dos meios de comunicação tornados órgãos de publicidade de um só programa e de uma só campanha, de uma elite.

Mas a questão moral já havia aparecido na primeira eleição de Lula – questões morais, de ‘ética’, foram também um dos motes daquela eleição. Também lá se mobilizaram questões de ética, de moral, sempre usados como elementos para expor a ideia da ‘não-confiabilidade’ do governo Lula. E voltaram na segunda eleição de Lula e, agora, na eleição de Dilma. O argumento voltou, como voltou a coisa de o programa do governo Dilma ser igual ao dos governos Lula: os avanços estão aí, mas ela tampouco seria confiável.

E por aí se entrou numa argumentação, num discurso irracional, numa emocionalidade, numa irracionalidade, emocionalidade que é traço típico do discurso midiático. E isso acabou por mobilizar toda a campanha política.

Episódio exemplar desse movimento e da centralidade que ganhou na campanha é o dramático evento do ataque da “bolinha de papel”, que já apareceu ridicularizado até no Le Monde.

Paralelamente, aí também apareceu o contradiscurso forte, um ativismo forte, que faz oposição à mídia de massa e já existe nas redes sociais, Twitter, Facebook, e que conseguiram impor-se na discussão. Na segunda eleição de Lula, já havia a militância de resistência pela rede. Mas na eleição de Dilma, afinal, muito velozmente, os discursos da mídia puderam ser quase instantaneamente desconstruídos. Desconstruiu-se tudo, com ferramentas eficazes, muito velozmente. Logo que as primeiras imagens apareceram, viu-se pela internet a utilização da própria linguagem midiática para desconstruir o discurso da mídia, com detalhes, a forma da narração, construindo um contradiscurso, que utilizou a própria linguagem da mídia para desconstruir o discurso da mídia. As capas de Veja foram parodiadas, apresentadas como piada. Hoje há quatro ou cinco vídeos na internet, produzidos por jornalistas profissionais e também por amadores. Hoje, nas redes, as capas da Veja são antecipadas e antecipa-se também a linguagem da mídia, as estratégias da mídia. Isso é muito eficaz, embora seja ainda pouco e pequeno e, sim, me parece um ganho muito importante.

A própria Globo respondeu ao presidente Lula, embora sem citar o Twitter, às críticas que lhe fez o presidente Lula e lhe fizeram as redes sociais. Hoje, por exemplo, a manchete de O Globo é resposta à reação das redes sociais e reafirma a desqualificação moral do presidente e da candidata, sempre com adjetivos no campo do discurso moral, da não confiabilidade.

A desqualificação moral me parece ser esse último reduto ao qual regrediu a campanha e os discursos da mídia. Nesse campo, sim, me parece que as questões dos novos fundamentalismos que vamos discutir aqui, sim, me parecem importantes. São as questões mais polêmicas e que mexem com questões religiosas, os direitos da mulher, que têm a ver com o aborto e a vida, o casamento de homossexuais. São questões que arrastam todos para esse pântano que é o ‘a moral do outro’. Depois das intervenções dos outros aqui presentes, talvez possamos articular outras consequências disso tudo.

Pra terminar, vejo, sim, possibilidades extremamente positivas, tanto quanto vejo traços extremamente preocupantes, o que se viu nessa campanha.

Temos, sim, de discutir a ‘herança’ desse acirramento das questões morais, do ódio, da criação de tensões absolutamente maniqueístas no campo político, os efeitos de se fazer campanha de torcedor ‘hooligan’, muito dual, e na explicitação disso tudo.

Temos, para o futuro, uma pauta importantíssima a ser levada depois da eleição de Dilma.



One Response to “A opção democrática contra os novos fundamentalismos (Ivana Bentes)”

  1. Gui Mallon disse:

    A história do facismo e nazismo estão intimamente ligadas aos paradoxos da democracia. Hitler farejou a contradição magna, o calcanhar de Aquiles: a possibilidade de derrubada do sistema democrático e instauração da ditadura através de eleições. Bastava convencer a maioria de que o governo da maioria era um erro. Detalhe: Hitler conseguiu isto pregando ininterruptamente durante 13 anos – justamente – a derrubada da democracia e a construção de um governo “forte”, constituído por uma minoria de super homens; gente de raça e moralidade superiores. Por diversas vezes, durante sua trajetória inicial, Hitler esteve para cair nas mãos da lei, mas sempre aparecia alguém para defendê-lo “em nome da democracia” – pessoas ligadas ao capital e ao anticomunismo, já sabemos.

    Mudam os personagens e, guardando-se as devidas proporções, temos o PSDB, Serra, a mídia e o capital. Temos até São Paulo, esta “Baviera” brasileira. Mas a meu ver, cara Ivana, a raiz do facismo/nazismo vem de muito longe: A luta pelo espaço vital, ou a luta contra a escassez.

