Resistir para acreditar (Beatriz Lemos)





Beatriz Lemos

O exercício de rememorar minha estadia como curadora brasileira residente em Batiscafo  me facilitou entender o motivo de meu incômodo ao responder a pergunta dos amigos após o retorno da viagem: “Você foi para Cuba, que maravilha! E aí, como foi?” O incômodo vinha por não saber ao certo a resposta, e apenas concluía ter sido uma experiência intensa.
Foram vinte dias de muito trabalho, com entrevistas e visitas a artistas, curadores e gestores de arte para que eu conseguisse conhecer a cena artística local e entender um pouco da lógica de pensamento que rege esse país. Para poder adentrar os círculos relacionais de Cuba é preciso criar uma nova teoria de realidade. É um lugar onde códigos de conduta te levam muito mais rápido a um destino do que simplesmente possuir dinheiro para um táxi; onde reproduzir tradições significa mais do que questionar posicionamentos; e onde o “ir e vir”, ou o “penso, logo existo” não pertencem aos cidadãos comuns. As adversidades relacionadas a um sistema político que hoje se encontra em visível decadência e no auge de seu absurdo estrutural me comoveram bastante.

Não é possível estar em Cuba e não respirar política. Fala-se e escuta-se política em todos os momentos do dia. Antes de conhecer a ilha pensava que arte política em Cuba poderia ser um grande clichê ou lugar comum; porém, abstrair esse contexto tão peculiar é absolutamente impossível e, ao viver nele, o artista se torna o escape de toda uma sociedade. Em Cuba, a profissão de artista plástico ganha status diferenciado do das demais funções sociais. O trabalho autônomo e a possibilidade de viajar inúmeras vezes ao exterior são regalias concedidas pelo governo. Isso faz com que o artista possa se manifestar sem ameaças diretas e, quando em outro país, sem a pesada censura. Este é um dos motivos para que a arte cubana seja muito mais debatida e estudada fora de Cuba. Exposições e publicações antológicas são realizadas para estrangeiros – no país, somente os projetos que compactuam com diretrizes socialistas. Essa impossibilidade de refletir publicamente sobre passado, presente ou futuro estrangula de maneira brutal o direito universal à liberdade de expressão e engessa qualquer ideologia. Aqui, toda arte é de resistência e fazer arte é fazer política, intrínseca e necessariamente.
Como residentes de Batiscafo, eu e o artista brasileiro Pontogor tivemos o privilégio, entre poucos estrangeiros, de viver na casa de cubanos, aprender as regras relacionais e de conduta e conhecer de perto as limitações nutricionais, materiais, financeiras e intelectuais impostas àquela sociedade. Na lógica institucionalizante local a maioria do que fizemos é ilegal: viver com cubanos, usar moeda local e andar em táxi informal; até a existência de Batiscafo é ilegal. Dentro dessa lógica de ilegalidade, os estrangeiros que visitam Havana a conhecem com os filtros turísticos abertos no país a partir dos anos 1990, onde tudo é vendido em CUC , os edifícios são restaurados, a educação e a saúde são as melhores do mundo e o sistema político em vigor continua sendo um desejo do povo. Havana me pareceu uma cidade repartida em dois mundos que, ao mesmo tempo em que se ignoram, são obrigados a se reconhecerem diariamente. Mundos fictícios, onde personagens literários atuam em cenários de filmes e tudo parece ser de mentirinha.

Entrevistei vinte e seis pessoas, em sua maioria críticos e curadores. Até pouco tempo atrás, a função de curador era uma atividade de pouco prestígio no meio artístico cubano. Como qualquer trabalho não ligado a uma instituição ou, de alguma maneira, não credenciado pelo governo está fora da lei, o curador só existia em centros públicos ou fundações internacionais, e essa prática de maneira autônoma é um fenômeno muito recente dentro da cena cubana. Contudo, muitos curadores sobrevivem por meio de convites diretos de artistas; ou seja, em Cuba, é o artista que paga – de seu próprio bolso – pelo trabalho de um curador e pelo texto crítico de sua mostra. Quando não é dessa maneira, o curador apenas ganha currículo com as exposições de que participa. A única saída quanto a financiamentos e apoios passa pelas fundações internacionais e, em grande medida, quando se trata de projetos realizados fora de Cuba.

A mesma lógica aplica-se à venda de obras. As poucas galerias de arte são estatais e negociam suas representações em moeda local – o Peso Nacional, que é extremamente desvalorizado mesmo dentro do país. O grande fluxo de compra e venda de arte cubana está nos Estados Unidos e o artista é representado sempre no exterior. As instituições que visitei, em sua maioria, são bem equipadas, têm espaços expositivos adequados e diretores e curadores dispostos a novidades. A postura que necessita assumir um diretor à frente dessas instituições é bem delicada: mesmo adepto de práticas contemporâneas em arte, é preciso em alguns casos agir como censor a favor do Estado. Dos espaços alternativos em arte conheci apenas o Aglutinador de Sandra Ceballos, que há 15 anos vem resistindo firme e forte, mesmo vigiado de perto por inspetores da Revolução. Acreditar e trabalhar são sempre ações de resistência.

A Revolução foi uma utopia real, um sonho da população. O embargo imposto pelos Estados Unidos e depois o fim do bloco socialista em 1989 levaram o sistema político de Cuba à total decadência e ao desespero. Algo triste de se saber e ver.  Por outro lado, o privilégio de conviver com jovens artistas e intelectuais esclarecidos e constatar, a partir desse contato, que arte e cultura sempre serão ferramentas para um pensamento crítico e que acreditar nisso é a ideologia possível na contemporaneidade – independentemente de qualquer desejo político – foi fundamental para mim, como profissional e indivíduo. Essa geração jovem – com a qual mais tive contato –, que cresceu durante o período conhecido como especial (anos 1990)  e que se esquiva das dificuldades no acesso às tecnologias da comunicação e ao pensamento livre é a geração que respira por mudanças e que possui as ferramentas necessárias para a construção das próximas utopias de um novo país.

LISTA DE ENTREVISTADOS
Curadores y críticos
Andrés Abreu, Beatriz Gago, Cristina Figueroa, Cristina Vive, Elvia Rosa Castro, Frency Fernández, Magaly Espinosa, Mailyn Machado, Sandra Sosa e Yuneikys Villalonga.
Artistas
Adrián Melis, Ana Olema, Coletivo OVNI, Eduardo Ponjuán, Jesús Hernández-Güero, Levi Orta, Nuria Guells, Pavel Acosta, Raychel Carrión, Reynier leyva, Rodolfo Peraza, Susana P. Delahante.
Gestores de arte
Corina Matamoro – curadora do Museu de Bellas Artes
Ibis Hernández – curadora do Centro de Arte Contemporáneo Wilfredo Lan
Jorge Fernández – diretor do Centro de Arte Contemporáneo Wilfredo Lan
Sachie Hernández – diretora do Centro de Desarrollo de las Artes Visuales
Sandra Ceballo – Fundadora do espaço independente Aglutinador



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