A opção democrática contra os novos fundamentalismos (Giuseppe Cocco)


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Intervenção em “Encontros Moviola” na Livraria Moviola, RJ, organizado por Rodrigo Guéron em 21/10/2010

Giuseppe Cocco

O fascismo, o fundamentalismo de tipo novo, não está, em minha opinião, por exemplo, num vídeo que me mandaram – e fiquei indignado que pessoas que eu conheço tenham-se atrevido a me mandar aquilo –, e que, no “Assunto”, trazia a expressão “Dilma Ladra”. O vídeo mostrava um discurso do [deputado] Bolsonaro (que foi eleito aqui no Rio, na coalizão governativa, pra vermos como as coisas são enroladas). O vídeo acusa a candidata Dilma, hoje candidata, de crimes dos quais a ditadura a acusou, há muitos anos.

O que quero dizer é que o fascismo não está, em minha opinião, no fato de se usarem temas fascistas. Dizer que alguém estaria reintroduzindo no Brasil do século 21, por exemplo, o integralismo. Não. Acho que o fascismo está, isso sim, no uso instrumental de um debate, que acaba se transformando numa armadilha, que reduz completamente o espaço da democracia.

Nesse exemplo, não falo do fato de alguém usar instrumentalmente um vídeo pra fazer alguém perder votos. O fascismo está, sim, em dizer que o que vale na valoração moral da legalidade ou ilegalidade (“ladra” ou “não ladra”) é o que disse um tribunal de exceção, de uma ditadura militar.

É como se Togliatti, líder comunista italiano, voltando de Moscou, depois da 2ª Guerra, é como se a Democracia Cristã italiana usasse, para falar de Togliatti, no debate político, sentenças dos tribunais de Mussolini sobre Togliatti. Como se De Gaulle, voltando junto com os aliados para a França Vichyista libertada com os aliados, fosse apresentado nos termos do que os tribunais Vichyistas e Petainistas diziam dele. É uma coisa muito preocupante.

Não se trata apenas de tentar usar o medo: de fato, se introduzem na discussão critérios inaceitáveis de valoração moral.

Mas não é fenômeno só brasileiro. Na Espanha, por exemplo, houve o juiz Garzón, juiz importante, que mandou prender Pinochet, que sempre teve desempenho muito correto na ordem liberal, e tornou ilegal um partido que reunia 20, 25% do eleitorado no país basco. Desmontou o Herri Batasuna, partido ligado ao ETA. Mas, quando começou a aplicar aos franquistas a mesma lei que aplicara aos ditadores chilenos e argentinos, o juiz Garzón passou a ser acusado de ter ligações com o ETA e foi destituído e está sendo acusado de abuso de poder.

O que quero dizer é que há um retorno dos temas, mas o problema não está em que alguém tenha hoje, no Brasil, um projeto fascista, porque isso não há. Ninguém tem projeto fascista. O que há é diferente.

Não há projeto fascista no Brasil, mas há, sim, um fundamentalismo, sim, que funciona como um fascismo, ao meu ver. Qual é a marca desse fundamentalismo?

Começo com outro exemplo. Logo depois que publiquei um artigo de opinião na Folha de S.Paulo, a favor de Dilma [1] e discutindo aspectos do desenvolvimentismo (o que, aliás, discutimos aqui mesmo, na última reunião que tivemos aqui), telefonou-me um amigo, elogiou o artigo, e tal, e disse “[só não concordo com defender Dilma, porque] Dilma é hipócrita”. Perguntei: “Mas… por quê?” “Porque ela dizia que era a favor do aborto, e agora diz que é contra.”

E eu: “Ora essa! Você queria o quê? Que ela agora deveria dizer que defende, que deveria assumir tudo que lhe atribuem… sem discutir nada, sem avançar argumentos, se deixar pautar pelo que lhe atribuem? Ninguém discutiu nada! Não há espaço pra discutir nada!”

