Arquivos de emergência: atravessar a cidade e mediar a captura (Cristina Ribas)





Cristina Ribas

Deslocar-se de um lugar a outro. Encontrar o que não se conhece. Aprender sobre o que não se sabe. Num percurso dentro de uma mesma cidade, muitas cidades são atravessadas, e nos caminhos que poderiam ser empecilhos, os desafios evitados pelo medo reaparecem como atalhos que levam à aprendizagem e ao afeto. Levam ao encontro de verdades desvendáveis principalmente por que prescindem de olhos nus, sem pré-conceito para encontrá-las.  Levam da aproximação primeira à confiança de uma cooperação. E nessa anti-fórmula do encontro, de repente um percebe que foram extravasados os limites dispostos em editais, a cidade se renomeia de outros tantos lugares e se vê mais pelo avesso do que a realidade primeira poderia esconder.

Em mais ou menos seis meses do ano de 2009 desenvolvi um projeto em parceria com o Museu da Maré no Rio de Janeiro. Contemplado no Edital Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura para acontecer no Museu – um dos tantos setecentos Pontos de Cultura que existem no Brasil. O objetivo do Edital era viabilizar o cruzamento de produções poéticas entre artistas e os pontos tomando dois conceitos-chave para propor os cruzamentos: residência e intervenção. Uma enormidade de formatos distintos podem hoje ser observados como resultado dos projetos contemplados, dos quais essa experiência é mais um fragmento. Considerando que a promoção dos encontros possíveis produzia também desencontros, me parece interessante demarcar um debate: de que forma a aproximação com iniciativas não-artísticas tomadas no âmbito de plasticidades e visualidades provoca o atrito entre não só linguagens, mas expressões, lutas e novos encontros sociais, e nos desafiam a mediar uma dita “captura” no campo das artes contemporâneas na atualidade?

Minha “residência” no Museu da Maré aconteceu com a descoberta de um Arquivo. Dona Orosina Vieira, uma das primeiras moradoras do Morro do Timbau, nomeia esse arquivo formado do Projeto Rede Memória do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), organização não-governamental atuante no bairro há treze anos. A iniciativa que estimula a memória a partir de “documentos” coletados ali mesmo, cujos atores responsáveis por agregar a informação são os próprios moradores do bairro: atores das ações, das narrações e das memorações plasmadas nas cartas, escrituras, fotografias, filmes, livros, dissertações, objetos e toda sorte de documentos que temos hoje à disposição para escrever novas e atuais histórias da Maré. A ONG estruturou este projeto de memória que acumulava a experiência de anos anteriores como o projeto TV Maré realizado no final dos anos 80 que registrava narrativas locais da história da Maré; muito diferente dos poderes públicos que se responsabilizam por reter informação histórica e produzir narrativas oficiais dos territórios, povos e culturas. A identidade comum “mareense” é algo ainda em processo na Maré causada pela excessiva segregação, visto que a região da Maré é, junto com o Jacarezinho e o Complexo do Alemão, uma das três regiões mais vitimizadas pela atuação do tráfico e da polícia no Rio de Janeiro.

De minha parte, havia uma urgência de trazer a público um pesquisa em arte no Brasil tomada na forma de um arquivo, o Arquivo de emergência, uma situação de pesquisa para produções artísticas realizadas desde meados de 1998. O objetivo central é criar uma situação discursiva para eventos e estratégias promotores de um debate crítico sobre seu acontecimento, ativando uma esfera pública. O arquivo acontece então como iniciativa também educativa, cujas trocas sobre o acontecimento do artístico é o seu próprio mote. As experiências anteriores de “exposição” deste arquivo haviam me mostrado que mais do que uma exposição, criar uma “situação” poderia ser mais interessante. Neste sentido realizamos tal “laboratório” de arquivos que possibilitou encampar uma experiência operando nas ações constitutivas dos arquivos (o que é e como se forma um arquivo?) e seus usos (a quem interessa e quais são os modos de uso dos arquivos?).

Como experiência deste tal “laboratório” foram desenvolvidas diversas ações pautadas, sobretudo, nas conversas com os agentes do arquivo ADOV: Luiz Antonio de Oliveira, Marli Damascena, Antonio Carlos Pinto Vieira, Marcelo Vieira e Markito Fonseca (estes últimos envolvidos na concepção da cenografia do Museu). As atividades desenhadas contemplaram um Grupo de Pesquisa em Artes (dedicado ao estudo e à investigação de práticas artísticas e criativas e sua relação com a sociedade) e que tinha textos do Arquivo de emergência como base de estudo; atividades desenvolvidas por artistas convidados (Elisa Castro, Guga Ferraz e Tiago Rivaldo); Conversas com Arquivos, realizadas quinzenalmente com artistas e pesquisadores convidando um profissional atuante na Maré (Leon Diniz, Soraia Britto e Francisco Valdean); e a exposição final do projeto, chamada “Arquivos do Presente + Arquivo de emergência”, apresentando materiais documentais e críticos das ações desenvolvidas, e o próprio Arquivo de emergência.

