‘Arraiá’ da Resistência (Fabiano Nunes)




Fabiano Nunes

Quem não está, não existe! Em espaços onde a realidade não necessita ser buscada, que ela se apresenta cruelmente como a companheira fria de uma luta de equalização de direitos frustrada, a luta pela vida é carne. É fome. É resistência diária.

Alguns séculos atrás, um africano guerreiro escravizado – como tantos outros, arrancado de sua terra – profundo conhecedor das forças dos ferros dos quilombos da nossa terra brasilis, não foi vencido pela dureza das chibatadas e pelos interesses dos poderosos senhores: o guerreiro quilombola Manoel Congo propunha a revolução, a resistência, a luta pela transformação daquela relação apodrecida de poder. Proposta difícil para a época da escravidão assumida; proposta de resistência nesta nossa época de escravidão dissimulada e alimentada pelos detentores de poder público (coitados, não sabem o que os espera!). Brasileiro anestesiado pelos interessados em governar um “povo-gado” é expulso de casa e posto na beira de qualquer ventania. Anda sem forças e sem fim, carregando o pouco que restou de si mesmo e de seus filhos. Mas esses restos ainda ateiam fogo às vestes dessa estrutura nojenta de “governo” que se esquece da humanidade, e esquecendo seus irmãos de espécie, assina papéis timbrados num ar-condicionado que resfria o amor. Não. No chão da nossa terra tem sangue e suor do nosso povo escravizado. Da dor nasceu a resistência.

Manoel Congo não morreu, ele está pintado nas paredes e nos músculos de quem não está dormindo. Ele dá o nome da ocupação de moradia que se mantém cada vez mais forte e estruturada, vivenciando uma nova organização social que permite o direito à vida. Os anestesiados que continuem com suas nádegas atochadas nas almofadinhas de estrume, mas ouçam o barulho que vem das ruas, o som da realidade do fim dessa desonra humana que os nossos “eleitos” financiados insistem em manter. A realidade não é estática e quem indicará o caminho da mudança é a necessidade de vida.

REFORMA URBANA é necessidade. Ocupação de espaços públicos ociosos é necessidade. Repensar e reorganizar é necessidade. Gente não pode ser tratada como mercadoria. Não somos números. A vida é mais urgente. A escravidão de concreto vai cair.

O líder guerreiro Manoel Congo e Mariana Crioula, rainha dos quilombos, casaram-se em uma noite de São João, ali mesmo, no centro do Rio de Janeiro, apadrinhados por Dulcina de Morais e Odilon, abençoados pelas crianças e pelos palhaços, numa festa de danças e capoeira, de manifesto e resistência. De braços enlaçados bateremos com os pés no chão e entoaremos a canção em memória do nosso sangue misturado. O sangue um. O brasileiro guerreiro, filho da miscigenação sabe que essa terra é nossa. E se não souber, a gente conta pra ele… Não se governa nem se organiza à base de choque.

“A força fez os primeiros escravos, a covardia os perpetuou na escravidão”, mas da dor nasce a resistência!

Resistir é grito de guerra! E essas, são músicas de guerra:

“A nossa luta é todo dia, moradia não é mercadoria”.

“1, 2, 3, 4, 5, mil, ou faz reforma urbana ou paramos o Brasil!”

“O povo na rua, governo a culpa é sua”.

“Eu só quero é ser feliz, morar tranqüilamente no lugar onde escolhi, e poder me orgulhar e ter a consciência que esse aqui é o meu lugar”.

RESISTIR!

Essa é a homenagem de artistas apaixonados pela história de uma causa nobre e real, da nobreza e da realeza daquela gente sofrida que luta por um espaço digno para morar, propondo novas formas de relação e de organização urbana.

Saudação e agradecimento especiais à Lurdinha, diretora nacional do MNLM (Movimento Nacional de Luta pela Moradia) e diretora geral da Ocupação Manoel Congo, que nos recebe sempre de coração aberto e nos ensina sobre a arte da resistência; à Raquel, coordenadora do grupo de jovens dessa ocupação, lutadora incansável; aos jovens; a todos os moradores da ocupação e, principalmente, às crianças, nossas mestres e motivo maior para que continuemos na luta pela resistência calcada no amor.

E um grande “bravo!” à grande atriz Dulcina de Morais (1908-1996), figura essencial para a transformação dos cenários artístico e político brasileiros, e responsável por inúmeros atos de coragem e resistência cultural.

A força da revolução habita o espaço vivo que há entre os corações de quem vislumbra a transformação, por menor que pareça.

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