Como funciona esse debate? Exatamente como funciona no fascismo, no nazismo, que são formas de mobilização das massas que não se fazem como construção da democracia, mas como perda de democracia, pelo impedimento de todos os debates. Cria-se o obscurantismo. E perdem-se todos os espaços de debate.

Como se responde a alguém que diga o que eu ouvi do meu amigo? Que, para vencer a eleição, Dilma deveria assumir tudo o que lhe atribuem e atribuem para fazê-la perder a eleição… O debate ficou impossível.

Esse obscurantismo não é volta ao passado, os novos obscurantistas usam a internet, todas as ferramentas. Operam por dentro, para destruir toda e qualquer possibilidade de debate – e isso é que é importante [fim do primeiro filme]

Outro exemplo: o Daniel Cohn-Bendit andou pelo Brasil, circulou por aqui antes do no primeiro turno, e deu entrevistas [2]. Fez críticas violentas ao governo Lula, disse que o governo Lula tinha políticas de desenvolvimento do século passado (aliás, não faz nem dez anos! [risos]).

Eu tenho amigos franceses que trabalham com ele, no movimento ecologista, que se está unificando na Europa. Eu disse a eles: “[Cohn-Bendit] andou aqui, acho que não entendeu nada.” Ficou por isso mesmo.
Agora, no segundo turno, voltei a fazer contato com eles e disse: “Bom, agora, há risco real de a direita vencer. A Marina e o PV, no mínimo não vão tomar partido; e muitos deles consideram assumir a direita. O que vocês vão fazer?”

E eles, lá, fizeram um documento, muito moderado, com críticas à Dilma, mas dizendo aos ‘verdes’ brasileiros que eles têm de assumir o rumo da esquerda. Me mandaram o documento.

Peguei o documento e liguei para a FSP, com quem tenho alguns contatos, às vezes publico lá, e ofereci o documento. “Estamos interessados”, me disse alguém. E nada. Voltei a ligar, e me disseram “Mas o pessoal que assina não é gente muito conhecida…”. Digo eu: “Desculpa, mas, quando passaram por aqui, antes, vocês acharam que sim, eram muito conhecidos. Agora, acham que não…”

Os signatários são dois ex-ministros do Meio Ambiente da França, três co-presidentes dos verdes europeus, que é a 3ª força na Europa, na França vai ser força decisiva nas próximas eleições, sempre aliados à esquerda, são todos senadores, há a senadora-prefeita de uma subprefeitura com 100 mil habitantes, da Grande Paris, que sempre foi governada pelo Partido Comunista, Montreuil, o José Bové, da Via Campesina, militante da agricultura familiar, ligado ao MST, super conhecido no Brasil… E nada.

Dias depois, me liga outro jornalista da FSP, de Brasília, e me diz: “Estou interessado no manifesto, mas queria saber se é normal que os verdes europeus tomem posição em eleições em outros países…” E eu: “Bom, quando eles andaram por aqui, no primeiro turno, vocês acharam que era perfeitamente normal…” [risos]

De qualquer modo, aproveitei pra dizer que “esse manifesto foi escrito porque, dado o peso político que estão ganhando, os verdes europeus são atravessados pelo debate sobre que lado estão, se devem ficar neutros no início, e depois se alinhar a um lado ou outro. Então, nesse caso, estão aproveitando em primeiro lugar, para apoiar a esquerda no Brasil. E aproveitam para dizer, também, que, caso a opção se apresente na Europa, a opção pelo candidato progressista, tem de ficar clara, desde o início da discussão.” E ele disse: “Então, a Dilma seria progressista…” Digo: “Eu acho que sim. Eles, também”. Só opiniões minhas, e a opinião do jornalista.

