Arte/Estado (Xico Chaves)





Xico Chaves

A uma cultura contemporânea agregadora de múltiplas linguagens e diversidade de expressões deve corresponder uma política de Estado também contemporânea, livre da tradição dos modelos de gestão autoritários e centralizadores. Estamos diante de um momento histórico único onde as sedimentações ideológicas convencionais passam por reformulações conceituais, quanto à forma de abordagem da questão cultural e novas estratégias para implementação de ações. Não é mais possível a elaboração de políticas articuladas sem a participação da sociedade e dos setores produtivos da área cultural. Está cada vez mais evidente que o conhecimento sobre as diversas áreas do fazer cultural e as forças criativas que o potencializam tornam-se mais determinantes que as fórmulas de gestão cultural. Aliar criação e gestão, conhecimento e liderança é a única alternativa para o desenvolvimento de uma política cultural arrojada, correspondente à rica natureza de sua multiplicidade, referenciada na liberdade e na transterritorialidade das expressões que convivem no mesmo território, simultaneamente, portanto.

Lidar com uma concepção de cultura, que incorpore todos os segmentos da sociedade, com todas as contradições necessárias para sua expressão, compreende perceber que esta mesma sociedade deve ser a beneficiária maior e que o produtor cultural, aí incluídos todos os mecanismos de criação e produção – que a mobiliza e a sensibiliza – para tomada de consciência de que a cultura poderá, no Brasil de hoje, constituir um outro ciclo econômico. Agora é ainda o momento de refletir e debater, democraticamente, as idéias e as propostas que a viabilizem. É ainda o momento de correr riscos e perder o medo dos equívocos, naturais aos momentos de grande transformação. Aparelhar as instituições para esta tarefa significa considerar que todos têm o direito de opinar e propor alternativas, descobrir modelos adequados para cada realidade, em um universo de muitas realidades.

Os conceitos sobre arte pública praticados convencionalmente estão em transição, da simples disponibilização para a participação e interação, para o diálogo com o público usuário ou fruidor. Propostas temporárias e efêmeras são cada vez mais exercidas, sem excluir as que conquistaram sua permanência. As idéias e linguagens até há pouco tempo consideradas elitistas ou herméticas, ao serem disponibilizadas estão provando o contrário. Apresentam maior número de interpretações e maior potencial transformador. Assim como a arte popular, as linguagens mais experimentais são compreendidas e absorvidas com facilidade, apresentando múltiplos desdobramentos. Os territórios intermediários entre as formas de manifestação estão se reduzindo para formar um único campo expressivo, sem que cada um perca sua natureza e especificidade. É um fenômeno que sempre ocorreu, mas que agora, diante das novas ferramentas de comunicação, está acontecendo em grande escala. Não se trata de criação de novidades por segundo, mas de abrir a “caixa preta” da memória de infindáveis experiências e realizações que ainda permanecem na história cultural de todo indivíduo e de toda sociedade. Abrir ainda outras caixas e esferas, que estão sendo gestadas e produzidas em inúmeras atitudes e pensamentos. A interpretação antropológica de cultura como propriedade ganha cada vez mais novas contribuições e passamos a identificá-la, de fato, em todos os campos da atividade humana. A civilização contemporânea, se a pudermos classificar assim, compreende um infinito universo de comportamentos autônomos e coletivos, contraditórios, em movimento.

O Estado deve estar preparado para estimular essas manifestações de diferenças, sair de sua tradição centralista, voltada para o controle financeiro necessário, e compreender que trabalhar com a questão cultural exige outro comportamento, mais fluido, em expansão.  Está-se lidando com a liberdade de expressão, com a nossa base existencial e comportamental que, ao fazer parte das forças produtivas, extrapola a análise cartesiana, incorpora os valores simbólicos. Pelo fato de não termos ainda mapeado todos os componentes formadores do nosso imaginário, tarefa impossível, cabe-nos a responsabilidade de, pelo menos, identificar as principais matrizes de nossa formação cultural para nos lançarmos à tarefa de transformar as estruturas de controle e poder. Criar um sistema que realmente corresponda a nossa tradição de livre expressão e ação. As formas convencionais de controle cristalizaram, por muito tempo, conceitos já obsoletos. É possível e urgente seu degelo e seu reaproveitamento em modelos mais dinâmicos e compatíveis com as transformações que estão ocorrendo e com as que ocorrerão, em maior frequência e velocidade. O Estado não pode ficar a reboque das conquistas da própria sociedade, deve desempenhar o papel de liderança. A cultura é seu estandarte simbólico e estratégico. Ele não pode mais segurar o processo revolucionário, deve, ao contrário, ser seu principal catalisador, abrir as portas das novas dimensões do conhecimento e da expressão. O Estado e os governos devem se conscientizar de que os processos culturais não se deixam aprisionar, são ao mesmo tempo tradição e transgressão, atuam dentro e fora dos limites formais, são livres demais para serem dirigidos. Uma política de Estado para a Cultura deve considerar sua autonomia plena. A arte é libertária por origem e tradição, contesta o próprio sistema que a assimila, em seu núcleo e periferia. Renega o autoritarismo e reconfigura os marcos regulatórios; se contradiz e se contrapõe a qualquer sistema absolutista ou legitimista. Obedece aos parâmetros de livre associação e circulação, vinga e cresce em solos de liberdade absoluta. Surpreende as previsões, transita entre o pensamento e a prática, entre o popular e o erudito, o real e o imaginário, o objeto e o não-objeto. Será o Estado capaz de afirmar seu próprio questionamento? Se for realmente democrático, sim.



Comments are closed.




Editorial Universidade Nômade Edição Atual
Trânsitos Maquinações Edições Anteriores
Conexões Globais TV Global Sobre
Dossiê Galeria Contato
Licença Creative Commons
Os textos da Global Brasil estão sob uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Global Brasil é uma publicação da Rede Universidade Nômade
Global Brasil é a edição brasileira associada ao izle
Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.