1º de Março, um novo início (Sandro Mezzadra)





Sandro Mezzadra

Um novo começo. Disso trata o 1º de março. Desde o início, ao receber as notícias que chegavam dos quatro cantos da península, tive a sensação de que algo novo se punha em movimento. Vozes frescas, emocionadas e, por vezes, surpresas, davam conta de greves de consumo e de greves nas fábricas (“Não precisamos de autorização para fazer greve”, diziam muitos coletivos, zombando da miopia dos sindicatos), de manifestações estudantis e de “lições de clandestinidade”, de passeatas diante do INPS , dos canteiros de obras, de milhares de lugares onde o trabalho dos migrantes é explorado cotidianamente, mas onde também lutam e resistem diariamente. Depois chegaram as fotos, e as praças mostravam desde cedo caras novas de uma composição juvenil na qual se cruzam histórias e cores, línguas e emoções. À medida que o dia passava, as ruas de milhares de cidades italianas foram se preenchendo e confluindo em uma extraordinária expressão da multidão (ao menos uma vez o uso deste termo não é retórico), em rejeição ao racismo e na afirmação de uma nova cidadania. Em Bolonha, assisti a uma jovem migrante responder de forma ríspida a um repórter que lhe perguntava se ali estavam os ‘cidadãos do futuro’: “Mas, o que você está dizendo, na praça estão os cidadãos do presente!” Este sim é o ponto: a dimensão social da cidadania teve, ao menos por um dia, sua vingança contra a dimensão jurídica. A tomada da palavra – singular e, ao mesmo tempo, coletiva – por dezenas de milhares de homens e mulheres mostrou toda a materialidade e o sofrimento que fazem parte da cooperação social e do conflito responsáveis por tornar as cidades que habitamos ricas e dignas de se viver. E revelou, ao mesmo tempo, a miséria da cidadania que se quer impor, reforçada por ‘pacotes de segurança’ e racismo, e desprovida de direitos.
Como se chegou a este dia? Como se chegou, sobretudo depois dos últimos dois anos, em que os movimentos antirracistas e de imigrantes (tutti noi) pareciam incapazes de recuperar o protagonismo diante das agressões diárias e de uma ação legislativa sem precedentes na Itália? É claro que depois de cada ataque houve uma reação, os médicos e enfermeiros reagiram fortemente à perspectiva de se tornarem agentes de polícia e de terem que denunciar os “ilegais”. Em outubro, por exemplo, houve uma grande manifestação em Roma. No entanto, todos advertimos quanto à inadequação das respostas, todos percebemos um certo desgaste e ritualização, tanto na praça, quanto nas assembléias que se seguiam umas às outras. Apenas agora nos libertamos, pelo menos por um dia, dessas sensações. Redescobrimos o espírito, não apenas defensivo, mas literalmente ofensivo, de ataque, que marcou as primeiras manifestações do movimento antirracista e de imigrantes que caracterizou o grande cortejo romano de 7 de outubro de 1989, após o assassinato de Jerry Masslo em Villa Literno, às extraordinárias lutas dos migrantes na década de 90, de Bréscia a Caserta, de Gênova a Roma. Espírito ofensivo, de ataque: o que significa simplesmente a afirmação de um princípio novo, de uma nova norma de cooperação social e de cidadania, baseada no reconhecimento de que este novo princípio e esta nova norma são infinitamente mais ricos que tudo aquilo que a eles se opõe – mesmo que esta oposição possua força de lei e maioria no Parlamento.

As praças e as ruas italianas (também) foram coloridas de amarelo em 1º de março. Creio que se deva reconhecer o mérito de quatro mulheres que, retomando uma iniciativa francesa semelhante que, por sua vez, se inspirou em uma mobilização histórica dos latinos em 1º de maio de 2006 nos Estados Unidos, começaram a percorrer, meses atrás, o caminho que levou ao “dia sem nós”. Sem esta iniciativa, o 1º de março simplesmente não teria existido. Mas façamos uma observação: o amarelo é diferente do violeta. As próprias promotoras da mobilização se deram conta imediatamente de que o caminho que levou até o 1º de março não poderia passar exclusivamente pelas redes sociais, à espera de conseguir um “patrocínio” por parte da Repubblica e de L’Espresso. Não se trata aqui de minimizar a importância da web 2.0, pelo contrário: trata-se de reconhecer que, quando a mobilização não recai sobre a figura do cidadão indignado que clama por legalidade, mas sobre atores sociais que portam, na especificidade de sua condição, violentas contradições materiais, as próprias redes sociais mudam de função, e devem se deixar atravessar, por sua vez, pela materialidade destas contradições, abrindo-se à investigação e à relação e devendo elaborar e praticar de modo original a intersecção entre a realidade da rede e outras dimensões da realidade social. Daí vieram reuniões, comissões, várias iniciativas que anteciparam e prepararam nas semanas passadas as manifestações do 1º de março.

A construção do “dia sem nós” se tornou assim uma espécie de espelho, que reflete a extraordinária riqueza de experiências, formas de auto-organização, conhecimentos e práticas que se consolidaram ao longo dos últimos vinte anos na sociedade italiana em torno da questão das migrações. Associações antirracistas e comitês de migrantes, assessorias jurídicas e clínicas autogeridas, escolas de italiano e associações de mulheres italianas e migrantes, projetos de informação e de pesquisa, associações de voluntários laicas e católicas, e muito mais. Cada experiência desenvolvida pelos comitês e associações que estiveram nas praças em 1º de março desempenhou um papel vital e de valor inestimável para essa reabertura, embora nenhuma delas possa reivindicar exclusivamente para si o sucesso da jornada. Cada cidade, cada praça tinha suas peculiaridades, decorrentes da história específica de migração e das experiências de luta e de mobilização que as caracterizaram nos últimos vinte anos. Mas o valor agregado no 1º de março, seu caráter de novidade potente, veio da confluência de milhares de percursos de auto-organização e no contexto de um espaço comum, livre da lógica de alinhamento repleta de táticas e de cacoetes políticos completamente vazios de sentido.

E assim, uma vez mais, pudemos perceber o protagonismo extraordinário dos e das migrantes, que finalmente emergiu de maneira correspondente ao caráter profundamente heterogêneo e, ao mesmo tempo, maduro da presença de migrantes na Itália. Os pais e suas crianças que frequentam creches e escolas primárias; os alunos e alunas da chamada segunda geração; trabalhadores metalúrgicos junto com trabalhadoras “da atenção e do cuidado”; trabalhadores do comércio e da construção civil lado a lado com os bóias-frias de Rosarno, que abriram a passeata romana. Ao caráter heterogêneo e maduro de todas essas presenças correspondem lutas cotidianas e conflitos que atravessam os campos do trabalho e dos direitos, da cidadania e da rejeição ao racismo, deslocando sob uma perspectiva mais ampla o significado de cooperação e de convivência em nossos territórios e em nossas cidades. Precisamos e devemos valorizar essa heterogeneidade, resistir à tentação de reduzir a um único terreno a multiplicidade de planos em que se desenrolam e se determinam as lutas dos e das migrantes. Temos de intervir utilizando os instrumentos de investigação e com uma tessitura resistente, ancorada nas lutas, com relacionamentos capazes de antecipar e construir materialmente espaços comuns de convergência e de consolidação daquela cidadania que vislumbramos no 1º de março. Um novo início se dizia. Talvez seja o caso de especificar: o dia 1º de março foi memorável. Cabe a todos e todas nós fazermos dele realmente um novo início.



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