Dias depois publicaram matéria sobre Dilma e os projetos ambientais, em que o Greenpeace contestava os verdes brasileiros que apóiam Dilma [3]. O Greenpeace ganhou espaço, os verdes europeus, não. Ora, que eu saiba, o Greenpeace não é propriamente brasileiro, é global. Acho normal que opinem. O caso é que o Greenpeace tem espaço para opinar sobre o Brasil, e s verdes europeus, não. E o jornalista da Folha de S.Paulo me disse: “Eu escrevi e o editor cortou, porque achou que não era importante.”[4]
Para concluir, queria dizer, sobre os novos fundamentalismos, que acho que o fundamentalismo não é uma volta do fascismo como foi, mas é uma forma de falsificação sistemática, que usa todas as tecnologias, como faz o fundamentalismo islâmico do tipo Al-Qaeda, mas que usa as tecnologias de tal modo que reproduz hierarquias e falsifica o debate democrático.

Acho que temos hoje em ação dois fundamentalismos: um fundamentalismo que está completamente em crise, vertical, que é o fundamentalismo de mercado, que vive de dizer que tem de cortar, tem de cortar, coisa em que ninguém mais acredita. O Brasil somos nós. Cortar o “custo Brasil” significa nos cortar… e privatizar, idiotice pura, ninguém mais acredita nisso.

Vale o mesmo para a tal de sustentabilidade econômica, em que ninguém acredita mais. Sem esse fundamentalismo, todos se mudaram imediatamente para outro fundamentalismo.

Vê-se bem no caso dos EUA, Wall Street. Se se retirar da economia todo o dinheiro que o Federal Reserve pôs na Bolsa, nos bancos, nas seguradoras, a coisa desmorona. A discussão que se tem de fazer tem a ver com o valor político da moeda.

Então, por um lado temos o fundamentalismo de mercado, que usa sempre só o que esse pessoal tinha como conteúdo (“Serra é o melhor administrado”, o “mais competente” etc. etc.) em que ninguém acredita. Daí, então, foram para outro fundamentalismo. Isso é que é preocupante.

O fato de eles terem passado imediatamente, do que se podia ler na imprensa (Serra dizia que não era candidato, depois pôs Lula na propaganda dele). As primeiras declarações do Índio da Costa de fato, até por terem sido tão desencontradas, anunciavam que eles iam passar imediatamente para outro fundamentalismo.

Fato é que essas paixões tristes ficam.

Não podemos analisar com leveza, porque parecem que serão derrotados, e mesmo que sejam, tomara, porque essas paixões ficam.

Ficam no retrocesso do debate, do debate que se poderia, mas não se pode fazer, de defesa da candidatura progressista. E elas ficam, também, em termos da mobilização social. Temos, sim, de estar muito, muito, muito preocupados

Vê-se que já está acontecendo também nos EUA. É a mesma coisa, no movimento Tea Party, uma mobilização muito mais radical em termos de novo fundamentalismo do que os Republicanos de antes, e que está impedindo que se concretize, até, o pequeno avanço anunciado pela eleição de Obama. E o que está acontecendo na Europa também tem elementos muito importantes de radicalização, em termos de novo fundamentalismo, por exemplo, no crescimento da xenofobia.

O que estamos assistindo hoje, nessa involução da campanha pró-Serra, não é a defesa do neoliberalismo e das privatizações, mas é exatamente o que será o pós-neoliberalismo do ponto de vista da direita. Parece que haverá uma volta do discurso estatal, de direita, autoritário, pesado, que nós, em geral, subestimamos, subavaliamos.

Temos, portanto, que avaliar essa campanha, e temos de estar preocupados, num horizonte que vai além dessa campanha.

A nova direita que vem aí é direita da pesada, e que tem de preencher o vazio do fundamentalismo do mercado, em que ninguém acredita mais, o tucanês, em que ninguém acredita mais.

O risco que enfrentamos hoje é que o “choque de gestão” pode muito rapidamente virar “choque de ordem” [fim do segundo filminho].

Notas de Rodapé

[1] COCCO, Giuseppe, 17/10/2010, “Dilma é garantia do processo democrático”, Folha de S.Paulo, Tendências & Debates, p.3,

[2] “Eu sou um mito”, afirma Cohn-Bendit, Folha de S.Paulo, 25/8/2010, Ilustrada, p. 16,

[3] “Em evento tumultuado, Dilma mostra plano ambiental genérico”, 21/10/2010, Folha de S.Paulo, em .

