Da (est)ética, do artista (Wilton Montenegro)





Wilton Montenegro

Nossa história vai por aí, entre erros e acertos ou, para usar uma expressão retirada de uma conversa entre Elisa de Magalhães e Joel Rufino dos Santos, movida por uma ética flutuante.

Durante a Segunda Guerra, o excelente poeta Ezra Pound escolheu ficar ao lado do fascismo e criou um programa na Rádio Roma no qual exortava os norte-americanos a passarem para o lado de Hitler e Mussolini, além de fazer propaganda anti-semita. “Falando democraticamente, ele é um calhorda, mas em termos acadêmicos é um belo exemplo de um americano totalitário”, disse a seu próprio respeito. No ensaio “Pound radiotraidor”, publicado no livro Entreouvidos, Stephen Berg escreve: “Numa ‘brincadeira séria’ Leonard Doob (organizador do volume de transcrições das emissões) chama os discursos de ‘Cantos dos pobres’, já que neles se encontram tantos elementos do magnum opus poundiano. Rejeitamos esta percepção, pois, na verdade, os discursos constituem uma leitura dolorosa e perturbadora”.

Esta última frase detecta um problema, como se a obra não pudesse ser impregnada pelo caráter do artista. Ora, a impregnação é, cada vez mais, parte do fazer artístico. Por mais doloroso que seja.

2010 é um ano de eleição no Brasil, quando se vai votar pela escolha de um novo presidente. Quando artistas assumem posições políticas publicamente é um bom sinal, já que há tempos, poucos são os intelectuais que assumem posturas participativas no processo de transformação pelo qual passa o país. Todavia, não é possível ignorar que alguns artistas estão apoiando candidatos cuja campanha é feita pelo partido representante do pensamento conservador, candidatos que cometeram “deslizes”, mas fizeram “autocrítica” e por isso “estão perdoados”, partido que expulsou um de seus membros porque foi pego em flagrante de corrupção. Mesmo de roupa nova, o DEM continua o mesmo PFL do falecido Antonio Carlos Magalhães e de Bornhausen. Os tempos de hoje são cínicos e de moralismo perigoso.

Em O Estrangeiro de Camus, o protagonista, apesar de matar um árabe, é julgado por não demonstrar emoção com a morte da mãe. Os apoios hoje se revestem de aparência crítica ética, mas, na verdade, são um disfarce moralista, cujo certificado de garantia é dado pela suposta integridade do artista.

Aqui, não se trata da oposição de esquerda massacrada pelo stalinismo na Rússia, após a morte de Lênin; também não é o papel do artista defendido por Walter Benjamin, nem o do intelectual orgânico de Gramsci, ou das divisões propostas por Norberto Bobbio (cf. Antonio Ozaí da Silva):

“1. Há os que consideram que os intelectuais não devem se envolver com a política e devem se restringir à tarefa eminentemente espiritual, isto é, os intelectuais são vistos enquanto guardiões dos princípios e valores universais;
2. Há os que defendem que a tarefa do intelectual é teórica, mas também imediatamente política, pois a ele compete elaborar a síntese das várias ideologias que possibilitam novas orientações políticas;
3. Outros, concordando com a postura acima, imaginam que cabe ao intelectual a função de educar as massas;
4. E, por fim, os que defendem que a tarefa do intelectual também é política, mas a sua política não é a política ordinária dos governantes, mas a da cultura, e é uma política extraordinária adaptada aos tempos de crise”.

Ao invés, cremos que o papel do artista hoje é determinado pela posição que ele ocupa no mercado de trabalho. Sua obra de arte é uma commodity. Suas manifestações públicas revelam o que se esconde, ou, para usar as palavras de Badiou “aquilo do qual não se fala, a não ser para dar forma ao não-dizer no palavreado das condenações (…) estrutura totalmente aquilo de que se fala; pois é necessário preencher as lacunas e deformar todo o encadeamento para que nele possam entrar os significantes desse escamoteamento”.

A postura moralista disseminada pelo mundo intensificou-se desde o fim do século XX, foi reforçada pelo advento da AIDS e pela expansão do conservadorismo muçulmano; obteve fôlego extra no Brasil com o crescimento dos evangélicos e com campanhas tipo “Basta” ou “Fora Sarney”, conduzidas por uma grande parte da classe média incomodada pela corrupção que, de fato, ameaça sua estabilidade, já que põe a nu a sua prática de pagar subornos a guardas, burlar o pagamento de impostos, desvalorizar o trabalho alheio. Na verdade, a divulgação da corrupção incomoda mais do que a própria.
A obra-de-arte-mercadoria transformou boa parte dos criadores. O mercado tornou-se uma vaca sagrada, um intocável. Nesse processo de moralização pelo qual passa o mundo contemporâneo, a preservação da obra vira obsessão para muitos, a tal ponto que alguns têm que se transformar em grife. O artista, ele próprio, metamorfoseia-se em commodity, traveste-se como um cordeiro em silêncio. Seu rugido, aos poucos, é ouvido quase como um balido.

Há algum tempo o crítico Paulo Sérgio Duarte defende a obra de arte como commodity. Os valores alcançados nos leilões, especialmente nos internacionais, corrobora a afirmação dele. Tanto a aura do único, quanto o objeto reproduzido em série, mantêm valores elevados, muitas vezes independentemente da qualidade. Se essa inserção da arte no mercado é verdadeira – e eu acredito nisso – os artistas vivos (e até seus herdeiros ou colecionadores) buscam um maior controle sobre as obras, não permitindo um grande afluxo delas para tentar regular a velha lei da oferta e da procura. O mercado move-se por si só. Resta ao artista, portanto, tentar preservar a integridade do objeto, preservando a própria integridade: ao tornar-se ele mesmo a obra, qualquer ação ou declaração que faça é, ela mesma, parte impregnada nessa obra – junto com todas as suas grandezas e vilezas: obra é percurso.

Mesmo um artista que não venda obra física, para produzi-la ou expô-la tem que ter algum tipo de inserção no mercado e, assim, ser parte integrante desse mercado. A obra de arte não perderá por isso necessariamente o seu potencial crítico e/ou reflexivo, mas continuará impregnada por tudo o que o autor diz ou faz. Ao metamorfosear-se nela, será requerido um duplo exercício: virtuose e virtuoso – habilidade e modo de ser – poiésis e ethos.

Isso não significa que todos devam ser moços bem comportados, mas que têm duplo papel na sociedade: o primeiro é o de ser parte do conjunto e reconhecer-se como um ser comum entre os mortais, fazer parte do general intellect; e o segundo é reconhecer-se como produtor de pensamento capaz de produzir mudanças, pequenas mudanças, que fazem esse conjunto andar mais ou menos rápido, “fazer ressoar o Intelecto em sua condição de vocação” (Paolo Virno aprofunda o assunto no livro Virtuosismo e Revolução).

É preciso misturar-se à multidão e buscar formas novas de agir.



Comments are closed.




Editorial Universidade Nômade Edição Atual
Trânsitos Maquinações Edições Anteriores
Conexões Globais TV Global Sobre
Dossiê Galeria Contato
Licença Creative Commons
Os textos da Global Brasil estão sob uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Global Brasil é uma publicação da Rede Universidade Nômade
Global Brasil é a edição brasileira associada ao izle
Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.