O Norte perdeu o Sul (Olivier Borius)





Olivier Borius

Hoje, como de costume, eu consulto os jornais brasileiros e franceses online. Esta manhã, estou curioso para ver como a imprensa francesa tratou da criação de um novo bloco regional na América Latina e Caribe, sem os Estados Unidos e o Canadá, que aconteceu na véspera, dia 23 de fevereiro. Surpresa! Nenhuma repercussão. Nem o Libération, nem o L’Humanité, nem o Le Figaro, falam disso. Eu consulto então o maior telejornal nacional do país, TF1. De novo, nada. Nada o dia 24, dia 25, dia 26. O único artigo (pequeno) que eu encontrei foi no Le Monde, dia 25, na seção Internacional. Eu disse surpresa, mas na verdade, faz muito tempo que não fico mais surpreso. A única coisa é que eu não consigo me acostumar. Me acostumar com essa pretensão e essa arrogância. Da França, da Europa, da América do Norte, ou seja, dos países ricos do Norte, para simplificar.

Um detalhe a criação desse bloco? A presença de trinta e dois presidentes e chefes de governo no México para comemorar esse evento não é suficiente para chamar a atenção dos países ricos do Norte? Nem a provocação do Presidente Lula, que questionou a soberania britânica nas ilhas Malvinas, e a pertinência do Conselho de Segurança da ONU? Ou será que é por isso justamente?

Outro exemplo, mais dramático, o golpe de Estado em Honduras. Mesma coisa, mesma pretensão, mesma arrogância. O Libération chegou a se questionar se se tratava mesmo de um golpe de Estado. A primeira revista semanal da França, o Nouvel Observateur, nunca escreveu a respeito. Na realidade, podemos continuar assim interminavelmente, a lista é longa.
O Norte não quer dividir o poder. O centro de gravidade da governança mundial não deve mudar, e tudo é feito neste sentido. A reforma da ONU para poder integrar novos países no Conselho de Segurança e ser assim mais representativo? Faz mais de quinze anos que começou, e está parada. O FMI e o Banco Mundial? As decisões baseiam-se no princípio “um dólar, um voto”, garantindo a dominação dos Estados Unidos, com mais de 16% dos votos. Enquanto isso, os países da África Subsaariana, representando 27% de todos os países membros, têm apenas 8% dos votos. A Ajuda Humanitária Internacional? A ONU recomenda consagrar 0,7% do PNB. Em 2007, a média dos países do Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento era de 0,45%, os Estados Unidos chegando com apenas 0,16%, sendo que apenas cinco países ultrapassaram a meta da ONU. A questão da migração exemplifica também a oposição Norte/Sul. Em 2008, o Parlamento Europeu aprovou, por larga maioria, a “Diretiva do Retorno”, relativa à deportação de imigrantes ilegais, lei que entra em vigor em 2010. Essa lei endurece drasticamente as condições de detenção e de expulsão dos migrantes sem documentos, seja qual for o tempo de residência nos países europeus, a situação familiar, ou a situação de trabalho. O presidente da França, bom aluno, comemorou no ano passado o aumento de 80% de expulsados. Enquanto isso, o presidente do Brasil assinou em 2009 uma lei que permite a regularização de estrangeiros que vivem irregularmente no Brasil.

Aparentemente, o Norte não tem memória. Os países ricos esqueceram que exploraram as riquezas dos continentes do Sul para transferi-las para a Europa, com um custo muito alto para os povos. E continua assim. As somas que o Sul reembolsou ao Norte a título da dívida eram sete vezes superiores aos valores que o Norte emprestou em relação à Ajuda Humanitária Internacional. Em 2001, os países pobres reembolsaram 138 bilhões de dólares a mais do que receberam. O Norte organiza a fome dos povos e em paralelo criminaliza os refugiados. Então, não é o Norte que financia e ajuda o Sul, é bem o contrário.
Na verdade, sim, tem memória, porém, como diz Jean Ziegler, membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU, “é uma memória dominadora, impermeável à dúvida”. Michel Debray, filósofo francês, acrescenta que “eles removeram o capacete. Abaixo, a cabeça permanece colonial”. A atual ordem econômica imposta pelas oligarquias do capitalismo financeiro ocidental é o resultado dos sistemas imperialistas de opressão anteriores, notadamente da escravidão e do colonialismo. O capitalismo e a ordem neoliberal mundial prosseguem a pilhagem do Sul pelo Norte.

O Norte não consegue enxergar, e não ouve, o descontentamento do Sul. Não ouve que os povos que foram humilhados e explorados estão mudando de postura e entram em resistência. No fim do ano 2007, na II Cimeira da União Europeia-África, cujo principal objetivo consistia em fazer os países africanos assinar novos tratados comerciais, a África se recusou. O Movimento Não-Alinhado, composto de 118 países, que durante os anos 1990 era ameaçado de extinção e que o Norte prefere pensar obsoleto, está se mobilizando de novo, e as duas últimas conferências, em 2006 e 2009, foram um sucesso. Na busca de um novo equilíbrio multipolar, os acordos Sul/Sul estão se multiplicando. São acordos entre países periféricos que envolvem cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo. Na América Latina, o Banco do Sul, a UNASUL (União de Nações Sul-Americana), e agora o novo bloco regional, são apenas algumas das iniciativas que têm como objetivo mudar a distribuição do poder mundial e romper assim com o imperialismo dos Estados Unidos.

Em suma, trata-se de questionar a hierarquia internacional. A dificuldade é grande, pois, de fato, no Norte tem o Sul, e no Sul tem o Norte. No Rio de Janeiro, por exemplo, a famosa política de choque de ordem inspira-se diretamente nessa fratura, e se caracteriza por seu eurocentrismo e o branqueamento das mentes. Em reposta, indiretamente, no Fórum Social Mundial da Bahia de 2010, o africano Samba Buri Mboup conclamou à descolonização do pensamento e da globalização.



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