[4] Notícia sobre o manifesto dos verdes europeus foi afinal publicada em jornal de Mato Grosso, Folha do Estado, só dia 30/10/2010, matéria da redação), e inclui a íntegra do manifesto:Quais verdades venceram a mentira?


Outros textos do Giuseppe no Dilma é Muitos!

Que verdades venceram a mentira?

Publicado em 1 novembro, 2010

Giuseppe Cocco

A verdade que venceu as eleições presidenciais é aquela que os muitos afirmaram na mobilização do primeiro e, sobretudo, do segundo turno e que se traduziu no resultado das urnas.É uma verdade potente, que conseguiu derrotar os dois fundamentalismos que preencheram ilusoriamente o discurso absolutamente vazio de uma oposição que deve sua existência ao controle autoritário dos grandes meios de comunicação. A verdade dos muitos conseguiu derrotar a mentira, quer dizer, a “potência da verdade” derrotou a “verdade do poder”: os pobres e as mulheres ganharam do poder dos ricos e do ódio pelos outros.

O poder dos ricos se funda no fundamentalismo do mercado e de seus números insensatos que gerenciam o sacrifício de nossas vidas e de nosso trabalho à lógica do lucro e de sua acumulação. O poder do ódio se funda no fundamentalismo do preconceito e do medo do outro, da diferença: ódio pelos pobres, ódio pela liberdade, ódio pelos direitos das mulheres.

No dia 31 de outubro, a verdade que se afirmou pela eleição de Dilma tem a potência dos pobres que votaram Dilma, da liberdade pela qual Dilma lutou e do cuidado que as mulheres têm na produção da vida.

Os muitos afirmaram – contra tudo que queriam a mídia dos ricos e o poder dos que pretendem falar em nome do Céu – que a verdade está na luta e na resistência: a luta que Dilma e sua geração travaram contra a ditadura pela liberdade, a luta que todas as mulheres e os pobres do Brasil travam todo o dia pela vida.

A verdade que a vitória da mobilização radicalmente democrática por Dilma constitui é aquela do amor contra o ódio, ou seja do conhecimento contra a ignorância. É no amor pela vida e pelo outro que o conhecimento se afirma como construção sensata da terra e do Céu, do humano e do não humano: terreno concreto da única “sustentabilidade” possível, aquela dos muitos, da democracia: dos pobres. Os colunistas da grande mídia, os porta-vozes dos ricos, do dinheiro e dos salões onde, como disse Chico, se “fala fino”, nunca digeriram o Presidente metalúrgico e retirante. Para eles é insuportável que o pobre tenha chegado à presidência e, pior, exercido o poder sem previamente ser homologado pelo sistema de valores (e diplomas e hábitos) que o poder produz e a partir dos quais se reproduz. Isso é literalmente insuportável para a elite e ela responde destilando cada vez mais seu ódio classista e até racista: quer dizer sua ignorância enquanto ódio, distância dos outros e do mundo, impotência de construir a terra e o Céu.

Diante disso, eles são incapazes de apreender que a forma mais potente de conhecimento é aquela do amor: apesar dos compromissos e das coalizões, dos constrangimentos macro-econômicos e dos limites da micro-física dos poderes, é isso que Lula expressou em suas capacidade de ser muitos. Lula não é nem grande nem pequeno, é muitos! É muitos porque ele é também Dilma e Dilma é muitos porque é também Lula: a verdade dos pobres e a forma mais produtiva de conhecimento que está no amor!

Claro, a partir de hoje, tudo isso volta a ser homologado. Não apenas pelo trabalho dos ricos e de sua mídia, mas também pelas contradições internas às coalizões e as lógicas de poder que a representação contém, inclusive na forma-partido. Nós não temos (e nunca tivemos) nenhuma ilusão. Mas é exatamente por isso que nossa relação com o governo Dilma é e será, como foi com o governo Lula, aquela dos esforços de estar dentro desses momentos de verdade e de amor, ou seja de uma política pelos pobres e dos pobres.