    A super população e a decadência do modelo econômico baseado em expansão permanente sobre um território finito; o planeta Terra, vai ao final criar uma derrocada geral onde a (re) insurgência de ideologias primitivas virão à tona. É isto basicamente o que estamos observando. A escassez de recursos sempre existiu, pois mesmo na abundância ou nos regimes socialistas os recursos nunca foram usufruidos igualmente por todos, porque decididos por poucos – o que a Ellinor Ostrom demonstrou.

    Holocaustos sempre houveram, em decorrencia da escassez, desde a provável extinção da espécie Neanderthal pelo Cro-Magnon, passando pelas guerras romanas, extinção das populações indígenas e aborígines por espanhóis, portugueses, franceses, belgas, ingleses, e pela atual crise palestina. A causa: espaço vital, escassez de recursos, causadas principalmente por conflitos demográficos e – consequentemente – econômicos. O discurso pseudo moralizante da campanha de Serra carregava esta contradição óbvia que era falar contra o aborto, ao mesmo tempo que contra a inclusão social da gestão Lula. Faltava convicção e coerência.

    Mas me parece de todo modo extraordinário, intrigante, que se fala muito sobre tudo menos sobre o principal: o “fim do mundo”. Pelo menos do mundo como o conhecemos nestes últimos milhões de anos, ou últimos 200.000 anos de civilização humana, nosso espaço físico/cultural.

    Vivemos a era do petróleo, espinha dorsal da economia mundial. Todas as reservas combinadas de petróleo, nos padrões de consumo atuais, cerca de 90-100 milhões de barris diários, indica que não teremos uma só gota de petróleo em 2040. As reservas brasileiras terminam antes, em 2020. É evidente que muito antes disso a casa vai cair; quando a produção alcançar o seu pique e não for mais suficiente para atender a demanda (peak oil), a economia da era do petróleo, hoje completamente globalizada e interdependente, vai começar a afundar. O pique será alcançado dentro em breve – há, inclusive, cálculos que apontam que já foi alcançado entre 2008 e 2010, o que justificaria as marolas e tsunamis de 2009. Detalhe: nesta carga de consumo, o petróleo é simplesmente insubstituível – e se diminuirmos o consumo a casa cai. Ou seja; se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

    O meu fundamentalismo é fundamentado, sem simploriedade (e desculpe a cacofonia), nas palavras emblemáticas e proféticas de Ghandi: ”todo aquele que tem mais do que necessita é um ladrão”. Mais sucinto do que isso, impossível.

    Entendo que é complexa a discussão do que é ou não é necessário, pois depende da percepção de cada indivíduo + contextualização de significados existenciais, econômicos e políticos por parte do estado e suas leis. A lei, na sua origem, sempre foi estruturalmente sistêmica, resultado de pactos que procuravam equilibrar as necessidades de indivíduos desiguais.

    Resumindo, acredito que só a plena evolução do poder jurídico (ou da cultura da lei) pode resolver os paradoxos da democracia. Enquanto estivermos falando de justiça ao mesmo tempo que procurando burlar a lei, sonegando impostos ou estacionando na calçada (não importa a singulariedade do ato mas o efeito cascata), aí estaremos lutando contra o estado, nossa última esperança de justiça … e caindo no nó cego da Tragédia dos Comuns que pode nos levar à Catástrofe Maltusiana. A evolução do estado passa pela evolução dessa consciência, do desenvolvimento de uma cultura da lei.

    Este mesmo princípio se aplica a todo o resto. Como falar de justiça social usufruindo das vantagens de classe; uísque escocês, carro, viagens de avião, consumo indiscriminado e apolítico de tudo? (E, confesso, eu ainda não consegui me excluir totalmente destes padrões que denuncio).

    Pode parecer ingênuo, mas este ideário será, a seu próprio tempo, incendiário. Existe um grande risco destas ideias serem apropriadas pela direita, basta ver a guinada do Partido Verde. Temos sorte de não termos hoje nenhum grande “artesão-escriba” do lado de lá, um Jackson, um Alceu, até mesmo um simples Lacerda ou um Goebbels, pois os calcanhares de Aquiles são inúmeros. Se o Ministério Público fosse usado, por exemplo, contra o Programa Cultura Viva do MinC – com suas flagrantes violações de contas públicas – teríamos outro escândalo que iria paralizar esta outra grande obra pública, cultural. Assim como foi feito com muitos PACs.

    Discute-se tudo sobre temas periféricos, menos o fundamental. Sei que aqui estou propositadamente torcendo o significado que se dá usualmente as palavras fundamentalismo e moralismo, mas talvez seja necessário refletir sobre a emergência e mesmo a necessidade de um novo fundamentalismo, que combata outros fundamentalismos. Ivana Bentes propõe um tema “fundamental” (minhas aspas) quando diz: “temos, para o futuro, uma pauta importantíssima a ser levada depois da eleição de Dilma” que é “a discussão da ‘herança’ desse acirramento das questões morais, do ódio, da criação de tensões absolutamente maniqueístas no campo político”. Se presenciamos este acirramento em plena abundância econômica da gestão Lula … imaginem então como será na era de escassez que virá. Pois virá, sem dúvidas.

    Gui Mallon




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