Sirva-se e serve-se [Pedro Moreira Lima]





Pedro Moreira Lima

Crônica

Lembro disso aí com muito gosto. Caminhando aos pés do morro pra comprar maconha – condição quase redutível do contato de jovens eurocentrados com negros – surgiu-me tal escrito na frente do que parecia ser uma pensão. A letra, em preto, claudicava toscamente sobre uma plaqueta de forte amarelo, fluorescente, pra roubar atenção. Era uma contradição maravilhosa, aquela poesia constituída na fratura da palavra. Uma presença que se dava pela falta. O gozo de um jato denso e fecundo esporrado para além da linearidade da pauta.

Serviam arroz, feijão e macarrão juntos no mesmo prato. Quem almoçava por lá chegava em bando e se expressava num alto volume com molejo, esperteza. Aqueles sons orquestrados denotavam uma familiaridade distante. Logo me ocorreu tal associação: tudo aquilo era muito semelhante ao Rap do Borel, (dos MC’s William e Duda) um sucesso do funk que, nos anos 90, conseguiu superar a barreira do nosso apartheid cultural e ganhar status radiofônico. Um dentre os poucos exemplares permeáveis à surdez proposital e nojenta da classe média.

Foi nessa outra cidade na cidade, nesse Rio de Janeiro intensamente recortado por becos e vielas, é que percebi que não cabemos mais no compasso da bossa nova. A partir daí, entendi toda sagacidade no escárnio de Mr. Catra – sob as comemorações atuais dos cinqüenta anos do movimento iniciado por João Gilberto – quando parodia o refrão da música Tarde em Itapoã, de Toquinho e Vinícius de Moraes.

Uma mamada de manhã /

com halls sabor de hortelã (…)

Nos diverte o cantor, que tem na sua voz uma rouquidão peculiar. A favela se descortinava à vista do estrangeiro, que, antes, só tinha notícias daqueles habitantes nos autos policiais da grande mídia.

E foi na subida desse morro que recebi a olhadela desafiadora. Era talvez um fogueteiro (nos seus quinze, dezesseis anos) do comércio de entorpecentes. COMÉRCIO. Assim pretendo não estigmatizar uma prática que julgo não ser caso de repressão policial. Na disposição das rugas da pele do meu rosto, branco como uma folha de papel, é que o jovem semi-analfabeto parecia ler, tão sagazmente, os sinais de um invasor. Sinais estes que a iconografia da escola não ensina a desvendar. Julguei que, naquele momento, devesse retribuir a atenção, e o rapaz logo veio se aproximando.

Havia uma cicatriz inquietante que se arrastava por quase todo o seu tórax, nu por motivos óbvios de um verão carioca. A marca era tão intensa que chegava a se franjar da pele nas suas extremidades. O que será que ele já tinha parido? O menino interrompeu de súbito a minha reflexão, perguntando aonde que eu ia. Afrontando-me numa voz, já grave, mas que esganiçava no final da frase, típica da adolescência masculina. Prudente, ao perceber a pistola que portava na sua fina cintura, tentei respondê-lo com parcimônia e serenidade. Daí ele abriu um sorriso tímido para logo depois perguntar meu nome. O disse e, forçosamente amigável, perguntei o dele.

-Tá maluco? Como é que cê pergunta nome de bandido!?

Num espasmo seu, fui pego pela nuca e tive o cano da arma fustigado contra o abdômen. Vacilei. Pude constatar que naquele terreno, o que importa vem antes do nome. Antes da rotulação autoral, uma categoria que alicerçava meu entendimento burguês sobre as coisas. Postava-me ali, rendido, após ter sufocado o jovem anônimo na cela estreita da assinatura. O que me restava agir para contornar a situação? Um dos ensinamentos maternos que ainda trago é o de nunca entrar numa batalha para ser derrotado, por isso foi inviável arriscar mais alguma frase. Dependia apenas da sorte, porque o conflito era tão profundo quanto a chaga que meu adversário exibia no corpo. Transcendia não só a escolha das palavras, mas também o seu próprio código verbal.

Até que irrompeu no espaço um homem sobre uma moto. Sua pele era tão preta, que só mesmo numa proximidade razoável era possível enxergar traços da sua feição. E pude experimentar de um grande alívio ao reconhecê-lo, quando saltou à calçada e intercedeu sobre o impasse que ali vivia. Era filho de uma senhora que prestou serviços como doméstica, por muitos anos, na casa onde eu vivia na infância com a minha mãe. Uma grata surpresa, a despeito das suas circunstâncias, porque eu soube logo depois o que o autorizava para agir daquela maneira em meu favor.

O menino que ocasionalmente se encantava ao jogar o videogame recém-lançado que havia no meu quarto, agora também podia comprar o seu. Tinha crescido para se tornar o gerente do tráfico local. Não tinha mais de esperar que esfarrapasse minhas roupas de grifes da moda para que as pudesse usar. Ostentava um par de Nike Shocks, calçado que, de tão caro, até eu dispensava sua possibilidade de compra. Com olhar terno e generoso, convidou-me para acompanhá-lo no lançamento da equipe de som que promoveria um baile funk a poucos metros dali, no fim de semana que se aproximava.

Apesar de, na época, entoar coro que avalia o funk de maneira pejorativa, minha curiosidade foi sobreposta e me impeliu a comparecer. Assim, no cair da noite de sábado, já a dois quarteirões do evento, podia sentir aquele tamanho impacto rítmico ecoando pelo meu corpo. Um som que, de tão intenso, propunha audição suplementar, orgânica, que abarcava seus ouvintes sem pedir licença. Um dionisismo reforçado pelo sentido de repetição que seus instrumentos de percussão denotavam, numa provável ancestralidade com festejos rituais afro-descendentes, como num terreiro de candomblé.

A festa que instigava toda aquela drástica e libertária investigação da corporalidade teve o melhor anfitrião que minha experiência já pôde desfrutar. Sensível ao desconforto inicial da minha alteridade, prestou-me atenção zelosa e bem-humorada. O baile aconteceu num descampado de terra batida, no qual se disputava, ocasionalmente, torneios de futebol. Instalamo-nos sobre a laje de uma casa que tangenciava o espaço, servindo como um camarote improvisado. Permitia ampla visão do acontecimento que, imerso na penumbra, abstraía contornos daquela gente reunida, propagando sua ode à fluidez típica de cada torpor.

Hoje, hoje! Chão, chão!

O berro cotidianista ecoava nas entranhas daquela monumental carne, território inevitável do prazer. Mas, o que de fato me comoveu foi a felicidade do funkeiro. Condição tão invejável quanto despropositada naqueles viventes de uma realidade tão dura, a qual me dispensaria o lugar-comum de suas denúncias. Todos sabem. Tal contradição veio sussurrar depois, já na minha cama, que a felicidade quase sempre é diametralmente oposta à vontade de ter razão. Agora havia descoberto que o fogueteiro pariu o desejo. Agucei, a partir daí, minha compreensão para o silêncio que ensurdece em caixa alta, no escrito do poeta Waly Salomão.

A FELICIDADE DO NEGRO É UMA FELICIDADE GUERREIRA.



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