GIUSEPPE COCCO, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outras obras, de “MundoBraz: O Devir Brasil do Mundo e o Devir Mundo do Brasil”.

A Reta Final da Campanha: a Mobilização pela Democracia, contra o Novo Fundamentalismo

Publicado em 28 outubro, 2010

Giuseppe Cocco

O desfecho do primeiro turno parecia indicar uma confrontação cerrada entre dois projetos, Dilma/Lula x Serra/FHC e todo mundo se deixou influenciar pelos resultados das novas pesquisas de opinião.

Na realidade, a situação é muito pior. Pior não do ponto de vista da frustração daquela que parecia uma vitória fácil da Dilma e do PT. O pior é que o Serra/FHC/Indio da Costa não têm absolutamente NADA a propor, a não ser demagógicas promessas de dar continuidade e ampliar as políticas do governo Lula, como o 13o do Bolsa Família.

Os colunistas de O Globo, FSP e Estadão o tinham anunciado logo depois de constatar que a credibilidade do Serra era, na primeira fase da campanha, inferior à umidade do ar! Serra, a grande imprensa em sua totalidade e a elite decidiram então de abrir mão da retórica liberal e apelaram pela mobilização fascista e racista da sociedade. O massacre ao qual foi submetido o PNDH-3, as teorizações sobre Ditabranda, as elucubrações obscurantistas do Instituto Millenium foram indicadores importantes de uma virada para o obscurantismo que é hoje uma tendência geral de uma direita global que não tem mais a competição do mercado para vender (pois o mercado faliu junto com seus fundos derivativos) e nos vendem diretamente o medo e a guerra, a xenofobia e o racismo, o machismo e a violência do espetáculo. A demonização da resistência e da luta (a história de vida mais bonita de uma moça que ofereceu sua adolescência pela liberdade) é o apogeu dessa reação tristemente renovada com a pior de suas caras (dentre as mil que o Serra tem): ela nem tem o muro para defender, ela é o próprio muro inquebrantável do preconceito e do ódio assassino dos pobres e das mulheres!

Chegamos ao ponto incrível de um jornal de importância nacional, O Globo, na edição de 15 de outubro de 2010, p. 16, numa matéria sobre o pedido de outro jornal de importância nacional, Folha de São Paulo, de ter acesso ao processo que Dilma sofreu por mão dos tribunais militares da ditadura, colocar como subtítulo: “Candidata petista respondeu por ‘atividade subversiva’ (…)”. Para municiar a campanha caluniosa que já circula amplamente, chega-se a assumir como padrão de referência um tribunal militar de exceção, em época de ditadura e desaparecimentos. É algo gravíssimo: é como se jornais franceses usassem as acusações dos tribunais de Vichy para dizer que o general De Gaulle “respondeu por alta traição” ou se jornais italianos ou alemães usassem as acusações dos tribunais mussolinianos ou hitlerianos para (des)qualificar os dirigentes da resistência de esquerda nas eleições do segundo pós-guerra. Apesar dos revisionismos, é algo impensável: no 14 de julho desse ano, o coral de jovens da festa da república, diante de Sarkozy (que todo o mundo sabe que não é de esquerda), cantou o hino da resistência !

De repente, como disse o governador eleito do Rio Grande do Sul, o ódio pelo pobres e o vazio político que caracterizam a candidatura Serra acabaram para colocar no centro do cena política as forças golpistas e reacionárias, as mesmas que legitimaram o golpe de 1964.