Me interessava intensificar as atividades dirigidas ao público em constituição, de modo que a aproximação com tal “arte” atual existisse como investimento na criação e na descoberta. Repensar a palavra “aprendizagem” se tornou importante, e também aquela noção incessante de pesquisa como investigação de um contexto e da arte como lugar de acontecimento para animar essa atualização. [1] Serviam referências de projetos semelhantes que aliam arte e sociedade, e a busca por um noção equilibrada de respeito à realidade local (ética), acompanhado de festejos inaugurais de uma arte  “política” ou “relacional”. Na observação destes trânsitos de significação e por que não de captura entre a cidade oficial e a cidade em descoberta, percebi que era necessário entender os problemas escusos e ver de que forma colaboram ou não no próprio acontecimento do projeto ou tanto nos cansam ao ter que desviar dos instrumentos que observam o Museu e esse “lugar” como fresco e novo território a ser “ocupado” pela “arte contemporânea” sem propor, contudo, uma análise crítica dos modos de acontecimento dessa cooperação.

Neste sentido relato um pouco do trabalho de intervenção “Quais são as suas respostas?” realizado por Elisa Castro: uma pichação com um número de telefone que dá acesso (quase como código) a uma secretária eletrônica para gravar os recados anônimos deixados. Na Maré as perguntas feitas pelos participantes em faixas de ráfia pintadas à mão foram espalhadas pelas ruas forçando a intervenção direta no espaço, o que não deixou de motivar em várias pessoas a vontade de seguir animando este espaço controlado por formas de violência.
O trabalho de Elisa, assim como as entrevistas que eu realizei com fotógrafos me levam de volta à imaterialidade daquela operação ou laboratório de Arquivos. Na exposição final do projeto expus uma seleção de matérias de jornal coletadas e pesquisadas no Arquivo Dona Orosina Vieira (especialmente acompanhada por Marli Damascena, arquivista) incitando conexões entre as diversas vozes que narram a favela e a pesquisa com fotógrafos – o que resultou em um desenho-diagrama.  A forma de exposição do Arquivo de emergência – cujos documentos ficam totalmente à disposição do público – foram assunto de muitas conversas com os organizadores do ADOV e do Museu. Foi possível, basicamente repensar a forma de exibição do arquivo, instigando uma leitura coletiva, como fizemos em algumas atividades. O projeto trouxe outra pergunta ainda em aberto: considerando que esta é uma consulta pública, como deixar um espaço dialógico para que o participante torne visível/legível para o outro suas concatenações, suas operações de memória, ou um novo elemento como dados arquivísticos?
Passados os meses daquelas intensidades posso dizer que o projeto foi um laboratório de experiências e possibilidades daquilo que se pode produzir entre arte e arquivos, ou seja, entre experiência sensível, memória e história. [2] Ao final do projeto participei de parte da concepção e seleção de material para a exposição “Parágrafo O” que aconteceu no mês seguinte no Museu, sobre constituições no Brasil e direito à moradia. E, voltando a atenção para a natureza dessa cooperação entre pessoas e espaços, faço uma aproximação e uma proposição poéticas entre um arquivo e outro, transformando conceitualmente o próprio ADOV em um Arquivo de emergência, para que se possa pensá-lo não apenas como arquivo que conta a história do passado de uma comunidade, mas que colabora na percepção política da realidade, dando acesso rápido à informação e contribuição nas ações de resistência cuja memória viva não deixe se repetirem atrocidades majoritárias.

Agora possa afirmar que escrever uma história radical nos tempos hoje me parece que está no atravessamento e no exercício das criatividades… Ou seja, me parece que é desmesura do que aquela concatenação primeira entre Ministério da Cultura e Funarte queria provocar: na promoção de um encontro, uma faísca de aprendizagem mútua, uma integração de expressões ou lutas locais com formas de publicização e coletivização da criação, estas últimas mais dadas aos criadores das artes visuais contemporâneas. Aquele receio da “captura”, ou seja, da promoção de um valor de troca que dá velocidade ao produzido não deixa de provocar atrito;  e por isso tive que redigir um email para um dos integrantes do Museu, explicando como e  por que o projeto existe para além da delimitação temporal da exposição, visto que ele segue existindo também neste texto em mais um documento como memória crítica das ações desenvolvidas.

[1] Minha proximidade com a Maré contudo, não acontecia apenas através do Museu diretamente, mas sim com a participação em um centro social ou alternativo que alugamos durante um ano.

[2] Grande parte do material produzido e mobilizado pelo projeto Arquivos do Presente foi doado ao arquivo ADOV e pode ser consultado na Casa de Cultura e Museu da Maré.



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