O enfrentamento nesse segundo turno contém elementos muito mais dramáticos e opõe não apenas Dilma/Lula a Serra/FHC. Trata-se mesmo, por um lado, da democracia, dos avanços democráticos (Dilma/Lula e toda a herança da luta pela liberdade, desde as grandes greves do ABC até as mobilizações pela Direta Já) e, do outro lado, um candidato que dobrou sua pálida retórica gerencial aos afetos tristes dos mortos-vivos, que tem como programa a manutenção da ordem dos torturadores, dos ricos, do preconceito.

A mobilização por Dilma deve amplificar-se proporcionalmente à evolução dos desafios do embate eleitoral.

GIUSEPPE COCCO, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outras obras, de “MundoBraz: O Devir Brasil do Mundo e o Devir Mundo do Brasil”.

Giuseppe Cocco: “Dilma é garantia do processo democrático”

Publicado em 17 outubro, 2010

publicado hoje no jornal Folha de São Paulo.

É só no governo de Dilma que poderemos continuar lutando para transformar o crescimento em um outro tipo de desenvolvimento

O medíocre desempenho eleitoral de José Serra nesse primeiro turno é consequência do esgotamento do discurso tecnocrático que, durante a breve hegemonia da macroeconomia neoliberal, tinha funestamente reanimado os mornos interesses das elites brasileiras.

Por trás da hipocrisia deslavada (até com a demonização dos direitos das mulheres), só resta a linguagem insensata do fundamentalismo economicista: o Brasil é um “custo” a ser “cortado”. É a apologia dos meios (cortes dos custos) contra os fins (todos os brasileiros).

A vitória parcial, mas expressiva, de Dilma Rousseff contém muitos dos elementos inovadores desses oito anos de governo Lula: distribuição de renda, políticas culturais, democratização do ensino superior, formidável criação de empregos formais, demarcação das reservas indígenas e, enfim, uma política externa autônoma.

Contudo, na campanha do PT há também acentos do velho adágio: os fins justificam os meios. O crescimento (os meios) não precisa ser pensado, pois é justificado pelo fim (o desenvolvimento): uma siderúrgica se justifica por si.

A candidatura de Marina Silva foi o fato novo quando ela teve a coragem de dizer que os fins e os meios devem estar juntos. Cultura (desenvolvimento) e natureza não devem se opor, mas qualificar-se reciprocamente, na hibridização que eles são: natureza artificial e artifício natural!

Mas o modo como a “onda verde” juntou os jovens urbanos libertários aos piores fundamentalismos foi dramaticamente paradoxal: os meios e os fins acabaram se opondo entre si, de maneira insustentável.

O segundo turno desenha uma nítida alternativa. Por um lado, uma “coalizão dos meios” se apresenta como novo fundamentalismo abertamente reacionário. Seu regime discursivo é aquele do medo.

Não se sabe o preço social que todos pagaremos pelo leilão de paixões tristes (machismo, sexismo, racismo) atiçado pelos que nada têm a propor, a não ser uma virada protofascista.

Pelo outro lado, a “coalizão dos fins” pode se juntar aos meios e tornar-se sustentável diante dos novos desafios.

Se o capitalismo global inclui (explora) os pobres enquanto pobres fragmentos heterogêneos em competição no mercado, os pobres se organizam cada vez mais enquanto diferenças: favelados, negros, mestiços, mulheres, indígenas, quilombolas, gays, lésbicas, sem terra.

É aqui, nos pobres, que desenvolvimento e natureza estão juntos e o voto ecologista mantém sua potência. Para não ser capturada, a novidade da candidatura Marina deve apostar na democrática hibridização do social (“cultura”) e da natureza (meio ambiente), ou seja, na junção da resistência contra a volta da “peste neoliberal” com as políticas dos pobres.

É só no governo de Dilma que poderemos continuar lutando para transformar a quantidade (o crescimento) em qualidade (um outro tipo de desenvolvimento). A sustentabilidade é aquela da mestiçagem das ondas vermelha e verde, para além de e contra os fundamentalismos.

GIUSEPPE COCCO, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outras obras, de “MundoBraz: O Devir Brasil do Mundo e o Devir Mundo do Brasil”.



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